Black Jack
4 O Cocheiro Gigante
Notas iniciais
No caminho entre Ken West e Rocky Deep existe uma infinidade de
montanhas e vales.
A estrada principal é rente aos trilhos de ferro que são promessa de
Um futuro menos miserável, pois o progresso galga de encontro às cidades
empoeiradas da Louisiana.
Ele ainda não chegou até nós.
Mas, sabidamente, a ferrovia e as estradas vicinais que ela criou tem sua utilidade.
Os viajantes ficam mais vulneráveis enquanto orlas de bandidos espreitam atrás das planícies.
Nesses momentos as vítimas têm de disporem de bons cavalos para uma fuga abrupta, além de uma figura de respeito que o pode, ou não, ser uma ameaça.
Tudo estava pronto para partida de Hermione e Vitor, quando o inconveniente bateu a porta da hospedaria. Rapidamente ela desceu as escadas do saguão e foi esconder-se nos aposentos dos Potter. Faltava pouco menos de meia hora para o homem que os levaria sob uma suposta proteção de carroça, até a casa de um, também, suposto doutor, surgir nos fundos do hotel.
Assim, Harry e nem ninguém, contava com a inesperada visita de duas figuras perigosas àquela hora da noite. Agora, enquanto Gina e Hermione espiavam por um vão na porta, Harry recebia o vigário Paul e o xerife Warterman nos sofazinhos de centro do saguão. O tema da conversa era previsível. Eles falavam sobre o fatídico episódio daquela tarde, dando uma ênfase amargura na morte de Gilderoy Lockhart. Um homem bem nascido, de caráter inquestionável, tendo participação decisiva no crescimento da economia microscópica de Ken West. Sempre com ideias visionárias, quando o conselho da cidade se reunia, e, indubitavelmente disposto a dar oportunidade aos menos afortunados na comunidade.
Um grandíssimo agiota aproveitador poderia definir o Sr. Lockhart melhor e com menos adjetivos. Mas o que era Ken West, além de uma cidade de falsas aparências.
Hermione viu o amigo encenando muito mal quando teve de concordar com um aceno de cabeça sobre todas as virtudes da qual um queixoso vigário Paul, respaldava. Mas, por outro lado, o amigo se saiu feito um verdadeiro ator quando o xerife Warterman o inquiriu sobre o tal Sr. Krum, e ele, bem cinicamente, lhe dissera que tudo o que sabia sobre o tal, era o mesmo que todo mundo – Krum vivia com a esposa num ranchinho distante da cidade.
“A memória das pessoas é curta nas festas da comunidade”, foi o que Gina sussurrou. Há algumas semanas os Krum haviam estado na festa dos rancheiros dando gargalhadas e abraços calorosos nos seus amigos mais chegados, os Potter. Agora, incrivelmente, e pelo o que o xerife estava falando, ninguém na comunidade conseguia se lembrar de uma descrição perfeita do tal Vitor Krum, muito menos de sua mulher. Naquele momento Hermione finalmente viu uma retribuição pelo seu isolamento no rancho, durante todos os anos vividos em Ken West. Se aparecia numa mercearia ou numa festinha comunitária podia contar nos dedos quantas vezes fazia isso por ano. Vitor também preferia recorrer aos vilarejos vizinhos ou a própria Albuquerque para comprar os mantimentos, uma vez que na própria cidade Lockhart debilmente deixava os produtos a preços exorbitantes para quem não morasse naquele miolinho asqueroso. Pela primeira vez, ela sentiu-se grata por não passar de uma forasteira naquela cidade.
Quando a conversa terminou, com promessas de que Harry procuraria saber mais sobre esse tal de Krum, e prometendo comparecer a procissão em homenagem a Gilderoy, ele trancou a porta principal do hotel e foi para sua saleta particular. A esposa e Hermione já haviam descolado os ouvidos da porta, o que a ele pareceu óbvio de que estavam escutando cada palavra no saguão, porque nem tocou no assunto vigário Paul ou xerife Warterman, quando entrou.
— Rúbeo já deve estar chegando. —disse afoito — Está tudo pronto, Hermione?
— Sim.
— Eu vou ver se ele já está chegando, então. – e se dirigiu para as portas dos fundos onde ficou de tocaia por meros cinco minutos, antes de retornar a sala novamente. — Certo, ele chegou.
Pondo-se de pé, ela pegou sua bagagem e, com Gina em seu encalço, pôs-se a seguir Harry até a porta dos fundos. Encontrou uma rua tão deserta quanto a havia deixado de manhã. O silêncio sepulcral poderia ser interpretado como luto pela morte de Gilderoy ou temor pelos pistoleiros, que juraram estar em qualquer lugar daquelas montanhas os vigiando. Tentando não olhar ao redor e pensar em alguém de tocaia nas planícies mais próximas, pois o amigo já se ocupava dessa tarefa, ela deu atenção à rua e o que viu, ou quem, quase a fez recuar de susto. De pé, em frente uma carroça baú, com uma das mãos apoiadas na madeira e a outra na cintura, via-se o ser humano mais gigantesco e mal encarado do mundo.
Rúbeo, se aquele fosse realmente ele, era um homem imenso com espaçosos dois metros de altura e sabe-se lá Deus quantos quilos. Para torna-lo ainda mais ameaçador a higiene não parecia seu forte, não enxergando aquela barba castanha, volumosa e desgrenhada e aquele cabelo igualmente espalhafatoso. O gigante, porque para Hermione não havia dúvida de que o cocheiro viera de um conto macabro sobre inumanos, avançou dois passos – foi somente o que bastou – para alcançar ela e Harry, que continuavam parados na porta.
— Caro, Harry! — saudou, numa voz enérgica e amistosa, nada condizendo com seu visual. — Como vai amigo?! —e sem cerimônia puxou Harry para si, fazendo-o desaparecer dentro da sua pança avantajada.
Aquilo estava cada vez mais surpreendente, ela pensou. Rúbeo não era apenas um conhecido, ele parecia mais um “grande” amigo de seu amigo. Hermione esperava por tudo, exceto aquele abraço caloroso. E não terminou por aí...
— Oh, Hagrid! — exclamou Harry, completamente amarrotado, quando conseguiu se livrar do abraço do carroceiro — Eu vou bem. Mas deixemos a conversa para depois. Como eu disse minha amiga precisa muito de uma ajuda sua para levar seu esposo até o doutor.
— Quem? Ela? – ele inquiriu, apontando para Hermione.
— Exato. —disse o amigo.
— Então venha aqui, amiga do meu amigo é minha amiga também. — e antes que ela pudesse prever ou, muito menos se desvencilhar Rúbeo já a esmagava num abraço igualmente sufocante.
— Hagrid, nós não temos tempo para isso. — ela ouviu Harry dizer quando seu corpo, triturado, foi novamente posto ao chão.
—Ah, claro... desculpe. —disse o gigante, sem graça. — Olá, Ginevra! —a ruiva, muito sábia, apenas acenou da soleira da porta. — E onde está o rapaz que tenho de levar para o Dr. Dumbledore? —voltou-se para Harry.
— Ele está ali dentro, no quarto. Ainda continua inconsciente.
— Humm... entendo... – murmurou o gigante, muito sério. — Já arrumei a palha ali na carroça para ele. Não estou com o carregamento cheio hoje à noite, para falar a verdade tenho apenas bezerro na caçamba.
Hermione arregalou os olhos. Havia entendido bem? Vitor iria viajar dividindo uma carroça com um bezerro?
— Mas não se preocupe senhorita. — alertou Rúbeo, que provavelmente percebeu as expressões de espanto dela — O bezerrinho é extremamente inofensivo. Aliás, só dorme aquele danadinho!
— Tá, tá! — interrompeu o amigo, temendo que aquela conversa desnecessária pudesse atrasar as coisas. Hermione continuava chocada demais com o visual e as atitudes controversas do gigante, para pensar no perigo de se demorarem ali, no meio da rua. —Hagrid, me siga, vamos buscar o rapaz que lhe falei, lá dentro.
Quando Harry entrou na casa, seguido do cocheiro que teve de abaixar metade do tronco para passar pela porta, Gina aproximou-se da carroça baú e começou a abri-la. Hermione continuava em transe, sem conseguir formar uma ideia sólida do homem que levaria ela e o marido até esse doutor que agora possuía um nome – Dumbledore.
— Apenas para te deixar a par dos fatos e ver se você consegue tirar essa expressão de espanto do rosto, aquele é Rúbeo Hagrid, seu cocheiro nas próximas horas. —Gina destravou a fechadura de ferro da porta da caçamba e deslizou a trava para esquerda — Ele tem uma doença de nascença que o deixou crescer mais do que o devido. Dr. Dumbledore, que é o homem que o criou boa parte da vida, chama isso de Gigantismo. É algo raro, mas acontece. Hagrid sofreu muito preconceito pela sua aparência durante a vida toda, e foi abandonado pela sua mãe aos quatorze anos, por este mesmo motivo. Mas, inversamente a sua aparência e a sua história de vida, ele é o ser humano mais adorável e de bondoso, que já nasceu nessa cidade. Portanto, Hermione, — e olhou para ela com um sorriso gentil — não julgue-o como os demais, apenas pelo que vê. Bastará apenas uma viagem para perceber o quão bom ele é.
Assim que Gina terminou seu monólogo a favor de Rúbeo Hagrid o gigante órfão, de bom coração, ela se depara com seu marido sendo levado como um boneco de pano sem peso, porta afora, nos braços do mesmo. Harry seguiu para fora e terminou de abrir a carroça, onde o cocheiro depositou cuidadosamente o corpo de Vitor na escuridão malcheirosa que era lá dentro. Ela ainda vislumbrou algo se mexendo ao fundo, provavelmente o bezerro, antes de ele fechar a carroça.
—Bem, até o amanhecer eu estarei lá. — anunciou Hagrid, esfregando as mãos. — Volto com notícias quando Dumbledore o examinar.
—Ah, Hagrid! — chamou Harry — Tem mais...
Hagrid fitou-o, esperando por esse algo a mais. Ou melhor, por essa pessoa a mais.
—A esposa dele, Hermione, vai também. — Hermione segurou seus pertences com força entre os dedos, enquanto o gigante a estudava com o olhar. No combinado, Harry havia dito apenas que seu marido iria até Dumbledore. Em momento algum mencionara ela.
—Hã... – Hagrid parecia desconcertado.
Hermione dirigiu a palavra a Hagrid, pela primeira vez.
— Harry não sabia, mas eu acompanho meu marido para onde ele for. Por favor, preciso ir com vocês.
Então, provando o bom coração do qual Gina lhe falara que ele possuía, Hagrid abriu um sorriso de dentes perfeitos – uma surpresa – e fazendo um gesto de aproximação com a mão gigante, disse:
— Está ótimo então! E bom ter alguém para conversar durante o caminho, no fim das contas.
***
Uma noite sem estrelas e sem os sons instigantes que somente o por do Sol trazia as montanhas do oeste, não era promessa de paz.
Hermione via-se encurralada dentro de si, lutando contra a aflição e a ansiedade presentes constantemente, uma tormenta da qual ela não conseguia se esquivar. Como uma garota de Rocky Deep, naturalmente cresceu ouvindo os casos mais horripilantes de quem cruzava o caminho de assassinos impiedosos, sem família, caráter ou moral. Famílias inteiras desaparecidas, mulheres queimadas e estupradas, homens enforcados e esquartejados. Coisas que não combinavam com todo aquele progresso avançando para dentro das cidades, ou das promessas ideológicas de Thomas Jefferson, das quais Millard Fillmore continuava a pregar.
Foi quando, numa noite de verão, há menos de vinte e quatro horas, ela viu-se como uma personagem que tinha de ser estoica para sobreviver. Exatamente do modo como assimilara os trágicos fatos que tanto escutara na adolescência. Pessoas comuns tendo de executar ações incomuns para salvarem a si ou a um ente querido, das garras das mais diversas personificações do mal.
O homem que estava ao seu lado agora, cantarolando alguma canção indígena nada condizente a suas feições bárbaras, não tinha ideia de que a mulher esguia, de expressões delicadas, sentada no banco do passageiro, havia assassino outro ser humano à queima roupa. Talvez ainda conservasse a pólvora nas mãos.
Gina, claro, não poderia estar mais certa. Bastou vinte minutos de conversa com Rúbeo Hagrid para saber que o cocheiro jamais matara um cão selvagem, o que dirá uma pessoa, de carne e osso, com uma vida e uma história. E, Hermione, não parava de ruminar sobre suas últimas ações para salvar seu esposo, experimento o remorso de ter puxado o gatilho contra o pistoleiro, no terrível impasse do “e se...”.
— Então a senhorita também vêm de Rocky Deep? — perguntou Hagrid, resgatando-a de seus pensamentos cheios de culpa.
A carroça avançava num ritmo gostoso, o vento refrescante da noite indo de encontro ao rosto dos dois, por um caminho colina adentro, fora da estrada principal.
— Sim, eu e Harry somos amigos de infância. — respondeu.
— Sabe, Harry, Ginevra, as crianças... gosto tanto deles todos. — confidenciava Hagrid num tom melancólico — São pessoas tão boas que não mereciam estar vivendo ali.
— Rocky Deep é mil vezes pior, Hagrid. Pode apostar.
—Não consigo imaginar nada pior do que a falsidade das pessoas e o preconceito. Ah, o preconceito está em todo lugar. — dizia mais como se estivesse falando para si mesmo do que para ela. —Extorquir em nome de Deus e da segurança não é correto, todo mundo sabe que não é!
— Rúbeo? Na cidade onde eu nasci os rapazes são lançados em negócios ilícitos antes que, sequer, tenham formado um senso moral. Quem não consegue virar uma mulher de família se casando, e isso porque a vida de esposa não é nada fácil lá, acaba sempre trabalhando nos bordéis. Rocky Deep é um grande mercado de prostituição, responsável por alimentar todas essas cidadelas vizinhas, inclusive Ken West. Não me surpreenderia em encontrar alguns sisudos maridos daqui, nas camas dos saloons de lá.
Hagrid coçou a barba, praticamente sem argumento.
— O problema está no ser humano, como sempre. — foi tudo o que encontrou para dizer.
— Concordo. – e eles se calaram novamente.
A roda esbarrou num pedregulho grande pelo caminho, e algo balançou com força dentro da caçamba. Rúbeo fitou Hermione se canto de olho:
— Não se preocupe. Coloquei muita palha lá trás. —tentou tranquilizara. —Dumbledore vai cuidar dele de uma forma como você nunca viu! Aquele homem tem as mãos de um mago. Um bom homem, Dumbledore...
— Aposto todas as minhas fichas nisso, também. — disse ela, sinceramente.
Hermione sentiu a chegada da madrugada quando o céu parecia um manto negro a despejar o sereno da noite sobre as cabeças deles. Seu nariz começou a escorrer e uma leve dor de cabeça anunciava de que aquela viagem traria algum malefício ao seu corpo, num futuro muito próximo. Hagrid ofereceu-se mais de uma vez para parar a carroça e abrir a caçamba para ela entrar. Mas Vitor desmaiado, um monte de palha ressecada e um bezerro leiteiro, não lhe pareceu uma saída mais atraente do permanecer na friagem da madrugada.
Por outro lado, não havia como sentir-se mais sortuda do que conseguir sair do perímetro de Ken West sem ser abordada pelos homens de Arnie Austin ou algum civil. As pessoas estavam assustadas demais para saírem de suas casas aquela noite, e o bando talvez estivessem visando outro perfil de transeuntes do que um cocheiro com gigantismo e uma mulher de aspecto frágil.
Contudo, a sorte era algo dúbio, já dizia seu marido – o viciado jogador de BlackJack – e Hermione a viu mudar quando o barulho de cascos de cavalos se juntarem aos dos alazões que conduziam a carroça. Hagrid endireitou o corpo e fez uma expressão séria, Hermione se encolheu no assento, e ambos viram dois cavaleiros se aproximarem por trás, emparelhando o veículo.
— Porque estão com os lampiões apagados? — foi o que um deles disse. Carregava uma tocha nas mãos, o que só deixava sua expressão cadavérica e suja, mais grotesca.
—Conheço o caminho de cor e posso enxergar muito bem com o auxílio da lua. — respondeu-lhe Hagrid, sem vacilar.
Todos os aliados de Hermione eram excelentes interpretes, ela notou com um comedido alívio. Haviam escolhido não usar os lampiões justamente para ficarem mais invisíveis na madrugada, embora as duas justificativas de Rúbeo fossem, de fato, as que conseguiam conduzi-los ao seu destino sem o auxílio da luz.
— Está vindo da cidade? — perguntou o outro cavaleiro, postando seu cavalo na frente da carroça, e obrigando Rúbeo a parar.
Era tão feio quanto o outro, com o adicional de ter um cabelo engordurado que escorria-lhe pelas têmporas.
— Sim. — disse o cocheiro, depois de pensar um bocado.
As entranhas de Hermione começaram a se revirarem de desespero. Podiam estar diante dos homens de Arnie Austin como de dois ladrões famigerados. Em nenhuma das hipóteses aquilo era animador, uma vez que Rúbeo não parecia ser do tipo que portasse armas de fogo debaixo do banco.
— O que faz aqui, na madrugada? Nas planícies? —Rosto Cadavérico perguntou.
— Sou um transportador de mercadorias. Não possuo dia ou hora certa para realizar meu ofício. — continuou Hagrid, mantendo uma calma na voz da qual provavelmente Hermione não conseguiria se fosse questionada. Talvez ele já estivesse acostumado a sofrer roubos, ou quem sabe, havia se preparado psicologicamente para levar um problemão na bagagem, se Harry lhe contou em detalhes quem era o futuro paciente do Dr. Dumbledore.
—E ela? — Cabelos Engordurados questionou-o, apontando com a cabeça para Hermione. — É uma prostituta?
—Não. Claro que não! — esbravejou Rúbeo, chocado com tal suposição. — Ela é minha filha! – disse com veemência.
Os dois cavaleiros se olharam, cautelosos. Talvez não fossem a intenção deles, provocarem o gigante cocheiro. Mas também não estava em seus hábitos serem tratados com indiferença, ou, dependendo do ponto de vista, desrespeito. Aquele questionário deixava Hermione cada vez mais convencida que os dois sujeitos eram do bando de Arnie.
— O que está levando hoje? —grunhiu Rosto Cadavérico.
Os dois pareciam se revezar nas perguntas. Poderia ser patético, se já não estivesse sendo assustador.
— São apenas alguns bezerros.
Cabelos Engordurados retirou uma pistola do coldre e começou a balança-la na mão. A luz da tocha, que portava na mão esquerda, tornava seu semblante uma visão demente.
— Sabe quem somos, oh gigante? — foi o que ele disse, se apoiando no lombo do cavalo. Rosto Cadavérico desceu do cavalo e foi para trás da carroça, para o pânico geral de Hermione. Seu pensamento a seguir foi bizarro, e também a assustou, porque se imaginou com uma arma na mão fazendo o mesmo ou pior, do que fizera em sua casa, na madrugada passada. Tudo para salvar Vitor, vulnerável dentro da caçamba.
— Não. Desculpe-me, mas não ando com tipos como os seus.
Hagrid não havia dito aquilo. Ou havia? Ao que tudo indicava sim, pois Cabelos Engordurados arqueou as sobrancelhas, chocado por não estar intimidando o cocheiro como gostaria.
— Oh, oh... — ele sonorizou com uma risada esquisita. Rosto Cadavérico deu a volta na carroça e parou bem ao lado de Hermione, fitando seu corpo sem nenhum pudor. — Grandão, vou te dar um desconto por estar muito tarde e você e sua filha, provavelmente estarem exausto da viagem. Somente desta vez não acho necessário informar a Arnie Austin de que um reles cocheiro está menosprezando seus homens. O que acha, Terry?
— Como quiser Filch. — Rosto Cadavérico deu de ombros — Mas cadê a chave da carroça?
Hagrid titubeou pela primeira vez, engolindo em seco antes de responder de forma um tanto alarmada.
— Levo apenas uns bezerros, já falei. Não há necessidade de acordar os animais.
O som de uma arma sendo engatilhada veio da frente, e eles depararam-se com Cabelos Engordurados, também chamado de Filch pelo seu companheiro, apontando sua pistola direto para a cabeça de Hermione.
— É bom abrir a caçamba para nós, gigante. Se não quiser ver a cabeça da sua filhinha explodir feito uma maçã podre.
Hagrid olhou para Hermione, sem ação. Se havia um plano B para tudo aquilo, os olhos de Rúbeo não indicavam existir. A jornada havia acabado antes de começar, e a questão que a afligiu era apenas se ela morreria com uma simples bala na cabeça ou se ficaria viva por mais tempo. Para sofrer mais.
A sorte era algo dúbio, ouviu a voz de seu marido lhe sussurrar. E ela, mais uma vez, feito uma gangorra descontrolada, mudou tudo no último segundo. O som foi um estampido mais violento do que ela produzira contra o corpo do pistoleiro em sua casa e o estrago lhe pareceu infinitamente mais bruto.
Num segundo Filch apontava-lhe uma arma, no próximo, caía rapidamente da montaria, sucumbido ao disparo de um projétil certeiro, transpassando sua cabeça de orelha a orelha. O baque seco do corpo do homem, o relinchar assustado de seu cavalo, correndo desesperado, ainda com seu cavaleiro morto, preso pela perna ao estribo, e uma rajada de outros disparos contra a carroça pareceu passar em câmera lenta diante dos olhos de Hermione.
Então a carroça começou a se movimentar, mais rápida, e Hagrid açoitou seus alazões mesmo sem querer, só para poder tira-los daquela situação surreal. Rosto Cadavérico ficou para trás, enquanto o cocheiro e a morena ganhavam distância e vantagem da confusão, por estarem protegidos no negrume da madrugada.
— O que aconteceu ali atrás? — perguntou Hermione, o coração batendo loucamente dentro do peito. O corpo balançando com violência no banco pelo avanço frenético do veículo.
— Provavelmente um bando de assaltantes de espreita nas planícies. — berrou o cocheiro—Bastou os dois ficarem parados por um tempo, no mesmo lugar, com tochas acessas, para chamar a atenção deles.
— Eles atiraram naquele tal de Filch? — ela ainda não conseguia assimilar.
— O alvo éramos todos nós. Provavelmente estão um pouco longe e começaram a atirar a esmo para abater as vítimas antes de chegarem. Eles podem nem terem visto que estávamos de carroça, mas, sinceramente, não vamos ficar para ver...!
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