Black Jack
7 Rocky Deep
Notas iniciais
Lupin ia à frente durante a cavalgada. Quanto mais Hermione prestava atenção em sua fisionomia vazia, mais certeza tinha de que o sobrinho do doutor guardava dores indizíveis no seu passado. O caminho continuou sendo perigoso, entretanto ele conhecia melhores atalhos do que Hagrid, e era mais astuto também. A última parada dos dois antes de chegarem a Rocky Deep foi à noite, embaixo de uma gruta na pedra, no seio de Vale West. Fazia dezoito anos que ela não vislumbrava as cadeias montanhosas dali.
— É bom que estejamos quase em Rocky Deep. Só temos pão seco e um pouco de uísque agora. — comentou Remo, sentando-se numa pedra ao lado dela, e passando-lhe um pano encardido com os últimos pedaços de pão dentro.
— Mais um quilometro e meio em direção ao Sul. — confirmou. A cabeça encostada nas rochas, o olhar focado nas estrelas. — Você vem à cidade com frequência?
— Menos que preciso. Mais do que gostaria. —informou, antes de um vigoroso gole de uísque.
Limpou a bebida que escorria pela barba por fazer, com as costas da mão, e ofereceu o frasco a Hermione. Sua garganta estava tão seca da poeira da viagem que ela foi obrigada a aceitar um gole.
— E você? Há quanto tempo não dá às caras por lá?
A resposta era simples. Cada ano a mais distante de Rocky Deep era lembrado como uma data marcante, como um aniversário. Em partes porque se casou e livrou-se da imundice da cidade. Em partes porque também abandonara seus pais e algumas poucas almas boas por lá.
—Quinze anos. Era uma adolescente na época. Havia acabado de me casar com Vitor, quando ele herdou uma propriedade, um rancho simples, nas imediações de Ken West.
— Sua casa agora?
— Não tenho mais certeza se restou muita coisa dela nesse momento. — disse Hermione, com pesar.
Remo não argumentou nada. Fazia quase dois dias que eles viajam juntos, sem muito falarem, e ela sentiu que aquele era o momento para tentar saber um pouco mais sobre o sujeito que vinha ajudando-a.
— E a sua família? Onde mora? — perguntou cautelosamente.
O homem tomou dois grandes goles da aguardente e continuou calado. Ela achou melhor respeitar seu silêncio, compartilhando da quietude da noite.
— Minha família está morta. —sussurrou sem melancolia ou qualquer outro sentimento impostado na voz.
Mais uma vez as ausências de palavras. Desta vez, Hermione viu-se no dever de dizer algo.
— Sinto muito. — foi sincera.
E então, ele que parecia um sujeito enclausurado e amargurado dentro das lembranças do próprio passado, começou a falar:
— Eu tinha uma linda esposa e um fantástico filho. Tonks e Ted eram seus nomes. Mas a vida... Bem... Ela às vezes acha que é generosa demais com os presentes que nos dá. De repente, numa manhã, quando você acorda e vai trabalhar, descobre que os presentes lhe foram tomados, despedaçados eu diria, e, mais uma vez se vê sozinho nesse mundo infeliz.
Sua intuição dizia à morena que Remo e ela tinham mais em comum do que se supunha.
—Arnie Austin? — quis saber.
Remo assentiu, brincando com uma pedrinha na mão.
— Foi por isso que procurou por Rony? Por vingança?
Seu tom informal quando se dirigiu ao mercenário chamou a atenção dele. Em vez de responder, o sobrinho do doutor remeteu outra pergunta:
— Afinal, Senhorita Granger, qual seu grau de proximidade com o Weasley?
Diferente de seu questionador, a morena não estava disposta a desembaralhar antigas memórias diante de um mero conhecido.
— Eu e ele éramos amigos na infância, só isso. Eu nasci em Rocky Deep, mas Ronald, ou Rony como era conhecido entre nós, mudou-se mais tarde, com uns 9 anos eu acho, para uma casa ao lado da minha e da de Harry Potter, o proprietário do Hotel de Ken West.
~~
A família de garotos ruivos havia chegado ao fim da tarde. Um homem de cabelos rubros e aspecto cansado, carregando uma garotinha no colo e de mãos dadas com menininho pouca coisa mais velho. Eles saíram da carroça primeiro. Depois, outros rapazitos começaram a pulular do veículo para a rua, e, de repente, já estava formada uma trupe de 7 crianças e um adulto. Todos mal vestidos, exceto a menininha; Esta conservava um impecável vestidinho branco de babado rendado.
Hermione e Harry continuaram a espiar a família de um beco estratégico, onde não podiam ser vistos, do outro lado da rua. A carroça que os havia trazido ali foi embora, e eles pareceram meio deslocados no meio da rua, como se não tivessem se situando ao ambiente.
— Quem são? — sondou Harry.
— Não sei. Mas é engraçado, eles tem todos cabelos vermelhos. — comentou Hermione, com toda a perspicácia que uma criança de 8 anos poderia ter.
— Cabelos vermelhos?
— É! Não tá vendo?
Harry espremeu os olhos para tentar enxergar. Vinha fazendo isso com muita frequência, o que andava deixando a amiga invocada.
— Porque você fica apertando os olhos pra enxergar, ultimamente?
— Não sei, mas enxergo melhor assim. — disse, dando de ombros —Para onde eles estão indo?
— Parece que pra casa do Sr.Wolff. — respondeu ela, temerosa.
— Credo! Ele morreu nela!
— Mas eu acho que são os nossos novos vizinhos. Só pode ser. Meu pai disse que isso iria acontecer.
— Isso o quê?
— Alguém ir ocupar a casa do velho. Ela é suja e tá toda quebrada, mas pelo menos é bem espaçosa. Palavras do meu pai. — afirmou.
— E me parece que eles precisam mesmo. — observou Harry. — Nossa! Que família grande!
— Mas não tem mãe.
— Talvez venha mais tarde.
— Não sei. Não me parece que este seja o caso.
~~
— Eu te desejo sorte então, senhorita, porque aquele sujeito não faz nada de graça, ou que não seja do seu mútuo interesse.
Com esta frase Remo esticou o corpo no chão, colocou o chapéu no rosto e encerrou a conversa.
Querendo encontrar qual das dezenas de fendas no paredão a sua frente fora a que se escondera com Rony no dia em que ele, imaturamente pediu-a em casamento, Hermione quis acreditar nesta sorte. Em que o Ronald Weasley do presente pudesse ajuda-la sem esperar nem um níquel em troca.
***
Era a primeira vez em anos que Hermione voltava a ver o Sol abater-se sob as construções rústicas de Rocky Deep. Quando os prédios começaram a surgir ao longe à diferença de anos atrás já podia ser comparada. Nas cidades um pequeno formigueiro, um contingente de seres humanos a pé, em cavalos ou carroças transitavam pelas incontáveis bifurcações, entre casas e comércios, chamadas de ruas. A estradinha leste que desembocava nos vales estava movimentada como o esperado, e eles passaram por pelo menos uma dúzia de cavaleiros antes de chegarem à orla do povoado.
Há pedido do próprio Remo, Hermione passou a usar seu chapéu, além de amarrar os cabelos num coque escondido, para poder ser quase invisível como mulher, diminuindo assim as chances de ser reconhecida por algum homem de Arnie Austin.
— Você consegue seguir adiante, ou quer que eu vá também? — perguntou-lhe Lupin de sua montaria.
Ela, que montava em um dos cavalos da carroça de Hagrid, disse:
— Não é necessário, Remo. Eu sigo sozinha daqui. Sua presença poderia até complicar as coisas, já que eles procuram por Vitor e sua esposa. Tenho certeza que não sabem em que situação deixaram meu marido.
— Certo. Tenha sorte na sua investida. — exclamou, virando a montaria de volta na direção aposta a cidade.
— Remo? — chamou-o.
Ele olhou para trás.
— Seu chapéu?!
— Quero que fique com ele até achar que encontrou um lugar seguro na cidade. Encare como minha companhia lá dentro.
Hermione esboçou um meio sorriso.
— Obrigada! E agradeça a Dumbledore e Hagrid novamente.
Acenando com a mão o viu partir levantando poeira consigo. Assim a morena ajeitou o chapéu com a aba rebaixada na altura dos olhos, cutucou o flanco do animal com o salto das botas e partiu para seu próximo destino fosse ele qual fosse.
***
Como uma completa forasteira sentia-se, quando começou a cavalgar pelas ruas largas e abarrotadas de Rocky Deep. Os primeiros trotes foram receosos, cautelosos, mas depois que percebeu que tudo continuava igual, multidões inexpressivas, indiferentes a tudo ao redor, ela ganhou confiança em prosseguir.
De fato, esses quinze anos causaram mudanças visíveis na arquitetura dos estabelecimentos. O antigo General Store, por exemplo, ganhou mais duas “filiais” em ruas paralelas e a típica feirinha de legumes e frutas do qual, por tantos dias trabalhou, ganhara dezenas de outras tendas com quinquilharias vindas do interior do país.
Entrementes, o fedor que os mendigos deixavam pelas ruas continuava — urina e suor — e, se olhasse com mais atenção podia encontrar crianças encardidas enamorando os cestos de maças, esperando o momento certo em que o comerciante abaixaria a guarda da mercadoria.
— Qual o preço do cavalo? — disse-lhe um gorducho encostado num chiqueiro cheio de porcos esperando serem vendidos. Hermione, que havia parado para tentar reconhecer a rua que um dia fora o local de sua casa, fitou-o de relance.
— Não está a venda. — respondeu fazendo o animal se movimentar adiante.
Adiante, parou estupefata e viu que sua casa continuava lá, um cortiço com vários andares posicionado na esquina entre duas ruelas.
“Será que seus pais ainda eram vivos? Será que moravam lá?” indagou-se no âmago de desejos nostálgicos.
Estava numa corrida contra o tempo, e para visitar alguns de seus velhos amigos não havia tempo, ainda tinha que procurar Rony naquela imensidão. Isso se ele estivesse em Rocky Deep agora. Mas de certo que para sua família havia sempre um tempo, ainda mais após esses anos todos...
Amarrando o cavalo em frente ao cortiço, Hermione voltou a pisar naquelas ruas arenosas que levantavam poeira a cada passo.
—Uma esmola... Comida... Qualquer coisa, moço. — pediu uma senhora desdentada e de olhar leitoso, esparramada nas escadas do prédio.
— Não tenho agora. Sinto Muito. — argumentou a morena, penalizada pelo estado crítico da mulher que, se quer, sabia distingui-la de um homem.
— Eu deixo você chupar! — barganhou a velha expondo um dos seios caídos e enrugados para fora do decote.
Agora sim a cidade estava lhe parecendo muito familiar, concluiu, tentando não chocar-se com a depravação da senhora mendiga. Contornando-a, Hermione entrou no saguão do prédio e aquele cheiro antigo de madeira mofada, constantemente às sombras, a fez aproximar-se ainda mais dos tempos de garota. O lugar continuava o mesmo.
Abordou o primeiro morador, um rapaz esguio que viu saindo pela porta do térreo.
—Por favor, sabe me informar se os Granger ainda moram no último andar?
Ele, um adolescente repleto de espinhas no rosto, estudou-a desconfiado. Era natural as pessoas desconfiarem antes de qualquer coisa por lá. Como algo implícito no DNA dos conterrâneos de Rocky Deep, manter-se na defensiva em primeiro lugar.
— Não que eu saiba. No último andar mora só o Sr. Weasley e uma senhora, além dos gêmeos, claro.
—Arthur Weasley e seus filhos? — perguntou-lhe espantada.
— É. Ele mesmo. — resmungou, saindo sem esperar outras perguntas.
Aquela informação era vantajosa e estranha. Vantajosa porque seria exatamente a família de Rony que procurava para tentar saber de seu paradeiro. Estranho porque o Sr. Arthur morando na sua antiga casa não informava aonde foram parar seus pais. Hermione subiu rapidamente os lances de degraus até deparar-se com a porta do último andar. Ofegante tirou o chapéu e pôs-se a bater. Com um pouco de sorte poderia dar de cara com Rony.
O que veio a seguir foi desânimo. Ninguém atendeu nem na segunda ou terceira, ou ainda quarta batida. Entretanto um barulho esporadicamente parecia ecoar da casa. O garoto disse-lhe que havia uma senhora também. Até onde lembrava Arthur Weasley já chegara viúvo em Rocky Deep quando se mudou com os filhos, e nunca se casara de novo. Decidindo que não arredaria o pé dali até falar com algum integrante Weasley, ela sentou ao lado da porta e esperou alguém sair ou entrar. Esperou tanto que o cansaço das noites mal dormidas durante a viagem abateu-se sobre seu corpo e acabou por adormecer.
— Ei, acorde moça! — sentiu alguém cutucar.
Lentamente Hermione foi abrindo os olhos. Um homem idoso com poucos cabelos avermelhados no alto da cabeça observava-a muito sério.
— Aqui não é lugar para se abrigar. Sinto muito, mas na frente da minha casa não. — ordenou, pegando-a pelo braço.
A morena levantou ainda meio zonza, mas sabia exatamente em que ponto parara antes de dormir.
— Sr Weasley, lembra-se de mim? — disse esfregando os olhos espantar o sono de vez.
— Essa também é manjada, moça. — exclamou Arthur impaciente —Vá, saía daqui, por favor! — e tencionou arrasta-la para as escadas.
— Sou eu Sr. Weasley, Hermione Granger!
Arthur estancou. Novamente expressões desconfiadas sondaram sua tez. Uma postura defensiva e uma análise demorada às feições dela foi o que Hermione teve de, pacientemente aguardar. Tudo bem que o tempo e fuligem das montanhas eram fatores antagônicos no reconhecimento da Hermione Granger de anos atrás, mas ela também não estava tão diferente assim.
— Minha nossa! É você garota? — espantou-se o Sr. Weasley, enfim dando-se conta. Então sua voz ganhou mais força na medida em que suas expressões tornavam mais amistosas — Há quanto tempo não há vejo? Dez, doze anos?
—Quinze para ser mais precisa! — corrigiu-o, sorridente.
Era bom, verdadeiramente bom encontrar as almas bondosas de seu passado.
— Como está? Como anda a vida querida, Hermione? Já é uma mulher inteira! Vamos, entre!
Ela havia se esquecido de como Arthur Weasley tratava-a com carinho e respeito.
— Desculpe minha indelicadeza Sr. Weasley. Eu gostaria de ter tempo para papear com o senhor e por todos esses anos em dia. Acontece que meu tempo é curto, e como já está tarde, preciso ser mais breve ainda. Necessito de duas informações: A primeira é se sabe o paradeiro dos meus pais. A segunda é se pode me dizer onde seu filho mais novo está.
Arthur avaliou-a com piedade. Hermione não enxergou aquilo como um bom sinal.
— Entre minha cara. Só assim suas perguntas poderão ser respondidas — e abriu a porta da casa que também foi dela um dia.
***
Ao entrar nos aposentos de imediato o silêncio da casa foi cortado por uma voz feminina e idosa. Realmente tinha alguém lá dentro, na ausência de Arthur, mas o som daquele chamado foi tão impactante para Hermione sendo suficiente para ela estancar na soleira e seus olhos encherem de lágrimas.
—Arthur? Chegou? — era a inconfundível voz de sua mãe.
— Cheguei e trouxe uma surpresa, Jane. — anunciou piscando-lhe.
Dos cômodos posteriores o som de algo batendo constantemente contra o assoalho foi ficando mais forte. Então sua mãe surgiu. Já uma senhorinha de cabelos grisalhos, olhar opaco, corpo magro, apoiando-se com dificuldade numa bengala.
—Mãe? — articulou Hermione, lançando-se numa torrente de emoções sobre o corpo frágil da senhora.
~~
O corpo tremia todo. Os lábios tintilavam um contra o outro e ela não conseguia parar de soluçar.
Por mais que se esforçasse, tentasse controlar a emoção, o sentimento de perda continuava presente.
“Como poderia dar as costas as pessoas que a haviam colocado mundo?”
Seu pai também chorava. Um pranto silencioso, mas extremamente visceral. Afagou a cabeça da única filha que pôs na Terra e chamou-a com certeza de que seria pela última vez, de menininha.
Quando chegou a vez de despedir-se da mãe deparou-se com uma mulher inabalável feito rocha, embora soubesse que por dentro ela estava tão despedaçada quanto o pai. Jane Granger precisava vestir a armadura do conformismo se quisesse salvar a filha.
— Mãe... eu não quero ir. — choramingou Hermione.
Nem Jane queria isso. Hermione acabara de se casar, sim, mas não tinha mais do que dezesseis anos. Era frágil e facilmente quebrável, resultado de uma educação com excesso de zelo e amor. Era uma jovem muito bonita também, e isso a assombrava mais do que qualquer outra coisa.
—Você tem um marido agora, Hermione. Vai servir a ele a ao seu lar. Não há necessidade de ficar junto dos seus pais agora. Casou-se como eu sempre sonhei.
— Mas eu quero voltar. Quero poder vir a Rocky Deep, lhes visitar.
— Eu já disse que não. —Jane foi enfática.
Hermione descambou a chorar. A mãe pegou afirmativamente pelos ombros deu-lhe um tapa no rosto, além de duas sacudidas bruscas no corpo.
— Presta atenção, Hermione! Nunca mais quero te ver nessa cidade imunda! Se você ou seu marido voltarem aqui é morte que os aguarda. Entendeu? Morte!
Sim, Hermione entendia perfeitamente porque tinha de sair dali com Vitor. Somente não queria aceitar que nunca mais voltaria a ver os pais.
~~
De início Jane, que já estava completamente cega por uma doença ocular chamada catarata, não entendeu o que estava acontecendo. Mas aquele cheiro peculiar, adocicado e floral, que naturalmente emanava da pele da filha, enfim a fez cair em si.
—Filha? O que você está fazendo aqui? — articulou chocada.
—Mãe. Mãe. Que saudades, mamãe! —Hermione abraçou-a com força, numa sofreguidão lânguida.
Entregando-se aquela experiência da qual Jane achou que nunca mais vivenciaria, retribuiu o abraço da filha deixando salgadas lágrimas escorrerem pelo seu rosto, depois de, há muito tempo já ter desaprendido a chorar fosse de dor ou felicidade.
— Hermione... — tocou em seu rosto, tentando decifrar como ele estava agora, depois de uma década e meia.
Só então ela notou que havia algo errado com a visão da mãe.
—Mamãe, a senhora não pode enxergar?
— Enxergo melhor do que muita gente da minha idade, querida, pode apostar. —tranquilizou-a Jane.
Arthur deu um risinho da cozinha.
— O que houve mamãe? Cadê o papai? Porque está morando aqui com o Sr. Weasley? — tudo parecia tão confuso.
Jane afagou o queixo da filha e sorriu, enquanto olhava para o vazio.
— Somos apenas dois viúvos que decidimos fazer companhia um pro outro. — disse-lhe. — Nada demais, apenas bons amigos.
Hermione levou as mãos aos lábios, lutando para controlar nova onda de choro.
— Seu pai morreu como queria, dormindo. Foi tranquilo e sereno.
As notícias chegavam rápido demais e Hermione mal tinha tempo de absorvê-las.
—Quando foi? — quis saber.
— Há cinco anos, não Arthur? — disse-lhe, confirmando com Sr. Weasley que havia voltado da cozinha com um copo de suco em mãos.
— Por aí. Tome Hermione! Você parece estar precisando molhar a garganta.
Na verdade ela precisava de um banho, uma refeição decente, roupas limpas, além de uma boa noite de sono, mas contentou-se com um copo de suco, por hora.
— Querida, porque voltou? Eu não disse o quão perigoso era para você e seu marido aqui? — alertou Jane, após o frenesi de o reencontro ter assentado.
— Mãe, isso já faz tanto tempo...
—Mas ele ainda vive aqui. Córmaco é filho do...
— Vitor foi baleado. — interrompeu a morena — E nós estamos correndo um grande perigo de vida agora, porque ele se meteu com um pistoleiro muito violento e temido. — informou-lhes sem rodeios.
— Deus, garota! Você precisa avisar as autoridades de sua cidade. — foi à reação do Sr. Weasley.
— Não seja ingênuo, Arthur. Não podemos confiar nessa gente. — brandiu Jane com a tez tensa. — Como isso foi acontecer, filha?
Hermione não queria aborrecer a mãe com detalhes, por isso foi o mais breve possível.
— Trapaças em jogatinas, algo assim. Acontece que esse sujeito vem procurando nós pelas cidades do norte e não demorara a chegar aqui.
— Onde está seu marido?
— Ele... ele ficou sobre os cuidados de um médico muito eficiente, nas imediações de Ken West. — foi tudo que ela achou necessário dizer a Jane Granger.
Mesmo não tendo mais vida dentro dos olhos, ela vislumbrou um olhar amargurado na mãe. Não era justo, depois de tanto tempo, transmitir qualquer sentimento negativo para ela.
— É grave, querida?
— Não mãe, não é. — mentiu — Mas vim para cá porque acredito que posso contar com a ajuda de alguém do passado para acabar com esse problema. — e virando-se para Arthur completou— Preciso saber onde está o Rony, Sr. Weasley. Até onde eu sei ele tem os meios, e pode ser o único a me ajudar agora.
***
Nada na vida é fácil. Até mesmo algo que se parece certo pode precisar de certa peleja para ser conquistado. Estava se tornando repetitivo, Hermione ter que mover mundos e fundos para conseguir avançar em seus planos, que em sua cabeça eram bem mais fáceis de serem executados do que na prática.
Rony era tão mal visto por quem o conhecia que até mesmo seu próprio pai estava se recusando a dar informações sobre o paradeiro do filho caçula.
— Sr. Wesley, eu preciso saber, estou implorando! — sussurrou Hermione numa conversa em baixo tom de voz para não chamar atenção da mãe, que voltara a repousar no quarto.
— Não. Não. E Não. — argumentou o velho, virando-lhe as costas — Você ficará aqui hoje à noite, sua mãe precisa de você, e amanhã encontraremos uma solução segura para tirar esse criminoso do seu rastro.
— Só preciso encontrar o Rony, só isso. Já sei que ele se tornou um mercenário.
Arthur fitou-a com assombro.
— Ronald está banido da minha vida, porque se tornou um ser humano da pior espécie que comercializa a morte de outros seres humanos. Ele não é mais o seu primeiro namoradinho, querida. Sinto muito mesmo.
— Mas é exatamente disto que preciso!
— Não...
Hermione perdeu a paciência.
— Conhece Arnie Austin? — o Sr. Weasley arregalou os olhos — É ele que está atrás de mim. A coisa está tão fora do controle que eu, por muita sorte, consegui me livrar de três tentativas de assassinato nos últimos dias.
Arthur ficou estupefato. Ela prosseguiu.
— Sabe o que eu fiz, Sr. Weasley? Sabe o que fui obrigada a fazer para salvar a mim e a meu marido, que se encontrava com meia dúzia de balas gravadas pelo corpo? Eu tive de matar! Tirar a vida de um capanga desse pistoleiro.
Depois do choque inicial daquelas revelações, Arthur balbuciou.
— Tem de haver outro jeito.
— Mas não há! Preciso encontrar o Ronald, e tem de ser hoje, antes que os homens de Austin cheguem a Rocky Deep anunciando minha cabeça e a de Vitor, como eles vêm fazendo nas cidades vizinhas.
***
Madame Narcisa Black agregou requinte com o passar dos anos. Seu bordel adquiriu o título de um Saloon de primeira estirpe para cavalheiros desacompanhados, embora na essência não passasse de um prostíbulo. Um prostíbulo vistoso.
Em algum momento nesses quinze anos que se passaram um homem de dinheiro e influência, provavelmente um político, entrara no bordel de Narcisa e fora ludibriado pela mística habilidade da mulher em conquistar o sexo oposto. Pelo período de quase três anos ela desapareceu. Quando retornou, desacompanhada, porém com muito dinheiro e altas doses de sofisticação, disse a todos que passara o tempo viajando pela Europa e aprendendo técnicas novas de como conduzir um cliente na cama.
Verdade ou não, algumas concubinas exóticas vieram com ela. Brancas, Negras, Japonesas e até Peles Vermelhas. Narcisa deu uma redecorada no ambiente também. Comprou o terreno ao lado do antigo bordel, construiu mais quartos, fez um palco para apresentações, aumentou o número de mesas de jogatinas, elaborou bebidas mais fortes no bar e transformou seu antro num paraíso masculino no centro de Rocky Deep. Não havia como negar a visão empreendedora daquela mulher que, há muito tempo, não passara de uma jovem prostituta encardida, se rastejando pelos becos da cidade.
Arthur ajudou da forma que pôde. Não tinha certeza de onde o filho se encontrava porque há meses não o via. Mas supunha, por intermédios dos outros filhos, que quando na cidade, Rony funcionava como uma espécie de Leão de Chácara no Saloon Black, zelando pelo bem do estabelecimento e das garotas, em troca de poder usufruir gratuitamente de todos os serviços da casa.
A possibilidade de estar se arriscando por nada ainda atormentava Hermione quando entrou completamente disfarçada a pedido de Arthur – calça, sobretudo e chapéu – no reino de Narcisa Black. Despedir-se da mãe foi a pior parte ao saiu do cortiço, mas prometeu voltar assim que a maré abaixasse. Arthur lhe desejou sorte na noite perigosa da cidade, ela precisaria mesmo, para conseguir calhar de estar no Saloon na mesma noite em que Rony estivesse na cidade.
Uma música melosa vindo de uma voz sensual foi à primeira coisa que chamou a atenção da morena quando entrou no prostíbulo. Uma loira voluptuosa, de cabelos encaracolados, cantava a plenos pulmões e seminua, num palanque ao lado do bar.
O mar de homens barbados, encardidos e de risadas ásperas era o segundo elemento que Hermione se deteve. Procurando não fixar os olhos diretamente em ninguém por muito tempo para não ser reconhecida como uma mulher, deslizou por entre as mesas de jogo atrás de alguma cabeça vermelha como um palito de fósforo.
Seu coração batia descompassado dentro do peito e ela quis atribuir isto ao sentimento de espionagem que vivenciava no momento, não a um possível reencontro com seu ex-namorado.
Avistou um local bom e estratégico para observar as pessoas no salão, em um dos bancos do bar, e encaminhou-se para lá com as costas curvadas e chapéu cobrindo parte do rosto. Sentou-se, sendo completamente ignorada pelos outros homens que bebiam encostados no balcão, e pediu um uísque puro para complementar o disfarce.
— Olá. Qual seu nome? — Ouviu uma vozinha delicada perguntar-lhe a direita.
Mantendo a cabeça baixa, Hermione virou-se e deparou com uma bela moça de cabelos negros e seios coberto por uma plumagem avermelhada.
— Só estou aqui para beber. — resmungou, tentando engrossar a voz.
— Tudo bem. — a concubina riu — Se mudar de ideia sou Marie. — e saiu rebolando para as mesas.
“Porque sua vida virou de ponta cabeça?” suspirou, observando o salão em busca de alguém que se parecesse com Rony. Nunca na vida ela se imaginaria num local daqueles, nem quando Narcisa Black em pessoa a quis recrutar para sua coleção. Tudo parecia surreal.
“Rocky Deep, Bordel, Ronald Weasley, Vestida como um Homem” possibilidades inimagináveis a uma semana atrás.
Bebericando sem realmente tomar, a morena não notou que alguém a observava do outro lado do salão, perto do palco.
A sua frente todos aqueles rostos masculinos não lhe diziam nada, e ela tinha quase certeza que Ronald não mudara tanto assim a ponto de ser irreconhecível.
Depois de meia hora de muita gritaria e ações de insinuação sexual diante de seus olhos, Hermione começou a dar-se conta de que talvez aquele não fosse seu dia de sorte. Então, um pequeno tumulto de vozes masculinas a sua esquerda a fez virar-se para observar três homens com gargalhadas estridentes e exorbitantemente bêbados, que se encostaram ao balcão.
— Jimmy, tequila! E acima da dose, faz favor — disse um deles ao barman, o que portava um chapéu, e parecia o mais bêbado dos três.
Hermione estudou seu rosto e teve um choque. Era ele! Era Ronald Weasley. Mais velho, mais barbado, mas com os mesmo e inconfundíveis olhos azuis.
— Vocês vão querer também? — ele perguntou aos outros dois. Sua voz era pastosa e as palavras saiam com dificuldade.
Ele escorou-se no tampo do balcão e ficou com um risinho ébrio nos lábios.
— Não Ronald, companheiro, eu duvido que você entorne três doses numa sentada só. — desafiou um deles.
Rony estudou-o com o olhar, embora parecesse estar com a cabeça longe. Hermione ficou pensando qual seria o melhor momento para introduzir-se na conversa e apresentar-se.
— Fechado! — disse por fim.
— Não, nada disso. O Sr. Weasley já abusou demais por hoje. — irrompeu uma voz feminina logo adiante.
Hermione viu a mesma loira que, a minutos atrás cantava e se esfregava no palco, enlaçar o corpo por debaixo do braço de Rony.
— Ah é? — o ruivo sorriu.
A loira tirou-lhe seu chapéu carinhosamente e afagou seus cabelos. Rever aqueles emaranhados de fios rebeldes e avermelhados despertou um sentimento estranho, e antigo, dentro da morena. Precisava dizer algo, antes que o momento passasse.
— Claro que sim, Won-Won. Está na hora de usufruir de outros abusos da casa. — disse-lhe, esfregando os peitos, apertados num decote, contra o tórax dele.
— É rapazes, acho que nossa aposta fica pra outro dia. — Ele comentou, abraçando a concubina.
— Sua tequila, senhor. — informou o barman, depositando um copo da aguardente.
Rony se desvencilhou da loira e dos companheiros e preparou-se para tomar a bebida, ficando de lado para Hermione. Esta era sua oportunidade.
— Oi Rony? — disse-lhe, tirando o chapéu para poder ser reconhecida mais facilmente.
A menção a seu nome daquela forma especifica o fez virar a cabeça na direção dela.
— Tudo bom? — tentou, sem saber como iniciar aquele diálogo.
Ele estudou a fisionomia dela, ainda sorridente, sem parecer mostrar conhecimento de quem fosse.
— Sim? — indagou, tomando um gole de tequila. A moça loira aproximou-se dele, enlaçando o braço em sua cintura.
— Sou eu, Hermione! — continuou, desapontada por ele não reconhecê-la prontamente.
— Ah, olá! — cumprimentou, e ela ficou chocada, porque tinha certeza de que ele ainda não estava se recordando.
— Você não me reconhece?
A loira e os dois outros sujeitos que se estavam juntos de Rony observavam-na curiosos. Afinal, até segundos atrás a morena era um “homem” sentado no bar.
O olhar vidrado do ex-namorado, um homem que não conseguiria ficar muito mais tempo parado em pé por conta do álcool, permaneceu.
— Deveria? — sorriu cinicamente.
— Hermione! Hermione Granger! — alterou-se, chamando mais atenções para si e pondo-se de pé.
Se ele tentava buscá-la em suas lembranças mais longínquas e inundadas em álcool, não teve tempo de encontrá-la. A porta do estabelecimento irrompeu, e, dois homens vestidos em couro marrom surgiram com pistolas na mão.
— PROCURAMOS VITOR KRUM E SUA ESPOSA! — um deles anunciou num grito gutural.
O medo é algo bizarro. Às vezes ele nos faz agir, às vezes nos paralisa quando devemos fugir. Foi assim que Hermione ficou, estarrecida, sem nem conseguir enfiar o chapéu na cabeça para tentar disfarçar quem era. Entretanto, algo a puxou para trás, para longe do tumulto e da gritaria indignada que se formou no salão por clientes enraivecidos por estarem sendo acuados como lebres no mato.
Uma mulher pegou-a pelo braço, arrastou-a para trás do bar, e levou-a escada acima para um cômodo isolado e longe da multidão. Quando a morena deu-se que fora afugentada para longe do perigo, estupefez-se ao descobrir quem fora sua salvadora.
— Nem posso acreditar que é você, garota! — disse-lhe uma Narcisa Black muito mais velha, e muito mais elegante daquela que ficara em sua lembrança.
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