Black Jack

21 Onde Tudo Termina


Notas iniciais
É isso aí pessoal! Não estamos no fim, mas muito perto dele agora. Aqui teremos as respostas a todos os mistérios da fanfic, inclusive alguns que vocês já estavam desesperados para saber. E me perdoem, mas não consegui dividir esse capítulo. Ele tá grande, tá monstruoso. Em compensação, semana que vem não teremos Black Jack, mas somente na próxima, ok?! Um capítulo que vale por dois! kkkkk Enfim, uma ótima leitura. Beijão!

O raiar dos justos e injustos cobriu as estradas frias do Leste, aquecendo as árvores silvestres e o desejo de revanche nos espíritos de Weasley e Malfoy. Cervos corriam em debandada para longe da trilha principal ao ouvir os galopes velozes racharem o chão flocoso. Os dois homens avançavam com firmeza sobre o lombo dos cavalos. O primeiro ainda não confiando no segundo e o segundo temendo que algo naquela investida surpresa desse errado. Entretanto suas obstinações, a mira de seus revolveres prontos para selar um destino a cada disparo, estavam em completa harmonia. Antes do fim do dia eles alcançariam Ampares e fariam a desforra merecida a Arnie Austin e seu bando.

Cenas fragmentadas dos dias que lhe foram concedidos ao lado de Hermione aboletavam os pensamentos do mercenário como abelhas em torno de uma colmeia. O primeiro reencontro e o choque instantâneo como se o tempo não tivesse passado um milésimo de segundo desde a última vez que lhe pusera os olhos na tenra idade. A dificuldade mórbida em debater-se sobre o desejo de beijá-la transpondo as terríveis barreiras criadas por mentes orgulhosas. A conclusão tardia do sonho eterno de possuí-la. A realidade em brasas derretendo pela sua consciência e afogando-se na culpa dos erros que não voltavam para serem consertados.

Tudo isso vinha consumindo Rony avassaladoramente e lhe dando mais gana em seu objetivo. Se perdesse ela agora, tão ou mais estupidamente como no passado, ele estaria acabado.

Obstinado, apaixonado, indômito, valente, mercenário. Não importaria. Nenhuma dessas classificações seria o bastante para lhe atribuir valores se não pudesse proteger seu amor.

***

Um chão mofado, úmido, gelado e duro de madeira fora sua suíte na noite anterior. Ela não pregara os olhos. Embora fizesse mais de um dia que Hermione não dormia, seu corpo estava mais alerta do que nunca. Observou filetes de uma nova manhã penetrar pelas frestas da janela pregada por tábuas e pressentiu surpresas desagradáveis se avolumando.

Por enquanto, o pior de tudo estava sendo encarar o frio. O Leste. Nunca estivera tão dentro dele. Sentia como se gotículas microscópicas de geada adentrassem encavando sua pele e congelassem suas células. Os dedos das unhas pareciam levemente arroxeados e os lábios eram ásperos e doloridos quando pincelados pela ponta da língua. A cada hora ficava um pouco mais lento raciocinar, mas ela tinha de manter a vigília. O senso de sobrevivência e, sobretudo, de vingança eram aliados poderosos dentro da mente dela.

Tudo a sua volta lhe causava temor, mas também chamava a atenção. Ampares era uma rotunda desmatada, circundada por uma floresta sombria por onde passava um cemitério ferroviário. Construções de madeira abandonadas, incluindo uma estação de trem, se transformaram em abrigo para as dezenas de capangas.
Assim, permaneceu o tempo todo amarrada, pulsos e tornozelos em carne viva, tendo a desoladora companhia de um cômodo obscuro e gelado. De repente a porta se abriu e, por instinto, ela encolheu-se na parede. Um homem que nunca havia visto pessoalmente adentrou. Suas feições eram ímpares a qualquer um dos capangas que haviam lhe tratado até então. Algo aristocrata, traços finos e imperiais, nada parecido com alguém enraizado na rusticidade do Oeste. Estava bem trajado para o tempo e exibia um cinto abastado de munição, além de duas belas pistolas reluzentes.

A cabeça erguida com o maxilar projetado para frente trazia a alma de um líder naquela personalidade. Lentamente seus olhos cinzentos repousaram nos de Hermione, que não os desviou, e um estranho sorriso ele esboçou.


— Não queria que as coisas chegassem a esse ponto. — disse ficando agachado com os olhos paralelos ao dela.

— Arnie Austin. — resfolegou a morena proferindo seu nome macerada de rancor.

— Meu fraco sempre foi às mulheres, especialmente as bonitas. E eu me pergunto, por quê? Por que tivemos que trazer a Sra. Krum até aqui? Nós poderíamos ter resolvido isso rapidamente lá mesmo, no ensolarado Oeste.

— Não me interesso por seu cinismo, seu desgraçado! Fica mais fácil para nós dois se você acabar com minha vida agora, de uma vez, do que perder nosso tempo com qualquer tipo de papo furado.

— As mulheres fortes são ainda mais provocantes. — sorriu. — Eu quero deixá-la viva porque estou cada vez mais convencido de que seu marido morreu antes mesmo das últimas palavras de adeus. Nesse ponto da história, entretanto, essas coisas não terão mais tempo de serem esclarecidas. Contudo, tenho que mantê-la sob minha vista por mais algumas horas sabe, você é meio indomável, garota. Atravessar o país com seu amante me deixou um pouco cauteloso em relação a sua obstinação e eu estou disposto a zelar por sua vida antes que faça algo estúpido.

— Cale a boca, porco assassino! — gritou — Eu vou te matar se conseguir me soltar! Eu vou acabar com você assim que me deixar livre! — a raiva aprisionada por semanas tomou forma.

Arnie gargalhou.

— Tudo bem, pequena... Te vejo quando tudo terminar, ao fim desse dia. E estou pensando em ser generoso, mesmo com todo esse desaforo. Quero lhe abastecer com algum dinheiro para poder pagar o enterro de seu marido dignamente. Ele era apenas um pobre coitado. Ah... Vou providenciar algo para cobrir seus ombros. Está fazendo mais frio do que eu imaginava.

***

Um comboio de metal reclamava nas curvas brandas sobre as barras de aço enferrujadas. Os seis vagões rangiam pelos trilhos a uma velocidade monótona e constante. A grande revolução do velho e do novo mundo.

Nascido no berço oriental de todas as engenhocas, logo foi adaptado, alongado, expandido como um transporte dotado das vantagens de não perder o fôlego ou desgastar a vida. Levava pessoas e carga de um ponto a outro não importava a distância, apenas a quantidade de carvão disponível.

O trem não estava com os seus habituais doze contêineres proposto de pelo governo, mas o conteúdo em seu interior era o mais valioso já transportado nos últimos cinco anos.

Na dianteira da locomotiva estava um condutor, não um qualquer, mas um delegado treinado para o maquinismo. Um ajudante com patente experiente lhe fornecia os minérios para alimentar a máquina. Seis oficiais extraordinários, com distintivos polidos em flanela limpa, fechavam o batalhão disfarçado vindo de Harrysonberg.

Vinham sacolejando entre a carga, vigiando os vagões traseiros com pistolas ao alcance das mãos, alertas a qualquer movimento estranho nas planícies cada vez mais frias. Tudo era tão tranquilo que se permitiram dividir uma meia garrafa de aguardente para ajudar com a baixa temperatura.

Na cabine, o delegado lutou contra a vontade de bater a cabeça de cada um dos seus ajudantes contra as paredes de lata dos vagões. Era erroneamente arbitrária essa emenda, ou falta dela, que permitia oficiais beberem uísque em plena atividade. Seu ajudante mais próximo, oficial Haser, pelo menos procurava manter-se cativo quando sob as vistas de seu superior, mas isso não queria dizer que se manteria suportável.

— Meu irmão falou muito do senhor, Sr. Snape. Contou dos seus feitos na polícia de Harrysonberg. Como foi que conseguiu desmascarar e desbancar aquele juiz no caso de tráfego de escravos para Minessotta? Ele...

— Calado. — sua voz sibilante exigiu.

Severo Snape estava com o pior dos seus humores naquele dia. Não bastasse os homens que lhe foram selecionados à tarefa cheia de responsabilidade delegada, ainda tentava se adaptar as roupas simplórias de um homem voltado para a arte de conduzir trens. O disfarce era bizarro para alguém cuja vida modelar sempre fora uma faceta de capa e chapéu negros. Snape acreditava que a cor que você escolhia para vestir dizia muito sobre sua personalidade e suas intenções, e o negro, em especial, intimidava quem o conhecesse, pois deixava dúbio que ele poderia ou não ser libertino, confiável, dissimulado, frágil, perverso. Mesmo dentro da lei, entre outros delegados e xerifes, essa hierarquia tinha que ficar subentendida.

Naquele ano fora escolhido que ele transportaria o valioso dinheiro do governo. Sua opinião sobre todo o esquema ele deixara lúcida ao superintendente mais próximo do alto escalão: uma estupidez sem tamanho conduzir um valor tão grande de uma vez. Mas já que fora selecionado para estar no comando, faria sua parte com aplicabilidade e sem nenhum falatório desnecessário.

O sol era do meio dia quando algo finalmente abalou o até então pacífico transporte do tesouro. Fora onde os trilhos percorriam uma ponte estreita que Snape avistou um desarranjo propenso a virar catástrofe. Havia uma carroça, daquelas rurais, madeira podre e suja de esterco, carcaça de metal enferrujado, projetada completamente na saída da ponte. Bloqueando o caminho.

— Mas o que significa isso agora? — comentou Hasen, soltando o carvão que trazia e sacudindo as mãos.

Snape forçou a vista e divisou uma dama acenando freneticamente na frente da carroça. Estava sozinha e uma das rodas o veículo jazia deitada há alguns metros de distância.

— Bela sorte a nossa! A carroça da mulher vai arrebentar a roda bem na saída da ponte!!! — praguejou o inexperiente ajudante.

— É óbvio que não. Estão tentando nos parar. Ponha mais carvão. Temos que fazer essa coisa acelerar.

— Co- como? — Hasen parecia atordoado.

Sem experiência e covarde. Bela equipe lhe fora confiada.

Os olhos treinados de Snape haviam notado o cabelo desgrenhado, as roupas velhas e espalhafatosas demais, além de cinco montarias nas moitas adiante.

— É uma prostituta!

Snape deixou Hasen sozinho na cabine e correu para avisar os demais. Dois oficiais dividiam o fundo da garrafa de uísque. Três, no terceiro vagão, conversavam sem nem ao menos olhar na direção da trilha.

— Estamos sendo atacados! — berrou o delegado.

Como uma trupe de amadores, os homens levantaram e ficaram um tempo desnorteados até decidir que ação tomar. Snape correu para o último vagão, que não havia muita coisa, e abriu a porta corrediça ordenando que metade deles ficasse de prontidão e alertas para dispararem em quem se aproximasse.

No fim, eram poucos soldados como ele previra. Haviam justificado o pequeno batalhão numa forma de disfarce, mas o bom senso do delegado sempre se sobressaia à burrice burocrática.

Mesmo eles não parando, a máquina era lerda demais para vencer cinco cavalos bem descansados. A dianteira do trem espatifou a carroça em mil pedaços e seguiu. A troca de tiros se iniciou e os saqueadores vieram preparados com armas potentes e munição infinita. De repente, mesmo diante da pontaria cheia de perícia do delegado Severo, uma comitiva incontrolável de dez homens brotou de todos os cantos da planície.

Estavam cercados.

***

Arnie Austin foi para uma colina visualizar seus milhões chegando. Fazia dois dias que voltara a dormir com um sorriso no rosto: Krum, o possível problema que o atormentou por semanas, já estava controlado. Agora aprendera a lição, toda a experiência era um aprendizado, de que pior do que um bêbado irracional haveria de ser sua esposa vingativa.

O bandido almejava ansioso despir a capa empoeirada do Novo Mundo e regressar para o continente maculado da sujeira, da miséria. A gloriosa Europa, que era seu verdadeiro sangue. Sonhava feito um menino divagando sobre presentes infantis o dia em que se afundaria numa jacuzzi britânica onde a água era cristalina e não carregada dos grãos secos do deserto. Voltaria a sentir o aroma das flores depois do banho.

Com dinheiro o poder viria, pois somente aqueles bem afortunados financeiramente aproveitavam tudo de bom que o Velho Mundo tinha para oferecer e, então, automaticamente, sua alma o perdoaria, o sangue de anos que carregara nas mãos se lavaria porque tudo pertenceria ao passado. Com o tempo, certamente poderia nem mais ser real aquela louca estada na América. E agora era uma questão de horas...

Alguém veio de encontro a ele no cume. Ela. Sua fiel cúmplice. A mulher que o inserira naquela equação milionária e que não pudera mais voltar atrás, como ele.

— Depois de tantos anos estamos perto do fim. — Arnie relembrou.

— E Hermione?

— Tudo ficará bem com sua protegida. Eu prometi, eu cumpro.

— Quase nenhuma promessa que você me fez antes de tudo isso se consolidou. — disse a mulher com amargura.

— Não se mantém um disfarce apenas com nome, você sabe muito bem disso! Não quero ficar discutindo hipocrisia aqui, na reta final... Por favor... — ele parecia exausto.

Ela também se sentia, pelo menos, quinze anos mais velha do que já era. O tempo era um amigo aguardado ansiosamente pelos jovens e um carrasco voraz quando a maioria das experiências se tornavam tolas.

— Só quero que a garota se mantenha bem. Fiquei sabendo que ela passou a noite sem nenhuma manta.

— Por que não foi vê-la se está tão preocupada?

— Você sabe. Ela não precisa saber. Preciso disso para não ficar com a consciência tão pesada.

— Pessoas como nós não tem mais consciência.


***

O terreno tornou-se abruptamente mais inclinado. A distância entre as árvores diminuíam e a trilha á cavalo ia transformando-se num caminho selvagem e inviável. Draco desceu de seu tordilho provisório e deu dois tapinhas no lombo do animal. Lentamente o grande herbívoro afastou-se.

— Desça do seu também, Weasley. Não poderemos subir com eles. Os cascos não aguentam.

Rony deslizou da cela, mas continuou segurando o cabresto. Os ossos iam congelando dentro da carne e as botinas afundando na neve.

— Vamos virar dois esquifes de gelo sem essas éguas.

— Elas não vão durar muito se forçarmos. Além do mais, Ampares é logo subindo esse cume. Posso escutar os desgraçados suspirando, você não?

O mercenário dispensou seu transporte e tentou concentrar-se em algo que não fosse o frio. As copas eram altas, o vento uma foice invisível transpassando-o de cima abaixo e a natureza, misteriosa. Estava enraizado nos desertos do Arizona à Wyoming, à sua flora rústica, sua fauna esguia, à força do sol constante. Estar num novo clima o fazia sentir um pouco desnorteado.

— Que som é esse?

— Eles devem estar se movimentando em algum lugar atrás do cume. Ampares é uma ampla área desmatada, você sentirá o choque visual quando terminarmos de subir.

— Não me parece isso... — Rony começou a sussurrar.

Draco, que havia afofado os pés em dois lances de terreno acima, deixou-se deslizar lentamente para baixo. Os homens se dispuseram a escutar. O ruído era constante e parecia estar vindo de todos os lados, reverberando pelos troncos e camuflando-se na sua origem.

— Me parece alguém arfando. — concluiu o ruivo tocando no cabo de sua arma.

— Não é alguém... É alguma coisa!

Nem três segundos foi o tempo que separou a exclamação perplexa de Malfoy do baque violento chocando-se contra seus corpos. Bala na Mira caiu sobre o mercenário batendo a cabeça em seu queixo. Rony mordeu a língua engolindo um pouco de sangue enquanto suas pernas pareciam as de duas marionetes desgovernadas lançadas ao ar repetidas vezes.

A gravidade sumiu de súbito. Não havia apoio que brecasse os pistoleiros das repetidas cambalhotas ribanceira abaixo. Gravetos vieram contra o rosto, flocos de neve sufocaram-nos repetidas vezes até que, de repente, as costas do ruivo se apoiaram de forma nada gentil contra um maciço tronco de abeto.

Tentou abrir os olhos. Tudo rodava dentro dele. Estava muito tonto. Tocou o rosto e viu que o sangue escorria por algum orifício, possivelmente a boca... ou nariz...

— O que... — buscou a fala. Viu um borrão ao lado. Parecia Malfoy e seu corpo esguio se contorcendo em dor.

Foi então que uma imponente sombra ergueu-se diante dele. Aquilo tinha peso, solidez bruta e um hálito dantesco. Quando Rony conseguiu focalizar o que estava adiante, deparou-se com os maiores caninos já vistos.

— Filho da puta! — esbravejou Bala na Mira ao lado, acertando um tiro por cima do lombo do animal.

Isso enfureceu o imenso carnívoro. Ergueu uma tonelada de fera sobre as patas traseiras e utilizou as dianteiras para mirar no ruivo. Ligeiro, o mercenário desviou numa meia cambalhota à esquerda e sentiu o ar deslocando-se involuntariamente no próximo alvo atrás dele: uma árvore. O vegetal lenhoso tombou derrotado, mas não fez diminuir a fúria do urso.

O rugido frustrado fez o sangue do mercenário enrijecer. Ele procurou por sua arma, mas tudo que pegou foi um coldre vazio. Ótimo, perdera sua única defesa na queda pela ribanceira.

Draco arriscou mais uma bala de seu revolver não perdido, essa, perfurando a barriga do urso. Os respingos alcançaram o rosto do ruivo, que estava do outro lado, e novamente trouxeram toda a retaliação para si. Como reflexo, quem levou uma colossal patada foi ele. Novamente experimentou a ausência de gravidade voando três metros de distância. A neve amorteceu sua queda. Zonzo, acabou fechando os olhos.

Bala na Mira ignorou o talho que abrira em sua testa na descida frenética de seus corpos. Dois tiros e nada do urso cair. Agora, mesmo sangrando horrores, ele ainda avançava para o mercenário desacordado.

Isso era uma espécie de iniciação no Leste para seu parceiro? Essa obstinação desse animal?

Primeiro fazendo boliche deles mais acima, agora querendo aniquilar Weasley de todas as formas. Draco já enfrentara um daqueles e sabia que quando eles ficavam como bestas descontroladas não havia muito mais a fazer. Pegou o tronco mais afiado e manipulável que estava à mão e correu de encontro ao abdômen do urso.

Num segundo, tudo estava acabado.

— Ei, ei!

Rony acordou com tapas frenéticos contra o rosto. Bala na Mira surgiu em foco.

— O que houve? — sentou-se zonzo. Continuavam naquele clima oprimente de neve.

— Obstáculos, Weasley. — Draco estava sério e com um corte feio na testa.

— Aquilo é o que estou pensando que é? — perguntou o ruivo apontando para um corpanzil castanho e peludo deitado sobre uma auréola de sangue.

— Um urso pardo. Um brilhante caçador de mais de meia tonelada irritado e descontrolado. Os atrativos do Leste.

— Você o matou?

— Sim... — Malfoy caminhou chateado até o cadáver do urso. — Bom, perdemos um bom tempo aqui. Achei que sua batida na cabeça foi séria, você não acordava.

— Muito tempo? Como assim? — Rony levantou-se de abrupto, ficou um pouco tonto no percurso, tendo que apoiar as mãos na perna para não se desequilibrar.

— Vai com calma, Romeu. Aqui está sua arma. — Ele pegou da mão de Draco e conferiu para ver seu estado.

— Vamos, precisamos resgatar a Hermione!

— Eu acabei de subir. O trem está chegando agora, pode escutar? — O mercenário apurou os ouvidos e escutou silvos do comboio ao longe. — Estão todos polvorosos ali embaixo. Que tal esperarmos a locomotiva parar? Podemos contorna-la... Algo do tipo.

— Algo do tipo? Precisamos de muito mais do que “algo do tipo”.

Draco revirou os olhos enquanto o outro lhe virara as costas e enfiava os calcanhares ladeira acima. Acompanhou-o até o topo e, mesmo mesclados à floresta, deitaram de peito contra a neve a fim de não correr riscos.

Ronald deu ‘olá’ a uma imensa área desmatada. Troncos de diâmetros variados, cortados rente ao chão, salpicavam o solo vazio. A floresta cercava em volta parecendo irada com o espaço aberto no resultado do genocídio de suas irmãs. No oeste surgia entre as árvores inteiras uma trilha de ferro que cortava toda a abóboda para então ser engolida novamente pelo verde, ao leste. No centro, dois edifícios elevavam-se: A Estação de Ampares, agora, minada de homens de Arnie esperando pelo trem e um complexo retangular de janelas tampadas que deveria ser uma espécie de hospedaria construída no propósito de apoio aos viajantes, mas agora completamente desativada.

— Hermione deve estar em algum lugar da antiga hospedaria.

— Você viu Arnie?

— Quem é?

— Aquele ali, alto, capa escura e botas lustrosas.

Rony controlou a vontade de pegar sua pistola e disparar contra a cara do maldito dali mesmo. Primeiro, porque estragaria todo o plano sorrateiro, depois, porque não vinha confiando tanto assim em sua pontaria à longa distância depois do tiro no braço.

— Ele é diferente. Meio destoante dos seus capangas.

— História estranha. Como podemos tirar o sorriso do bastardo então, Weasley? Qual sua ideia?

— Eu vou atrás da Hermione. Tenho certeza que ela deve estar sendo refém na hospedaria. — pelo menos era esse otimismo que Rony preferia manter.

Calaram-se por um tempo. Logo o trem adentrou pelo oeste farfalhando um bocado de árvores. A natureza vinha tentando fechar a trilha inutilizada.

O comboio parou fazendo um barulho estrondoso. Qualquer urso estaria correndo quilômetros de distância dali agora. A movimentação começou lá embaixo.

— Agora a coisa vai ficar mais complicada, hã? Mais homens de Austin... — refletiu o ruivo imaginando quantos aliados do bandido desceriam dos conveses.

— O que será que eles fizeram com os oficiais que deveriam estar levando a carga?

— Mortos? Traidores? Quantas opções você quer? — Respondeu Rony irritado.

— Otimismo, mercenário. — disse Draco levantando-se — Olhe, eu tenho um plano.

Rony ficou de pé e o esperou falar.

— Eu vou em direção ao trem, estou com um pressentimento quanto a isto... De qualquer forma, os caras lá dentro vão estar relaxados ou ocupados com o descarregamento da carga. Posso chegar sorrateiramente. Você desconfia que a mulher do Krum esteja na antiga construção, correto?

— Hermione está lá, tenho certeza!

— Ok. Vamos contornar o perímetro por caminhos opostos então. Matamos quem conseguirmos sem fazer ruído e tentamos nos encontrar novamente depois e... Boa sorte...

— Sim, acho que vamos precisar.

— Foi uma experiência diferente trabalhar do seu lado, Weasley.

— O mesmo, Malfoy. Boa sorte.

E partiram para executarem seus planos.

***

Suas armas eram suas amigas, e seu jeito gatuno de se mover, seu aliado mais valioso. Draco segurou uma das pistolas e desceu o barranco na direção da abóboda desmatada por um ângulo onde não pudesse existir possíveis expectadores. Por cima do ombro viu um vulto vermelho, equivalente aos cabelos do parceiro, correr pela orla até ser perdido de vista. No fundo apreciara a companhia do homem que uma vez lhe trancafiara numa prisão.

Alcançou os últimos vagões arfando pesadamente. Qualquer erro, um passo mais forte, poderia delata-lo e aniquila-lo. Era seu dia, seu tudo ou seu nada. Fatigado de ser um joguete amedrontado nas mãos de Arnie Austin, ainda por cima, um impostor sem pátria conhecida, detinha em suas mãos a chance de entornar o caldo na direção contrária... E ele esperava que o líquido estivesse fervendo, que queimasse e deixasse marcas eternas na vida daquele homem. Não era justo, agora que estava tudo nos trilhos, ele aparecer, ameaça-lo, acuá-lo.

A risada era pesada do outro lado dos conveses. Estavam começando a abrir os primeiros carregamentos. Draco correu na ponta dos pés até o último vagão.

— Andem! Preciso ver a cor do meu dinheiro! — ria Austin aos seus serviçais.

Bala na Mira congelou momentaneamente pela voz tão próxima do inimigo. Então, retomou o fôlego e chegou até seu destino, o último vagão, o mais isolado. Tinha que ser rápido e torcer para que seu palpite sobre os oficiais estivesse certo. Esperou o som da pesada porta coincidir com o deslize da dos vagões da frente e rolou os dados da sorte.

Magicamente, ele viu-se vencedor de uma partida acirrada de pôquer. Oito cabeças viraram instantaneamente em sua direção. Todos homens, amarrados e amordaçados, esperando o destino, ou Austin, fazer o que bem entendesse. Os homens da lei. Entre eles, e Draco sentiu um leve temor quando o viu, estava o delegado Severo Snape e seus olhos negros.

O ódio dissipou dos olhos dele, dando lugar a confusão e depois a surpresa assim que Bala na Mira começou a desamarrá-lo.

A vida às vezes trazia soluções malucas.

***

Arnie viu as barras de ouro, pesadas e grossas, reluzirem diante de seus olhos e descobriu que todos os crimes que fizera em nome daquela lenda bruta valeram a pena, cada gota de sangue, inocente ou não.

Sua passagem para Inglaterra, uma legítima civilização, estava ansiosa esperando o retorno do filho pródigo. Deixara amigos para trás e um modo de vida prazeroso. Sacrificara-se.

Entrementes, seria generoso ao sentir o doce sabor do resultado final. Doaria algumas centenas, quem sabe um pouco menos, para caridade e compensaria perante todas as coisas do universo com poder de julgar o bem e o mal, a selvageria do seu disfarce.

— Senhor... Ainda há algo que queremos lhe mostrar. Não sabíamos exatamente como lidar... Tivemos medo de levantar suspeitas.

— O que é? — Austin não desgrudava os olhos no metal dourado. Tinha uma textura fascinante, uma refulgência hipnotizante.

— Os oficiais...

— Como assim? — pensou na beleza daquele metal derretido transformado em centenas de moedas de ouro puro.

Seus homens começaram a gaguejar, havia algo errado. Ele repousou o tesouro e mirou-lhes duramente.

— Os oficiais que... Que protegiam a carga. Nós os amordaçamos e colocamos no último vagão.

Incompetência: A marca registrada de seus homens.

— Eu disse para se livrarem deles! — berrou Arnie sacando o revolver. — Me leve lá, imbecis. Eu mesmo dou cabo desses cretinos.

Porém, assim que abriram as portas, no vagão encontraram apenas mordaças pelo chão e o vazio pessimista.

— Cadê? — rosnou sentindo abalos sísmicos em seu plano.

— Eles, eles... Nós os colocamos aqui e as armas estavam ali no canto.

Arnie fechou a mão num acesso de raiva, mas não teve muito tempo de descontar nos incompetentes que lhe serviam. Agora, precisava deles mais do que nunca.

Uma saraivada de tiros começou do outro extremo, ao leste, e diversos do seu bando caíram ao serem atingidos desprevenidos. Arnie semicerrou os olhos e divisou Malfoy, o filho da puta bastardo, entre mais de meia dúzia de homens de porte militar.

Devia ter matado aquele bandidinho quando teve a chance!

Entre o ódio e a frustração, só uma coisa lhe veio à cabeça. Alguém que poderia lhe dar cobertura para sair dali e talvez se dar bem...

ELE TINHA QUE SE DAR BEM.


***

O mercenário cerrou os dentes de raiva. Viu seu primeiro alvo vulnerável e pensou nele como alguém que pudesse ter machucado Hermione de alguma forma. Era um rapaz de porte mediano, magro, corcovas nas bochechas e bem carente de banho. Caminhava de um lado para o outro, na varanda da hospedaria, como um cão cercando seu osso. Todos ali eram culpados da sua agonia, frustração e ódio por não proteger à morena integralmente. Precisava pensar daquele modo para ser eficaz e silencioso.

Transpassou com cuidado as pernas pela cerca de madeira e entrou no deque também. Agachou-se e usou passos mansos até estar a um passo do sujeito, agora virado na direção da estação. Então, num movimento ligeiro, atacou de forma silenciosa. Agarrou-o e lhe estrangulou na curva do seu braço.

Foi quando escutou disparos. Uma rajada deles.

Caiu no chão e sacou o revolver, mas percebeu que tudo estava tranquilo para ele. O tiroteio vinha da direção do trem e podia se ouvir muitas das balas ricocheteando nos vagões de metal. Logo viu mais homens de Arnie correrem de dentro da construção que almejava invadir para o foco do duelo e descobriu surpreendido o motivo de tanto alvoroço.

Mais ao alto, ao leste, fitou o pálido parceiro daquela empreitada lado a lado com nada menos que Severo Snape, o delegado mais antipático e sisudo com quem já acertara o preço por uma cabeça procurada, mas também mais rigoroso com a bandidagem que ele já conhecera. Como tudo aquilo estava acontecendo, como aquele golpe de sorte os atingiu, o ruivo não quis parar para raciocinar. Agora estava próximo de Hermione e a prioridade era ela, como sempre fora.

Ergueu-se do chão, o foco das atenções não era a hospedaria, e prosseguiu mais confiante. De repente alguém vinha correndo na direção oposta ao tiroteio e entrando no outro extremo da construção.

Arnie Austin!

Seu coração pulsou raivoso. Era atrás daquele assassino que ele iria. Onde ele estivesse, Hermione estava sendo feita de refém, não havia dúvidas.

Antes que desse dois passos, entretanto, uma voz o fez regressar.

— Solte a arma, Ronald. Ponha-a no chão devagar, por favor.

Naturalmente, e no estado de nervos em que estava, o ruivo simplesmente confiaria na sorte, viraria rápido e dispararia contra quem estivesse tentando para-lo. Mas foi uma voz indistinguível, rouca e melodiosa, que escutara por tantos e tantos anos que o fez obedecer.

— Diga que você tem um bom motivo para estar aqui? — pediu o mercenário ao encarar a pessoa cara a cara.

— Nós dois sabemos que não. — respondeu Narcisa Black, a dona do Saloom Black.

— Narcisa...

A mulher para quem prestara serviços de proteção por um longo tempo vinha choca-lo naquela revelação. Usava um vestido roxo e um chapéu de pena de corvo. Luvas de cetim e botas de couro completavam seu vestuário. Estava mais maquiada e arrumada do que de costume, mas sobrecarregada de uma infelicidade visível até ao mais distraído dos homens.

— Eu não queria que acabássemos nesta situação. Não era nem para você me ver. — disse a mulher com arma em riste.

— Por quê?

— Dinheiro... Poder... — começou a dizer, então brecou-se como se estivesse numa auto repreensão e reformulou seus questionamentos — Medo da solidão.

— Quem é ele? — era a pergunta mais importante de todas.

— Um golpista charmoso, lindo e ordinário por quem me apaixonei há anos no Velho Mundo. — lamentou sem deixar de mirar nele.

A aquela distância, Narcisa o acertaria sem precisar de experiência no tiro ao alvo.

— Planejaram isso juntos?

— Matamos Arnie Austin, sabe... O verdadeiro. Tivemos que fazer para poder assumir esse disfarce. Fizemos um bem no fim das contas. Tiramos a escória do mundo...

— E se transformaram nela. — completou o ruivo.

— Talvez... Não sei mais o que é o certo e errado.

O grito de Hermione ecoou de algum lugar de dentro da construção. Rony tencionou correr na direção de seus lamentos, mas Narcisa fechou o cerco destravando o gatilho.

— Narcisa, preciso ir. — pediu clemência com os olhos azuis.

— Acho que meus sonhos eram somente pesadelos mascarados. — ela disse para si mesma, deixando lágrimas ácidas rolarem por suas bochechas maquiadas.

— Hermione. Eu preciso salvá-la. Deixe-me ir! — Rony estava perdendo a paciência.

— Você a ama, não? Porque nos olhos dela isso já está mais do que evidente. Tão límpido quanto um mergulho numa cachoeira cristalina. Idiota! Sempre foi uma criança idiota, Weasley. Mostre suas cartas então e tente somar um vinte e um ao menos uma vez, garoto tolo.

E assim Narcisa abaixou o revolver.

Ainda desnorteado, uma revelação maciça, Rony pegou sua arma no chão e começou a correr. Assustou-se segundos depois ao ouvir um disparo da arma que até poucos minutos estava apontada para seu peito. Não olhou para trás para confirmar. Tinha uma imagem especial de Narcisa Black dentro de sua mente e de seu coração. Queria mantê-la única.


***

O rosto demente de Arnie Austin despontou na porta do cômodo. Hermione, que já estava alerta com os tiros ecoando do lado de fora, comprimiu o corpo contra a parede e mirou-o. Algo havia dado muito errado para aquele assassino famigerado, supôs. Sua aura de fúria aboletou-se do ambiente e a morena sentiu medo de verdade ali. Um medo semelhante ao daquela noite em que teve de proteger a Vitor e a si mesma.

— Porque será que eu desconfio que você esteja por trás disso tudo, sua cadela?! — ele gritou.

Ela trincou os dentes de raiva. Só queria poder estar sem as amarras nas mãos e nos pés para ataca-lo.

— Acha mesmo que pode me vencer? ACHA MESMO? — e então ele apontou-lhe sua pistola. Austin tirou um canivete do bolso e jogou sobre o colo dela.

— Desamarre esses tornozelos, meus planos mudaram.

Com a lâmina do canivete e utilizando as mãos atadas pelos pulsos, cerrou as cordas que sufocavam os pés.

— Agora larga isso! — ele berrou ameaçando-lhe com a arma e não dando tempo dela soltar as mãos também. Só lhe interessava seus pés livres para caminharem.

Foi então que ela tentou testar sua sorte. Pôs-se de pé num salto e driblou o corpo dele, na esperança de escapar pela porta aberta.

— Vem aqui, você é minha garantia! — agarrou-a pelos cabelos.

Seus músculos, que andavam fracos pelo frio, rodopiaram para os braços dele. Soltou uma exclamação de dor pelo puxão no cabelo e entrou numa tormenta de sofreguidão respiratória quando tornou-se rendida na apertada chave de braço do homem.

Ela resistiu, debateu as pernas livres e foi esbofeteada no rosto por isso.

— Desgr- çado... — reclamou, quase sufocando.

— Posso e vou enfiar uma bala na sua testa, cretina! — ameaçou-a — Vem comigo quieta ou prepare-se para decorar o chão desse cômodo com seus miolos.

Os dois começaram a correr para fora do cômodo. Hermione sendo arrastada e sufocada cada vez mais. Com a visão ligeiramente turva, viu de relance o vulto do que era um imenso trem, mas cada vez que Arnie apertava mais os músculos contra seu pescoço, a imobilização parecia querer leva-la de Ampares para um buraco inconsciente. Tinha ódio e determinação, porém nenhuma força física. Seu porte esbelto favorecia plenamente o inimigo.

Estavam começando a deixar a hospedaria, alcançando o terreno coberto pela neve, quando uma voz a fez ter um filete de consciência.

— Solta ela ou estouro seus miolos agora!

Arnie Austin recuou e voltou à atenção para trás. Hermione conseguiu enxergar a silhueta de Ronald Weasley de pé ao deque. Tentou ter esperança, mas a ideia da peleja lhe deu medo pelo ruivo.

— Você... O amante da Sra. Krum? — debochou Austin. — Narcisa me disse um bocado da sua pessoa. Obrigado por oferecer seus serviços ao Saloom garoto, mas está dispensado.

O aperto no pescoço afrouxou e Hermione conseguiu raciocinar melhor. Percebeu o quão perto suas mãos atadas estavam de uma das pistolas de Austin.

— SOLTA ELA, FILHO DA PUTA! — berrou Rony disparando contra o lendário pistoleiro.

O som foi um estrépito agudo e traiçoeiro. Passou direto pelo alvo, só deixando vestígios de seu impacto pela fumaça branca que levantara do cano da pistola de Weasley. Seu oponente sorriu intacto. Vitorioso.

Ele errada... Depois de tantos anos de experiência e proficiência, errara a uma distância intermediária o único tiro que não podia faltar em seu acervo de premiações.

Hermione encontrou Rony nos olhos, um fitar longo aconteceu entre eles, mesmo se passando segundos no mundo real. Viu seu ex-namorado chocado com o resultado falho e a morte vinda veloz para atropela-lo: agora Arnie que se preparava para atacar e não parecia um tipo feito para errar.

Fora ali que Hermione entendeu seu papel. Não houve tempo para pensar muito mais. Era como se ela só funcionasse sob extrema pressão, quando os homens de seu coração estavam realmente vulneráveis feito garotos órfãos numa estação.

Dois disparos inflados de letalidade cruzaram a cena inesperadamente.

Um corpo ajoelhou-se no chão. Mãos pequenas seguravam a pistola que pertencera a um lendário assassino até poucos segundos atrás. O sangue começou a esvair-se por todos os lados no peito de Austin, e ele parecia horrorizado e confuso por descobrir-se a meio caminho do mundo dos mortos. A arma caiu de sua posse e seus olhos focaram Weasley, o único em seu campo de visão, com um ar de incredulidade.

O fim. Onde tudo terminava.

Rony voltou de seu torpor quando o bandido finalmente caiu morto. Hermione havia pegado a outra arma dele, presa ao cinto, desengatilhado com muita rapidez e disparado a queima roupa, poucos milímetros de distância de seu peito, dois poderosos tiros.

Ele presenciou a morena largar o revolver, tombar de fatiga e cair numa choradeira infantil. Correu para abraça-la com força, desamarrou seus pulsos e sentiu-se finalmente seguro do medo corrosivo de perdê-la para a morte.

***

Sobraram seis criminosos com vida no fim do dia. Nenhum dos homens que acompanhava Severo Snape somava os mortos, e era assim que o rigoroso delegado trabalhava: competência.

A novidade fora o corpo de uma meretriz famosa no Oeste desfigurado por um disparo contra o próprio rosto. O mercenário, Ronald Weasley, porém estava lá para confirmar que se tratava da poderosa Madame Black. Weasley, aliás, era outra aberração naquele cenário capcioso. Por alguns instantes Severo chegou a desconfiar do seu envolvimento no roubo, mas isso foi até ver a Sra. Krum, um assunto que ganhava mais e mais ascensão nos bares de todo país, abraçada à Weasley.

Era uma garota mirrada, semblante arrasado, com a pele e roupas impregnadas de poeira. Estranha fama para alguém tão comum e pequeno. E claro, ele ainda tinha que decidir o que fazer com Malfoy, o bandidinho larápio que salvara sua pele abrindo o vagão para ele e seus homens. Nada pior do que dever favores para criminosos. Porém, já não o via a mais de uma hora, então não teria que prendê-lo. O favor estava saldado.

As perguntas eram diversas e o delegado Snape tinha a impressão que Ronald obtinha as respostas. Enquanto seus homens iam buscar mais ajuda oficial, ele gostou de passar aquele tempo interrogando o Weasley e a Sra. Krum.

— E então, esse Arnie Austin não é o Arnie Austin que todos conhecem?

— Isso. — Ronald confirmou com a cabeça.

Haviam improvisado um cômodo na hospedaria como sala de interrogatório.

— Qual o envolvimento de Vitor Krum nisso tudo? — Hermione ergueu a cabeça apática. Rony respondeu por ela.

— Parece ter havido um mal entendido num bar onde o marido da Sra. Krum estava. Talvez tenha escutado algo que não deveria sobre o plano do assalto ao trem.

— E onde está seu marido, Sra. Krum? — Snape ignorou o mercenário, deixando claro que queria que a mulher respondesse desta vez.

— Da última vez que o vi, quase morto aos cuidados de um amigo.

— Que amigo?

— Ninguém pertinente ao caso. — mentiu a morena com frieza.

— E você, Weasley? Por que a está ajudando?

— Pela recompensa. — ele adiantou-se enfático.

Snape suspirou e ao encarar o rosto dos dois jovens a sua frente percebeu que naquela condição não conseguiria tirar suco de nenhuma laranja esmagada. Ele próprio estava farto daquele longo dia.

— Não achem que estão livres de perguntas. Daqui duas semanas eu os quero em Harrysonberg com todas as respostas para os questionamentos pertinentes a esse caso na ponta da língua.

— Sem problemas! Teremos mesmo que passar lá para pegarmos a recompensa pela captura de Austin. — provocou o ruivo, levantando-se. Snape cerrou os dentes.

— Você sempre vai estar na minha mira, Weasley. Não banque o espertinho comigo.

Quando a dupla saiu, Snape passou as mãos pelos cabelos sebosos e refletiu o quanto tal história daria um livro e muita dor de cabeça.

Traições dentro do próprio governo, um inglês charlatão se passando por um selvagem do Novo Mundo com a ajuda de uma prostituta rainha, uma sequência de fatalidades e um esquema todo debaixo dos narizes das autoridades por anos e anos. Demoraria muitos anos até que o delegado Severo tivesse uma boa noite de sono novamente.

***

— Só Deus sabe o quanto rezei por vocês! — Janete sorriu ao ver Hermione e Ronald entrarem na hospedaria dela e do marido. Estavam magros, cansados e um pouco apáticos. Janete foi até o casal e envolveu-os num abraço triplo. Eles retribuíram. — Eu normalmente gostaria de saber o que houve, mas o que precisam mesmo é de um banho, uma cama e muita, muita comida.

— Obrigada. — a morena agradeceu à senhora emocionada.

Pouco a pouco iam voltando pelo caminho até o Oeste, mas seus corpos urgiam tanto por um lugar aconchegante, familiar e acolhedor que Doldrums foi uma sugestão irrecusável feita pela morena.

***

— Ah não, ela bateu de novo! — bufou Teddy de modo teatral.

Era Sexta-feira, um dia após o casal ter chegado. Eles terminavam de recuperar as energias e aproveitaram para relaxar numa animada partida de truco com Janete e Teddy depois do expediente.

— Eu não sei... Acho que é sorte. — Hermione justificou.

— Sorte nada. Você é uma profissional garota, e está escondendo o jogo. — insistiu Teddy. — De qualquer forma, desisto.

— Homem frouxo! — exclamou sua mulher.

— Eu? Frouxo?

— É! Você!

Ronald e a morena riram com gosto da pequena discussão.

— Bom, acho que os dias de cassino de Hermione estão acabando por aqui. — brincou o ruivo. — Janete, Teddy, nós prometemos pagar todas as despesas muito em...

— Vai se ferrar! — interrompeu Teddy rabugento. — Não vai pagar nada.

— Desta vez tenho que concordar com Teddy, embora sem necessitar de palavras de baixo calão para isso. — olhou feio para o marido.

— Mas... — Hermione ameaçou insistir.

— Queridos, nós acolhemos vocês dois aqui de coração. Seria uma afronta qualquer reembolso. Querem nos pagar? Ótimo. Resolvam os seus problemas pendentes lá fora e quando estiverem com a cabeça fria, descansados de verdade, venham nos visitar novamente. Essa sim seria uma maravilhosa retribuição.

— Que tipo de pessoas vocês são? Vocês existem?

— Claro que sim, Mione. Somos do tipo pentelhos demais!

***

Era manhã de sábado. Bem cedinho Rony havia acordado e já fora preparar os cavalos. Os dias se encurtavam rapidamente na promessa de separa-lo de sua ex-namorada definitivamente. Escondeu a tristeza o melhor que pôde na presença de todos, mas saber que a perderia novamente, e agora para sempre, não era uma dor qualquer.

Terminou de selar o alazão que cavalgava quando percebeu alguém se aproximando do celeiro.

— Oi.

— Oi, Mione. — sorriu-lhe. — Eu estava terminando de preparar os cavalos. A hora que achar mais oportuna, podemos ir.

— Não quer ficar para o almoço?

— Não sei. Você quer?

De repente, ficar sozinho com ela tornou-se um pouco embaraçoso. Algo parecido com a conversa de dois adolescentes querendo poupar os preliminares.

— Talvez.

— Ok, então. — ele voltou a fingir que apertava a cela.

Encorajada por seus próprios impulsos, a morena venceu a distância entre seus corpos e o abraçou por trás. Surpreso, o ruivo virou lentamente o tronco.

— O que foi?

— Obrigada! — exclamou.

— Pelo quê?

— Tudo. Tudo até aqui. — Rony envolveu-a no peito.

— Eu que tenho que agradecer.

Prometeu a si novamente não a beijar. Respeitar. E com muito esforço, não fez. Aquela fora a única vez durante todo o trajeto de volta para casa que eles chegaram mais perto de falar sobre eles.

Os dias de regresso foram diferentes para Hermione. A tristeza a consumia na volta para o marido como ela nunca imaginou que aconteceria. Contornar novamente o país com Ronald parecia uma experiência angustiante, quase vazia. Atravessaram colinas, adentraram na relva, viam vagalumes na noite, ouviam os pássaros pela manhã e ficaram alerta pelos coiotes quando o Oeste começou a ficar mais nítido. Nada disso era mais selvagem do que o desespero dela...

Vitor estava vivo ainda? A cada quilometro mais perto da revelação, se questionar era torturante.

E de Rony, o que seria? O natural, o esperado seria jamais revê-lo depois do último adeus.

A viagem foi rápida e silenciosa depois de Doldrums. Como Rony lhe prometera, ele lhe levaria sã e salva para onde o marido estava. Só não prometera a felicidade de seu espírito.

Numa manhã de terça feira, o casebre de Alvo Dumbledore, o doutor, foi avistado por Hermione do lombo de seu cavalo. Era o fim da linha, a chegada à última estação.

A casinha continuava com seu aspecto simplório, caindo aos pedaços, mas uma fumaça branda elevando-se pela chaminé confirmava seu estado habitado.

O ruivo desceu do cavalo primeiro e desamarrou a pequena trouxa de pertences da morena junto com os fundos que o governo lhe dera pela captura e assassinato de Arnie Austin. No saco havia aproximadamente sessenta mil dólares.

— É aqui, suponho. — ele argumentou quando Hermione desceu de sua montaria. A poucos metros, a casa imperava sob os primeiros raios da manhã, e a verdade também.

— Sim, é aqui... — confirmou cabisbaixa.

— Suas coisas. — ele entregou-lhe. — O seu saco de dinheiro também.

— Ele é seu, Rony. — replicou. Um nó começava a formar na garganta.

— Eu não preciso disso. — suas palavras não denotavam orgulho, apenas sinceridade e um carinho robusto.

— Mas você o mereceu. — a primeira lágrima escapou.

Rony olhou de relance para o casebre que permanecia com a porta fechada, então decidiu aproximar-se um passo da morena.

— Não fiz isso pelo dinheiro.

— Pois deveria... Você é um mercenário!

— Eu sei o que eu não merecia. Não merecia ter o prazer de te rever, mas a vida é meio injusta, felizmente. — percebeu que água se formava na borda dos olhos e recuou.

Ele suspirou fundo. Precisava controlar-se para não chorar, gritar, praguejar, sequestra-la para si.

— Espero que Vitor esteja bem. Vocês merecem.

— Isso é para me insultar?

— Não...

— Primeiro não aceita o dinheiro, agora fala para eu ser muito feliz com o Vitor?! Qual é a sua jogada agora, Rony?

Era preciso esclarecer tudo entre os dois. Ambos compartilhavam aquela dor da despedida pela segunda vez e tudo parecia estar reverberando dentro deles ainda mais forte. Tinha de ser firme na sua escolha já feita. Perdera os direitos e os deveres no passado e pagar pelas suas mancadas era o mais justo. Ele não levaria Hermione para a culpa, para a lama junto dele, então a agarrou pelos ombros, querendo beijá-la docemente, mas só tendo o dever de desfazer aquele laço entre eles.

— Eu morro de saudades da gente, mas nosso tempo já foi e eu devo deixar você partir.*

Soltou-a rapidamente e montou no cavalo. Mais um segundo ali se transformaria em selvageria para seu coração detonado.

— É isso?

— Acho que seu marido não vai gostar de receber cartões de natal de um ex-namorado seu. — tentou brincar.

Nada daquilo era engraçado, nem para ela e muito menos para ele.

— Vai voltar para Rocky Deep? — ela forçou manter um diálogo, mas Rony ia a abandonando, se afastando à galope.

— Vou ver se me perco pelo mundo! Quem sabe?!

— Ron...!!!

— Adeus!

E cavalgou com força não olhando mais para trás. Primeiro pela morbidade lacerante em ver a distância crescendo entre ele e Mione, depois porque seu rosto estava ficando lavado de lágrimas.

***

Hermione esperou qualquer vestígio de poeira assentar no horizonte para ter certeza que o mercenário não voltaria para um último adeus. Ele não voltou. Ficou ali, decidindo que tipo de pessoa deveria ser quando reencontrasse Vitor até ter força de espírito suficiente para encarar esse outro lado de sua vida. Deixou todo o vestígio de choro sumir do rosto e só então cruzou a soleira do deque e bateu na porta. Esta abriu-se quase que imediatamente.

Os olhinhos azuis de um saudoso senhor de longa barba branca cumprimentaram-na primeiro.

— Olá, Sr. Dumbledore.

— Fiquei apostando comigo mesmo em que momento decidiria entrar.

— Como? — ela corou imediatamente. Estava sendo espiada pela janela.

— Não fique encabulada. Eu tenho... o que? Noventa anos? Acho que é isso. Um pouco mais um pouco menos, quem se importa, não? Tudo isso é para dizer que já sofri mais com despedidas do que uma meretriz sem clientes. O tempo cicatriza aqui, cura ali, e às vezes nos beneficia outra vez.

— Obrigada pelas palavras. — agradeceu ela ainda encabulada. — Posso entrar?

— Oh, claro. Eu estava preparando o café.

Hermione repousou seus pertences na poltrona mais próxima e permaneceu de pé sobre o hall. A casa era silenciosa e parecia vazia. Isso lhe causou uma pontada de más notícias.

— Você quer o seu café puro ou com torrões de açúcar?

— Como? — Dumbledore repetiu a pergunta surgindo da cozinha. — Hã... bem... Na verdade...

— Ele acabou de pegar no sono novamente. Que tal o deixarmos descansar primeiro?

— Oh! Sim... Sim! — a morena sorriu emocionada perante a confirmação de que Vitor continuava vivo.

— Então vamos forrar essa barriga primeiro? — Mais animada, seguiu o doutor até a cozinha.

— As pessoas não param de dizer que eu tenho de comer... Estou tão magra assim?

— Algumas podem estar sendo invejosas. — Alvo colocou uma bandeja cheia de pedaços de bolo entre eles na mesa. Hermione se sentou. — No meu caso, só estou doido para que alguém compartilhe comigo essa gororoba que aprendi ontem.

Ambos riram. O humor dela mudou abruptamente da partida de Rony á notícia da sobrevivência do marido até o bom humor do velhinho.

— E então? Conseguiu resolver tudo que tinha para resolver por esse mundo maluco?

— Hum... — ela bebericou o café — Sim. Algumas vezes elas saíram do controle, mas estou aqui.

— Ótimo. — a discrição de Alvo era soberba.

— Que bolo delicioso!

— Não me agrade somente para não perder a chance de encher a barriga. — ele brincou.

— Não. — sorriu. — Está excelente. Aliás, preciso de um favor: Faça-me uma conta de quanto o senhor acha que gastou em tempo, disposição, comida e as demais despesas para tratar e abrigar meu marido aqui. Vou mandar trazer uma carroça de Ken West para nossa partida e quero estar completamente em quitação com o senhor. Nos ajudou demais e merece ser bem pago por essa ajuda.

Alvo ficou um tempo quieto, refletindo.

— Sobre a primeira afirmação, não seja tola. — ela ia começar a reclamar, mas ele continuou atropelando-a — Sobre a segunda... Bem, Sra. Krum, temos muito que conversar.

— Como assim? — um pouco da animação dela evaporou na hora.

— Seu marido não pode ser deslocado daqui.

— Não?

— As primeiras semanas dele foram as mais tensas. Achei mesmo que o perderia ali. Mas ele foi forte, seu porte robusto veio a seu favor. Ele sobreviveu aos disparos, estão quase cicatrizados.

— Isso é excelente!

— Sim, isso é. Entretanto, o corpo humano não é uma cadeira quebrada, uma carroça sem roda ou algo que se remende facilmente. Enquanto ele se curava dos ferimentos severos, seu organismo ficou susceptível ao ambiente. Troquei e limpei as roupas de cama dele, mantive o sol em sua pele, mas a ciência não é algo exato.

— O que houve, por favor...

— Vitor contraiu tuberculose. — Hermione levou a mão à boca.

— E o que vamos fazer?

— Hagrid me trouxe poções de diversos lugares, mas... Bem, tentamos de tudo.

— Como assim, tudo? Eu tenho dinheiro Sr. Dumbledore. Vamos tentar encontrar o melhor tratamento...

— Querida... — tocou-lhe a mão com carinho — Seu marido está no estágio final da doença. Não pode nem ser transportado desta casa senão não resistirá na primeira noite.

— E o que eu faço? — começou a soluçar.

— Lhe proporcione momentos felizes. Ele não para de perguntar de você. Há umas duas semanas até tentou fugir à cavalo para procura-la.

— Vitor...

Dumbledore permaneceu em silêncio para que Hermione tivesse sua dor em paz. Então, depois de muitos minutos, quebrou o silêncio.

— A saudade é algo subjetivo, Hermione. Você pode passar a vida toda ao lado de seu marido e nunca sentir a felicidade e a ternura por estarem juntos, mas pode passar algumas semanas, talvez poucos meses, na certeza de que o fim está próximo, e impulsionada aproveitar verdadeiramente como nunca o fez.

— Ele sabe?

— Não. Preferi espera-la. Algo me dizia, os jornais talvez, que sua chegada se aproximava. Essa é uma decisão sua. Você que deve contar-lhe, se quiser.

***

O quarto de Vitor ficava no fim do corredor. Depois de saber da morte de Arnie Austin pelos jornais de Ken West, Dumbledore finalmente o tirou do porão, onde ficava a maior parte do tempo escondido, e instalou-o confortavelmente no melhor quarto da casa. Uma vez, quando casado, aquele dormitório pertencera a Alvo e sua falecida esposa.

Ele deixou que Hermione caminhasse até lá sozinha. A morena girou a maçaneta lentamente e espiou lá dentro. O corpo do marido repousava virado para o outro lado da cama. Calmamente ela foi até a janela e abriu-a, trazendo a luz e a brisa mansa da manhã. O rosto de Vitor apareceu para si pela primeira vez em meses. Magro, um pouco pálido, mas aparentemente sadio. Mordeu os lábios e segurou o choro. Estava proibida de entregar os pontos.

Logo a luminosidade nova no local o fez acordar e abrir os olhos. Eles brilharam como cristais polidos ao enxergar sua Hermione diante de si.

— Estou sonhando? — perguntou.

— Eu sim, com certeza! — ela respondeu correndo para abraça-lo.

Vitor sentou-se no colchão e abraçou sua morena com sofreguidão. Envolveu seus cabelos no seu rosto, queria aquele cheiro mais do que qualquer outro. Apertou o toque, queria aquele toque acima de todas as coisas. Seu amor retornara.

— Mione? — seus olhos encheram de lágrimas.

— Meu querido! — ela beijou-o. Ele retribuiu. O mesmo modo implacável, intenso e desejoso de sempre beija-la.

— Achei que nunca mais a veria.

— Eu também! Eu... também...

— Como... Que horas chegou?

— Agora pouco. Mas esqueça de mim. Como você está? — ela percorreu os olhos para os locais onde ele fora atingido pela bala.

— Talvez tenha algo de aço dentro de mim. — brincou. Isso a oprimiu um pouco mais. — Olhe essas cicatrizes!

Ao erguer o peito, o local antes devastado pelas balas, exibia sólidas cicatrizes fibrosas e circulares. Quem olhasse para aquele tórax e abdômen rígidos jamais diria que a tuberculose se abrigava ali dentro. Embora tivesse emagrecido muitos quilos, o porte rústico de Vitor se mantinha. Continuava a ser um lindo homenzarrão aos seus olhos de garota.

— Eu quis sair daqui, ir atrás de você incontáveis vezes, mas o Dr. Dumbledore não deixou. Que belo lugar de recuperação que foi me arrumar, mais parece um campo de prisioneiros. — Hermione deu a primeira risada ali no cômodo — Mas acho que esta montanha está sendo um bom remédio para mim. E você? Que loucura é esta de sair para me vingar?

— Eu tive que me virar, mas agora está tudo bem. — desconversou.

— Hermione? O que fez? Como me salvou aquela noite? Não finja que nada aconteceu. Eu venho ouvindo conversas entre o Doutor e Hagrid. Arnie Austin estava nos caçando pelo país? Te caçando?

— Não precisamos falar disso, querido. — beijou-lhe as mãos.

— Querida... Me desculpe por ter nos metido nessa, mas quero saber de algo. Ninguém vem me falando nada. Só fico aqui, vegetando nessa cama.

O momento para explicações viria, ela sabia que não poderia esconder a parceria com Weasley, nem o dinheiro recuperado, muito menos as tentativas de assassinato. Porém, para ela estava de bom tamanho curtir aquele instante sem adentrar demais nos pormenores desagradáveis.

— Talvez eu lhe deva perguntas antes, mas prometi a mim mesma que isso era irrelevante. Vamos passar as próximas horas apenas nos curtindo? — sugeriu, e buscou um lugar na cama com o marido. Eles deitaram e ficaram juntos, abraçados.

— Tudo bem... — ele foi interrompido por um acesso de tosse. Hermione pode escutar a rouquidão em seu peito — Estou com uma tosse faz alguns dias. É essa poeira... Essa colina é fogo.

— Deve ser... — concordou evasiva.

— Temos muito que conversar, eu sei. E sei que o mais importante, acima de tudo, é você saber o porquê eu levei aqueles tiros.

— Teremos tempo para falar disto depois...

— Eu quero falar agora, é simples. Ouvi o esquema de Arnie Austin com alguns sujeitos do governo de roubar um carregamento de ouro. Eu estava um pouco bêbado naquela noite, perdi a razão e quis me intrometer. Fui irresponsável. Não pensei em mim, muito menos em nós e ainda os levei até você.

— Chega de culpa, por favor! — beijou-o no pescoço. — As coisas acontecem porque tem que acontecer.

— Certo... Minha moreninha invulnerável, como sempre.

Hermione riu. Tencionou lhe estapear, mas no lugar, beijou-lhe na boca.

— Te amo, e tenho um orgulho imenso da mulher que você é. Não vejo a hora de sarar para podermos seguir adiante.

— Eu que tenho orgulho de você, Vitor Krum. Sem o senhor não estaria nem aqui hoje.

— Ah, por que está falando isso? Para de lembrar de coisas desagradáveis, Mione.

— Eu quero lembrar. Isso me fortalece. Me faz ser alguém melhor e me faz nunca esquecer o quão sortuda eu sempre fui.

— Certo, garota sortuda. Vamos ver o que nos aguarda nos próximos dias quando eu terminar de me recuperar! — exclamou abraçando-a e beijando-a ardentemente.

Hermione retribuiu e sabia que só conseguiria deleitar os momentos finais de sua vida de casada se esquece do prognóstico fatal de Vitor. Assim, preferiu lhe omitir a verdade e aproveitar os dias regressivos que lhe restavam ao lado do garoto da maçã.