Black Jack

22 Voltando às Origens


Notas iniciais
Gente, penúltimo capítulo... Vocês estão tristes? Eu estou :'(

“Um ano depois”

Calos nas mãos... Rony não os tinha desde os quinze anos de idade, quando fornecia bicos de carpintaria para ajudar em casa. Dores nas costas e fadiga de um dia todo de trabalho, também não.

Ser um homem normal numa cidade pequena era trabalhar muitas horas e desejar fervorosamente encostar a cabeça no travesseiro ao fim do dia. Uma boa aguardente fazia parte do ritual, mas ele vinha dispensando os excessos. Gostava de ter a mente fresca para meditar e refletir sobre sua vida.

Sair de Rocky Deep fora mais do que uma decisão, fora uma purificação. Precisava de um local onde o conhecessem vagamente pela fama e não pelo rosto, assim podia mudar de nome e passar despercebido.

Toda noite ele voltava para a pensão onde se instalara, trocava meia dúzia de conversa fiada com o gerente, subia para o quarto e dormia sem interrupções até o dia seguinte. Sua mente permanecia silenciosa e tranquila como ele nunca imaginou que ficaria depois dos acontecimentos passados, depois do que fora o rastro de toda sua existência.

Meses e meses se passaram e Ronald Weasley não encostou mais em uma arma. Seu braço atingido pelo disparo ainda tremia um pouco, mas na carpintaria isso não era um problema se você ficasse longe dos martelos. No seu décimo segundo mês longe de tudo, uma ideia começou a infiltra-lo.

Entrou na pensão “Donatos” como de costume. Sentou-se à beira do balcão, num banco que já poderia chamar de seu, e fez sinal para o gerente.

O gerente era um homem anão. Tinha de subir nos banquinhos para atender os clientes e todo o serviço de bar tornava-se um esforço extra do que seria simples para alguém de estatura normal. Flitwick era seu nome e ser “meio homem” parecia apenas um detalhe em sua vida.

— O que vai ser hoje, filho? — perguntou quando subiu no banquinho e ficou pareado a Rony.

— Uma dose de uísque. Apenas uma, por favor.

— Claro. — Flitwick preparou a bebida e depositou-a diante dele.

A porta da pensão se abriu e o ruivo reparou Romilda Vane adentrar. A mulher sabia de sua beleza e fazia questão de desfilar com ela pela pensão da cidade. Todo vilarejo tinha um tipo deste. Não procurava o casamento e quase sempre era a filha mais nova de alguém importante economicamente para o local. No caso de Romilda, a caçula do fornecedor de carne para a região Malwer.

Assim que entrou, a morena encontrou-o no olhar. Ronald ainda tentou disfarçar, mas ali estava uma criatura insistente.

— Olá forasteiro. — sorriu, sentando no banco ao lado.

— Seu pai não fica enciumado quando você entra num lugar cheio de homens?

— Meu pai? — ela fingiu refletir sobre o questionamento — Ele não está na cidade hoje, nem amanhã, nem semana que vem...

— Humrum... — mostrou seu desinteresse na conversa. Revirou a bebida no copo.

— Eu estava pensando comigo, o quão solitário você é... Greg. Um mistério, sabe? De onde veio... Quanto tempo pretende ficar... Se deixou esposa e filhos para trás. E que talvez esse nem seja o seu nome. — deu um risinho conspiratório.

— Quanta perspicácia. — zombou, cansado.

— Não preciso dessas respostas, mas sei o que quer, vejo nos seus olhos. Esquecer tudo de seu passado. — Romilda parecia séria — Eu posso ajudar. — lhe massageou a coxa.

Rony removeu delicadamente a mão dela do seu corpo.

— Não quero esquecer nada, Romilda. Obrigado.

— Sofrer desse jeito não combina com um homem feito você. — respondeu-lhe ríspida.

— Vou lembrar de seus conselhos. — zombou.

Romilda levantou-se e saiu com os calcanhares duros. Seu corpo voluptuoso desapareceu por de trás da porta de vai e vem.

— Ela está obstinada, rapaz. — comentou Flitwick.

— Vou acabar com a obstinação dela essa semana. — riu Rony.

— Como assim?

— Esse gole é para agradecer a hospedagem do senhor. — ergueu o restante da aguardente no copo em um gesto de saudação — E pode me ver a conta total depois disso.

— Oh... Você vai embora, então?

— Sim. A construção das casas da Rua Nove já está concluída. Meu serviço por aqui terminou.

— Mas mês que vem o governo vai aprovar as construções do outro lado do vale...

— Obrigado, mas estou mesmo de partida.

— Seja o que quer que tenha vindo fazer aqui, Greg, espero que tenha encontrado. Gosto de você. Me paga em dia, parece honesto e está sempre pensativo. Se achar que estou sendo muito intrometido não responda, mas se não, me diga... É mulher ou família?

— Os dois. — suspirou o ruivo.

— As coisas vão se resolver quando voltar. Aguarde e confie. — Flitwick serviu-se de um pouco de uísque e saudou com o ex-mercenário.

...

Um belo astro poente derramou-se sobre Rocky Deep. Junto dele estava Ronald Weasley, um homem de cabelos ruivos, alma orgulhosa e muitos conflitos emocionais pendentes. Entrou na cidade sem preâmbulos e hesitações. Teve receio do que poderia encontrar em sua decisão, mas era um homem e deveria enfrentar o que viesse.

Preferiu, enquanto seguia ao destino almejado dentro da cidade, tomar o caminho mais distante do Saloom Black. Tinha escutado boatos sobre sua nova direção estar aos cuidados da meretriz Lilá Brown, mas a dolorosa lembrança de Narcisa Black o fazia querer afastar-se o quanto antes dali.

Enfim, chegou ao prédio decrépito. Subiu as escadas em dois lances de cada vez, o coração descompassado. Então se viu frente a frente para sua decisão, só precisa bater à porta para mergulhar nela. Tirou o chapéu antes de dar dois toques suaves contra a madeira.

Um senhor alto com um tufo de ralos cabelos avermelhados no alto da cabeça, surgiu.

— Oi pai. — cumprimentou Rony num tom nervoso.

— Ronald. — Arthur focou-o de olhos brilhantes.

— Vim visitar o senhor. — por um instante seu velho pai não disse nada, o que o deixou ainda mais aflito — E então... Tudo bem?

Respiração profunda. Apreensão.

O pai poderia agir como bem queria, tinha o direito depois de tantos desaforos que ouvira da boca dele. Rony esperou com o olhar vidrado qualquer reação. De repente viu-se agarrado pelo corpo ossudo do velho Weasley e retribuindo um longe e forte abraço. Fazia anos que eles não se viam.

***

O cortiço era até que ajeitado para os rústicos padrões exteriores. Arthur não possuía muita mobília, o que tornava o local mais espaçoso. Na sala, um sofá remendado e um tapete empoeirado tentavam convidar as visitas. Rony sentou-se numa poltrona em relativo bom estado e esperou enquanto seu pai lhe servia um copo de água. O dia começara quente.

— Como estão indo as coisas, pai? — esperou o velho sentar e sorrir-lhe. Seu rosto estava radiante.

— Normal. Coisas de velho. Nada de mais para fazer, ainda mais nessa cidade grande e perigosa. E você?

— Eu? — foi pego desprevenido na pergunta — Vou indo bem. Tá tudo certo.

— O que anda fazendo? — Rony girou o copo na mão.

— Estou fazendo uns bicos por aí. Carpintaria, sabe? Vim ver se tem algum serviço em Rocky Deep. — mentiu.

— Que ótima notícia você está me dando, filho. — Arthur abriu um sorriso de orelha a orelha.

— É... Tá legal até. Você começa a empilhar meia dúzia de madeiras e quando vê, a mágica se fez: temos uma casa novinha em folha!

Arthur estudou o rosto desnorteado do seu filho mais novo.

— Deve ser uma mudança e tanto na vida.

— É... O senhor estava certo — começou a gaguejar — Eu... Aquele lance de ser mercenário não estava me rendendo muito mesmo.

— Sempre disse que merecia coisa melhor. Não digo a carpintaria, mas você tem inteligência e vivacidade, Ron. Logo a coisa certa para um homem do seu porte aparecerá.

— Vamos fazer figa! — brincou um pouco sem jeito.

O velho Weasley não resistiu e foi abraçar novamente seu garoto.

Passaram a manhã toda conversando sobre boas recordações do passado e da nova vida de Rony. Arthur lhe deixou a par das novidades da cidade, incluindo a criminalidade de Madame Black no caso Arnie Austin. Mas logo os assuntos pesados foram varridos para debaixo do tapete e as amenidades voltaram a rodear os assuntos.

— Achei que a Sra. Granger estava morando com o senhor. — comentou Rony numa certa altura do almoço dos dois.

— E ela estava. Há uns dois meses, entretanto, a filha chamou-a para morar com ela. Estava feliz! Radiante!

— Hermione é?

— Sim, Hermione. — Arthur pareceu um pouco sem jeito. Embora não houvesse tocado no assunto, ficara sabendo da excursão suicida entre o filho e a ex-namorada. — Parece que ela reconstruiu seu antigo rancho lá em Ken West e quer a mãe ao lado. Está certa.

— Claro.

Ele desviou o assunto da ligeira melancolia que o filho pareceu demonstrar.

— Eu também fui convidado.

— Como?

— Não para morar com elas. — riu Arthur. — Fui convidado por Gina para morar com ela, Harry e meus netos.

— Isso é fantástico!

— Pois é. — o velho estava feliz da vida — Só estou procurando alguém para fazer o transporte dos meus pertences e partirei logo. Quase você não me pega aqui, filho.

— Como eles estão?

— Harry e Gina?! Fabulosamente bem. Parece que houve uma faxina, uma intensa mudança nos administradores daquela cidade. Harry agora faz parte do conselho de Ken West e o hotel está a todo vapor depois que Hermione lhes presenteou com aquela reforma.

— Reforma?

— Oh, desculpe filho. Às vezes esqueço que você anda bem por fora. Hermione ganhou uma ótima recompensa por ter pegado o tal Arnie Austin que não era Arnie Austin. — isso lhe mostrava que o pai não estava tão por dentro assim das aventuras suicidas de Rony e Hermione. — Bom, essa parte sei que conhece. Sei que o governo pagou-a generosamente. Uma parte ela investiu no rancho, outra ajudou sua irmã e Harry.

— Só Hermione mesmo! — Rony viu-se com um sorriso bobo pregado nos lábios.

— Bem, sua irmã não para de mandar cartas perguntando quando vou conseguir chegar... Filho, você pode me ajudar a encontrar um bom carroceiro para minha viagem de mudança?

— Posso fazer melhor, pai. Venho economizando bastante. Vou comprar uma carroça e leva-lo para lá.

— Ken West? — Arthur arregalou os olhos, surpreso.

— Isso! Estou louco de saudades da Gina e quero conhecer meus sobrinhos. Quanto a Harry... Deus! Tenho muita conversa para por em dia!

A cidade de Ken West era uma novidade para Rony. Nunca havia pisado em tal lugar antes, mesmo já tendo tido ofertas de trabalho como mercenário por lá, e os motivos eram óbvios. No coração, o rancor por saber que ali, ainda que nas imediações, residia Hermione e seu marido que, para ele, sempre fora uma afronta. Neste outro passado do ex-caçador de recompensas, a revolta e o orgulho imperavam em sua personalidade. No novo Ronald Weasley, os caminhos eram leves, cheios de bifurcações animadas e alegres.

As construções, muito menores que em Rocky Deep, começaram a surgir para ele e para o pai. Sentado no local do condutor, ficou quieto ouvindo Arthur comentar sobre a cidade e um pouco de sua história. Diferente dele, Arthur já havia visitado a filha umas quatro vezes e estava bem mais familiarizado com as ruelas e o comércio que pouco se transmutava.

Um poderoso edifício emadeirado apareceu numa das ruas, talvez o maior que Rony vira até aquele momento. O pai ficou um tempo mudo, levemente chocado, enquanto eles avançavam lentamente.

— Pai, eu estou lendo direito ou ali está escrito Hotel Potter?

— Nã... não, filho. É isso... isso mesmo. — respondeu pasmo.

Estavam diante de uma construção digna de algumas centenas de dólares. Rony estacionou a carroça numa área própria para o veículo, coberta e com um bebedouro corrente movido por moinho para os cavalos. Estava calor e a água lhe parecia tão convidativa que ficou tentado a partilhar do líquido com os animais. Ficou apenas na vontade.

Ajudou o pai a descer do veículo e sentiu o estômago embolar de ansiedade. Vinha se sentindo um calouro nos assuntos familiares, o que o estava irritando um pouco. De repente, a porta da frente se escancarou e duas crianças pularam os degraus velozes em direção aos dois. Rony cadenciou levemente de emoção ao vê-los.

— Vovô! Vovô! — gritava o mais novo com sardas evidentes no rosto, apesar dos cabelos densamente negros.

— Ei, garotão! — exclamou Arthur, abraçando-o.

— Oi, vovô! — saudou o mais alto de cabelos castanhos claro.

Espantado com a beleza e vivacidade de seus sobrinhos, Rony parou abobado para observa-los. Logo percebeu os curiosos olhos a lhe fitarem.

— Quem é esse? — perguntou o mais novinho.

— Quem vocês acham que é? — Arthur lançou a xarada.

Para facilitar para os sobrinhos, o ruivo tirou o chapéu e deixou os fios vermelhos à vista. Sorriu timidamente, mas preferia não dizer nada por enquanto.

— Nossa! Parece a mamãe! — continuou o menor, encantado. — Ele tem sardas como nós, James! — exclamou encantado e eufórico. Arthur e Ron riram.

— Ele é nosso tio... O tio Ronald? — arriscou o mais velho depois de analisa-lo longamente.

— Isso mesmo. — concordou o Sr. Weasley.

— Ele é nosso tio? Desse tamanho? — Alvo pareceu chocado com tal revelação. — UAU!!!

— Vão lá abraça-lo seus pestinhas! — incentivou Arthur.

James, o mais velho, aproximou-se meio tímido. Já Alvo correu como se estivesse diante de um parente distante, porém bem conhecido. Ron esperou-os de braços abertos e teve a precaução de abraça-los com ardor e muito amor quando, enfim, teve os dois sobrinhos nos braços.

Os filhos da sua irmãzinha! Teve de conter-se para não chorar. Ultimamente vinha se sentindo meio “manteiga derretida”.

— Pai... Mal chega e já chama os garotos de pestes? — inquiriu uma voz se fingindo de brava, vindo da mesma porta principal que os garotos saltitaram elétricos.

O foco de visão de Gina saltou do velho e amado pai para um homem que abraçava seus filhos com carinho. O choque foi tão violento que ela brecou abruptamente, empalideceu e soltou um gritinho histérico de emoção.

— ROOON!!!

Rony ergueu o rosto e também teve um impacto parecido. Cinquenta mil lembranças planaram sua mente a milhas por hora e ele sentiu-se num limiar estranho entre a realidade e a total ausência dela.

Gina pulou os degraus de um jeito mais afobado que os filhos e foi parar nos braços do irmão mais querido em um segundo. No instante seguinte os caçulas Weasley estavam engalfinhados num momento supremo de abraços, beijos e choradeira.

Quando conseguiram saciar a saudade do toque, Gina, com os olhos lavados de lágrimas, segurou a cabeça do irmão e questionou-o.

— Onde você foi parar seu maluco irresponsável? Quem você pensa que é para sumir por anos? Seu babaca, cabeça dura!

— Estava morto de saudades desse seu amor também, maninha. — pleiteou rindo e enxugando o rosto.

— Eles estão brigando, vovô? — Alvo parecia confuso. Xingamentos, beijos e choro, tudo ao mesmo tempo, era demais para o pequeno assimilar.

— Não. — respondeu James — Eles estão felizes por se reverem. Diferentes de mim quando ficar longe dessa sua lerdeza, Alvo.

— Ei, James, pare já! — exclamou Gina não se esquecendo de ser mãe. — Pai, como, em nome de Deus, você conseguiu arrasta-lo para cá? O mundo acabou? Eu morri e ainda não percebi?

— Eu não tive de mexer uma palha. — confessou Arthur.

Ela voltou-se para o irmão.

— Como assim? O que está acontecendo aqui? Ainda não tô conseguindo assimilar direito.

— Quer que eu vá embora? — brincou ele, fingindo voltar para a carroça. Ela puxou-o pelo braço.

— De jeito nenhum! Agora que Ronald Weasley demorou quinze anos para aparecer na minha casa e conhecer meus filhos não vai sair até que explique timtim por timtim cada dia, cada mês e cada ano sem vir aqui para me encher.

— Você tá em maus lençóis então, porque tenho muita, muita história, sua cabeça de vento.

— Cabeça dura! — ela rebateu como se ainda tivessem quinze e quatorze anos. Os garotos riram. Arthur também. Por fim, Gina e Rony.

— Sério, estava morrendo de saudades, maninha. Você tá linda demais. — lhe acariciou o ombro.

— Quem diria que você também fosse se transformar num cara boa pinta. — recomeçou a chorar — Te amo...

— Eu também te amo. — arrastou a irmã para mais um abraço.

— Cabeça dura...

— Cabeça de vento...

Trocaram suaves farpas entre soluços.

Entraram nas pontas dos pés no hotel. Ron carregando a maioria das malas do pai, James o ajudando e Alvo fingindo ser eficiente com uma malinha menor. Uma olhada na arrojada decoração do hall fez o queixo do ruivo cair: os móveis eram de primeira, o estofado brilhando de novo e a decoração de muito bom gosto. Poucas vezes na vida ele vira um local tão sofisticado.

— Lindo, não é? — comentou James ao ver o tio e o avô boquiabertos — Tia Mione que ajudou.

— Ei! Parem de conversar senão o Harry vai desconfiar! — exigiu Gina aos sussurros.

Fora ideia dela chegar sorrateiramente até onde ele estava e fazer-lhe uma surpresa daquelas. Descarregaram a bagagem no tapete em frente à recepção e viram um funcionário do hotel chegando. A ruiva disse-lhe em baixo tom de voz que deixasse toda a bagagem do seu pai e a pequena trouxa de roupas do irmão na saleta da casa dos Potter, nos fundos do hotel.

— Agora vocês estão com funcionários? — Arthur disse abismado.

— Como Harry e eu daríamos conta de dezoito hóspedes? — respondeu ela.

— Dezoito? — o Sr. Weasley usou um tom de voz mais elevado.

— Shhhhh!!! — repreendeu Gina — Eu disse que as coisas andavam de vento em polpa. Agora parem com o barulho.

— Afinal onde está o Harry? — Rony quis saber.

— Na cozinha. Ele mesmo gosta de preparar o assado para os hóspedes. Coisas do Harry!

— E a pequenina? — questionou o Sr. Weasley.

— Pequenina? Não são apenas os meninos? — interrompeu o ruivo.

— Não. Tem a Lily.

— Eu tenho mais uma sobrinha? — perguntou encantado com tal ideia.

— Lily é sua sobrinha mais nova. Ainda tem muito que aprender sobre a própria família. — cutucou a irmã.

Ele ficou tentado a responder-lhe, mas no fim das contas, ela estava completamente certa. Fora negligente por anos com todos eles, e agora precisava recuperar todo o tempo perdido.

Contornaram a balcão, passaram por um corredor extenso e chegaram numa área ampla onde um delicioso cheiro de comida fresca sendo preparada impregnou seus narizes.

Alvo ficou reclamando que sentia fome, apesar de terem acabado de tomar café, e Gina o mandou ficar quieto para não estragar a surpresa ao longo do caminho.

A cozinha era deslumbrante. Muito mais cheia de aparatos profissionais do que o Saloom Black e, com certeza, bem mais limpa.

Três fogões á lenha funcionavam na extremidade direita. Panelaços de barro eram manipulados por mulheres de braços robustos. Duas mais magras cortavam os vegetais numa extensa bancada de pedra e forneciam temperos para as cozinheiras principais. Ao todo, formavam uma equipe de cinco mulheres e um homem.

Magro e de marcantes cabelos negros, Harry era o cicerone no local. Apitava ordens sem desviar os olhos do seu serviço, sempre usando de educação e gentileza para com suas empregadas.

Rony encostou-se ao umbral para observa-lo. A família Potter e seu pai também. Estavam todos esperando o momento em que ele ia se desconcentrar do preparo das carnes e erguer a cabeça para a plateia. Entretanto, Alvo foi o responsável por isso.

— Que calor! Vocês vão ficar aí parados? — disse, abanando-se.

James tencionou lhe dar um cascudo, mas Gina separou-os de imediato. Harry ergueu a cabeça e teve seus olhos automaticamente atraídos pela cabeleira ruivo do antigo amigo.

— Meu. Deus. Do. Céu... — ficou pálido, como a esposa ficara. Em seguida deixou a faca cair para o lado.

Os funcionários repararam na movimentação assustados e Gina fez um sinal com as mãos de que estava tudo bem e prosseguissem nos afazeres.

— Eu tô achando que morri e virei fantasma. Vocês não param de ficar pálidos quando olham para mim.

Harry enxugou as mãos. Estavam um pouco trêmulas pelo susto.

— Isso é verdade? — olhou para esposa e o sogro.

— É nosso tio, pai. Nosso tio, Ronald! — interpelou Alvo saltitante.

— Ele sabe quem é, cabeça oca! Nunca ouviu as histórias antigas do papai sobre a amizade deles dois? — James revirou os olhos.

Harry abandonou o avental e contornou a bancada. Lentamente diminui a distância entre ele e o amigo de tempos passados. Se fitaram mutuamente, telepaticamente compartilhando momentos vividos há décadas, deixando toda aquela amizade gostosa usufruída infundi-los para trazer a certeza do quão especial era o reencontro de duas almas que decidiram se unir por um carinho mais forte do que muitos irmãos.

Rony estava um pouco encabulado, envergonhado na verdade, e quebrou a cena estendendo a mão para Harry. Gina parecia prender a respiração ao lado dos dois. Alvo falava feito uma matraca diversas sandices ao mesmo tempo.

— Por que está me estendendo a mão? Cadê sua educação? Quando cumprimentar um amigo de longa data, tenha a decência de abraça-lo! — exigiu Harry Potter.

Logo os dois homens, amadurecidos em cantos diferentes do Oeste, estavam envolvidos num caloroso e fraterno abraço. Velhas amizades não terminavam jamais

De barriga cheia e a fadiga de um dia quente, os Weasley e os Potter estavam esparramados nos sofás e poltronas da sala de estar reservada da família. Na casa a mobília permanecia a mesma, apenas com alguns retoques de bom gosto em quadros e vasos de flores novos. Entretanto, era questão de tempo até que os lucros aumentassem mais e eles pudessem se desfazer de todos os acessórios antigos. Do dinheiro que Hermione lhes oferecera, a reforma no hotel viera em primeiríssimo lugar.

Gina e Harry dividiam um sofá. Arthur pegara uma confortável poltrona para si. Os netos, James e Alvo estavam inquietos rondando pelo cômodo e enchendo o novo tio de perguntas.

— Mãe, e nossos outros tios?

— Alvo, eu já lhe disse. Todo mundo é ocupado e mora longe.

— Mas o tio Jorge e o tio Fred nem tanto... — James fez uma careta.

— Não é porque eles são donos de um circo retirante que não tem trabalho. — brincou Harry.

— E o Carlinhos, pai? Por onde ele anda? — Rony perguntou curioso.

Arthur ficou um tempo refletindo sobre o que o filho havia dito na última carta que lhe mandara.

— Ele está... Deixa ver se lembro...

— Em Vancouver. — Gina adiantou-se. — Ele também me escreve.

— Isso! Anda caçando ursos por lá. Dizem que a pele vale muito.

— Ursos? — Rony teve uma dolorosa lembrança onde Draco Malfoy era participante ativo. — Que maluco! — Harry concordou com um aceno de cabeça.

— Já Gui casou-se mesmo com aquela garota europeia, a... — tentou recordar o nome da nora.

— Fleur Delacour. — ajudou a filha.

— É, essa mesmo. Agora estão na capital, numa casa ajeitada até.

— A tal tem dinheiro. — Gina fez careta.

— E qual o problema em ter dinheiro? Nós também temos. — Harry deu de ombros só para provocá-la. A esposa fingiu não escuta-lo.

— Percy trabalha para o governo. — continuou o patriarca. — Algo burocrático. Faz tempo que não o vejo também.

— Ele é quase tão desnaturado quanto você. — a ruiva apontou para o irmão. Ele tencionou revidar, mas foi interrompido. — Olhe, ela dormiu. — sorriram Gina e Harry apontando para o colo de Rony.

Nele, Lily repousava profundamente. O rostinho corado, os cabelos vermelhos como os Weasley e muitas sardas espalhadas pela pele sedosa feito pêssego. Passara a tarde toda alugando o novo tio.

De início ficou tímida, mas Rony não demorou a conquista-la com cócegas, caretas e brincadeiras inusitadas. Ao cair do sol, pareciam grandes amigos de longa data, e a pequena não lhe desgrudava o pé. Agora dormia parcialmente abraçada a sua cintura.

— Vou levar ela para a cama.

— Ah, não... — pediu o ruivo choroso.

— Amanhã tem mais, titio. — barganhou a irmã pegando a filha suavemente dos braços dele para não acorda-la. — E vocês, me sigam. Cama já!

James e Alvo reviravam os olhos reclamando atrás da mãe. Era a primeira vez no dia em que concordavam inteiramente com algo.

— Eu vou aproveitar o bonde! — exclamou Arthur espreguiçando e levantando-se da cadeira. — Estou velho demais para acompanhar os jovens na madrugada. Boa noite, rapazes!

Harry espiou o relógio em cima do aparador. Não era nem nove horas ainda. Todos saíram da sala, só sobrando os amigos.

— Como você pôde fazer coisinhas tão adoráveis hein, Potter? E aquela menininha... Parece feita de porcelana!

— Fique uma semana aqui e começará a mudar de ideia em alguns aspectos. — comentou, lembrando o quão levado seu trio de filhos poderia ser.

Harry levantou e foi até seu pequeno bar, atrás do sofá. Serviu-se de um gole de conhaque e perguntou ao amigo se aceitava o mesmo. Rony preferiu uísque, mas apenas um pouco.

— Não sabia que apreciava bebida?

— Eu sou um homem de negócios agora. — brincou, embora fosse verdade. — Duas vezes por semana tenho que comparecer à prefeitura para reuniões do conselho do qual faço parte. Sempre tem petiscos e um pouco de bebida. Imagina que respeito eu teria se não bebericasse um pouco.

— Isso é verdade. Que tipo de politicagem exerce por lá?

— A cidade está sob reforma agora. Foi aprovada a construção de dezenas de casas e comércios, além da chegada de uma grande estação ferroviária. Em breve, aqui crescerá muito e como eu reformei meu hotel e eles sabem que a minha “verba” aumentou, trataram logo de me puxar o saco. Planejamento de melhores locais para as construções, urbanismo, essas coisas. Você sabe como é! — Rony assentiu — Eu aproveitei. Sua irmã e eu já engolimos muito sapo dessa gente. Não é porque Ken West é relativamente pequena que está livre dos pilantras. Agora é a nossa vez de usufruir de uma condição melhor.

— Eu fico extremamente feliz com isso, de verdade. Papai me contou meio por cima o sufoco que andavam passando. Quase chegaram a falir...

— Seu pai não sabe nem metade dos nossos problemas. — Harry tomou um gole do conhaque e sentou-se de frente para o amigo — Mas isso nem importa mais. Os problemas se dissiparam como lágrimas na chuva* e eu devo isso imensamente a você também! — apontou para o ruivo.

— A mim? — surpreendeu-se.

— Não fique chocado, Ron. É tão difícil juntar dois mais dois? Eu sei que sabe que a Mione nos deu um pouco do dinheiro da recompensa pela captura de Arnie Austin.

Rony ficou ligeiramente calado.

— Enfim, tudo isso só foi possível por causa de vocês dois.

— Ok. — espocou um leve sorriso de quem não quer se enveredar por esse assunto.

— Ron, vamos falar sério. Eu acho que tenho o direito de saber... O que houve contigo esses anos todos? Por que não veio nos visitar quando as portas estavam sempre abertas para você? Não conseguia entender ou imaginar em que lugar desse país estava ou porque se isolava, principalmente quando vinha o dia do seu aniversário e Gina passava o dia inteiro calada. Nós sentimos o baque, sua irmã sentiu!

— Como podia arriscar a vida das pessoas que amava sendo um caçador de recompensas? — rebateu Rony, entristecido.

— Eu só queria...

— Harry, meu amigo. Não vim aqui para falar do passado. As coisas que fiz não voltarão mais, entretanto, quero remediar o futuro e tentar construir algo melhor. Por isso vim, por isso estou aqui. Pela saudade e pela lembrança do quanto amava cada um de vocês, desde o meu pai até os sobrinhos que não conhecia. Aceite apenas isso como argumento para todas as perguntas sobre minha vida anterior, que sei que tem.

Harry anuiu. O amigo estava certo, passado era passado.

— Só me responda uma coisa? O trabalho de mercenário...

— Eu saí do negócio. E além do mais, estou inutilizado. — tirou a camiseta e mostrou uma cicatriz circular no ombro — Levei esse tiro há um ano. Desde então, adeus o gatilho mais rápido e preciso do Oeste.

— É... Acho que tem males que vem para o bem. — se satisfez Potter.

Gina surgiu na sala novamente. Meia hora havia se passado desde que saiu até conseguir ajeitar todos os filhos na cama. Mostrava-se eufórica e ansiosa. Deu uma bundada em Harry mandando-lhe dar lugar no sofá. Então olhou do irmão para o marido e perguntou:

— E aí? Já falou para ele da Mione?

— Não. — respondeu o marido.

— Ótimo, então eu falo. — sorriu fazendo mistério.

— Isso não é motivo de felicidade plena, Gina. — Harry pareceu um pouco indignado.

— Ah, tá bom... Nós já o velamos há muito tempo e já passamos do período do luto. Agora posso me animar novamente? — retrucou carrancuda.

— Parem vocês dois e digam logo! — Rony ficou impaciente assim que o nome de Hermione entrou na roda de conversa.

— A Mione tá ricaça, você precisa de ver!

— Ah, sim... Fico extremamente feliz em saber que ela está bem. — olhou para o copo, desconcertado. De algum modo esperava ouvir outras novas.

— Essa parte você já sabe, eu sei. — a irmã deu de ombros — Ela reformou o rancho que vivia e trouxe dezenas de cabeças de gado. Agora está com uma produção absurda de leite. Mas não é isso que quero dizer...

— O que ela quer dizer é que a Mione está viúva! — exclamou Harry, impaciente pelos rodeios da ruiva.

— Harry! — Gina lhe deu uma tapa por não ser a porta-voz oficial.

A notícia causou um pequeno terremoto dentro de Rony. Ele ficou completamente atônito.

— Então o Vitor não resistiu? — tentou disfarçar uma alegria constante crescendo nele.

— Aos tiros sim, mas ele contraiu tuberculose no processo e veio a falecer. — continuou a irmã.

— Hermione deve ter ficado arrasada. — preocupou-se de verdade.

— No início sim, mas como ela já vinha se preparando para a morte dele desde o dia em que fora baleado, as coisas foram mais suportáveis.

— Espere aí, não pense que somos carniceiros. Vitor era um cara muito bacana apesar do que houve entre vocês... três. — interpelou Harry para diminuir um pouco a imagem de carniceira que a mulher estava passando. — Ele tratou da Mione muito bem durante esses anos.

— Eu tenho certeza disso. — concordou Rony, mesmo que a contra gosto.

— Tá, Harry... tá... Nós gostávamos do Vitor. — concordou Gina, revirando os olhos. — Bom, o fato é que a Mione está sozinha. Não é uma notícia, no mínimo, curiosa?

Cambalhotas de esperança saltitavam na mente e no coração do ruivo. Por fora ele assumiu uma casca mais sóbria e reservada. Não queria ter ilusões e muito menos sabia se a Hermione que deixara há um ano era a mesma de agora.

— Certamente ela saberá contornar a situação magistralmente.

— Faz um ano que isso ocorreu. Ela já superou tudo o que tinha para superar.

Ginevra Potter ficou encarando o irmão na certeza de algum gesto de triunfo que não veio. Pelo contrário. Rony sentiu uma urgente necessidade da solidão. Aquela certeza que o incitara durante todos os meses vinha feito um cargueiro desgovernado de encontro com seu novo modelo de vida, o de viver um dia de cada vez.

— Acho que preciso de ar. Vou dar uma volta na cidade. Boa noite, gente. — Levantou-se e deixou a irmã e o amigo aturdidos.

— O que deu nele? — disse ela horrorizada por sua reação.

— Você não lhe deu uma notícia, Gina. Você o atropelou com um trem de mil toneladas. — resmungou Harry.