Black Jack
23 As Voltas do Destino
Notas iniciais
Rony não conheceu a cidade antes das reformas, mas o que viu enquanto caminhava a esmo pelas ruelas o agradou. Jardinzinhos coloniais, sobrados com varandas e tudo feito com madeira de boa qualidade.
O comércio fechava cedo, os bares eram reservados e a jogatina não parecia ser muito estimulada. As pessoas eram amigáveis, nada daqueles rostos sinistros de Rocky Deep, e quase todas lhe cumprimentavam. Ali estava um bom lugar para o pai viver o resto da velhice e os sobrinhos crescerem. Lá estava um bom lugar para Harry prosperar nos negócios junto de sua irmã.
Gina! Que fixação fora aquela em lhe contar sobre Hermione? Agora, ele ia pensar e delirar com possibilidades remotas devido a uma bombástica menção de seu estado civil.
Não houve um dia naquele um ano que Rony não idealizou receber ou descobrir tal notícia. Começou a latejar sobre essa especulação desde o minuto que se desligou da morena, doze meses antes, mas lacrou num jazigo reforçado a vontade de verificar a verdade. Usou o tempo para trabalhar e pensar na família, porém, volta e meia, o sonho de tê-la de novo brotava-lhe a ideia como uma boia impossível de afundar.
Voltou para o hotel Potter muito tarde. Passava da uma da manhã. Assim que subiu as escadas para a porta principal, Harry abriu-lhe o acesso.
— Estava ficando com sono já. — disse, bocejando e trancando-a novamente quando Rony entrou.
— Oh... Desculpe. Esqueci que a porta tinha de ser trancada.
— Não por isso. É que a Gina me incumbiu de esperar seu retorno para lhe mostrar onde vai dormir.
— Eu me ajeito no sofá de vocês.
— E aguentar a Lily pulando na sua cabeça em plena cinco da manhã? Não suportaria o baque! — Rony riu, seguindo Harry escadas acima. Estavam indo para o segundo andar.
— A baixinha é tão fogueta assim?
— Ela é um trem cheio de explosivos, meu caro. E parece que só piora com a idade. Está à beira de fazer sete anos e o pique não diminui nem por um segundo.
— Quando ela faz aniversário?
— Daqui uma semana.
— Que bonitinha. — comentou o ruivo, consternado com os aninhos da sobrinha.
— Você vai estar aqui, não? — pararam de frente a um quarto. Harry destrancou a porta usando uma chave do seu molho mestre.
— Era disso que queria falar. As construções que vi pela cidade... Estão precisando de carpinteiro?
— Sempre. — anuiu Potter — Quer que eu te ponha em algum serviço?
— Seria excelente, assim teria como pagar a diária daqui para vocês.
— Vai à merda, Weasley. — resmungou Harry, entediado com as formalidades de Rony. — Entre.
— Vai me colocar na cama? — titubeou o ruivo, enquanto Harry o esperava entrar no cômodo.
— Precisamos conversar.
Ronald obedeceu, dando de ombros. O quarto era limpo, cheiroso e bem decorado. Um lugar onde qualquer forasteiro com um saco de dinheiro gostaria de ficar. Harry trancou a porta por dentro, acendeu dois candelabros e sentou-se numa poltrona que ficava de frente para a cama de solteiro. O ruivo, por sua vez, apoderou-se do seu confortável leito naquela noite.
— Isso tem a ver com a Hermione, não é? — previu.
— Queria te pedir desculpas pela afobação de sua irmã antes de tudo. Como você está com essa nova notícia?
Ele poderia mentir, entretanto, lembrou-se que, finalmente, estava a sós com o velho confidente e resolveu abrir o jogo.
— Querendo pegar um cavalo e só parar quando chegar nesse tal rancho onde ela mora. — Harry deu um fraco sorriso condescendente.
— Quando reencontrei a Mione logo após a viagem, Deus... Foi como se ela tivesse renascido! Sabe Ron, minha amiga nunca foi à mesma desde o fim entre vocês. Ela amava o Krum ao seu modo, mas nada se comparava... Entende?
— Cem por cento! — Rony fitou um ponto vazio no quarto.
— Não sei o que houve entre vocês durante aqueles meses de viagem...
— Tudo! — interrompeu o ex-mercenário.
Harry esperou que ele prosseguisse, e ele prosseguiu.
— Revivemos tudo como há quinze anos. Demos continuidade a coisas pendentes e fomos muito mais além do que pensei que iria com ela novamente. — coçou os cabelos de ansiedade — Nos beijamos, discutimos e chegamos a passar dos limites convenientes entre um cara escroto como eu e uma mulher casada e dedicada como ela.
— Eu vi tudo isso nos olhos dela assim que a revi. — concordou Harry.
— Harry... Foram os melhores meses da minha vida! Corremos perigo, quase morremos, apanhamos feio, mas quer saber? Reviveria tudo novamente. — disse o ruivo, eloquente.
— Era isso o que temia.
— Como assim? — Rony viu um cenho de preocupação no rosto do amigo.
— Por mais que meu sonho seja ver a Mione e você juntos mais uma vez, meu conselho é ficar onde está. Seguir com sua vida, amigo. — o outro o olhou sem compreender. — Essa pode ser uma experiência diferente.
— Ela disse que não me quer mais? — perguntou, temendo a resposta com desespero.
— A Mione tem um filho, Ron. Uma menininha.
— Oh... — a notícia repentina o chocou. Não sabia o que pensar disso.
— É filha dela e do Krum. Foi concebida semanas antes dele falecer como uma espécie de milagre divino. Fazia anos que tentavam em vão uma criança e daí, quando o homem vai bater as botas, isso acontece.
— Uma menininha. — repetiu ele, abalado.
— Isso. Mione está felicíssima com essa graça e talvez seja a única que ela precise de agora em diante. Não sei... Quem sabe é um sinal de que você e ela devam virar a página.
— Ela disse isso? — a voz de Ron falhou.
— Disse o quê?
— Que sua filha com Krum era uma virada de página?
A contra gosto, Harry teve de concordar. Lembrou-se do dia em que fora visitar Hermione logo após o nascimento da criança, dois meses antes do previsto, e dela lhe dizendo com todas as palavras: “Este bebê Harry, significa uma página virada na minha vida. A partir daqui, tudo recomeça”.
— Obrigado. Não ia mesmo pegar um cavalo e sair feito um louco. — sorriu Ron, embora completamente perplexo.
Andejou até a janela e enfiou a cara para fora da cortina. Não permitiria que Harry visse mais do seu rosto em cacos naquela noite. O amigo levantou-se, ficou um tempo parado pensando em algo para dizer, mas sabia que nenhuma palavra o confortaria. Naquele momento, ele, infelizmente, fazia o papel do arauto da dor.
— Boa noite. — falou e saiu suavemente. O ex-mercenário não respondeu.
Por mais que o tempo tivesse passado – e ele voou – Gina ainda conhecia seu irmão como ninguém. Eram os filhos mais novos de uma família muito grande e se apegaram cedo um ao outro devido à idade próxima e das experiências praticamente iguais. Logo, não demorou à caçula mulher dos Weasley perceber que Ronald acordara com um espírito meio apagado.
— Bom dia! — exclamou ao irmão enquanto passava com bandejas repletas de pão para preencher o café da manhã dos hospedes, que acontecia no saguão.
— Olá, Gin. — cumprimentou-a com um levantar de sobrancelhas.
— Café da manhã! — continuou em tom alegre. — As crianças tomam café na cozinha. Vá lá fazer companhia a eles. Papai saiu. Foi à barbearia.
— Ah, sim... — parecia um pouco desligado.
Gina terminou de repor o estoque de pães no cesto de vime e partiu para a mesa de um grupo de St. Louis. Era um grupo de missionários muito gentis.
Depois de trocar meia dúzia de amenidades com os clientes e perguntar-lhes se tudo vinha ocorrendo de acordo em sua estada, a ruiva apressou o passo até a cozinha. Queria verificar melhor o estado de ânimos de seu irmão para ter certeza de uma desconfiança que ia ficando cada vez maior.
Encontrou-o em meio aos seus filhos, na mesa que ficava dentro da cozinha, onde eles e os funcionários faziam as refeições enquanto houvesse gente hospedada.
— Olha meu ovo, tio Ron! — Alvo chamou-o para prestar atenção nos ovos mexidos com os quais ele estava brincando no prato formando um rosto feliz. Rony mordiscava um pedaço de pão com um gole de café.
— Isso é nojento! — reclamou James, do outro lado da mesa.
— Como se faz? — perguntou Lily querendo imitar.
— Ei, ei! Parem de brincar com a comida, ok? — Gina interpelou — Agora comam. — Alvo reclamou baixinho e continuou seu café. — E você, já acabou?
— Eu não estou com muita fome, maninha. — respondeu o ruivo com um sorriso forçado.
Imediatamente, a ruiva olhou para o marido ao pé do fogão. Este abaixou a cabeça fingindo não prestar atenção no penetrante olhar dela.
— Hã... Harry, eu vou ficar lá pelo salão. Quando o seu colega chegar, é só me avisar.
— Eu também vou pro salão. — disse Lily querendo sair da mesa.
— A senhorita termina seu café, Lilian. — disse Gina à filha com um olhar atravessado.
As cozinheiras começaram a se dispersar com o fim do café da manhã. Os filhos dos Potter correram da mesa assim que terminaram seus pães, provavelmente, indo atrás do tio, e pouco a pouco Ginevra se viu sozinha com seu marido naquele ambiente.
— Que colega seu vai vir aqui?
— Hã...? — Harry ergueu a cabeça parecendo desligado. Para a esposa, estava apenas fingindo. — É um contato que tenho nas construções das casas. Vou arrumar um trabalho pro Ron. Ele me pediu ontem quando chegou.
— E foi nesse momento que o senhor abriu a boca para falar da Hermione? — fitou-o com dureza.
Lentamente, ele repousou a louça que estava organizando em cima da pedra. Enxugou as mãos, tirou o avental, limpou a lente dos óculos e debruçou-se sobre a bancada. O tempo todo, sua bela e perspicaz esposa o mirava com um misto de indignação e ressentimento.
— O que queria que eu falasse? — desafiou-a, dando de ombros.
— Nada! — Gina estarreceu. — Por que você insiste nisso?! Nós tínhamos combinado no instante em que meu irmão pisou nesse hotel que o que quer que tenha acontecido entre a Mione e ele, ficaria entre eles. Nós não temos que nos intrometer nisso.
— E sair contando pra ele que a Mione estava viúva não é se intrometer? — ergueu as sobrancelhas cinicamente.
— Não. É ajudar! — rebateu a ruiva.
— Sabe como nós podemos ajudar? Não dando esperanças vãs pra o Ron. Eu acho, e é apenas uma teoria — debochou — que eles já sofreram demais pra nós ficarmos servindo de capim de mula. Não existe nada de sadio em plantar ilusões nele. E sabe por quê? Porque a Hermione está em outra!
— Em outra? Outra? O marido dela morreu!
— E deixou uma filha nela! — esbravejou Potter.
— Eu não sei qual parte de “uma página virada na minha vida” nas palavras da nossa querida amiga te significou que ela não queria mais saber do meu irmão. Ele é perfeitamente capaz de fazê-la feliz, de fazê-la sonhar, de ama-la. — engasgou a voz com a emoção. — Não me parece que ela está querendo esquecer-se do passado, Harry, mas só seguir em frente, pensar mais na criança. Apenas isso...
— Gin... — Harry tentou abraça-la. Na sua cabeça, Mione foi clara em dizer que todos os homens de sua vida antes da filha, principalmente Ron e todas as escolhas truculentas que ele trouxera a ela, deveriam ficar longe do futuro de Rose — eu não quis magoar você... Nem ele...
— Me deixe! — a ruiva afastou-se, irritada. — Quer saber? Eu vou provar pra você que esses dois tem que ficar juntos!
— O que vai fazer? — perguntou desconfiado.
— Vou dar uma festa digna dos sete anos da minha filha, e de quebra, vou fazer o Rony e a Hermione se reencontrarem porque eu vou convida-la.
— Esp...
— Fique quieto, Harry! Pro seu bem, é melhor não ultrapassar meu caminho.
E partiu da cozinha com a cabeça fervilhando de ideias. Primeira providência: mandar um convite de aniversário para Hermione Granger.
***
Com uma expressão curiosa, Ronald fitou-se no espelho do quarto. A imagem refletida era do seu corpo num paletó bege, caro e bem engomado. Usava uma calça marrom escura para combinar. Quanto ao cabelo, penteara-o para trás, abrindo mão do bom e velho chapéu, ao menos naquela ocasião. As roupas foram presente de Gina. A animação em manda-lo aprontar-se também.
“É aniversário da sua sobrinha!” Justificou como argumento para obriga-lo a cuidar melhor da aparência. Um argumento bem convincente, ele reconhecia, já que bastou apenas duas semanas na convivência das crianças para apaixonar-se e por eles fazer qualquer coisa ao seu alcance.
Lilian era a aniversariante.
A importância dos Potter se fez presente para o singelo Weasley ao notar a lista de convidados e o tamanho dos preparativos que o casal montou para os sete anos da garota. Harry disse-lhe da necessidade do evento para promover boas relações com pessoas importantes em Ken West. Gina reforçou a ideia do marido, mas pareceu um pouco mais forçada que Harry na hora das explicações. De qualquer maneira, existia um clima estranho no ar, porque até mesmo os filhos mais velhos do casal, James e Alvo, estavam abismados com o tamanho da festa.
O dia da festa foi exaustivo por toda manhã. A maior parte dos preparativos braçais, envolvendo empurrar e trazer mobílias, mesas e cadeiras, enfeitar flores pelos caibros do salão e tudo que exigisse mais força, foi legado a Rony. Ele suou a maior parte daquele dia, mas também riu com as peripécias de Alvo e Lily e admirou-se com o esforço de James em provar sua maturidade ajudando-o com todas as tarefas possíveis. As impossíveis, que incluíam se pendurar nas vigas em frente ao buffett e enroscar trepadeiras, ficaram somente para Rony mesmo.
Ao fim do dia, ele tomou um merecido banho e agora vestia os trajes “exigidos” pela irmã. Ainda sentia-se estranho. Na verdade, encabulado. Era apenas um parente esquecido, sem jeito para social, que ficara muito tempo lidando com gente rústica, bandidos e trapaceiros. Um ambiente um tanto ímpar para o ruivo.
Olhou-se no espelho uma última vez, tomando coragem para descer. Já podia ouvir o murmurinho dos primeiros convidados no salão, e talvez até fosse divertido se ficasse num canto tomando alguns drinks e sorrindo bobamente sem ter de articular demais. Deu alguns passos até a porta e abriu-a para o mundo ali fora. Para a festa.
Como imaginado, o salão começava a lotar. Desceu as escadas e foi abordado nos últimos degraus por Lily. A sobrinha veio correndo de algum lugar e pulou em seu colo com entusiasmo. Vestia-se feito uma princesa com um vestidinho encomendado e costurado por uma costureira de fora, muitas semanas antes.
— Quanta gente, hein, pequena? — disse-lhe ajeitando-a no colo.
— Demais! — ela exclamou com ar de preocupação. Isso o fez dar a primeira gargalhada da noite. Gina, linda num vestido lilás, apareceu do nada assim como a filha.
— Nada de ficar agarrada ao colo do seu tio. Vem, mamãe quer te mostrar para a Sra. Luberts. — e tirou-a aos resmungos do tio. — E você, Ron, vá passear por aí... Qualquer hora chega um convidado do seu interesse.
— Hã? — ele não entendeu que tipo de convidado ali poderia ser do seu interesse.
— Ficou até que bonito nessas roupas. — elogiou-o e se elogiou carregando Lily aos olhos dos convidados. — Eu sou demais mesmo!
Rony ficou parado por um tempo, tentando tatear os bolsos. A calça não possuía. De mãos abanando, achou melhor arrumar algo para preencher o buraco vazio em sua postura desorientada. Caminhou até o bar e pediu um conhaque montanhês para começar a noite. Viu diversas pessoas, mulheres inclusive, o fitando ocasionalmente e a todo instante pessoas e mais pessoas não paravam de chegar.
— É o irmão da Ginevra? — quis saber um rapaz magro de cabelos negros.
— Isso. — Ron anuiu, após alguns goles de seu drink.
— Sou Robert Plann, conselheiro como Harry aqui em Ken West.
— Oh... Prazer. — cumprimentou-o forçando qualquer interesse.
— Como você parecesse com ela, hã?
— É... — ele sorriu para não responder-lhe com alguma grosseria.
E durante boa parte da noite, foram esses tipos de convidados que Rony teve de aguentar.
***
— Caramba, mas que demora... — reclamou Gina em dado momento da festa. Havia arrastado Harry para debaixo das escadas e cochichava com ele sobre o atraso de Hermione.
— Eu disse que esse plano era uma furada. Ainda bem que temos dinheiro e movimento de caixa para cobrir todo esse circo só para tornar “ocasional” o encontro deles.
— Ei, não comece! — resmungou a ruiva — Vai dar certo. Ela tem neném, a mãe é cega. É tolerável que se atrase.
— Ok. — Harry gostou de vê-la agoniada. Não vinha achando que o reencontro daria em algo.
— Ok, o que? Vai fazer sala pra essa gente toda que eu vou ao quarto retocar a maquiagem e respirar um pouco. Estou ansiosa demais!
***
O salão começou a ficar quente de tanta gente reunida. O ruivo afrouxou a gola da camisa, pegou sua bebida e saiu para a varanda. Passava das nove e a lua ficava mais linda a cada segundo de noite adentro.
Ele passou as cumpridas pernas pela grade do deque e sentou-se na escuridão, num local afastado do fluxo das pessoas. Ouvia risos, o piano lá dentro, conversas acaloradas, mas o mundo ficou do tamanho da sua consciência ali.
O vale se pronunciava por de trás das construções de Ken West. Imperava mesmo com o progresso do homem e era banhado com sensualidade pela luz da bela lua cheia no firmamento. Longe em pensamento, chegou até mesmo a sentir o cheiro do coelho assado numa das noites em que acampara com Hermione por aqueles cânions do Oeste. Fora há mais de um ano, no regresso da aventura deles. Somente deles!
Precisava esquecer aquela mulher se quisesse alguma qualidade de vida, pensou balançando a cabeça. Quem sabe ali, em Ken West, existisse alguém de boa índole capaz de lhe dar um pouco de alegria. Alguém que fosse decente e entendesse que seus assuntos do passado deveriam ficar enterrados lá.
Balançou a cabeça mais uma vez. Não encontraria ninguém assim.
Matou o resto da bebida e ficou balançando as pernas descompromissadamente até que avistou no fim da rua mais uma carroça chegando. Caramba, esses convidados de Gina e Harry pareciam ratos!
Então a carruagem parou em frente à entrada do hotel e ele levou um susto por ver o tamanho de seu condutor. Era um homem imenso, não apenas gordo, mas muito alto e barbudo também. Quase um ogro! Indubitavelmente, parecia inofensivo, sensível até, ao agir com modos precisos ao descer do veículo e abrir a porta da condução para os passageiros.
Era muito pouca a luminosidade, mas conseguiu distinguir, de onde estava, o homem amparando uma senhora idosa. Levou-a até a entrada do salão, pois parecia que a mulher tinha alguma dificuldade na locomoção, e voltou para buscar mais alguém. Segurou um embrulho pequenino nos braços de modo afetuoso e estendeu a mão para o outro passageiro sair. Chocado, reconheceu aquele contorno feminino imediatamente. Impossível não saber.
— Hermione... — murmurou com o peito saltando de emoção.
Como se tivesse escutado seu chamado, baixinho e distante, ela virou a cabeça diretamente para as sombras e, de algum modo, encontrou-o ali. De imediato arregalou os olhos. Ele quase se desequilibrou da sacada tamanha a ansiedade, mas conseguiu fazer os músculos funcionarem corretamente e levantou-se, voltando para varanda.
Hermione olhou momentaneamente para o grandalhão e aparentemente pediu que ele entrasse no salão, de modo que ela ia em seguida. Um pouco desconfiado, ele olhou para Ron e acatou as ordens da morena.
Ron pode vê-la desconfortável, ali, parada o esperando se aproximar, mas ficou felicíssimo em enxergar vestígios de alegria em seus lábios fechados.
— Que surpresa! — ele exclamou sem saber o que fazer com as mãos. Acabou esfregando-as uma na outra.
— Surpresa é pouco para descrever te rever, aqui. — Mione comentou, um pouco polida.
Estava magnificamente vestida. O penteado cacheado, o vestido nunca exagerado, entretanto, sofisticado e a leve maquiagem quase o hipnotizaram e o impediram de prosseguir com seu raciocínio.
— Ah, sim! — cada frase sua ficava irritantemente exagerada, indicando seu nervosismo exorbitante — Resolvi visitar a família e fui ficando por aqui.
— Nossa, que ótimo ouvir isso. — Hermione pareceu sincera, porém o excesso de cordialidade começou a incomodá-lo.
— É, pois é... Estou adorando. Meus sobrinhos... Você já viu crianças mais maravilhosas?
— Eles são demais mesmo, Ron. Meus parabéns! São valiosos! — A menção ao seu nome de forma mais carinhosa deixou-o um pouco mais confiante. Hermione, entretanto, não indicou as brechas e o ruivo não conseguia pensar em como contorna-las. Até segundos atrás, acreditava que nunca mais a veria!
— Bom, a festa está ótima. Vá lá, tome um drink e veja com seus próprios olhos como Lily parece uma princesa. — encorajou-a a prosseguir.
Hermione cumprimentou-o com a cabeça e entrou no hotel. Imediatamente, uma onda de náusea apoderou-se dele. Utilizara esforço, ansiedade, sentimentos demais naquele ínfimo instante. Sentiu-se acurralado num momento decisivo, como num duelo por sua vida. Então resolveu enfrentar e descobrir quem realmente era Hermione naquela noite. Sua única certeza foi a de esquecer-se dos conselhos de Harry sobre avançar. Entrou no hotel novamente.
***
Pareceu que um ímã atraiu o olhar de Gina para a porta quando Hermione entrou. Talvez fosse também porque Hagrid entrou junto dela e da mãe. Há alguns tempos que o gigante homem fora convidado para ser capataz e o braço forte da morena no rancho, logo, era natural que ele viesse conduzindo até ali. O tamanho do homem também chamou atenção do restante dos convidados, mas foi apenas por um instante — a maioria das pessoas de Ken West conhecia Rubeo Hagrid.
A ruiva voou para junto da morena — pálida por algum motivo — como um morcego ensandecido por sangue, e abraçou-a inesperadamente.
— Oi, Mione! — olhou por cima do ombro da amiga buscando sem sucesso algum sinal do irmão.
— Gin!
Depois cumprimentou a Sra. Granger, Hagrid e mirou toda sua atenção para o bebê Rose. Hermione retirou a manta que protegia a menina do sereno para que o rostinho da criança aparecesse à luz, levantando-a orgulhosa em seus braços.
A ruiva sufocou o ar nos pulmões ao ver o quanto a menininha crescera e ganhara uma aparência peculiar: pequenos cachinhos levemente avermelhados aparecendo através do chapeuzinho e espertos olhos claros. Poderia ser coisa de sua imaginação. Poderia ser apenas a fase alva que muitos bebês passavam.
— Humm... Que linda ela está, Mione!
— Sim!!! — Hermione sorriu de orelha a orelha. Obviamente que estava revitalizada com sua filhinha. — Ela anda super esperta também. Nem parece que tem apenas três meses. Fabulosa! Cada dia mais fabulosa!
Harry e as crianças aproximaram-se para dar as boas vindas.
— Ohhh... Mais que coisa mais maravilhosa é essa princesinha?! — brincou a morena, mexendo com Lily.
Lily ficou acanhada com o elogio, mas beijou Hermione prontamente. Depois foi a vez dos garotos, Alvo e James, se acotovelando para ver Rose no colo da mãe.
— Como foi de viagem? — quis Harry saber.
— Tudo ótimo. Saímos cedo. Paramos várias vezes para descansar e com certeza ficaremos essa noite aqui. — interpelou a Sra. Granger.
— Ficaremos? — Hermione olhou desnorteada para a mãe.
— Obviamente. Foi você mesma quem disse, filha! Nem pensar que voltarei para aquela carroça hoje. E Arthur? Por onde anda aquele velho? — brincou a mulher já sabendo de seu regresso para perto da filha.
— Ele está cochilando no sofá de casa já. Mas vá lá e acorde-o, Sra. Granger. — comentou Gina.
— Pois eu vou mesmo. — disse a velha decidida. Hagrid guiou-a pelo caminho.
Gina viu uma cabeça repleta de cabelos vermelhos como a sua abrir a porta e entrar no hotel. Isso explicava porque Hermione adentrou mais branca que boneca de porcelana. Iria fazer sinal para o irmão juntar-se àquela conversa, mas ele por si só estava tomando a atitude de se infiltrar. Harry, ao seu lado, respirou pesadamente como se uma dinamite fosse explodir e detonar a todos.
— Você já viu o Ron, Mione? — a ruiva puxou-o pelo braço para acelera-lo. Rony quase tropeçou.
— Claro. Fiquei feliz... em... — a amiga ia perdendo as palavras enquanto eles se fitavam — descobrir que ele veio visita-los.
— É mais que isso! — cada frase Gina pontuava com frenéticas exclamações — Rony vai morar por aqui. Ele está na carpintaria! É ótimo nisso!
— Carpintaria? — Hermione ficou abismada. Ginevra sentiu uma satisfação crescer dentro de si.
— Isto. Está ajuizado, meu maninho! — deu-lhe um tapa nas costas. Ele virou para ela pedindo com os olhos para que maneirasse no que quer que fosse que estivesse tentando fazer.
— Tia Mione, nosso tio é demais! — vibrou Alvo pulando entre os adultos.
— Eu o vi construir um banheiro muito legal na cidade dia desses. — complementou James, visivelmente impressionado.
— Ele é lindo! — Lily bateu palminhas e levou as mãos ao rosto.
— E forte! — Alvo apontou para o próprio muque infantil — Carregou cinco vigas de madeira sozinho esses dias.
A cada elogio dos Potter, Rony ia corando mais e mais. Hermione não estava muito diferente dele. Os dois praticamente não conseguiam se encarar de tão ruborizados em meio aquele circo de adjetivos exagerados.
— Vou levar a Mione para escolher algo para beber. — intrometeu-se Harry, resgatando a amiga pelo braço que não carregava o bebê. Quando a uma distância razoável, Harry conseguiu falar lamuriando-se. — Mione, desculpe por isso.
— Isso o que?
— Você sabe... Rony estar aqui. Eu não tive como te avisar por carta. Tudo culpa da Gina. Sei que está louca da vida e com...
— Harry, vai me pegar algo pra molhar a garganta, por favor. Você não está dizendo nada com nada.
— Como? — o amigo ficou atônito.
— Não vejo nenhum problema no homem que nos enriqueceu estar aqui. Apenas me de algum tempo para respirar.
— Ei! — a frase ofendeu-o — Eu também não. Ron é meu amigo, meu melhor amigo. Acontece que pensei que preferia não firmar mais contato por conta...
— Harry, amigo, olhe pra mim. — ele o fez, contrariado — Não tente entender nada!
Até mesmo para Ronald Weasley, naturalmente desligado em diversos aspectos das relações humanas, não foi difícil estabelecer uma conexão entre a grandiosa festa de sua sobrinha, a insistência da irmã para que estivesse presente e bem vestido e o surgimento de Hermione como convidada. Havia uma força compactuando para um encontro entre o ruivo e a morena, e ela não era sobrenatural. Possuía nome, sobrenome e um gênio indômito: Ginevra Potter.
— Que tipo de ser humano maquiavélico é você, Gina? — perguntou à irmã, vendo Harry distanciar-se com a morena.
— Do tipo que quer te dar uma nova chance. — respondeu francamente. — Ela é uma viúva, você mudou de vida. Nada os impede, irmão.
— Não sei... Existe uma outra vida entre nós agora. — por mais feliz que Hermione transparecesse com o bebê no colo, e isso deixasse Rony satisfeito, a filha dela com o outro homem o transformava em alguém um pouco receoso.
— Uma criança sem pai. — resmungou a ruiva.
— A garotinha tem um pai. — ele rebateu.
— Eu estou lhe dando a chance. Infelizmente, é só você que sabe o que fará com ela. Meu conselho é aproveitar.
Com o passar dos minutos, a trilha até a companhia de Hermione começou a tornar-se mais acessível. As bajulações dos convidados sobre seu bebê se apaziguaram. Harry e Gina não estavam dando sopa em volta da situação feito moscas desnorteadas e Ron sentiu-se um pouco mais corajoso.
Pegou para si uma cadeira vaga ao lado da morena e brincou se ela estava vaga. Hermione riu e encorajou-o a sentar-se.
— Que festa, hein?! Tô com dor nas pernas já... — precisou começar a conversa de algum modo.
— Eu fiquei espantada com o que eles fizeram por aqui. — confidenciou-lhe. — Sempre soube que este casal era esperto, mas no que transformaram esse hotel, eu não imaginaria nem nos meus sonhos mais criativos. Há exato um ano dei uma quantia justa para Harry esperando que vendesse o estabelecimento, fosse atrás de algo menor, ou mesmo se mudasse daqui. De repente, ele faz de Ken West uma imensa fonte de renda futura, ganha status na cidade e ainda ajuda os meus negócios no rancho irem de vento em polpa.
— Eu soube que você também deu um ótimo destino ao seu dinheiro. Um rancho com criação de gado?
— É. Gado e aprimoramento de equinos agora.
— Uau! Do jeito que parecia levar jeito com os animais, posso imaginar uma excelente administração. — Hermione ficou levemente ruborizada e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— O seu dinheiro ainda está guardado. — disse repentina. Rony fitou-a confuso. — Ele está lá em casa, bem escondido. Quase mofando.
— Eu... Eu disse que não queria nada. Esse dinheiro é seu, gaste-o como bem entender. Para expandir seus negócios e...
— Ron, não se trata de uma questão de dívida. É de merecimento. De gratidão. — sorriu, tocando em sua mão. Os gestos arrepiaram todos os pelos da nuca do ruivo. Impulsivamente beijou-a nas costas da mão.
— Prometo pensar no assunto. — afastou delicadamente com medo de represálias. A morena não se moveu. — Sabe quem enriqueceu também? O cara que me ajudou a chegar até você em Ampares. Um pistoleiro ao qual eu mesmo prendera uma meia dúzia de vezes. Draco Malfoy.
— Oh! O tal Bala na Mira?
— Isso! Leu a matéria no jornal?
— Como não? Soube que ele pegou algumas barras de ouro do carregamento roubado e que juntas somavam cem mil dólares!
— Soube que foram apenas cinco barras. As meteu entre as calças e saiu correndo a cavalo! Com isso, podemos calcular o quanto Arnie Austin poderia enriquecer se ficasse com toneladas daquele ouro.
— Mas e o governo? Não estão caçando esse tal Malfoy?
— Nosso querido governo nunca mais vai ver as fuças de Bala na Mira neste país. Pelo que soube, faz meses que o espertalhão fugiu em um navio. Certamente está gastando rios e investindo num pequeno império em algum território do velho mundo.
— Santo Deus! Que sortudo! Ao menos estava do nosso lado. — gargalhou a morena.
— Sim, porque aquele era um trambiqueiro profissional. — Ron riu junto.
A atenção de Hermione foi desviada para Rose que resmungava dentro do cesto de bebê em cima da cadeira ao seu lado. O ruivo espiou por cima do ombro da morena enquanto esta atendia ao reclame da menininha. Foi a primeira vez que ele viu nitidamente a filhinha de sua ex-namorada.
— Ela tem olhos azuis? — a pergunta escapou de sua boca automaticamente.
— Ah... Sim, sim. — respondeu exalando um sentimento de tensão a conversa que transcorria com suavidade. — Minha mãe disse que também tive olhos claros quando nasci. — desconversou. Rony anuiu, olhando para o bebê, encantado.
— Posso segurá-la?
Hermione hesitou por alguns breves segundos, mas cedeu. Retirou Rose do cesto e depositou-a com todo o cuidado no colo do ruivo.
Ele pegou a pequena menina e a trouxe para perto do peito. Então, afastou o delicado gorrinho rosado com babados que ela usava para esquentar as orelhas, liberando totalmente seu rostinho. Encarou a garotinha bem de perto. O frio que sentiu na barriga ao fazer isso foi incomum.
Rose abriu os olhos e olhou-o sem esboçar nenhuma reação temerosa, muito pelo contrário, estava quieta, quase meditativa. Ron usou a ponta do dedo indicador para tocar de leve em seu narizinho. O bebê riu.
— Ela tem sardas. — observou encantado. Virou-se para Hermione sorridente e viu um brilho novo em seu semblante. — Está chorando? — perguntou.
— Não. — ela preocupou-se em responder rápido. — Eu acho que algo entrou nos meus olhos. — disse.
Rony simplesmente não acreditou. Sem entender bem aquela sequência de reações, entregou Rose com todo cuidado nos braços da mãe novamente. A morena embalou-a com cuidado e firmou um contato face a face com o ruivo, de forma que iria lhe dizer alguma coisa a seguir. Mal conseguiu soltar uma palavra, porém, Alvo chegou correndo entre eles, quebrando a misteriosa ligação que ocorrera ali.
***
— Essa garotinha é linda demais, Hermione. — pronunciou Arthur Weasley carregando Rose no colo.
Passava das onze. Todos os convidados haviam dado adeus à festança e voltado para suas casas. Os anfitriões e seus convidados mais íntimos agora repousavam na sala dos Potter enquanto ensaiavam para dormir. Hermione e a mãe dividiam um sofá. Harry, Gina e os filhos espremiam-se no outro, Rony sentara-se no braço do mesmo sofá dos Potter e Arthur estava de pé, no meio de todos, carregando Rose com cuidado.
— Mas eu sinto algo tão familiar no rosto dela... — o velho continuou.
— Familiar? — Hermione engasgou. Gina lançou-lhe um penetrante e desconfiado olhar.
— Sim. É bem curioso. — Arthur comentou distraído observando a menina atentamente — Ela tem uns traços semelhantes à Gina quando bebê. — riu.
— Sério pai? — Gina levantou e foi junto a ele. — Tem olhos azuis, sardas e cabelos ruivos. É muito curioso mesmo.
— Não é bem ruivo... É um tipo de castanho. — justificou-se Hermione.
— Humm — A ruiva mordeu a bochecha com um ar desdém. — Mesmo assim, é uma baita coincidência!
Harry soltou uma gargalhada extremamente forçada, o que fez as atenções se voltarem completamente para ele.
— Ora, Gin, chega de especulações. Rose é linda e ponto final. — levantou sacudindo os braços nervosamente. — Vamos parar de asneiras e acomodar nossas hóspedes. Hagrid vai ficar aonde, Mione?
— Ele vai ficar na carruagem mesmo. Você o conhece, é meio envergonhado e não quer atrapalhar. Nem adianta insistir.
— Claro, sei bem como ele é. — respondeu Harry, mantendo ainda o sorriso forçado e as atenções para si — Eu vou mostrar o quarto, você vem? — Hermione levantou, pegou Rose no colo do Sr. Weasley e a mãe pelo outro braço.
— Boa noite a todos! A festa estava maravilhosa, Lily.
— Eu sei! — a menininha riu sapecamente.
— Boa noite, tia. — disseram James e Alvo em uníssono.
— Boa noite, Mione. Durmam em paz. — completou Gina, ainda trazendo aquele estranho deboche na fala.
Rony foi o último a cumprimentar a morena. Fez um meneio de cabeça em sinal de despedida, embora parecesse querer segui-la com Harry.
— Foi bom te rever, Ron.
— Digo o mesmo. — disse polidamente.
Rony não conseguiu dormir. Saber que sua amada dormia junto da mãe e da filha no quarto ao lado o deixou extremamente ansioso.
Pensou em mil ações para ter na manhã seguinte. Pensou em chama-la em um canto e perguntar se ela queria dar uma chance aos dois. Depois imaginou o quão indelicado isso poderia ser para se dizer a uma viúva com uma filha nas costas e ficou aflito porque não descobriu um modo de chegar a Hermione sem prever centenas de maneiras de levar um “não”.
Rose também não dava brecha em sua lembrança. Uma linda criança de sardas e cabelos avermelhados. Poderia ser uma variedade de castanho sim, mas nada se encaixava na justificativa dos olhos azuis. Vitor era um cara moreno, até onde ele lembrava, e Hermione possuía intensos olhos cor de mel.
O ruivo pegou-se fazendo contas que envolviam meses e momentos de amor intenso. Percebeu a probabilidade nos números, ficando um pouco assustado. Entretanto, decidiu-se de que tudo não passava de esperanças ilusórias que criava para tentar estabelecer um elo com a morena.
Quando sua mente finalmente aquietou, já era praticamente dia.
Enquanto Rony se debatia em sua cama com pensamentos e especulações, um casal discutia em voz baixa em seu aposento, temendo incomodar alguém.
Harry foi quem abordou o assunto primeiro.
— O que foi tudo aquilo ali embaixo agora pouco?
— Que parte? — Gina continuava rabugenta com ele durante toda a semana — A que a Rose tá com cara de Weasley ou a que você tentou botar panos quentes na situação?
— Peraí... será mesmo?
— O que acha? Vitor não tinha olhos claros e nem sardas no rosto!
Harry ficou calado. Com seus botões somou algumas frases perdidas da amiga e elas começaram a fazer outro sentido.
— Meu Deus! — exclamou tapando a própria boca.
— Que foi? Tá sabendo de algo que eu não sei? — a ruiva aproximou-se ansiosa do marido.
— O seu irmão me contou que a viagem deles foi bem longa... sabe? — revirou os olhos.
Dessa vez foi Gina quem levou a mão aos lábios.
— Sabia! Eu sou um gênio!
— Você fica tão parecida com Alvo e Lily quando estão prestes a aprontar, fazendo essa cara.
A mulher pulou da cama e ficou andando eufórica de um lado para o outro.
— Uma reunião de informações e fatos valiosos. Vou falar com o cabeça dura!
Harry puxou-a pelo braço.
— Não a essa hora! Gina, controle-se por uma noite ao menos.
— Ok, ok... — respondeu resignada. — Parabéns pela ajuda, afinal, Harry Potter.
— Vamos parar de bancar a durona comigo? Eu sou um cara cheio de boas intenções. — e trouxe a ruiva para perto de si com um puxão na sua camisola.
— Você conhece aquele ditado...
— E você sabe que ele não se aplica ao seu bendito marido. — interrompeu-a com ardente beijo.
***
Gina bateu várias vezes na porta do quarto de Rony, sem sucesso. Era como se a criatura tivesse entrado em coma. Já era dia, passava das sete da manhã, e Harry a chamava freneticamente no saguão.
Debruçou-se sobre o parapeito do segundo andar e viu Hermione, a mãe, Rose e Hagrid preparados para regressar. A pressa da amiga só a deixou ainda mais irritada. Suas suspeitas não eram mais suspeitas. Já estavam confirmadas.
Desceu quase sem conseguir esconder a rabugice. Primeiro, despediu-se da Sra. Granger e do gigante Rubeo. Depois, enquanto os outros diziam adeus e votos de boa viagem entre eles, aproximou-se de Hermione e fingiu lhe dar um beijo no rosto apenas para poder cochichar-lhe enquanto a abraçava.
— Não está certo fingir que Rose não é dele. — disse decidida.
Soltou o abraço forçado que dera na amiga, forjado com um sorriso amarelo. A morena congelou numa expressão tensa, de quem sabe que seu segredo está em mãos de outra pessoa.
— Então façam boa viagem! — exclamou a ruiva afastando-se.
Todos rumaram para fora, mas o semblante desorientado que Hermione lhe lançou a chocou. Era como se, em pensamentos, ela estivesse vibrando para que Gina intervisse entre ela, Ron e aquele segredo maravilhoso.
Era bem depois do meio dia quando Rony levantou. Estava animado na expectativa de rever sua bela morena novamente. Porém, maus presságios começaram a sonda-lo quando percebeu o hotel bem silencioso.
Foi até a cozinha, Harry ou Gina sempre estavam por lá, e encontrou apenas a irmã sentada à mesa com um local reservado para um café da manhã individual. Mais adiante, um cheiro de almoço invadia o recinto.
Ginevra Potter parecia estar especialmente a sua espera, o que deixou Ron desanimado.
— Ela foi-se, não? — perguntou, já prevendo que o sono e as horas foram negligentes com seus sentimentos.
— Tome seu café, Ron. Você precisa estar com o estômago reforçado para a viagem.
— Viagem? — ele serviu-se de uma xícara de café.
— A que você vai fazer até o Rancho Granger quando eu lhe contar as novas.
— Gin... — seus olhos se encheram de lágrimas. Nunca foi tão fácil deduzir o que se passava na mente de uma mulher. Os olhos de Gina também se transformaram em duas poças d’água.
— Ela é sua, mano. É sua, não é? — ele esfregou os olhos. Suas mãos tremiam loucamente.
— Minha filhinha. — chorou como um bebê escorando na mesa. As cozinheiras fitaram curiosas a interação entre os irmãos. Gina fez um sinal e pediu para que saíssem.
— Ron, quem foi embora daqui mais cedo foi a sua família. Compreende isso? — o irmão não parava de soluçar. Sobretudo estava explodindo de felicidade. — Vitor Krum sempre foi o infértil. Hermione e ele tentaram por anos ter uma criança. Eu sempre desconfiei, mas ontem... Ficou evidente demais!
— Meu anjinho! — fez um movimento lembrando-se do momento em que carregou a filha no colo na noite passada.
— Ei, olha pra mim. — ela agarrou-o pelo rosto — Vocês se reencontrarem não foi um acaso. Foi o destino. Entendeu cabeça dura? Durante todos esses anos, o universo veio preparando você e ela para tudo aquilo que viveram no ano passado... E Rose é a prova disso! Vá agora reivindicar sua menina e sua mulher. Agora mesmo!
Ele levantou-se decidido.
— Vá ao celeiro. O cavalo rajado é o mais rápido. Siga pela estrada que leva ao Sul sem desviar. Após uma cadeia montanhosa que cruza por um rio quase seco, vire a esquerda. — a irmã deu as instruções.
Ron voou para fora da cozinha sem nem tocar no café. No percurso, quase atropelou o amigo Harry Potter. Harry entrou abobado na cozinha.
— O que diabos deu no seu irmão? — questionou Gina, e só depois viu que ela parecia estar chorando. — Querida...
— Sem sermão, Harry, por Deus. — balbuciou ela.
— Só quero saber o que houve com seu irmão e... Com você. — justificou ofendido.
— Acabou de descobrir que é pai. — disse subitamente.
—Você contou?
— Sim, mas ele já sabia — sorriu entre as lágrimas.
— Vamos ver no que dá agora.
— Tudo vai dar certo. Eu disse pra você não se meter com esses dois. Agora vá chamar nossas funcionárias porque uma leva de hóspedes vem chegando à cidade.
***
Ronald Weasley lembrava-se bem da última vez em que fora tão afortunado: o dia em que pediu Hermione Granger em casamento. Por toda sua continuidade na Terra riu amargamente imaginando que um sentido tão grande a sua vida como o daquela época nunca mais viria.
Sofreu. Comeu poeira no deserto. Sofreu. Parou nos braços de meretrizes solitárias. Sofreu. Matou homens sem se havia alguém que os amava esperando em algum lugar. Sofreu. Reencontrou Hermione no percurso, mas não parou de sofrer.
A cena se repetia como há um ano. Ele correndo a cavalo e chorando. Mas agora, extremamente certo e seguro do que viria dali pra frente. Hermione não o rejeitaria, tinha plena certeza; fora o seu coração que lhe confirmara. Ele tinha aparecido para dar-lhe um presente inigualável: a oportunidade de ser mãe. Em contrapartida, ela semeara um serzinho perfeito no ventre, esperando a chegada do pai para completar sua vida tão jovem e, com certeza, feliz.
Nunca tinha ido até o Rancho Krum e as instruções da irmã foram um tanto quanto superficiais, mas uma mão invisível o fazia percorrer o destino correto.
De repente, viu-se de frente a um complexo criatório no meio do deserto. Uma bela casa fazenda, piquetes, cercas e alguns peões laçando bois. Viu a plaquinha na estrada indicando com uma seta “Rancho Granger”, o que só confirmou sua sorte.
Entrou na propriedade sem ser barrado no caminho. Os funcionários do rancho sequer notavam sua presença, ou foram avisados para que nada fizessem.
Ela sabia. Ela o aguardava.
O ruivo contornou uma trilha de pedra, elegantemente decorada e formando um charmoso caminho até a entrada do casarão. Este era imenso, com dois andares, talvez até três, e uma varanda, maravilhosa para se passar as noites de verão, de dar inveja a qualquer urbano.
Desceu do cavalo, encostou-o a uma sombra estratégica para quem chegasse à montaria e andou sentindo a intensidade de cada passo, em direção à entrada do casarão.
Mal chegou ao pé da escada e uma movimentação o fez levantar os olhos para a base. Hermione Granger, sensual num vestido rústico de fivela, botinas marrons e uma trança de lado, lhe fitou. Combinava com a casa, com o ambiente, com a vida próspera.
Rony tirou o chapéu e colocou as mãos para trás, inseguro. Hermione desceu as escadas lentamente, até parar a um degrau do nível do chão. Aquela altura já bastava, seus olhos ficavam na mesma direção, e seus corpos também.
— Não consigo me imaginar em nenhum lugar do mundo que não seja aqui.
— E sua vida de mercenário?
— Eu não uso armas há mais de um ano. Essas coisas não me cabem mais.
— Sonhei com o dia em que poderia dizer seguramente a minha filha que o pai dela não matava por dinheiro.
— Como pudemos ter concebido algo como Rose?
— Quando vi o quanto ela tinha de você fiquei angustiada. Quis te procurar em todos os lugares desse país...
— E por que não fez?
— Minha mãe disse que você apareceria. Que se me amasse tanto quanto proclamou, daria um jeito de me descobrir.
— As mães nunca erram, não?! — sorriu.
— Não mesmo. Ela também disse que eu nunca conseguiria ser plenamente realizada sem o meu amor. Estava certa novamente.
— Neste momento, sente-se realizada?
— Tão ou mais como da primeira vez que disse que me queria ao seu lado pra sempre.
— Isso faz tanto, tanto tempo...
Rony e Hermione abraçaram-se num beijo quente, profundo e extremamente apaixonado. A partir dali, só podiam ser felizes.
FIM
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