Black Jack

5 O Bom Doutor


Notas iniciais
Oie, pessoal! Essa é a semana do meu níver, então que tal um super comentário kkkkkk Estou adorando as meninas que estão comentando, por falar nisso. Beijos pra todo mundo! :*

E mais uma vez lá estava ela. Vendo o dia amanhecer longe de sua casa e somente tendo incertezas dentro do coração. Novamente no balançar monótono de uma carroça, mas agora com outra pessoa ao lado, que já não podia ser classificado como um estranho.

Os ares haviam se transmutado depois de galgarem quilômetros num sentido oposto de Ken West. Quente, mas não abafado. O clima ameno poderia, contudo, advir dos raios mornos da manhã ou do ambiente rochoso que os cercava. Numa marcha constante, Hermione e Hagrid se emprenharam por uma fenda de arenito, poucas horas antes do dia alvorecer, percorrendo um assombroso desfiladeiro de paredões negros a lhes escoltarem.

Hagrid estava muito longe de ser alguém que passasse tranquilidade, porque, assim que adentraram no desfiladeiro, foi logo dizendo do perigo eminente do qual corriam. A escuridão soturna, convidativa a jaguares e matilhas de lobo, somado a probabilidade de serem acertados por uma pedra a se desprender de sua crista, num topo a mais de 50 metros acima, ocupavam o alto da lista dos perigos que aquele caminho apresentava. Em contra partida, ninguém entre mocinhos e bandidos gostava de se emprenhar ali. Por isso, durante o caminho até a casa do Dr. Dumbledore, Hermione poderia se considerar protegida.

Um casebre de madeira despontou no cume de um vale, quando a carroça finalmente saiu de dentro do desfiladeiro e começou a subir. Era uma construção simples, sem celeiro ou estábulo. Apenas um amontoado de lenha e um pequeno curral vazio agregavam a singela propriedade. A temperatura naquele começo de manhã era uma brisa levemente gélida, fazendo Hermione lembrar-se do clima instável de Rocky Deep. Um filete de fumaça esvaia-se pela chaminé, anunciando que seu morador já estava de pé.

Hagrid parou rente a lateral da casa e saltou do banco, esticando as pernas. Estavam em seu destino, afinal.

Hermione desceu da carroça, sentindo o mesmo formigamento paralisante do qual o cocheiro deveria estar passando, fora uma noite inteira sentados. Então, pôs-se a contemplar a ravina deserta, de quilômetros de extensão, que rodeava aquele vale. Um manto dourado e mortal para quem não conhecesse os melhores atalhos. A cidade mais próxima, ela sabia, estava a alguns dias de distância ao leste. Somente uma vez atravessara aqueles cânions para ir de Rocky Deep até Ken West. O Dr. Dumbledore e quem quer que mais que morasse com ele, vivia no limite entre o fim do mundo.

— Que viagem, hã Hermione?! —riu Hagrid, visivelmente aliviado de conseguirem chegar são e salvos ao destino.

— Obrigada. — agradeceu ela, se sentindo muito deslocada na situação que se encontrava.

— Ah, não precisa agradecer. — ele gesticulou, num sinal de pouca importância — Vamos te apresentar a Dumbledore e levar seu esposo até ele.

Com seus desajeitados passos gigantes, Rúbeo contornou a casa e chegou a varanda de tábuas soltas. Ao lado das escadas, um cavalo paio estava preso pelo cabresto num pedaço de pau.

— Oh, o sobrinho do Dr. Dumbledore não está aqui. — observou, passando a imensa mão pelo dorso do animal. — Apenas o solitário Frost amarrado ao tronco.

A porta da frente se escancarou, atraída pelas vozes do lado de fora. Uma figura magra e alta, de cabelos platinados e barba extremamente longa, surgiu diante deles. Vestia um colete velho por cima de uma blusa branca, e levava um chapéu surrado na cabeça. Tinha perspicazes olhos azuis, que, por de trás das lentes dos óculos, estudou Hermione atentamente. Seu semblante era tão sereno quanto misterioso, e ela viu-se hipnotizada por aquele homem senil.

— Olá Hagrid! —disse animadamente, num tom bondoso.

Hagrid desviou a atenção do cavalo que acariciava e mostrou um sorriso de orelha a orelha.

—Ahhh.... Doutor! — e subiu os degraus para abraçar o homem daquele jeito que Hermione sabia muito bem.

O Doutor poderia ser velho, mas exalava uma força física que somente os homens que tiveram uma vida dura, poderiam conservar. Retribuiu o abraço do gigante, com a mesma intensidade, ainda que seu corpo esguio se perdesse nos braços de Rúbeo.

— E a senhorita, quem seria? — perguntou diretamente a ela, quando os abraços terminaram.

— Olá, Doutor. — começou, aproximando-se e apertando-lhe a mão — Eu sou Hermione Krum, uma amiga de Harry Potter, da hospedaria de Ken West.

— Oh, claro. — disse ele, esboçando um sorriso de dentição perfeita. — Harry e sua adorável família.

— Ele me mandou até aqui, por intermédio de Hagrid, para que o senhor pudesse fazer algo por mim. Algo que, segundo ele, somente o doutor pode.

Dumbledore suspirou e desvio o olhar por segundos. Nesta pequena fração, Hermione achou que, novamente, tudo estava perdido. Estava se tornando uma mulher pessimista, talvez porque o desespero a incitasse a isso. Mas o velho voltou a fita-la e o que seguramente viu ali não era má vontade, e sim tristeza.

O Doutor Dumbledore era um homem inteligente.

— Quem é o pobre coitado?

— Meu marido.

***

Dumbledore avaliou o corpo moribundo de Vitor, mas suas expressões eram completamente impassíveis. Haviam deitado ele numa caminha rústica, rodeado por colchas gastas, mas limpas. As roupas continuavam conservadas, embora empoeiradas, e, nos locais onde as balas se cravarem, não se formara nenhuma aureola de sangue dos curativos. Contudo, bastava por os olhos nele para saber que não estava bem, nada bem.

O gesto seguinte do doutor foi pedir para Hagrid buscar “seus equipamentos” em algum lugar da casa. Em seguida, deu ordens para que Hermione tirasse a blusa do marido, a fim de que pudesse avaliar melhor as extensões dos ferimentos. Enquanto ele mesmo saia do quarto, trazendo coisas que julgava relevante para os procedimentos que tinha em mente.

Uma vez sozinha com Vitor, a morena sentiu sua pele fria como de um reptil, no momento que o despia com alguma dificuldade. Dumbledore continuava juntando pertences ao lado da cama – uma tina de água, panos limpos, uma garrafa de uísque. No assoalho, ela tinha a sensação de que algo fazia barulho também.

Já sem camisa, e revelando um tórax tão macilento quanto seu rosto, Dumbledore sentou-se ao lado de Vitor e começou a tirar os curativos que ela havia feito no marido há quase dois dias. Hermione fez menção de sair do quarto, mas o doutor, sem desviar o olhar para ela, disse:

— Fique aqui, senhorita Krum. Precisamos de você.

Hagrid surgiu à porta e levou uma frasqueira de metal até o velho, saindo do aposento logo em seguida.

— Rúbeo é meio fraco para essas coisas.

Pelo pouco que se lembrava, ela também.

— Abra à frasqueira, por favor. — pediu gentilmente, com as mãos ocupadas em remover as ataduras.

Hermione deu a volta no quarto e abriu-a. Dentro da maleta havia muitos objetos peculiares de metal, alguns potes contendo supostas ervas secas, vários pálidos de bambo finíssimos e pontiagudos, além de rolos de barbantes que pelo leve fedor foram confeccionados a partir da tripa de alguma animal.

— Nossa, isso está pior do que eu imaginava! – ele exclamou.

Hermione ergueu a cabeça e sua perna bambeou. Um tecido escuro, muito infeccionado deixava os buracos onde a bala transpassara, com um aspecto medonho.

— Não... — ela gemeu, os olhos cheios de lágrima.

— Quando o ferimento aconteceu?

— Um... um dia e meio... — balbuciou.

— Não é só a infecção que o está mantendo desacordado e com a pele neste estado. Uma hemorragia interna, não tão grave, mas também, não sem importância é o meu melhor palpite.

— Há algo que se possa fazer, não é? —questionou-o, com olhos desesperados.

— Sempre há. O que vai acontecer depois disso é que vai depender inteiramente dele. — refletiu. — Vamos, jogue a bebida em minhas mãos.

Para quem nunca arriscava olhar para os próprios joelhos ralados quando criança, Hermione estava prestes a se embrenhar numa autêntica cirurgia improvisada. Pensando em quanto da sua força interior já havia gastado, abriu o uísque e despejou sobre as mãos ossudas de veias saltadas e pele translucida, do bom doutor. Dumbledore esfregou as palmas e entre os dedos, e quando supôs que elas haviam ficado estéreis o suficiente, lancetou o indicador dentro da carne de Vitor. Com as pernas novamente bambas, a morena preferiu ajoelhar-se ao lado da cama e não assistir a tudo tão explicitamente.

— Ele não sente dor? — perguntou, enquanto o doutor cutucava os ferimentos do marido, por dentro.

— Não. E isso não é um bom sinal.

— Não? — arregalou os olhos.

— O senhor Krum encontrasse comatoso. Pode despertar quando convalescer ou, então, continuar dormindo... — ele fez uma careta intrigada, quando cutucou o ferimento, perto da barriga, então tirou o dedo de dentro e alguns coágulos de sangue ficaram grudados em sua unha. —Ora, acho que encontramos o foco da hemorragia, e parece que não se alojou em nenhum órgão vital. — anunciou, satisfeito.

Hermione ainda retinha aquela expressão assustada, resultado do efeito das palavras dele, de que o coma não era um bom sinal.

— Vamos, senhorita Krum. Anime-se! Embebede uma agulha de bambo e alguns centímetros de barbante na bebida, para mim.

Quando ela terminou o que lhe fora pedido, Dumbledore voltou com dois dedos agora, e a agulha na mão, enroscada no barbante, para dentro do marido. Pediu mais linha, as vezes que a cortasse, outras que molhasse suas mãos de novo, e assim, em pouco mais de uma hora Hermione conseguiu auxiliar o doutor na sutura e desinfecção de todos os ferimentos abertos no corpo de Vitor.

***

A tarde chegou e depois dela veio à noite, fria e silenciosa como Hermione previu. Novamente dormiu sob um teto que não lhe pertencia, com a diferença de que o abrigo desta vez era de completos estranhos a sua vida. Pessoas que conheceu a menos de vinte e quatro horas, mas que, mesmo assim, ajudaram a ela e a Vitor de uma maneira sem igual.

Aninhou-se ao marido comatoso, logo após a cirurgia, e ali ficou pelo resto do dia. Dumbledore e Hagrid chamaram-na para comer algo, mas ela apenas se devesse a menear a cabeça, dizendo que depois iria. Então, trazendo o braço de Vitor ao redor de sua cintura, ficou naquela mesma posição por muitas horas, chorando compulsivamente por alguma delas.

O primeiro medo que lhe assaltou foi à ideia de que ele nunca mais acordasse. Tê-lo como um morto vivo pelo resto dos dias, não poderia ser menos do que uma possibilidade aterradora. Depois pensou em todo esforço que fizera para chegar a Ken West e desfrutar de uma vida digna, como sua mãe sempre sonhara para ela. Os alicerces daquela existência, que nunca pareceram realmente sólidos, começavam a ruir. Não demorou a sua autopiedade se estender a Harry. Gina quase estuprada, uma corja de hipócritas cobradores de imposto na sua porta e uma família de três filhos para sustentar com o miserável dinheiro que conseguia no hotel. Não, também não fora esse destino que ela se lembrava de Harry ter dito, querer para si. Mas, o pior, como ser caçada por um bando de criminosos não fosse ruim o bastante, ainda estava por vir – remexer no passado não era saudável, como bem o amigo havia a alertado.

~~

Então é verdade? – disse uma voz muito familiar, que emergia das sombras.

Hermione não precisou virar para saber de quem se tratava. Menos não estando falando com ele a mais de cinco meses, conseguiria sentir sua presença mesmo que estivesse surda muda e cega.

Deus! Como as fofocas se espalham rápido por esta cidade. — ela disse.

Vitor agarrou-lhe o braço com força e pôs-se, como um animal protetor, a encarar o garoto ruivo que continuava a fita-los.

Você deve ser o Weasley? — ele perguntou, embora suas palavras parecessem mais um rosnado.

Hermione nunca havia visto seu noivo se alterar com alguém daquela forma, mas também nunca vira Vitor cara a cara com Rony.

E você o cara que vai dar uma vida gloriosa a Hermione. — disse debochadamente.

Está nos seguindo?

Claro que não. —retrucou ele, indignado. — A droga da rua é pública, meu camarada!

Ele aproximou-se. Portava aquela velha arma, encontrada na ferrovia, anos atrás, presa ao coldre. Apalpou-a ameaçadoramente. Mas a morena, conhecia o ruivo muito bem para saber, que ele jamais sacaria na sua direção. Era apenas uma forma que tentava encontrar para humilhar Vitor na frente dela.

Vai atirar em mim, patife? — riu Vitor.

Rony mordeu o lábio de irritação. Então, seu olhar cruzou com o dela, um misto de dignidade perdida e frase presa na garganta. Aquela era uma situação nova para o ruivo, e visivelmente ele não gostava de assentar-se sobre ela. Hermione, por outro lado, conhecia muito bem o poder cruel de tal humilhação.

Vamos Vitor, vamos! — exclamou, empurrando-o pelo braço, para junto da multidão na rua.

Encarando Rony com intimidação, Vitor acatou aos pedidos da namorada e começou a segui-la para longe da confusão. Sempre tão diferentes eles eram. Vitor complacente, Rony teimoso. Se a situação fosse inversa, Hermione estaria perdendo a voz no meio da rua, gritando para que o ex-namorado largasse alguém do qual ele estava julgando importante entrar numa briga.

O ruivo continuou parado, entre as sombras, mirando ela com incredulidade. Suas expressões sussurravam algo no ouvido dela, do qual ela queria ignorar a todo custo, e definitivamente. Somente uma certeza ela agarrava dentro do coração – não estava traindo Rony. Quem fez isso foi ele, quando desistiu dos dois. A vida era curta demais para ter de ficar esperando que ele entrasse nos eixos.

Isso! Vão mesmo! Sejam felizes no inferno, vocês dois! — ouviu-o gritar quando já estavam a muitos metros de distância.

~~

Seria uma piada de muito mau gosto voltar para Rocky Deep, buscando ajuda do cara que havia amaldiçoado a união deles. Não obstante, pediria ajuda para proteger seu marido de um bando de lunáticos da pior estirpe. Rony era um mercenário, fora o que sua irmã lhe disse. Não precisava ser um vidente para imaginar um futuro mais ou menos assim, na vida de seu ex-namorado. E no fundo, quando se pegava pensando em Rony – muito menos nos últimos anos — sonhava com todo bem-querer, de que ele tivesse se ajustado, e encontrado alguém que o amasse, como acontecera com ela.

Poderia estar sendo esperançosa demais, mas a possibilidade do próprio Arnie Austin nem saber da confusão com seus homens e um rancheiro de Ken West eram grandes. E, se nenhum deles tivesse sobrevivido ontem à noite, a história deveria estar minguando agora, até ninguém mais se lembrar de Vitor Krum e sua esposa tendo uma ligação com os criminosos. Então Rony ficaria para trás, ela não teria de se humilhar por uma ajuda dele, e continuaria a viver, viúva ou não.

Sons e odores começaram a acordar Hermione. Ela abriu os olhos e viu um céu estrelado pela janela. Havia dormido chorado e refletido, não exatamente nesta ordem, mas estava exausta disso tudo, sabendo que não conseguiria mais ficar deitada.

Beijou a testa do marido, sentindo a quentura de sua pele voltar, e abriu a porta que dava para um corredor. O cheiro era de carne assada, o que fez seu estômago roncar. Os sons eram de uma conversa entre mais de duas pessoas. Dr. Dumbledore e Hagrid não estavam sozinhos.

Cautelosamente, Hermione adentrou na rupestre cozinha do velho. E ele foi o primeiro a lhe observar. Seus lábios enrugados abriram-se num sorriso, enquanto colocava uma tigela de grãos de arroz sobre a mesa.

— Estava prestes a lhe chamar, mas acho que o cheiro do meu lombo assado há atraiu primeiro.

Hagrid e outro homem que ela não conhecia estavam sentados à mesa.

— Andei castigando meu estômago nesses últimos dias. —anuiu. — Boa Noite. — disse, e saudou o desconhecido com um meneio de cabeça. Ele retribuiu.

— Sente-se conosco, Hermione. O jantar já está posto. — convidou Rúbeo, empurrando uma cadeira na sua direção.

—Depois de algumas horas de descanso, vê-se claramente porque o Sr. Krum desposou-a. — argumentou Dumbledore depositando um grande pedaço de lombo assado, no centro da mesa.

— Ah... como assim? — ela esboçou um meio sorriso, sem jeito.

— Estou elogiando-a! Dizendo que a senhorita é uma mulher muito bonita. — afirmou, sentando-se na cabeceira da mesa.

—Imagina!

—As poucos vezes que cruzei meu caminho com o de seu marido, ele havia dito isso também. — disse o estranho, chamando a atenção dela.

— Conhece Vitor?

— Ah, por favor, Remo. Vamos deixar esses assuntos delicados para depois do jantar. — pediu o doutor, postando um prato farto diante de Hermione.

— Claro tio, claro.

Os três homens, um velho, um gigante desengonçado, e um homem de meia-idade, com profundas olheiras debaixo dos olhos, começaram a devorar seus pratos em silêncio. Dentre eles, uma mulher de aparência frágil também se alimentava sem fazer ruído. Quando Hagrid, que repetiu quatro vezes, engoliu a última migalha no prato, Dumbledore levantou-se serviu os convidados com um cálice de licor cada um, e disse:

— Senhorita Krum, este é meu sobrinho, Remo Lupin. — começou. — Remo costuma visitar seu velho tio uma vez por mês, pelo menos. Um pedido especial meu, para que meu corpo não fique apodrecendo para as moscas, se vir a morrer repentinamente.

— Tio... Não fale assim. — queixou Remo, esfregando os cabelos castanhos.

— Estou muito velho e não tenho medo da morte, Remo. Está cansado de saber isso. — informou-lhe, antes de voltar à atenção para Hermione. — Mas hoje recebi uma visita adiantada dele, já que a menos de uma semana o via partir em meio a essas montanhas. Estranhou-me? Demais. O fato é que ele veio me contar algo que anda ouvindo em Albuquerque e mais duas cidades ao norte daqui.

A conversa do doutor estava se tornando mais perigosa a cada palavra, tanto que Hermione nem percebeu que apertava os nós dos dedos contra o cálice que lhe fora dado.

— Antes de continuarmos aqui, preciso deixar algumas coisas as claras, porque durante boa parte da minha vida a mentira me acompanhou. Hoje não mais. — então avaliou Rúbeo, que coçava a barba nervosamente, antes de voltar a fita-la — Rúbeo me garante que a senhorita é de confiança. Minha intuição também acredita nisso, mas se estivermos ambos errados, ainda tem uma dívida de gratidão comigo, por estar cuidado de seu marido, ele vivendo ou não.

— Eu não tenho dinheiro. — adiantou-se ela, temerosa.

— Não quero dinheiro. Só peço sua discrição, na melhor das hipóteses seu silêncio. Pode ser pretensão da minha parte, mas já paguei de uma forma ou de outra pelas minhas atitudes do passado.

— Tudo bem.

— Não. — interveio Remo, preocupado — A senhorita tem de jurar que isso não vai sair daqui!

— Remo, ela já entendeu. — disse Dumbledore, brandamente, acalmando seu sobrinho. — Como eu estava dizendo, meu sobrinho venho me contar que um bandido da pior espécie chamado Arnie Austin vem mandando seus homens disseminar pelas cidades, seu interesse na cabeça de um rapaz chamado Vitor Krum. — Hermione suspirou pesadamente. — Há duas noites ele próprio estava disfarçado, afogando-se no seu vício pelo BlackJack, num saloon de Albuquerque. O outro jogador, esse Vitor Krum, segundo sua versão, trapaceou nas cartas e tentou se safar. As coisas saíram do controle como costumam sair nesses momentos e Arnie foi baleado no ombro por Vitor. Depois, fugiu com um dos algozes dele em seu encalço. Este homem foi encontrado morto na manhã seguinte, perto da propriedade do senhor Krum. Dele nenhum sinal, havia uma esposa que também não foi encontrada. O quadro disso tudo no momento é o seguinte: Arnie Austin fugiu para Colorado porque as atenções voltaram-se para ele de uma forma muito perigosa. Mas, em contrapartida, ele vem disseminando seus capangas pelos quatro cantos do Oeste e, pelo pouco que conheço dele, não vai sossegar até encontrar o sujeito que atirou nele.

— O que pretende fazer com nós, então? — perguntou ela, encarando Dumbledore com firmeza.

— Srt. Krum, o motivo de o meu sobrinho vir correndo me contar um assunto do qual aparentemente eu não teria nada haver, é simples: Eu treinei Arnie Austin na vida que ele tem hoje, e não me orgulho nem um pouco disso. — aquilo sim era um choque, ela pensou — Remo teme que ele mande alguns dos seus me procurar para pedir conselhos. Sim, Arnie costumava fazer isso há até alguns anos, quando sabia onde eu morava. Este velho que vós fala, que cuidou do seu marido e vive solitário num casebre sob um vale foi um crápula há algumas décadas atrás...

— Não fale assim Sr. Dumbledore... — gemeu Hagrid.

— E embora Hagrid e meu sobrinho tenham essa mania de me por num pedestal, sou apenas uma alma errante aqui na Terra. Gostaria muito que você soubesse disse primeiramente, antes de ter um conceito formado sobre mim.

— Tarde demais. — murmurou ela, enxergando apenas um velhinho bondoso diante de si.

Deu um gole vigoroso de seu licor e passou as mãos pelos cabelos, mais preocupada do que nunca.

— Tem alguma ideia da agressividade de Arnie Austin, senhorita? — perguntou Remo.

— Sei que ele está sendo procurado em sete estados, que gosta de queimar mulheres e que se especializou em assalto a diligencias portando dinheiro. Ou seja, sei o que está nos cartazes pelas delegacias. —aquilo não era nada animador.

— Enquanto Arnie não for pego pelas autoridades e condenado, existem poucas opções para vocês, digo, você e seu marido. Além de tudo isso, ele é conhecido entre seus inimigos por ser extremamente vingativo. — Remo, definitivamente, não era o otimista daquela família.

— Não seja tão agourento, rapaz. Para tudo existe uma saída. —refletiu Dumbledore.

— Na verdade eu tenho um plano. — ela disse de súbito, fazendo os três a escutarem. — Tenho um conhecido em Rocky Deep do qual estou pensando em contratar para dar cabo de Austin antes que ele o faça.

— Deus! As mulheres quando provocadas são mais perigosas que os homens! — exclamou o doutor, erguendo as sobrancelhas.

— Olhe madame, me desculpe. Austin e mesmo seus atiradores, são páreo duro para qualquer um. — resmungou Remo, descrente — Esse cara tem nome?

— Ronald Weasley.

Aquele nome produziu um efeito inesperado em Remo e Hagrid. Um olhou para o outro com os rostos entre a dúvida e o espanto.

— Se é mesmo Ronald Weasley, existe uma chance. — Hagrid foi otimista.

O quer que Rony andou fazendo nesses últimos anos, de valoroso ou desonesto, sua popularidade cresceu.

— Tem certeza que Weasley vai lhe ajudar? —quis Remo saber.

Hermione não tinha nenhuma certeza da resposta para aquela pergunta.

—Claro. —mentiu — Porque não me ajudaria?

— Porque ele é um mercenário caro, e com um ego de uma figa. Não costuma aceitar serviços por quinquilharias, e só o faz quando realmente quer. — informou-a, dando a estranha sensação de que sabia daquilo por experiência própria.

Ela não podia se abalar pelo pessimismo dos outros, o seu já era suficiente.

— Vou arriscar. E, mais uma vez, pedindo mais do que os senhores talvez tenham a me oferecer, preciso de uma montaria até Rocky Deep e... — olhou para Dumbledore, cheia de expectativa — não posso mais arrastar Vitor para nenhum lugar. Temo que não resista muito mais se continuar...

— Obviamente. — interrompeu o velho. — Vitor fica aqui comigo, apenas terá de ser transportado para um andar mais seguro. — e levantando-se pediu a Rúbeo — Hagrid abra o porão, e vamos acomodar o Sr. Krum lá embaixo.

Hagrid arrastou armário das louças para esquerda, revelando um alçapão camuflado. Abriu a portinhola, e sorrindo para Hermione, disse:

— Não se preocupe. Aqui embaixo tem uma cama magnífica, além de ser seguro. Não que Dumbledore ainda não possa dar conta de uns bandidinhos de merda que espreitam por aqui às vezes...

— Chega de papo furado, Hagrid! — interveio o doutor, alisando sua longa barba — E você terá uma montaria sim, mas jamais irá atravessar esse cânion sem companhia.