Black Jack
6 Nunca Me Esqueça
Notas iniciais
Apesar de ter apenas treze anos, Hermione Granger já possuía muito mais atributos anatômicos a oferecer, do que a maioria das garotas de sua idade. Não fazia o tipo voluptuosa, mas também estava longe de ser comparada com uma tábua de estábulo.
Seus seios eram pequeninos, embora os hormônios estivessem somente no início de sua produção. A cintura afinava mais na medida em que seu quadril aumentava, e as coxas haviam deixado de ser um prolongamento de suas pernas esguias, de joelhos ossudos, para ganharem forma e uma textura macia.
Ao olhar-se no espelho da penteadeira, a garota constatou que mudanças em seu rosto também aconteciam. Ela enxergava o reflexo de uma pessoa cada vez mais diferente. Havia infantilidade com um toque misterioso de sensualidade. Pelo menos fora assim que Madame Narcisa Black a definira.
O ocorrido havia sido há poucas horas, e a cabeça da garota ainda fervilhava com isso. Narcisa Black, a dona do bordel mais movimentado da cidade, colocara os pés na sala de sua casa, sentara em seu sofá, bebericara um gole de chá, – muito gentilmente servido por sua mãe – e começara a falar. Procurava garotas diferentes para preencher o quadro de funcionárias. Só esse início foi o suficiente para que seu pai fechasse a cara e sua mãe crispasse os lábios. Talvez porque estivessem chocados demais com o que a mulher dissera que não a expulsaram imediatamente da casa. Isso deu brecha para Narcisa, muito elegante num corpete violeta, continuar. Ela discorreu sobre o baixo movimento masculino que se abatia sobre o estabelecimento ultimamente. As suas funcionárias já estavam velhas e desinteressantes, e se um homem quisesse dormir com a mesma mulher sempre, não havia o porquê de frequentar seu bordel. Por outro lado, meninas novas atraíam os viajantes, se podendo cobrar o dobro por uma noite, com uma ótima comissão para a concubina em questão.
“Dá tempo de mudar de vida, antes que fique velha demais para o serviço” ela piscara para Hermione, que também escutava tudo junto aos pais.
Ao final daquela conversa surreal, quando os Granger estavam a ponto de expulsar Narcisa Black com um tiro de escopeta, a mulher ainda lhe atentara diretamente, falando de como ela possuía um imenso potencial erótico. Hermione não sabia ao certo o significado dessa palavra, e teve medo de sofrer alguma retaliação se perguntasse aos pais.
Não era ingênua, apenas nova demais. Entrementes, entendia como somente uma garota nascida em Rocky Deep poderia sobre a grandiosidade da prostituição no oeste. Narcisa Black bateria em outra porta de família, e em outra, e em outra, até conseguir persuadir pais desesperados financeiramente. A vida era assim para gente pobre como ela. Ninguém tem muitas escolhas. Sua mãe torcia para que se casasse logo, um modo eficiente de ficar longe do mundo dos bordéis. As garotas da idade dela pareciam existir pelo mesmo dilema. Mas Hermione somente desejava viver o presente, e se no futuro nada desse certo, sobreviver como feirante não soava tão cruel.
E, enquanto aguardava a hora se arrastar, observava a si no espelho, tendo as palavras da Madame Black na mente, com certo jubilo. Será que Rony a achava com potencial erótico, fosse lá o que isso significasse? A tensão entre eles era algo evidente, mas quanto daquele sentimento que Harry nutria por ela, também existia no ruivo?Apenas uma convicção a acompanhava: não queria ser vista como uma simples amiga, por ele.
Quando a noite chegou e o canto dos grilos era maior do que o trote dos cavalos do lado de fora, Hermione calçou suas botinas de couro, abriu a janela sem fazer ruído e, sorrateiramente, saiu para a varanda. Era verão, de forma que uma brisa fresca abateu-se sobre ela, fazendo-a quase gemer de satisfação por ter abandonado o ar abafado do quarto. Sentou-se num canto as sombras para que ninguém pudesse vê-la, afinal, mesmo já sendo bem tarde, Rocky Deep não era daquelas cidades que se recolhia com o Sol.
Com os olhos atentos ficou observando a rua lateral, ansiosamente. Duas diligências caindo aos pedaços passaram, seguidos de um homem muito bêbado, que tinha de se escorar pelas paredes para conseguir fazer suas pernas traçarem uma linha contínua. Os três entraram no bordel de Madame Black, no fim da rua principal.
Então, um pouco adiantado do horário combinado, ele surgiu. Cavalgava lentamente, a coluna ereta, as pernas arqueadas sem entortarem para fora do estribo, à cabeça erguida – habilidades típicas de um bom cavaleiro. Desde que o conhecera, no auge de seus oito anos, lembrava-se de vê-lo montando com aquela facilidade e destreza. Como se nascesse para cavalgar.
Rony parou embaixo da varanda do seu quarto e ela submergiu das sombras, apoiando o tronco para observa-lo de lá.
— Então? Vamos? — ele perguntou, aos sussurros.
Hermione deu uma última olhada para dentro do seu quarto, escuro e abafado. Seus pais estavam dormindo à uma hora daquelas, e a cidade era mais perigosa do que o normal quando o Sol desaparecia. Porém, havia prometido a Rony, e sentia-se realmente segura perto dele. Voltariam logo, muito antes dos pais notarem sua ausência.
— Estou descendo! — avisou, transpassando as pernas pela lateral da varanda.
Apoiando-se na escada vertical logo abaixo, começou a descer com cuidado para não enroscar o vestido nos degraus. Rony desceu do cavalo e foi ajuda-la, pegando-a pela cintura quando estava a um metro do chão.
—Porque você veio de vestido? —questionou, sorrindo-lhe.
Ela olhou para os dois lados da rua para ver se alguém os observava, vendo tudo deserto, disse:
—É uma roupa qualquer, para caminhar por aí. — deu de ombros, indo para perto do cavalo.
—Quando nós começarmos a caminhar, para lá do Vale West, não será uma roupa qualquer. — informou.
— Eu sou uma garota, Rony. — retrucou ela, querendo sair logo dali, antes que fossem vistos por algum conhecido —Sei andar de vestido. Agora dá pra gente sair daqui?
— Claro.
O ruivo subiu no lombo cavalo com agilidade, e deu a mão para que ela tivesse impulso para subir na garupa.
— Segure firme em mim. — pediu, trazendo as mãos delas para junto do seu tórax, antes de dar o primeiro impulso com o animal.
Hermione segurou-o com firmeza, encostando a bochecha em suas costas e fechando os olhos para protegê-los da poeira inicial. Não tinha coordenação nenhuma na montaria, e pensava que nunca teria, mas Rony tinha tanta habilidade com um cavalo, que mesmo aos 14 anos de idade, conseguia ser mais preciso que seu próprio pai.
Saíram pela rua lateral e ganharam cada vez mais velocidade rumo as montanhas desertas e sem resquícios de luz. Somente quando já estavam muito longe de Rocky Deep foi que o corpo de Hermione ficou mais seguro na garupa, e ela afrouxou o abraço nele.
— Você ainda não me disse o que estamos procurando. — quis saber.
Rony diminuiu a velocidade do animal, reduzindo-as a trotadas ágeis.
— Lembra-se do Edwin Gorila?
— O que? O Atirador que foi enforcado no fim do ano?
— Sim, ele mesmo.
— Tá, o que tem? — aquela conversa estava cada vez mais esquisita.
— Dino Thomas me disse que ele escondeu algo aos pés do Vale West, antes dos oficiais o pegarem.
— Que coisa?
O ruivo deu de ombros.
— Não sei. É o que vamos descobrir.
Hermione sentiu-se desapontada.
— É por isso que você quer que eu vá? Pra ficar cavando a esmo, na madrugada, embaixo daquele Vale?
— Com quem mais eu poderia contar? — disse, dando uma piscadela.
Tentando controlar a irritação por estar servindo de mão de obra gratuita, a garota soltou-se dele, e pôs-se a fitar o céu, estupidamente estrelado naquela noite. Enquanto tentava encontrar a Ursa Maior, fez uma anotação mental de não deixar Rony a trapacear numa próxima vez.
Tendo somente o silêncio morteiro das montanhas como companhia, fizeram diversas curvas e caminhos fechados por entre as pedras, com subidas e barrancos inusitados, até chegarem à base do Vale West, uma pedra de arenito cônica e muito antiga, com pequenas cavernas dentro de suas ranhuras.
Rony desmontou do cavalo e deu a mão para que Hermione pudesse se apoiar nele ao descer. A garota olhou seu braço estendido, virou o rosto, e saltou sem sua ajuda.
— Ah, o que foi? Ficou brava comigo? – questionou-a aproximando-se.
— Brava não define. — respondeu-lhe, desvencilhando-se. — Se eu soubesse que o motivo de você me tirar da minha cama quentinha era pra vir cavar nesse fim de mundo, não teria vindo.
— Cama quentinha? — debochou, sorrindo — Está fazendo um calor dos infernos dentro das casas.
Ela piscou, aborrecida com as respostas prontas dele, e mais uma vez, deu dois passos para trás quando suas mãos tentaram agarra-la.
— Que seja, Rony! Eu não vou ajudar.
— Tá bom. — disse, desistindo de tentar toca-la — Pode pelo menos ficar de olho nas montanhas para mim? Essas horas as coisas são muito desertas por aqui.
— Não me diga! — resmungou, indo sentar-se numa pedra, encostada ao paredão de Vale West.
Nos minutos que correram, observou Rony trabalhar em silêncio. Ele tirou um papel muito amassado do bolso e tentou lê-lo com o auxílio da claridade da lua e das estrelas. Coçou a cabeça algumas vezes, visivelmente confuso, e encarou Hermione como se pedisse uma ajuda. A morena o ignorou sistematicamente, fingindo policiar as montanhas, até que ele parasse de fita-la.
Então, depois de parecer deduzir um quebra-cabeça insolúvel, viu-o dar sete passos em linha reta para esquerda, e mais dois para a direita. Olhou para o papel na mão, olhou para um pedregulho, em meio a tantos outros, e deu mais cinco passos robóticos para o leste. Mais uma vez conferiu seu guia, que Hermione tinha certeza ser uma espécie de mapa agora, e abaixou-se diante de uma pedra com formato engraçado de cabeça de chacal. Retirando uma pequena pá de mão do bolso traseiro da calça, começou a cavar rapidamente.
Mais curiosa do que qualquer outra coisa, Hermione levantou-se e foi até ele.
— O que você está procurando afinal? — questionou-o, encostando o corpo contra a pedra.
— Verá. — e continuou cavando freneticamente.
— Sabe, Rony, eu não entendo porque...
Sua frase ficou pela metade no instante que seu sangue gelou por ouvir aquele barulho. Um disparo de arma ecoou pelo vale, e antes que ela pudesse pensar em como agir, seu corpo estava sendo emburrado com violência para o chão. Em meio a poeira e ao pânico, demorou quase quinze segundos para perceber que quem há havia derrubado, fazendo do próprio corpo um escudo para ela, fora Rony.
— O que foi isso? — ela perguntou assustada, embora soubesse muito bem o que era.
— Tiros. — ele sussurrou, olhando para todos os lados. — Vêm! — e puxou-a pelo braço, correndo para dentro de uma das ranhuras do Vale. — Entre! — ordenou, indicando a fenda escura na pedra.
A morena arregalou os olhos.
— Não. Claro que não.
— Entre, Hermione! Pelo amor de Deus. — implorou, agarrando-a pelo braço.
— Têm cobras, morcegos, aranhas e vai saber mais o que ai dentro. — ela replicou em pânico.
— Você prefere bichos peçonhentos ou uma bala no crânio? — disse, sacudindo-a pelos ombros.
Controlando o desesperado, que sempre a incitava um desejo frenético de berrar, a garota tapou a respiração como se este gesto fosse lhe deixar imune de qualquer ataque, e se exprimiu para dentro da fenda escura. Rony a seguiu logo atrás, encostando-se na parede, num ângulo que ficasse oculto, mas ao mesmo tempo pudesse enxergar lá fora.
Sem querer tocar em nada ao redor, Hermione ficou com os ombros curvados e as mãos para frente, enlaçando a nuca. Os disparos do lado de fora haviam cessado, mas o trotar de cavalos era cada vez mais forte.
— Estão vindo pra cá. — ouviu Rony dizer.
Os trotes dos animais começaram a se incorporarem a vozes rudes e exaltadas. Dentro da fenda o clima se tornava mais abafado, claustrofóbico, e a morena teve certeza de que sentiu algo gelado passando por suas canelas. Com o coração a mil, levou as mãos a boca, temerosa de que não tivesse controle de suas emoções.
— Eles estavam aqui? — uma voz perguntou do lado de fora.
Os olhares do ruivo e da garota se cruzaram, e ela o viu fazer um gesto de silêncio com os dedos, enquanto deslizava a outra mão para debaixo do colete, retirando uma pequena arma na cintura.
“Estavam perdidos!” pensou Hermione, fazendo movimentos frenéticos com a cabeça para que ele não fosse burro o suficiente de abrir fogo com quem quer que estivesse do lado de fora.
— Não tenho certeza. Mas me pareciam duas crianças de longe. — disse uma segunda voz.
— Tem um cavalo aqui! — gritou uma terceira voz.
Dentro da fenda, Hermione segurava o pulso de Rony, numa discussão silenciosa para que ele guardasse a arma.
— Deixaram o cavalo. Não devem estar muito longe. — concluiu a primeira voz — Tem certeza de que eram crianças?
— Quase que absoluta!
— Vamos levar o cavalo, se estiverem aqui ainda, não vão conseguir chegar a Rocky Deep nem tão cedo.
Num estrondo, pelo menos cinco animais trotaram para longe da fenda, dando a certeza de que as pessoas que estavam do lá fora deveriam ser, pelo menos, em cinco. Quando o silêncio voltou a reinar sobre o Vale, Rony enfiou a cabeça para fora e saiu primeiro. Hermione veio logo atrás, mais irada do aliviada.
— Você tá louco, Rony?! — questionou. — Ia atirar neles? Onde conseguiu essa arma? Desde quando usa uma arma?
— Ei, não enche! Eu sempre carrego uma comigo. Se você não tivesse me impedido talvez eles não tivessem levado nosso cavalo.
— Ah é, seria muito esperto mesmo, ser cravado de balas por um cavalo. — levou as duas mãos a cintura, séria.
— Não me subestime. Eu sou realmente bom na pontaria. — retrucou.
Irritadiça demais para continuar olhando para o amigo, a garota andou para longe dele e encostou-se numa pedra, ignorando-o. Pôs-se a encarar o céu, torcendo para que sua ira passasse antes que ela perdesse a cabeça de vez. Não demorou a ouvir os passos de Rony vindo na sua direção, mas ele não limitou-se a ficar do seu lado, calado, como costumava fazer. Desta vez, ele ficou de frente para ela, avaliando-a com seus enigmáticos olhos azuis.
— Porque você nos arrastou até aqui, afinal? — quis ela saber.
Sem dizer uma palavra, ele enfiou a mão no bolso da calça e retirou algo, oferecendo a ela. Era um colar. Um cordão dourado, provavelmente ouro, e um pingente com uma pedra verde musgo incrustado num arco com arabescos também dourados.
— Quanto vale isso?
— Edwin Gorila sempre foi um cara grotesco e deformado. — fora sua resposta inicial — Sua mãe queimou seu rosto com uma chaleira quando ele tinha apenas 5 anos, e desde então a fisionomia dele só conseguia assustar as pessoas. As prostitutas se recusavam a dormir com ele, seus companheiros de assalto não conseguiam olhar para o rosto por muito tempo, e Edwin era o sujeito mais solitário do oeste. — contou ele — Porém, uma vez, Edwin, que não era um cara ruim por natureza, apenas alguém a quem a vida de crimes fora imposta, tentou salvar uma família que tinha sua carroça assaltada por uma orla de bandidos. Pai e mãe morreram, mas ele chegou a tempo de resgatar a filha do casal. Uma moça muito bonita, porém cega. Desde então, a moça, da qual o nome ficou perdido no tempo, tornou-se esposa de Edwin, amando-o como nenhum ser humano nunca o fez, porque, como era cega, conseguiu enxergar o que ele era por dentro, não se detendo a sua aparência grotesca. Dois verões depois, a tuberculose a levou, e tudo o que restou dela para que Edwin se lembrasse, era seu colar, um presente de gerações. Antes de morrer, ele escondeu o colar ali, debaixo daquela pedra, para que os oficiais não o confiscassem, dando-o a uma concubina qualquer em troca de sexo. De certa forma, parece que foi seu último adeus dele para ela.
— Porque você está me contando isso? – sussurrou Hermione, com lágrimas nos olhos.
— Bem, eu não tenho dinheiro nem nada, e precisava fazer isso de alguma forma. E é engraçado como me sinto como Edwin às vezes, meio grotesco e irracional, e parece que só você Mione, sabe como eu sou por dentro, de verdade. Me entende?
Rony levou uma das mãos até seu rosto, tocando seu queixo suavemente. Ele nunca a tocara daquela forma, mas eles também nunca se sentiram tão adultos, embora tivessem 13 e 14 anos.
— Eh... Mione? Aceitaria se casar comigo? — ouviu-o perguntar, oferecendo-lhe o colar como um substituto a altura de um anel de noivado.
A resposta de Hermione não veio com palavras. Veio com gestos. Um delicado e suave beijo. O primeiro toque de lábios da vida de dois adolescentes. Rony, ainda que menino, já podia ser considerado o homem da vida dela.
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