Black Jack
3 Todos Precisam de Amigos
Notas iniciais
Ken West é um poço de senhores sisudos e senhoras recatadas.
Não há Saloons para atrair vagabundos, nem são permitidas as moças mais saidinhas lucrarem uns dinheirinhos extras em troca de serviços duvidosos.
As armas podem ficar a mostra se presas nos coldres de couro, mas jamais devem ser sacadas “socialmente” e apontadas aos transeuntes, ainda mais se eles forem o honesto proprietário da General Store, o Sr. Lockhart, ou o bem aventurado vigário Paul.
Nessa cidadezinha, laranja-rósea a cada poente, há também um grande e velho hotel.
O quanto de renda ele oferece ao seu proprietário é algo misterioso.
Para você se hospedar em um de seus quartos abafados é necessário que venha com a família inteira, criança pequena significa check in mais rápido.
Uma indicação de algum morador local deve entrar nos pré-requisitos.
Estranhos solitários não são bem vindos.
Mas olhe só vocês, que ironia nós temos aí: O dono do hotel é um forasteiro. Ele veio de Rocky Deep, como eu, para ser mais precisa — e eu sempre sou. Harry era meu amigo de infância.
Logo, meu único amigo em Ken West.
Hermione chegou à vila principal da cidade de Ken West em companhia dos primeiros raios de Sol. Os sacolejos da carroça de rodas tortas já não incomodavam mais o corpo fatigado de sua condutora. Os cavalos agora caminhavam em trotes cansados e ela apenas pode agradecer por eles terem conseguido trazê-los até ali antes da cidade, de fato, acordar.
Optou seguir pela esquerda, numa rua que dava para os fundos de alguns comércios e que não possuía casas. Com Vitor completamente inconsciente na caçamba, precisava chegar ao seu destino sem serem visto por ninguém. Ainda estava tendo sorte neste quesito.
Avistou seu ponto de chegada da mesma forma como o esperava encontrar. Um prédio grande, em madeira envernizada, de onde brotava uma dezena de janelinhas no segundo andar, e sólidos mezaninos para quem quisesse se refrescar nas noites de verão, observando as cadeias montanhosas formadas ao leste.
Os fundos daquela construção já possuía jeito de hotel, mas só quem estava diante de sua fachada, do lado oposto, podia ler a placa pintada em vermelha que dizia – Hospedaria de Ken West.
Ordenando que Lótus e Uhgan parassem em frente às portas dos fundos do hotel, Hermione saltou da carroça e olhou para os dois lados da rua. Tudo deserto ainda, mas sabia que daqui à uma hora ou menos, as pessoas começariam a acordar e o comércio a funcionar.
Postando-se em frente à portinhola de madeira, ela começou a bater com um dos punhos, com movimentos afoitos. Bateu três vezes e nada. Então começou a esmurrá-la, as duas mãos fechadas contra a madeira, tentando acordar o mais rápido possível seus moradores. Sabia que nenhum hóspede iria atendê-la porque os fundos do hotel davam para os aposentos do proprietário e sua família.
Então, na quinta batida, ouviu uma movimentação do outro lado da porta. Alguém sussurrou algo inaudível, mas outro alguém foi enérgico em dizer para a pessoa se afastar da porta. Nos segundos seguintes, a porta emitiu vários ruídos, sons das barras de madeira que trancavam a portinhola sendo retiradas. Ela se abriu com um leve rangido e, lentamente, uma cabeça surgiu por uma fresta mínima que foi aberta.
̶ Quem é? — uma voz masculina e cheia de desconfiança, perguntou. Hermione surgiu diante da figura.
̶ Harry, sou eu. —disse ela, esboçando um sorriso sem graça, para o velho amigo. Ele tinha o cabelo despenteado, tão diferente do costumeiro e alinhado penteado para trás, e usava um pijama marrom de flanela.
— Oh, Deus! Hermione! — exclamou, escancarando a porta para recebê-la.
Fitando-a de cima abaixo, era claro que Harry estava muito confuso quanto àquela visita de fim de madrugada. A última vez que ela e o amigo se viram fora há um mês, nas festividades dos rancheiros nos arredores da cidade. Na ocasião, Vitor ainda não tinha partido. E embora, no passado eles houvessem sido unha e carne, agora, mesmo morando na mesma cidade, pouco contato tinham.
— Desculpe vir assim á essa hora. Devo ter assustado você, suponho?
— Não, claro que não. — mentiu ele, ajeitando seus óculos de grau — Mas o que houve?
Alguém surgiu por de trás de Harry, carregando uma vela nas mãos. Seus cabelos eram vermelhos como metal em brasa, mas sua pele exibia a brancura de uma boneca de porcelana. Era Ginevra, a esposa de Harry.
— Hermione?! O que aconteceu? O que houve em você? — perguntou, horrorizada.
— Ah... Em mim? —inquiriu-a confusa.
— Sim, Mione. Sua testa. O que houve com ela? — completou o amigo.
Ela toucou na testa, dando-se conta de que as atenções estavam no machucado que sofrera, do qual já havia esquecido.
— Isso não foi nada. Mas eu preciso da ajuda de vocês. Vim do meu rancho até aqui, madrugada a fora, na esperança que você, Harry, me desse um auxílio. — pediu encarecidamente.
— Claro. O que nós pudemos fazer. — prometeu, sem hesitar.
— Eu preciso entrar. — e olhou para os dois lados da rua, angustiada de que algum dos fofoqueiros de Ken West surgisse na viela mais próxima.
— Que indelicadeza minha! — exclamou ele, batendo no alto da própria cabeça — Venha, e nos conte tudo.
Hermione continuou parada na soleira, e espiou para trás, onde há alguns metros estava sua carroça.
— Antes, precisamos esconder minha carroça e pegar o Vitor, que está na caçamba. — disse num murmúrio, com medo de que alguém que não deveria pudesse ouvi-la. Harry e Ginevra se entreolharam, certamente confusos.
— Vitor está dormindo na caçamba? — arriscou ele. Molhando os lábios, ela tentou explicar a situação do marido de uma forma objetiva e clara.
— Não. Ele está inconsciente. Foi baleado.
Houve mais um tempo de quietude entre o casal. Por um instante, Hermione quase se esqueceu de que conhecia muito bem seu melhor amigo, acreditando que ele lhe daria com a porta na cara e uma avalanche de problemas.
Mas não foi isso que aconteceu.
— Deixe-me vê-lo. — e com um ar preocupado, seguiu para a caçamba da carroça.
Rapidamente, Hermione seguiu-o, pulou para dentro e ergueu o lençol que ocultava o corpo pálido do marido. Harry subiu pelo lado direito e examinou o esposo da amiga, cheio de preocupação.
— Eu retirei as balas da melhor maneira que pude. Ele parou de sangrar externamente, mas eu tenho medo de que... — mas deixou a voz morrer no ar. Ficava apavorada em pensar nas complicações.
— Certo. Vamos levá-lo para dentro. — olhando na direção da porta do hotel, viu a mulher com uma expressão curiosa e a vela ainda em mãos. — Querida, vá buscar o James. Preciso de ajuda para levar Vitor para dentro. — Ginevra correu para dentro para chamar o filho mais velho — Temos de esconder os cavalos e tudo mais, não é? Ela meneou a cabeça.
— Vitor se meteu numa grande encrenca. — foi tudo o que ela disse.
— Depois falamos disso então. — e abraçou Vitor pelo tronco.
James surgiu ao pé da carroça esfregando os olhos para espantar o sono. Certamente sua mãe deveria ter acabado de acordá-lo. Era um adolescente no auge de seus 14 anos, parecidíssimo com o pai, mas alto como os seus tios, os irmãos da mãe. Subiu na carroça e ajudando o pai começaram a levar Vitor para dentro do hotel.
***
Ginevra, ou Gina, como costumava ser chamada por todos em Rocky Deep, depositou chá gelado no copo de Hermione e trouxe a bandeja com biscoitos de maisena para perto delas, na mesinha. Vestia um roupão por cima da camisola e estava corada como se estivesse nevando do lado de fora. Havia prendido a cabeleira ruiva, numa trança de lado.
— Como isso foi acontecer, Mione? — perguntou, segurando seu copo entre as mãos.
— Bem, nem eu mesma sei, pra falar a verdade, Gina. —disse, fitando seu chá, cabisbaixa. Sentia tanto cansaço nos olhos e nos músculos que era capaz de dormir ali mesmo, em cima da mesa, se não tivesse a obrigação de dar alguma satisfação a seus acolhedores.
Harry surgiu pelo umbral da porta que divisava a cozinha da pequena saleta dos aposentos da família, no hotel. Ainda vestia o pijama, agora levemente empoeirado por ter ido abrir o celeiro e levado a carroça dela até lá, juntamente com Lótus e Uhgan. Estava sozinho.
— Os cavalos e a carroça já foram guardados. — disse, se introduzindo na conversa. — Acho que ninguém viu você chegar. — acrescentou indo sentar-se numa das cadeiras vazias, ao lado da esposa.
— Obrigada novamente. — agradeceu ela, fitando o casal com ternura.
Harry e Gina, seu casal favorito. Ali estava o exemplo de duas pessoas que nasceram uma para outra, combinando em todos os gostos, permanecendo unidos sob qualquer turbulência. Construindo uma família leal e honesta com o passar do tempo. Dentre todos, são antigos conhecidos de sua infância em Rocky Deep. Aqueles dois eram os únicos do qual ela tinha contato, e realmente poderia confiar sob as piores circunstâncias.
A amizade com Harry havia começado quando nenhum dos dois entendia o significado das coisas mais simples da vida. Os Potter se mudaram para o casebre caindo aos pedaços, ao lado da casa dos Granger há exatos 24 anos. Ambos possuíam filhos únicos, Harry e Hermione com apenas sete anos cada um.
Os dois brincavam no terreiro atrás da igreja construindo cânions de barro; xerife e ladrão com as pistolinhas de madeira que ganhavam no Natal; ou mesmo escovando os pôneis do velho Sr. Willis na feira da cidade.
Aos poucos foram crescendo e se adaptando a difícil vida de Rocky Deep. Harry, colando cartazes com anúncios das promoções das General Stores pelas ruas; Hermione, vendendo frutas na feira com os pais.
Nos dias de folga, os adolescentes iam para os penhascos de Marshall Twin, onde o mais engraçado era gritar e ouvir o próprio eco pelas planícies. Os pais de ambos chegaram até a cogitar que os filhos em breve formariam um casal, todos pensavam assim por lá.
Mas não.
Hermione sabia que o amigo tinha olhos apenas para a filha mais nova dos Weasley, no fim da Howard Lex, ao lado da delegacia, assim como Harry conhecia todos os olhares apaixonados da amiga para outro rapaz.
Quando Harry fez dezesseis anos, anunciou aos pais seu casamento com uma linda garota de cabelos ruivos, e como um choque, imediatamente, todos ficaram sabendo que entre ele e Hermione o único sentimento existente chamava-se amizade. Ou outra forma de amor, como ela gostava de pensar.
E naquela noite, antes dele voltar para casa e comunicar aos pais o efeito, havia conversado com a amiga, primeiro.
~~
Hermione estava solitária, ao alto daquela pedra engraçada, em forma de estrela que se formara num dos penhascos de Marshall Twin. No céu, uma noite repleta de estrelas lhe fazia companhia, enquanto a adolescente de botinas com fivelas prateadas e calças de algodão verde musgo lembrava-se do que Vitor havia lhe dito a menos de duas horas atrás.
Experimentando uma dualidade interna, ela não percebeu quando alguém se aproximou a cavalo. Somente quando ele sentou-se ao seu lado foi que se desligou um pouco de seus devaneios e acolheu-o numa conversa. Era tão bom saber que apenas Harry saberia onde encontrá-la.
— Porque não me esperou? —disse ele, abraçando os joelhos quando se acomodou ao lado dela. Olhou-a com seus olhos verdes, sempre por de trás de grossas lentes de grau.
— Não quis atrapalhar. Achei que nem viria hoje para cá.
— Precisava levar Gina para casa antes que Carlos ou Guilherme começassem a nos caçar. —informou num tom de zombaria.
Hermione sorriu. Os irmãos mais velhos de Gina eram preocupados com a irmã de uma forma bonita. Em Rocky Deep as pessoas não costumavam se importar umas com as outras, mesmo que fossem da mesma família.
— Mas porque você está assim?
— Assim como? — quis ela saber.
— Assim, com esse olhar perdido, e se isolando quando poderia estar conosco, jogando dardos para passar o tempo. Eu te conheço Hermione Granger. —acrescentou, cutucando as costas da amiga.
— Eh... Eu não sei... Aconteceu algo inesperado hoje. —murmurou certa de que não queria conversar sobre aquilo com Harry, naquele momento.
— Será que é isso que a Gina está falando pros irmãos dela também? – disse ele, inesperadamente.
Ela semicerrou os olhos e abriu e fechou a boca sem saber o que dizer. A cor do seu rosto foi assumindo uma tonalidade rósea claro até chegar ao vermelho intenso. Por mais que ele fosse seu melhor amigo, existiam certos assuntos que ela não se via preparada para dividir com ele sem que ela própria o desestruturasse antes.
— Como você sabe disso? — perguntou enfim, quando a vergonha passou.
— Aquele vigário casamenteiro está na cidade... Rapazes como Vitor e eu veem nisso a melhor oportunidade.
— Ah, meus Deus, Harry! Vocês vão se casar então?
— Pelo menos ela disse sim. — confirmou, sorrindo de orelha a orelha. Ela o abraçou fortemente, de fato, feliz com a notícia.
— Mas e a senhorita? Pelo visto está torturando Vitor com essa sua indecisão.
— Não é isso. É que é uma decisão muito importante. —gesticulou.
— Eu sei...
— E ela precisa ser analisada com calma. Afinal é um passo totalmente diferente na nossa vida. Nós nem somos adultos ainda, e embora o casamento na adolescência seja algo normal na nossa comunidade, não sei se estou preparada para tal.
— Claro...
— Digo, é uma mudança drástica na vida! Veja nossos pais, por exemplo. O quanto eles sofrem para nos manter, e manter a casa, e tudo mais.
— Com certeza...
Hermione encarou o amigo, ele não tinha apenas o deboche na voz enquanto concordava com tudo o que ela estava argumentando. Tinha uma fisionomia zombeteira também.
— O que foi? – perguntou, contrariada — Não concorda comigo?
— Concordo plenamente, mas apenas acho que tudo isso não passa de uma desculpa.
—Desculpa para quê? — inquiriu-o, pondo-se de pé.
— Para não pensar no que realmente está te prendendo de ser feliz com uma pessoa que verdadeiramente te ama. — disse Harry, que continuava sentado, falando numa calma de orador — Se parar de colocar essas desculpas entre suas decisões e comparar friamente a dúvida que assoma dentro de você, tenho certeza que estará comigo e com Gina, casando no mutirão do vigário Smith no fim do mês.
Sentindo os olhos marejarem de raiva pelas verdades que havia nas palavras do amigo, Hermione voltou-se a sentar do lado dele, onde ficaram mais de dez minutos calados, apenas fitando as planícies e as estrelas.
Então, ela finalmente disse:
—Gina vai se casar com o melhor partido de Rocky Deep.
—Vitor também. — e abraçou-a pelos ombros.
Aquela foi à última vez que Harry e Hermione apreciaram as estrelas juntos.
~~
Harry e Gina, assim como seus três filhos, eram tidos como forasteiros em Ken West, mas milagrosamente, ou pela natural elegância e simpatia de Harry, ele conseguira um feito nunca conquistado ali: apossar-se de um comércio na cidade.
As restrições para que tipo de pessoa deveria hospedar no hotel eram absurdas, e algumas épocas do ano aquela família passava por sufoco financeiro drástico. Mas, qualquer coisa perspectiva em Ken West continuava sendo mais vantajoso do que a imunda condição de vida que Rocky Deep podia oferecer a suas famílias.
— Se não quiser explicar não precisa, mas eu tenho de pelo menos saber para que tipo de coisa tenho de me preparar. —disse ele, enfim quebrando o silêncio que se instalara na mesa.
— Eu vou explicar tudo. — informou Hermione, pousando o copo no tampo da mesa. Tinha se decidido de que não omitiria nada ao casal — Acordei no meio da madrugada com um barulho na porta, quando fui ver, encontrei Vitor ensanguentado com cinco tiros pelo corpo. — Gina levou as mãos à boca, horrorizada. Como Hermione havia cuidado dos ferimentos do marido e trocado suas roupas, não era possível deduzir o quão mal ele estava apenas visualmente. “Trouxe ele para dentro de casa, e quando ia começar a retirar as balas, ouvi alguém se aproximando pelo terreiro. Supus que era o homem que havia baleado ele, então corri para tentar bloquear a porta. Não consegui. Ele entrou em casa...”.
— E o que você fez...? — perguntou Harry, parecendo temer a resposta.
—A única coisa que se podia fazer. Salvar Vitor, e a mim também. — e levou as mãos sobre a cabeça.
— Não ficou sabendo nem quem era ele?
— Não. — O amigo suspirou. Gina olhou-o, cheia de temor.
—O que Vitor fez para merecer levar cinco tiros?
— Black Jack. — foi tudo o que ela conseguiu resmungar.
— Sempre esses malditos jogos no meio de tudo. Por mais que essa cidade seja um antro de pessoas mesquinhas, é por essas e outras que ainda gosto de morar aqui. Não há tiros no meio da madrugada porque alguém perdeu uma partida do que quer que seja.
— Mas para Vitor isso não é um problema. Ele caça esse tipo de encrenca em qualquer lugar. — disse ela, desgostosa. Harry levantou-se e pôs-se a andar de um lado para o outro.
— Vamos pensar então... Livrou-se do corpo?
— Joguei numa vala profunda a céu aberto, há um quilometro da minha casa.
— Ok... Agora partindo do pressuposto de que esse pistoleiro possua comparsas, e que o tiroteio começou em algum buraco de cidadezinha entre Ken West e Rocky Deep... O que temos no caminho?
— Albuquerque. — foi à vez de Gina falar.
— Bem, Albuquerque não é muito perto de nós. Pelo menos um dia de cavalgada, se os animais não descansarem. Então, supondo que virão mais, essas pessoas ainda terão de associar você com Ken West. Isso nos dá tempo, Mione.
— Assim espero.
— Talvez ninguém apareça e fique tudo bem. — ele disse, aproximando-se da amiga e tocando em seus ombros com ternura.
— Como pode ficar tudo bem com Vitor naquele estado? — perguntou ela com a voz grogue de emoção.
Gina saiu de sua cadeira correu para abraçá-la também. Hermione viu-se prestes a desabar.
— Ei, eu vou pedir para James ir à cidade e, sorrateiramente, perguntar por um bom doutor por aqui. Se seu marido aguentou a noite toda com cinco tiros no corpo, e uma viagem de carroça, ele vai sobreviver. Confie em mim.
— É, Mione. Agora o que você precisa é descansar. Vem, vou te levar para um dos quartos e preparar a água pro seu banho. E também dar um jeito nessa sua testa. Isso está infeccionando.
— Não é nada. — argumentou Hermione com teimosia, sendo arrastada por Gina pelos ombros.
***
Quando despertou, Hermione precisou de alguns segundos para se adaptar a ideia de que tudo o que tinha vivido nas últimas horas não era apenas fruto de um sonho. Ao sentir o colchão macio e ver a fronha e os lençóis cor de pêssego, sem nenhum remendo, deu-se conta da dura realidade, e que estava sim, deitada em uma das camas da hospedaria do amigo.
Pela janela, um filete de luz alaranjada penetrava por entre as frestas da cortina de tricô, informando a presença de um entardecer. Talvez tivesse dormido por oito horas seguidas, ou mais. Mentalmente ainda sentia-se cansada, mas sabia que não conseguiria mais pregar os olhos, afinal.
Foi até a poltrona mais próxima, e despindo uma camisola emprestada, vestiu suas roupas que estavam perfeitamente estendidas sobre o espaldar, provavelmente pela caprichosa Gina. Nunca pensara na mulher de Harry como uma grande amiga, apenas alguém agradável de conversar.
Mas, depois da imensa hospitalidade que recebera da Sra. Potter, podia aumentar o leque de amizades ali, para a família toda dos Potter. Fora ela que, inclusive, cuidara do seu machucado, já adequadamente lavado e ocluso por um esparadrapo bem feito.
Ao terminar de trocar-se, Hermione saiu do quarto e parou sob o mezanino, que ladeava em frente às portas dos quartos, olhando para o saguão lá embaixo. Não havia viva alma ali. Desceu os degraus em direção aos aposentos dos proprietários, percebendo um bolo de medo formar-se dentro do estômago. Cada vez que ficava longe do marido, temia descobrir sua morte quando o encontrasse novamente.
Assim que chegou a saleta dos aposentos deles, ouviu vozes baixas, vindo da direção dos quartos. Caminhou lentamente até os murmúrios, abrindo a porta que se encontrava entreaberta, no fim do corredor. Três cabecinhas viraram na direção dela, fitando-a, surpresas. James, o mais velho, estava sentado numa poltrona, seus irmãos caçulas, Alvo e Lilian, rodeavam o pé da cama onde Vitor permanecia inconsciente.
Ela aproximou-se.
— Olá, crianças. — disse ternamente. — Como vão?
— Tudo bem. — disse a pequenina Lilian. A filha mais nova de Harry, tão parecida com a mãe do amigo, ela lembrava-se, e não deveria ter mais do que 6 anos de vida.
— Descansou bem, tia Mione? — foi a vez de James perguntar.
Sua postura ereta, expressão séria, somados ao colete com uma camisa listrada por debaixo, deixavam James mais sereno, quase adulto. Tão diferente daquele rapazinho com rosto infantil do qual ela vira recém-acordado, há horas atrás.
— Sim, muito bem. — e aproximando-se da cama, tocou o alto das cabeças de Alvo e Lilian, com carinho. Então se sentou ao lado de Vitor, tão comatoso e macilento quanto ela não queria se lembrar, mas agradeceu intimamente por ele ainda estar respirando.
— Nós estávamos aqui, para o caso dele acordar e não ver ninguém. — comentou Alvo.
Sentindo uma doce ternura abater-se sobre ela, algo que somente as crianças produziam nos adultos nas situações mais difíceis, Hermione agachou-se na frente de Alvo e lhe disse:
— Pois fazem muito bem! Quando Vitor acordar vai precisar de alguém para jogar conversa fora.
Alvo e Lilian deram risadinhas de satisfação, e até James, em sua poltrona, esboçou um meio sorriso. Os filhos de Harry e Gina eram criaturinhas graciosas e amorosas, como os pais as ensinaram a ser.
Por mais que Hermione tentasse, sabia que nunca teria seres angelicais como aqueles correndo por seu terreiro. Já logo nos primeiros anos de casamento, deu-se conta de uma dura realidade: era uma mulher infértil.
— Eles estão aí enchendo os ouvidos dele desde as duas da tarde. — disse uma voz, vinda da porta. Hermione virou e deu com Harry, com uma aparência completamente diferente da de antes.
Agora ele estava alinhado num colete bem engomado, os cabelos penteados para trás como um senhor de comércio respeitado, e a calça marrom escura, sem nenhum vinco à mostra.
— Vitor adora crianças. Logo isso só pode fazer bem para ele. — ela disse, pondo-se de pé. — Alguma novidade? — perguntou esperançosa por notícias boas.
—Sim. Vamos lá para o saguão. Não estou com nenhum cliente aqui hoje. Crianças, nada de ficarem em cima da cama, aborrecendo-o. Ele pode estar dormindo, mas percebe tudo.
— Eu não sou mais criança, pai. — Hermione ouviu James protestar, enquanto seguia o amigo até o saguão.
Harry foi até a cozinha buscar uma jarra com leite de cabra e alguns biscoitos, deixando Hermione o esperando atrás do balcão, na recepção. Através do vidro empoeirado das janelas, podia enxergar o movimento pacato de Ken West prosperando lá fora. Quando o amigo retornou, ela inquiriu-o:
— Onde está a Gina?
— Foi buscar alguns mantimentos, mas me deixou expressamente avisado de que você deveria comer isso quando acordasse. É feito com trigo e não sei mais que condimento que ela diz ser um bom cicatrizante. — ele revirou os olhos.
Hermione deu uma mordiscada num biscoito, e achou-o delicioso.
— Não encontramos um doutor para Vitor. — disse Harry, fazendo-a parar de mastigar abruptamente.
— Co-como assim? — e, engoliu o biscoito de uma vez.
— Não há ninguém confiável, eu quero dizer, Mione. — reforçou, com preocupação. — Por outro lado, tenho certeza que seu marido está com uma hemorragia interna. Ele perde mais a cor a cada hora.
— É essa a novidade? — disse ela, frustrada. Mesmo não querendo destratar Harry, o modo como ele havia imposto a coisa, era desolador.
— Não. Não é essa a novidade. Fique calma! Eu conheço alguém realmente bom, melhor que qualquer um desses médicos de quinta daqui de Ken West. O problema é que ele não mora na cidade, nem pelas redondezas. E tão pouco presta serviços na casa do cliente.
— Oh, Harry, isso está cada vez pior. Não vejo condições de sair com aquela carroça e Vitor outra vez. — choramingou, perdendo completamente o apetite ao deixar o resto do biscoito de volta na bandeja.
— Por isso eu organizei tudo. Estive ausente a maior parte da manhã, porque fui conversar com alguém que pode levar você e Krum até essa pessoa, e em segurança.
— Mais uma pessoa?! Espere aí, então agora nós temos mais dois desconhecidos envolvidos nisso. Se a questão é sigilo, alguém daqui, ou vários intermediários para chegar a alguém de fora, para mim está parecendo à mesma coisa.
— O que sugere então? — perguntou Harry, levemente irritado por ver suas opções descartadas.
— Pode chamar alguém da cidade mesmo. Não posso arriscar a vida do meu marido. Não vai demorar muito para algum fuxiqueiro saber que eu estou aqui com Vitor baleado. E, além do mais, nem sabemos se alguém mais virá atrás de nós. Minha casa há esta hora pode estar tão vazia quanto um cemitério, e eu posso ter me livrado de cinco bons cavalos por nada.
Num gesto repentino, Harry agarrou-a pelo ombro e a empurrou para debaixo do balcão.
— Tem alguém vindo. Fique quieta aí embaixo! — alertou-a.
Hermione espremeu-se debaixo de um balcão repleto de chaves e livros-caixa, contrariada e irritada ao mesmo tempo. Na porta, o sino alertou a entrada de alguém, e por uma frestinha mínima na madeira do balcão, ela viu um homem entrar na hospedaria.
A primeira coisa que chamou sua atenção foram os sapatos de bico fino e couro esverdeado. Esporas impecáveis, brilhantes e polidas também podiam dizer algo do sujeito. Ele não cavalgava tanto quanto gostaria. Suas chaps, provavelmente de couro de bezerro, eram branquíssimas com franjas cor de creme, o colete com argolas prateadas nas casas dos botões combinavam com a fivela retangular na cintura.
O homem andava com o peito estufado e as pernas eretas. Mas, apesar de suas vestimentas exuberantes, todo seu jubilo podia transparecer apenas no seu semblante arrogante, fosse nos cachos loiros, nos olhos perigosamente azuis, ou no sorriso prepotente. Aquele era ninguém menos que um dos mais influentes de Ken West: Gilderoy Lockhart.
— Como vai meu caro Sr. Potter? — o ouviu perguntar, quando se encostou ao balcão, diante de Harry.
— Tudo bem. E o senhor? – disse o amigo, mantendo a voz o mais equilibrada possível.
— Ah, você sabe, muita correria. Ser dono das três General Stores de Ken West dá um trabalhão.
— Nem posso imaginar.
Hermione sentiu o timbre de deboche na voz de Harry, mas podia jurar que o egocentrismo de Lockhart não fora capaz de notar o mesmo.
— Que calor anda fazendo esses dias, não? — comentou Lockhart.
— Demais mesmo. Todos nós estamos fazendo tudo um pouco mais lento por causa dele.
— E esses biscoitos? Está esperando alguém? — ele perguntou.
Harry foi rápido em responder.
— Não. Eu que trouxe da cozinha porque estava aqui, sem nada para fazer.
— Foi a Ginevra quem fez? Posso experimentar?
Talvez tivesse sido impressão dela, mas Hermione notou os músculos do corpo de Harry se retesar quando Lockhart proferiu o nome de sua esposa.
— Claro. — ouviu o amigo dizer, friamente.
Os próximos segundos foram dedicados a uma sinfonia de mastigações de Lockhart. Somente quando ele parecia ter devorado uma meia dúzia de biscoitos da bandeja, voltou a falar.
— Eu vim buscar o imposto. — disse ele, por fim.
— Q-que imposto? — gaguejou Harry.
— Ora, Sr. Potter. O imposto que foi aprovado pelo xerife para angariar fundos na ampliação da igreja do padre Paul.
— Então estamos falando em arrecadar fundos, não impostos. E quando puder, ajudarei com o maior prazer. — seu timbre na fala era seco como uma tarde no deserto.
— Talvez eu tenha me expressado equivocadamente. Digamos que exista uma obrigação divina aí. Ou o senhor não quer ver seus filhos devidamente catequizados? O seu mais velho, inclusive, está passando da hora.
— Faço muito gosto disso sim. Acontece, Sr. Lockhart, que a situação anda complicada aqui no meu hotel. Hoje, por exemplo, não tenho nenhum cliente.
Lockhart estralou a língua.
— Não se preocupe. Os sobrinhos de Adam estão para chegar semana que vem.
— Faz dois meses que estão. — disse Harry, cinicamente.
Lockhart suspirou.
—Não gosto do seu tom de voz, Sr. Potter. —disse numa leve ameaça.
— Me desculpe senhor, mas eu perdi dois bons clientes nesta semana, portanto, não posso ajudar nos fundos para igreja por agora.
— Já não estão claras as normas para se hospedar gente na nossa boa cidade, Harry Potter?
A conversa degringolava para um nível mais tenso, Hermione pode notar.
— Sim, mas eles eram apenas trabalhadores precisando de um teto para descansar. — o amigo parecia inconformado.
— Então as regras não estão claras, nem depois de tanto tempo...
— Eu preciso sustentar meus filhos! — exclamou Harry, exasperadamente. Então percebendo a burrice que cometeu, abaixou a cabeça, fitando Hermione de relance com o olhar pesaroso, e disse — Estou um pouco exaltado por estar numa difícil situação.
Após algum tempo de silêncio, Hermione ouviu Lockhart sonorizar:
— Não me parece, com esses biscoitinhos deliciosos. — e riu, cinicamente.
— São apenas biscoitos de aveia. Plantamos aveia perto do celeiro.
— Adoraria que Ginevra fizesse biscoitinhos como este em minha cozinha. Afinal, sou um homem viúvo como você bem sabe.
Uma estranha apreensão se criou ali. Hermione viu a mão de Harry fechar-se num punho firme, muito perto de seu suporte para arma, debaixo do balcão. O amigo possuía um Colt velho, preso por uma corda, ali debaixo. Ela não estava compreendo aquela insinuação de Lockhart.
— Deixe minha família fora disso...
— O senhor sabe que posso tirar-lhe tudo, não? – continuou Gilderoy — Até seus filhos. Que tipo de homem não consegue sustentar sua bela esposa e suas crianças? É necessário ter algum dinheiro debaixo do colchão, no fim de cada boa temporada.
— Olhe Gilderoy, eu posso pagar no fim da semana, certo?! Quanto tenho que dar? — perguntou Harry. Hermione notou que as mãos do amigo tremiam involuntariamente, embaixo do balcão.
— Pensando melhor, existem outras formas de abater essa dívida. Eu tenho muito dinheiro, você sabe. Posso até cobrir sua parte se... Bem, a Ginevra for me visitar um dia desses, bem de madrugada, entende?
Então Hermione entendeu. E dentro de si, a raiva expurgou com a mesma intensidade de que deveria estar dentro do amigo. Sentiu-se tão revoltada que se via prestes a sair de trás do balcão e desmascarar a cara deslavada de Gilderoy Lockhart, quando algo à fez estarrecer onde estava. Aos três, aliás.
— PROCURO POR UM HOMEM CHAMADO VITOR KRUM! — gritou uma voz masculina, da rua.
— Mas o que é isso? — resmungou Gilderoy, exasperado.
A seguir barulhos de tiros irromperam do lado de fora, provavelmente pistolas descarregadas ao ar, e uma gritaria histérica de transeuntes nas ruas, começou. Harry tocou a arma debaixo do balcão, e olhou de esgueira para ela, mandando, apenas com movimentos labiais, que permanecesse ali.
— Quem ousa atirar na minha cidade! — esbravejou Gilderoy, pondo-se de pé.
Do lado de fora, a voz continuava a gritar para quem quisesse ouvir.
“UM HOMEM CHAMADO VITOR KRUM, MORADOR DESTA CIDADE, NUM RANCHO HÁ ALGUNS QUILOMETROS DAQUI, TRAPACEOU NUMA JOGATINA PARA CIMA DE UM DOS MEUS HOMENS, E DEPOIS O ASSASSINOU A SANGUE FRIO, JOGANDO-O NUMA VALA NO DESERTO!”
O coração de Hermione disparou loucamente dentro do peito, e ela se encolheu para mais dentro do balcão.
“ACONTECE QUE NINGUÉM VEM E MATA UM DOS PULILOS DE ARNIE AUSTIN, E SAÍ ILESO! NINGUÉM!”
— Oh, céus... Arnie Austin, esse maldito está valendo uma cidade inteira na delegacia federal de Santa Fé. Desgraçado! Quem pensa que é para ficar atirando pelos ares na minha cidade?
Um arrastar de cadeiras e passos apressados contra o assoalho do saguão anunciou que Gilderoy se distanciou do balcão em direção à porta. Nesta altura, a mente de Hermione era uma névoa de puro temor. Como algo que já estava péssimo poderia ficar pior? Arnie era um dos bandidos e pistoleiros mais temido em Louisiana.
“Por quê? Porque seu marido teve de se meter com aquele tipo de gente?”
“TENHO APENAS UM COMUNICADO A FAZER PARA VOCÊS, QUERIDOS HABITANTES DESSA CIDADE DE BOSTA! SE ALGUÉM FOR ESTE ORDINÁRIO, QUE DEVE ESTAR NA COMPANHIA DE ALGUMA VADIA POR CAUSA DISSO, — ele fez uma pausa, talvez para mostrar algo — NÃO VOU TER PIEDADE. VOU FICAR DE GUARDA PELO PERÍMETRO DESSA DROGA DE KEN WEST ATÉ ENCONTRAR VOCÊ, SENHOR KRUM.”
A porta do saguão fez aquele barulho típico das portas de vai e vem quando abrem, dando a Hermione a certeza de que Lockhart havia saído do hotel. Mas ela continuava tão paralisada de terror, que tinha medo que se olhasse pela fresta no balcão, alguém a identificasse. Então, ouviu uma voz falar alto para o suposto bando de Arnie Austin.
“ABAIXE ESTA ARMA E SAÍA DE CIMA DO CAVALO, DEVAGAR... TODOS VOCÊS, ALIÁS.”
Harry contornou o balcão, sussurrando antes para ela permanecer onde estava. Pode ouvi-lo prontamente mandando as crianças voltarem para os quartos, pois o tiro e as gritarias na frente do hotel devem tê-las atraído para o saguão.
“ESTOU AVISANDO, SUA ESCÓRIA, ABAIXE...” — escutou Lockhart gritar mais uma vez.
E, num repente, veio uma rajada de disparos. Harry voltou correndo para trás do balcão e se encolheu do lado de Hermione sob os ensurdecedores estilhaços dos vidros da fachada do hotel sendo reduzidos a poeira cristalina.
“QUEM TENTAR TRAZER OS FEDERAIS PARA CÁ, ESTARÁ TÃO MORTO QUANTO ESSE INFELIZ AÍ!” — os dois ouviram a voz gritar.
Logo, os trotes de diversos cavalos começaram a se dissipar para esquerda e tudo o que restou foi uma gritaria e uma choradeira incessante do lado de fora.
— Fique aqui! – pediu Harry, saindo de trás do balcão e caminhando para a fachada.
Após dois minutos, Hermione ergueu a cabeça para fora do balcão, agitada demais para continuar esperando qualquer coisa. O amigo estava correndo de volta para dentro do hotel com algo na mão. Contornou o balcão, ajoelhou-se ao lado dela e disse:
— Isso é seu?
Hermione fitou o que ele portava nas mãos. Levou um choque quando viu sua camisola gasta e suja de sangue da noite passada.
— Onde conseguiu isso?
— Estava jogada na rua. Provavelmente foi Arnie e seu bando que a deixaram lá. — informou-lhe, deslizando ao lado dela, ofegante — Deus, Mione! Vocês se meteram com Arnie Austin!
Ela mesma ainda estava chocada com a descoberta desse fato.
— Ficar em Ken West já não é mais uma opção, sabe disso agora. — continuou ele.
— Porque seus sapatos estão manchados de sangue? — foi o que ele a ouviu dizer.
— O Lockhart está estirado na frente da minha varanda. — comentou com indiferença.
— Ele... Morreu?
— Acho que apenas morto não define.
***
O Sol já havia ido embora quando Gina disse pela terceira vez a Hermione e ao seu marido o que vira e ouvira, enquanto estava na cidade, no momento que um bando de pistoleiros mal-encarados entrou em Ken West.
— Estou dizendo, quem viu de perto os sujeitos jura de pés juntos que nenhum deles era Arnie Austin! — exclamou com convicção.
No momento do tiroteio a ruiva caminhava por vários quarteirões de distância do hotel.
— Ah não! Talvez seja por isso que eu ainda estou viva... — gemeu Hermione, deslizando para cadeira mais próxima. — Estou sendo cercada pelo bando dele?
Harry voltou-se para esposa.
— Acho que as pessoas estão certas, Gina. A cabeça de Arnie vale mais que Rocky Deep inteira. Ele nunca se arriscaria dentro das cidades. Mas provavelmente seus homens ainda estão por aí, cercando as montanhas, como prometido.
— E você acha que se esse seu amigo sair da cidade hoje, conduzindo uma carroça coberta, eles não vão desconfiar?
— Acontece que Rúbeo entra e saí da cidade quase toda noite. Ele transporta cabras, porcos, galinhas das fazendas para cá. Não é um tipo suspeito. Pode muito bem levar Vitor até esse bom doutor que mora retirado nas montanhas, a caminho de Rocky Deep.
— Eu vou também. Não deixarei Vitor sozinho. — informou Hermione, apenas para deixar claro suas decisões.
A atitude do amigo não poderia ter sido mais antagônica.
— Não, Mione! Você pode ficar aqui, conosco. As pessoas na cidade não lembram que você é a mulher de Vitor, muito menos nossa amiga. Posso inventar qualquer desculpa. Você ser uma prima da Gina, por exemplo.
— Não, não. Eu vou com ele. — ela continuava a teimar.
— Hermione, — ele pegou um de suas mãos e a segurou fortemente entre as dele. —Talvez o melhor fosse você se afastar de Vitor, diminuir as chances de alguém conseguir ligar você a ele. Nós estamos falando de Arnie Austin.
— E do meu marido também. — foi à resposta dela.
— Não há opções. — insistiu ele.
— Colocando dessa forma, na verdade há uma sim. — arriscou Gina — Você pode conseguir um mercenário para protegê-la e ao Krum.
Harry olhou para mulher, perplexo, como se quisesse dizer que tipo de ideia maluca ela estava fomentando. Hermione, pelo contrário, animou-se como se um lampião se acendesse dentro de uma caverna sombria.
— Como consigo falar com uma dessas pessoas?
— Ham... Bem... — começou Gina, mas Harry a interrompeu.
— Nem continue Gina! Nem continue! — exclamou aos brados.
— Ela tem o direito de tentar, Harry! — retrucou a esposa.
— O que? Mas do que vocês estão falando? — inquiriu Hermione, desconfiando de algo a mais por de trás daquelas suposições.
— Não é nada!
— Claro que é! Mione, eu conheço alguém muito bom que pode te ajudar. — disse Gina de uma vez.
— Ah, claro. Como se ela fosse recorrer a ele... — o amigo ergueu as mãos, totalmente contrariado.
— Quem é?
Harry amarrou a cara para mulher. Gina ignorou-o, olhando Hermione bem no fundo dos olhos, e falou:
— Rony! Ele pode te ajudar.
— Rony? – repetiu Hermione, estupefata. Há muitos anos já não ouvia mais aquele nome.
— Sim, eu não me orgulho nada em dizer isto, mas meu irmão transformou-se num mercenário muito requisitado em Rocky Deep.
— Já acabou com essa loucura? – intrometeu-se Harry, nem dando tempo dela raciocinar e digerir o que tinha acabado de escutar — Agora vamos fazer um favor de ajudar a Mione de verdade?
— Se ele pode mesmo me ajudar, como posso encontra-lo? — a pergunta escapuliu de seus lábios, movidos pelo simples e visceral impulso de sobrevivência.
***
Naquela mesma noite, pouco depois das dez da noite, Hermione estava no seu quarto preparando a singela trouxa de roupa que desarrumara mais cedo e sentindo-se pronta para partir. Rúbeo, como se chamava o carroceiro que poderia levar eles até o doutor que Harry dissera ser o melhor da região, chegaria a alguns minutos e esperaria por eles nas portas do fundo do hotel.
Quando terminou de dobrar seu casaco e enfiá-lo dentro do saco, viu alguém surgir à soleira da porta. Era Harry.
— Então você vai... E pelo visto também acha aquela ideia absurda de ir procurá-lo válida, suponho.
— Harry, não fique bravo comigo. — disse ela com candura, tocando o amigo pelos ombros.
— Não é certo ir atrás dele novamente. — ouviu de sua voz abatida.
— Eu sei que você sempre quis o melhor para mim, e ainda continua querendo. Acontece que não posso arriscar sua família dessa forma. Indiretamente, eu os coloquei no meio disso, e preciso me livrar fugindo ou procurando ajuda. Vou atrás dele, mas não pelos motivos antigos.
— Por motivos piores. – ele suspirou.
— Harry... — sussurrou ela, fazendo o amigo a encarar — Já que estamos tocando em assuntos dos quais aparentemente queremos sufocar, que tipo de conversa foi aquela em volta de Gina, que você teve com Lockhart minutos antes dele...
— Não importa. O desgraçado morreu agora. — interrompeu-a
Hermione não tirou os olhos de cima dele. Ele enfim, disse:
— Gilderoy tentou estuprar Gina uma vez. — ela esperava por tudo, menos aquilo — Mudei para esta cidade para dar uma vida melhor para ela, e esse lugarzinho maldito foi tudo o que consegui.
— Céus, e vocês não deram queixa?
— Fui burro o suficiente para falar com os dois melhores amigos dele, o vigário Paul e o xerife Warterman. Sabe o que ganhei? Impostos mais altos e ameaças, se por um acaso, levasse o assunto a público. — e assim deixou-a a par dos fatos, com azedume na voz.
— Isso tudo é muito terrível. — articulou baixinho — Como Gina ficou?
— É incrível como minha mulher consegue ser duas vezes mais forte que eu... Todas as mulheres que me rodeiam são assim, aliás. — e esboçando um sorriso cansado para a amiga, completou— Temo que Lilian seja igual.
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