Black Jack
20 Velhos Inimigos
Notas iniciais
Rony ficou plantando na noite fria. Disléxico ao tempo, permitiu-se ser invadido pelo desejo de vingança colocando as tarefas necessárias para alcançar seus objetivos em ordem de importância na mente. O ódio o cegava, assim como o desespero, e com eles não sairia da estaca zero. Voltou para a hospedaria, foi até o quarto e vestiu seus inseparáveis equipamentos de trabalho: o cinto com as pistolas já carregadas. Seguiu para o lavabo e limpou os cortes da surra, levando água limpa ao rosto diversas vezes. Cada vez que os hematomas ardiam, se sentia mais revigorado para prosseguir no encalço de Arnie. Weasley era um mercenário e ninguém pode sair ileso quando se mexe com um deles, que dirá o melhor.
Para começar, era necessário ceifar as ervas daninhas menores: os informantes covardes. Subiu mais um andar, onde sabia que ficava o quarto do proprietário e já entrou chutando a porta. Houve gritos e correria. A esposa do sujeito sumiu nas sombras aos choros, mas ele foi rapidamente laçado pelo colarinho.
— Para onde eles estão indo? — inquiriu o mercenário.
O homem tremia dos pés a cabeça.
— Nã... não sei do que está falando...
— Dos capangas de Arnie Austin para qual nos delatou e deixou entrar.
— O que?
Impaciente, Rony aplicou-lhe um soco no estômago.
— Vai dizer que não ouviu quando cinco deles nos renderam lá embaixo?
— Não sei... por favor... — choramingou.
Ágil no gatilho, retirou uma das pistolas do coldre e detonou o joelho do covarde mentiroso. Houve gritos e choros estridentes, dos quais o ruivo não se abalou. Seu tempo estava se esvaindo.
— Vou perguntar apenas mais uma vez...
— ELES ME AMEAÇARAM PARA FICAR DE VIGIA SE APARECESSE ALGUÉM COMO VOCÊS POR AQUI! — revelou aos berros e dor — ESTAVAM ESCONDIDOS NAS CORDILHEIRAS. NÃO SEI DE MAIS NADA, MAIS NADA...
Rony caminhou pelo cômodo, pensando se deveria acreditar na palavra do miserável agonizando no chão. Foi quando a coisa mais absurda que poderia ocorrer naquele momento, naquele lugar, aconteceu.
— Eu sei para onde eles vão! — anunciou uma nova voz às suas costas.
Rapidamente Rony virou-se, tendo certeza que conhecia o dono daquele timbre gatuno de algum lugar. A reação foi instintiva. No milésimo que descobriu Draco Malfoy às suas costas, sacou a arma, disparou um tiro e rolou para trás da mobília mais próxima. No outro extremo, Bala na Mira estirou-se no chão e engatinhou para trás da porta.
— Estava com saudade de você também, Weasley! — debochou, depois de quase ter sido finalizado pela arma infalível do mercenário.
— O que está fazendo aqui, seu bandidinho dos infernos?!!
— Como senti falta dessa recepção calorosa...
Irredutível, o ruivo levantou com as duas pistolas em punho. Correu para a esquerda atravessando a mulher chorosa do dono da hospedaria e o próprio que se debatia em dor, ainda no chão. Disparou diversas vezes contra a porta do quarto a reduzindo em pedaços. Draco teve que correr novamente. Eles se antagonizavam como água e óleo, mesmo sendo tão parecidos na habilidade da pontaria e em utilizar o elemento surpresa. Contudo agora o Caçador de Recompensas estava mais violento do que calculista, e ele precisava ser cauteloso se quisesse sobreviver.
Entrou no próximo cômodo disponível para escapar da rajada de balas, se entrincheirando atrás da cama e preparando sua pistola. Não pretendia usá-la, o que era uma ironia do destino, mas precisava se prevenir caso fosse inevitável.
— Ei!! Onde ficaram seus modos? —berrou o loiro.
Rony esgueirou-se pelo corredor até o quarto onde Bala na Mira se escondia.
— Deveria ter desconfiado que estava enfiado nisso. Uma raposa nunca abandona seu ninho! Quando te pegar, esqueça a delegacia de Rocky Deep. Vou angariar meu reembolso direto da vala de KillCool!
— Para que esse ressentimento...
Mais uma vez, o ruivo ousou o interrompendo com novos tiros. Draco se encolheu e foi obrigado a revidar.
— QUE PARTE DO “EU SEI PARA ONDE ELES VÃO” VOCÊ NÃO ESCUTOU?
— Não tenho tempo para seus joguinhos, imbecil!
— Joguinhos? E por que iria atravessar o país só para jogar com você?
— Tem razão. Deve estar querendo uma bala na cabeça. Apareça que eu realizo seu desejo!
— Não sei, sua mira anda meio estranha. Tenho medo de agonizar demais. — debochou.
Rony enrijeceu os músculos, pulsando animosidade. Apertou a coronha e tentou não se importar com a leve tremedeira que o braço apresentou.
—Só não tente esconder. Era para eu estar morto ali atrás, mas a bala desviou por milímetros. Estranho... — continuou Malfoy.
— Vou te mostrar o que é estranho!! — berrou, partindo para dentro do aposento.
Draco ergueu e viu duas flamas vingativas brotarem dos olhos antes gélidos de Ronald Weasley. Sabia que só teria uma chance de matar ou morrer, e sem muito pensar, resolveu entregar o destino nas mãos da sorte dando um tiro sem direção mortal. As armas se cruzaram, um de frente para o outro, há pouco mais de um metro. Sua bala passou sobre o ombro do mercenário e o disparo dele veio parar em um ponto a alguns centímetros entre as pernas do pistoleiro.
— Saiba que ainda está com suas bolas porque a minha pontaria “estranha” não quis arrebenta-la, seu ladrão de merda! — ironizou Rony, satisfeito tanto em vê-lo pálido de susto quanto em conseguir acertar no alvo almejado. Se sua mão falhasse, era um risco que ele estava disposto a correr.
— Eu digo o mesmo. — retrucou Malfoy, ainda na mira do revólver de Weasley.
— Você tem apenas dois minutos para me contar onde e como sabe do paradeiro de Arnie Austin sem que eu tenha vontade de descarregar o tambor todo na sua fuça!
— Só dois minutos?!
***
O que parecia ser um tenebroso dia de frio e medo despontou por de trás das cordilheiras. Hermione não entendia porque continuava viva, sendo que queriam sua pele como a do marido. Talvez precisassem dela apenas para ter certeza de seu conhecimento acerca de algum segredo ilícito, e descobrir se ela passara a alguém, como acreditavam que Vitor tinha lhe passado. Sentia um ódio imensurável ao ver os capangas de Arnie reunidos em volta da fogueira contando vantagens e ficou imaginando qual deles ajudara a balear seu marido. Continuava amarrada pelos braços e pernas, mas já não estava com mordaça – ninguém escutaria seu pedido de socorro na vastidão inóspita.
— Por que tá me olhando com essa cara feia? — grunhiu um dos pistoleiros. Hermione lhe devolveu um olhar duro.
— Ela é arisca! Deixe. Vai ter o dela já já... Como o idiota do marido.
— Como sabem que meu marido está morto? — desafiou-os.
Os homens riram em coro.
— Com o tanto de bala que ele levou, achei impressionante que tenha chegado até você!
— E ainda serviu para mostrar o que se acontece com enxeridos. Foi um bom exemplo. — argumentou o que tinha surrado Rony.
— Seja o que for que Arnie Austin esteja tramando, ele não conseguirá!
— “Seja o que for?”, então seu póstumo marido não teve tempo de lhe dizer mesmo?!
A morena ficou apreensiva. Era sua chance de descobrir o envolvimento de Krum, mas não tinha certeza se queria saber.
— Ele era só um bêbado petulante que não quis deixar a mesa de jogo quando deveria desaparecer. E quem ouve sobre os negócios de Arnie Austin não merece menos do que uma boa peneirada de balas!!!
— Espere aí, Calvin... Se o marido não repassou para ela o que ouviu daquela conversa do chefe, por que a estamos levando?
— A ordem é leva-la, Smith, e não questionar. E não seja tão ingênuo, ela pode muito bem estar mentindo. É uma mulher! Agora vamos levantar acampamento e partir. Temos que estar no local combinado até a próxima madrugada. Não se esqueçam de andarem pelas pedras para não deixarem rastros, Weasley pode estar nos seguindo.
***
Draco Malfoy e Ronald Weasley se reuniram numa conversa insólita. Tomaram todo o salão de refeições, vazio na madrugada e por falta de hóspedes, trouxeram á mesa dois copos acompanhados de uma garrafa de tequila e colocaram suas armas à vista, como uma trégua de confiança. O mercenário tentava esconder, mas estava ansioso para que o outro guardasse uma dica útil do destino de Arnie Austin.
— Comece logo que meu tempo é precioso. — Hermione não lhe saía da cabeça nem por um minuto.
— Tudo bem... — resmungou o loiro tomando um gole em seu copo.
— Quer que eu explique tudo que descobri ou apenas dê a localização de onde o roubo acontecerá?
— Roubo?
— Ok! Quer a explicação. — ironizou.
— Anda logo!
— A cada cinco anos o governo recolhe os impostos mais brutos das cidades e os mandam para Nova York, direto para os cofres do nosso amado presidente. Acho que até aí não é novidade. Todos já sonharam com aquele dinheiro. Você sabe de que forma o imposto é armazenado e transportado?
— Barras de ouro guardadas em caixas de madeira para serem empilhados em vagões de trem.
— Exatamente, Weasley.
— Arnie quer roubar o trem de arrecadação? Impossível! — deu de ombros, o ruivo.
— Para um bandidinho mequetrefe nascido em New Orleans, tomando leite de cabra e trepando com galinhas, sim. Mas não para esse “novo” Arnie Austin.
— Explique-se. — Rony molhou a garganta com a aguardente. Tentou relaxar um pouco para ver onde a história mirabolante do pistoleiro daria.
— Escute aqui, eu estou de saco cheio dessa vida! Não vou dizer os motivos que me levaram a seguir àquele sujeito nas falcatruas no passado, apenas que saí dela porque queria uma vida simples, calma... decente.
— E conseguiu? — o ruivo ergueu as sobrancelhas debochado. — Até onde sei estava foragido...
— E vivendo pacatamente até Austin voltar e me fazer uma proposta irrecusável: ou caçava a Sra. Krum ou ele daria um jeito em alguns companheiros e parentes meus. Acatei porque fui pego de surpresa, mas prometi a mim mesmo que não cederia a chantagem facilmente. Camuflei-me de escudeiro para poder cavar uma cova larga o suficiente para caber ele e toda sua soberba.
— Assim, do nada? O que poderia ter contra alguém que já caminha na lama?
— Experiência e vivência, caro mercenário. Estive o acompanhando por longos anos para conhecer um pouco de sua personalidade, suas manias. Austin sempre foi vingativo sim, mas nunca fugia como um leão saciado deixando o serviço para as hienas. Vingança para ele é algo pessoal e isso jamais vai mudar. Quanto mais vontade de ver aquela pessoa morta tinha, mais desejo de estar presente em sua contenda ficava. O que eu não entendia a partir dali era aquele fascínio dele em procurar um caçador de veados e sua esposa roceira pelo Oeste inteiro em busca de uma rincha mal explicada.
— O fato dela, supostamente, ter assassinado um dos homens dele pode ter sido um motivo plausível. — comentou, embora tão pouco acreditasse que tudo aquilo fosse por vingança também.
— Àquele homem não se importa tanto assim com os seus. Jamais deslocaria tantos capangas se não houvesse algo mais. Além disso, tinha uma urgência avassaladora de ir para o Leste... Por que? Por que? Eu fiquei me perguntando. Tinha algo estranho ali.
— Então, na sua opinião, estão querendo calar os Krum?
— E na sua também! — exclamou Draco, apontando o dedo desafiadoramente. — Eu sei que é esperto Weasley. Conhece a mente de metade dos bandidos psicopatas desse país. Tenho certeza que tal ideia já lhe passou.
Rony não argumentou nada.
— Bem... Eu precisava iniciar a investigação da origem. Fui procurar mais sobre a noite que Vitor Krum fora baleado. Através de conhecidos, pegando uma informação ali, outra aqui, me deparei com algo muito sinistro. Para resumir, sei que Austin encontrou-se com dois figurões completamente ligados ao trem de arrecadação.
O ruivo tentou não parecer espantado, para não dar o gostinho de vitória ao antigo inimigo, mas a verdade era que estava a ponto de explodir por dentro.
— Isso ainda não quer dizer muita coisa. — disfarçou.
— Não? Tudo bem, eu tenho mais. Durante esses cinco anos houve estranhos pedidos para a reparação dos trilhos nas cordilheiras de Ampares. Àquele lugar que nunca vingou por ser um fim do mundo, que nunca ergueria uma cidade ou nada parecido! Para completar, o trem está há três dias atrasado em Passadino, o seu habitual e seguro destino, com escolta e supervisão do governo.
— O trem está... desaparecido?
— Um trem não desaparece, ele segue nos trilhos, para algum lugar. Adiante... para Ampares.
— Estão levando Hermione para lá?
— Acredito que sim. Para a estação inacabada. O local do roubo.
— Isso é corrupção. Como Arnie conseguiria persuadir tanta gente assim?
— Daí voltamos ao início da conversa. Não falamos no Arnie que nasceu e se criou aqui, nos Estados Unidos. Um cara violento e assassino, mas também um bronco burro, sem qualquer habilidade política. O sujeito com o qual andei todos esses anos não é o mesmo que as pessoas conheciam há dez anos.
— No sentido figurado?
— Não! No sentido literal! Alguém apossou-se da identidade do antigo pistoleiro, assumiu-a durante muitos anos, não é possível saber quantos, e começou seu plano. Primeiro deve ter calado todos os mais próximos, ou quase todos que conheciam a face do original. Depois continuou com a fama, o que implicou em novos retratos falados, mas ele talvez não se importe porque tem outro nome, pelo qual seus verdadeiros conterrâneos o conhecem. E, por ser inteligente, certamente com estudo, conseguiu, eu não sei como, ter acesso aos homens certos para levar esse grande assalto adiante.
— Como pode dizer essas coisas?!
— Weasley, merda! Eu tive a confirmação do próprio homem que treinou Arnie Austin de que o cara por aí não é o mesmo desdentado salivando demência que ele ensinou!!!
Rony respirou fundo e levantou bruscamente. Estava ficando agitado demais, precisava dar movimento as pernas e decidir se acreditava naquela história ou não. Assustadoramente, todos os argumentos de Malfoy tinham lógica.
— De onde esse infiltrado pode ser? Americano?
— Temo que não. Ele me parece europeu demais, não sei como nunca percebi.
— Por que devo confiar na sua palavra? Você chegou apenas alguns minutos depois que os capangas dele foram embora.
— Eles estavam me seguindo também. Dois. O maldito já desconfiava de mim. Eu os matei porque tenho certeza que o fariam em algum momento. Como posso defender um sujeito que busca me apunhalar?
— Isso não prova nada. Eu também fiz por onde você ter ódio de mim!
— Sabe, Weasley, ao contrário do que dizem, a vingança é plena sim, mas no meu caso, ela só pode ser direcionada a um de cada vez. Quero, mais que tudo, destruir os planos de anos, que o Arnie Austin que eu conheci forjou para si. Fui testemunha das vidas que ele destruiu no percurso e isso o torna bem mais canalha do que um miserável caçador de recompensas. Porém, admito que sozinho não conseguirei realizar meu sonho. Muitos pistoleiros devem estar escoltando-o, e preciso de uma mira profissional do meu lado. Sei que não está na melhor forma, acabei de descobrir isso, o que me deixou um pouco frustrado, mas como alguém que já foi nocauteado com um tiro no ombro tenho esperança sobre isso. — àquela última frase foi uma indireta pelos velhos tempos, quando Rony acertou Draco, incapacitando sua coordenação no disparo por meses — Preciso de você, Weasley, e sei que precisa de mim... Ouvi dizer, quando estive em Rocky Deep, que a tal esposa do Krum já foi sua um dia. Então, como vai ser? Minha arma já está carregada.
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