Black Jack
8 O Reencontro
Notas iniciais
Ao acordar e abrir os olhos, uma forte pressão no alto da cabeça castigou-o por ter bebido mais do que de costume. Como todo homem que se sustenta da caça de recompensas Rony aprendera com alguns de seus professores da vida, além de com a própria experiência, que beber até perder o controle de sua consciência e de sua pontaria era perigoso. Letal algumas vezes.
Forçando-se a sentar na beira da cama, notou que estava nu. Não se lembrava de nada da noite passada, apenas flashes esquisitos e um fato bizarro. Ao olhar para trás viu Lilá Brown, linda e adormecida, com seu ostensivo corpo despido embolado nos lençóis de cetim de Madame Black.
Rony sentia uma ternura imensa por aquela meretriz. Assim como as outras garotas do harém Black, tinha pena pela vida da qual fora imposta. Nenhuma mulher pode estar feliz dormindo com um homem desconhecido por noite. Eram bonecas sorridentes e solícitas, mas por dentro estavam constantemente vazias.
Lilá tinha algo a mais. Algo que ia além de seus dotes na cama e que tantas vezes arrancaram gemidos de prazer nele.
Nunca perguntou a origem da moça, mas podia ver dentro do seu coração uma beleza interna também. A alma de alguém que merecia se dar bem só pra variar, e longe dali como via de regra. Se casar com um sujeito decente já seria um começo. Daria uma ótima mãe, visto seu espírito carinhoso e paciente.
Quem sabe... Quem sabe um dia o destino lhe sorrisse. Rony sempre torcera para isto.
Arrastou o corpo para fora da cama, mas sua parceira sexual não se mexeu. Foi até o banheiro e encontrou a banheira pronta para o banho. Suas roupas estavam dobradas caprichosamente num banquinho ao lado, e em cima delas havia um barbeador e um sabonete. Tudo fazia parte do revolucionário serviço de quarto do Saloon Black. No fim da madrugada, quando a farra havia acabado e o cliente babava no travesseiro, uma camareira entrava e preparava sua higiene para o dia seguinte. Por essas e outras aquele estabelecimento não era para qualquer marmanjo desdentado. Algum da ralé até conseguiria se endividar nas mesas de jogos do salão principal, mas era necessário ser mais afortunado para conseguir as garotas.
Raramente, alguém dessa subclasse asquerosa de Rocky Deep chegava com um saco cheio dinheiro, após um assalto na maioria das vezes, e usufruía uma noite com as meretrizes. Entretanto, quando um desses tipos saiu do controle, ou simplesmente desceu até seu próprio patamar, e espancou uma das concubinas quase a levando a morte, ficou estabelecido que o cliente teria de ter boa aparência e sanidade também.
Esse foi o ponto de virada para Narcisa. A partir desse decreto ela ganhou nova fama no Oeste. Se os bordéis fossem avaliados pelo número de estrelas, aquele passou a reluzir numa fachada com todas elas. Moças realmente bonitas e “limpas” começaram a surgir, querendo ter na Srt. Black sua cafetina. E ela acolheu-as de braços abertos, quem tinha potencial, claro.
Nessa época Rony estava sem serviço, mas ainda esbanjava boa parte da grana que conquistara na captura de Malfoy, Bala na Mira. Era um frequentador do bordel e logo foi fisgado pela oferta de Narcisa, uma negociadora nata, oferecendo suas meninas e seu salão em troca da segurança da melhor mira da Louisiana caso espertalhões insistissem em desacatar as regras.
Uma parceria justa e que vinha beneficiando a ambos.
Os machões pensavam duas vezes antes de descontarem suas frustrações em singelas profissionais do sexo. E as garotas disputavam a atenção dele, afinal era um homem bem aparentado na casa dos seus 32 anos, e gentil com o sexo oposto também, embora jamais amoroso.
Rony entrou na banheira e levou o espelhinho de parede consigo. O barbeador era uma indireta bem direta da Madame Black. Fazia quase três semanas que não tirava a barba e sabia que ela detestava homens com muitos pelos na cara. “Ar de bandido” costumava opinar. Não porque ele temesse aquela mulher, mas porque gostava dela como a uma boa amiga, e porque os pelos começavam a incomodar, começou a barbear-se.
Depois de quase trinta minutos na banheira, enxugou-se, vestiu-se e foi para o quarto colocar o coldre, antes de sair para uma nova manhã. Sua cabeça ainda zunia.
— Bom dia, estranho. — Lilá já estava acordada, embora sonolenta em volta na roupa de cama.
— Só se for pra você querida, só se for pra você. — resmungou, sentindo a cabeça pesar mais do que nunca.
— Acordou de mau humor? — fez beiçinho.
— Ressaca, para ser mais preciso. — e transpassou a fivela na cintura.
— Quer que eu desça com você?
— Não precisa. Vou tomar um café pra ver se essa dor de cabeça passa, e logo depois já vou sair. Até mais tarde! — colocou o chapéu, acenando para ela.
— Até, Won- Won!
***
O salão que ficava lotado durante a noite, era somente poeira e mudez durante o dia. Caminhando devagar, porque se rápido o fizesse parecia que o cérebro pululava dentro do crânio, desceu as escadas e contornou as mesas e cadeiras vazias. Uma moça varria o chão ao redor do palco, e somente uma mesa estava montada perto do bar com aperitivos de café da manhã. Sentada, calma e elegantemente, ele viu Madame Black como de costume, e juntou-se a ela naquele desjejum.
Rony sentou-se pesadamente numa cadeira vaga, tirou o chapéu e ofereceu-se de uma xícara de café com sofreguidão.
— Quantas doses de tequila você tomou ontem? — ela perguntou-lhe.
Ele não respondeu antes de tomar uns três goles sequenciais.
— O suficiente para estar com o cérebro derretendo para fora das orelhas.
— Achei que não fosse adepto da bebedeira, como bem me disse uma vez.
— Quando se perde duas mãos no pôquer algumas regras ficam para trás. — quanto mais falava, mais doía.
Com raiva do excesso estúpido da noite passada, baixou a cabeça e concentrou-se na enxaqueca que não ia embora. Mas outra coisa martelava na mente. Algo que somente com Madame Black ele sentia-se a vontade em comentar.
— Mas eu prometo jamais me embebedar dessa forma, portanto, faça o Jimmy recusar mais que duas doses de bebida que pedir. Até fantasmas do passado desenterrei ontem à noite.
Narcisa pegou uma colher de prata, adquirida em Paris, e remexeu o chá dentro de sua xícara. Saboreou o afrodisíaco aroma de canela e então lhe disse:
—Eu passei essas instruções para Jimmy ontem mesmo. Mas me diga, que fantasma foi esse?
— Uma antiga namorada... sei lá. — a cabeça parecia que ia explodir. — Não me lembro de quase nada da noite passada, exceto uma espécie de alucinação onde essa pessoa do meu passado aparecia bem ali, no bar, e se apresentava.
— Como assim? O que ela dizia?
— Pra começar vestia-se de uma forma esquisita. Como um homem, eu diria.
— Que devaneio mais duvidoso. — ponderou Narcisa, bebericando o líquido fumegante.
Ele assistiu-a vendo uma diversão incutida pairando em sua tez.
— Como eu disse, estava chapado! — exclamou indiferente, pegando um pedaço de pão para ver se colocando um pedaço de comida no estômago, a dor passava.
— Não sabia que cultivava namoradas antes das minhas garotas... — deixou a frase no ar.
Rony engoliu o pão, um tanto arrependido por ter começado o assunto. Deu-lhe o silêncio como resposta àquelas palavras inoportunas, e tomando um último gole da xícara, colocou o chapéu e preparou-se para ir embora.
— A tequila também não o deixou cumprir seus deveres. — reclamou Madame Black, fitando um ponto fixo janela afora. — Provavelmente não se lembra disso, claro.
Ele acomodou-se na cadeira outra vez. Estava mais do que acostumado com o cinismo característico da cafetina, mas aquele dia, em que sua cabeça arrebentava a cada palavra desnecessária, viu a paciência esvair.
— Então é por isso que está tão... Dura, hoje? — estudou-a. — Alguma coisa grave? Alguém que não quis pagar seu drinque ou bolinou as garotas antes da hora?
— Curioso, eu diria que você acordou com a língua mais afiada do que a minha. — e cravou suas pupilas faiscantes nele.
— Alguma garota se machucou? — questionou-a realmente preocupado.
— Não. — balançou a cabeça — Graças ao nosso bom Deus, tivemos apenas uma espécie de mensagem. Dois emissários, tipos muito parecidos como aqueles que você gosta de caçar quando está a serviço, entraram aqui, assustaram minha clientela e, veja só, deram dois tiros no meu lustre de 5.000 mil dólares.
O ruivo não desviou o olhar, contudo sentia-se tão humilhado por seu comportamento na noite passada, por não ter condições de agir como era seu dever, que só não baixou a cabeça por puro orgulho.
— E sabe onde você estava? Sabe aonde? — sua voz aguda ladrou — Apagado! Num estágio vegetativo, com a cara afundada nos peitos da Lilá, ali, bem ali naquele balcão em que você disse ter visto sua aparição do passado! — gritou, batendo na mesa com raiva.
— Nosso trato sempre foi eu te ajudar e você oferecer os serviços da casa em troca...
— Sim! — interrompeu-o, brandindo os braços — E eu bem sei o quão azarada eu sou em fazer negócios com sua espécie que não conhece limites.
— O que você quer, Narcisa? — discussões como aquela já havia acontecido entre eles, e Rony havia jurado na última delas que aquela mulherzinha metida da vida não iria trata-lo como um filho merecedor de bronca. —Quer uma droga de um lustre novo? Eu compro dois! Quer que eu traga os malditos que invadiram o salão e os faça beijar seus sapatos de donzela respeitável? Faço pior! Mas não me venha apontar o dedo e gritar na minha cara como se fosse algo a mais, além de uma cafetina que precisa dos serviços de um pistoleiro.
— Won- Won?! — assustou-se Lilá, surgindo do fundo do salão, vestida numa camisola que deixava metade de suas pernas para fora. — Porque está gritando desse jeito?
Ele levantou-se da cadeira com violência. Não despenderia mais um minuto do seu dia com aquele bando de meretrizes.
— Está absolutamente certo, Ronald. — disse Narcisa a suas costas — Eu sou uma cafetina, você um miserável mercenário. Mas o seu passado, aquele que veio procura-lo ontem, merece muito mais respeito do que nossas duas espécies juntas.
Estupefato, parou a meio caminho da porta e refez o caminho até a mesa, passando por Lilá e avaliando Black na busca por algo que pudesse lhe dar uma dica sobre que tipo de frase fora aquela que ela articulara por último.
— Sente-se! — ordenou ela numa voz imperiosa.
O ruivo obedeceu-a, virando a cadeira contra a mesa e sentando de pernas abertas, com os braços apoiados no encosto. A ressaca não o deixava formar a imagem perfeita do quadro que vislumbrara durante a bebedeira, mas se precisasse de Madame Black para fazê-lo nítido, ouvi-la-ia sem resistência.
— Os emissários que adentraram aqui procuravam por duas pessoas e por coincidência, ou não, os nomes pelos quais exigiram são muito familiares nesta cidade. Antigos moradores que há muito tempo não ouvia alguém citar. Eles disseram “Queremos Vitor Krum e sua esposa”.
Um bolo de ânsia começou a se formar na garganta de Rony. Mal se deu conta que apertava o encosto da cadeira nesse momento.
—Não vejo nada ligado ao meu passado aí. — mentiu.
—Sabe que eu também achava isso? — ela tamborilou as unhas cumpridas contra a mesa —Até a esposa do Sr. Krum vir me contar uma história da qual eu não tinha a mínima ideia que aconteceu por aqui, a uns quinze anos, eu acho.
Ele não conseguia pensar em nada para dizer. Na verdade, Ronald Weasley não conseguia raciocinar ali.
—Ela veio. —sonorizou num murmúrio — E precisa desesperadamente da sua ajuda.
O ruivo mirou um ponto atrás de Narcisa. Um alguém tão desconhecido e ao mesmo tempo tão familiar vinha dos aposentos atrás do bar. Engolindo em seco, acompanhou ela surgindo num estranho vestido roxo, daqueles que as meninas do Saloon Black costumavam usar. Mas diferente das concubinas seu rosto estava livre da pintura excessiva assim como desprovida daquela infantilidade sensual de uma garota quando atinge a adolescência. E sim, ainda era ela, porque mesmo agora, já mulher, ainda era a criatura mais linda que desfilara diante de seus olhos.
~~
Rony veio andando na direção do trio. Harry, Hermione e sua irmã Gina apreciavam a movimentação do outro lado da rua, esperando o auge da noite, quando algum bêbado inoportuno começasse a dar trabalho dentro do bordel de Madame Black e fosse escorraçado a chutes e empurrões.
Não era lá algo divertidíssimo para se fazer, ainda mais porque havia a possibilidade das coisas saírem do controle e tudo acabar em tiros. Mas os jovens encontravam naquilo, no tentar adivinhar qual dos tipos que entrava estava mais propício a sair lambendo o chão, uma distração nas noites quentes de verão.
— A coisa tá animada lá, hoje, hã?! —observou Rony, sentando-se entre Gina e Hermione, na varanda de um casebre abandonado.
— E põe animada nisso. — disse Harry, abraçado a namorada.
De dentro do bordel música alta e muita risada ecoava janela afora.
—Quantas mulheres devem trabalhar para Madame Black lá dentro? — inquiriu Rony.
— Dizem que mais de trinta. —o amigo respondeu. — Por falar nisso, lembram-se de David Yin?
Todos assentiram.
— Repararam que ele anda sumido da cidade?
— É. Ele era nosso recordista em confusões no bordel. — comentou Gina, arrancando risadas dos outros jovens.
— Mas o que eu fiquei sabendo dele, hoje, não tem nada de engraçado. — disse Harry num tom sombrio. — Há cerca de dois meses ele foi viajar com uma caravana de caçadores de recompensa. Levou uma das moças da Madame Black, junto.
— Por quê? — quis Hermione saber.
— Estavam apaixonados ou algo assim. — ele deu de ombros — O fato é que eles foram encontrados há cinco milhas daqui... — e num sussurro, finalizou — escalpelados.
Gina deu um gritinho de pavor, Hermione arregalou os olhos e Rony remexeu-se de forma incomoda na escada.
— Algum suspeito? — inquiriu o ruivo.
Harry coçou o queixo de onde um vestígio de barba começava a se formar.
— Eles estavam atrás de Tom Riddle. A recompensa para sua captura é quase que incalculável! Mas vocês sabem, ele tem comparsas em todos os lugares, além da fama de caçar quem se arrisca fazê-lo, primeiro.
— Essa vida de mercenário é só para gente pirada! — Gina opinou, a pele arrepiada. — Vamos para casa, Harry? Já preenchemos nossa cota de assuntos macabros por hoje. Meu pai já deve estar preocupado uma hora dessas.
O casal levantou.
— Vem com a gente? — Harry perguntou a Rony e Hermione.
— Daqui a pouco eu levo a Mione.
— Boa noite pra vocês então! — disse-lhes o amigo, indo embora de mãos dadas pelas ruas obscuras de Rocky Deep com Gina.
Rony abraçou Hermione por trás e repousou o queixo em seu ombro. Ali permaneceram calados, absorvendo a história há pouco contada, mas também experimentando do calor um do corpo do outro.
— Porque você tá sempre tão quente? — murmurou o garoto, beijando lentamente o lóbulo da orelha da morena.
Ela retesou o corpo, mas não se afastou.
— Isso arrepia... — gemeu baixinho.
— É a intenção. — confidenciou-lhe, apertando seu corpo para mais perto do dele.
Os beijos na orelha escorregaram para o pescoço e as mãos na cintura subiram até os seios. Nesse momento ela afastou-se.
— Tá, desculpa! — Rony ergueu as mãos num sinal de rendição. Sua noiva bagunçou-lhe os cabelos. — Às vezes é difícil me controlar...
—Mas você sabe que devemos...
—...esperar o casamento. — completou — Eu sei. Não quero desrespeitar as regras.
— É impressão minha ou você está debochando? — perguntou-lhe com olhos miúdos.
— É impressão sua, porque eu quero esperar. Mas também não sei quanto tempo mais teremos que adiar esse momento. Daqui alguns meses eu faço dezoito.
— E eu dezessete! — lembrou-o — Se deixar de ser tão afobadinho e parar para pensar falta apenas oito meses até a caravana do padre Smith chegar.
Ele virou o rosto, focou num ponto sem importância no fim da rua, e nesse instante Hermione sentiu que havia algo errado, uma sombra que veio com Rony desde quando ele chegara ali.
— Onde você estava antes daqui? — procurou ser direta.
O garoto suspirou e estudou-a com cautela. Com o polegar e o indicador tocou no colar de noivado, no pescoço dela até resolver prosseguir na fala.
— É sobre isso que precisamos conversar. Talvez nós tenhamos de esperar a caravana do outro ano.
— Hã? — ela não estava entendendo.
— Mione, essa noite eu fui combinar os detalhes da minha partida de amanhã.
Hermione afastou-se mais dele.
—Partida?! Como assim, Ronald?
— Olha, preste atenção. Lembra quando eu disse que teria de ter um bom dinheiro guardado para podermos ir morar em outra cidade e tudo mais? — a garota não respondeu, ele prosseguiu. — Pois então, jamais conseguirei isso fazendo bicos na marcenaria, por aqui. Estou engajado num serviço por fora, que pode mudar nosso futuro. Vou partir amanhã com um grupo de sujeitos na procura de um fora da lei escondido lá pelo norte. Pode ser que volte em poucos meses, pode ser que demore um ano, ou mais.
Aquela notícia abateu-se nela como um meteorito chocando-se contra um planeta.
— Não ouviu nada do que o Harry acabou de dizer?
— Aquele tal de David era um maldito bêbado, que ainda levou uma prostituta à tira colo para atrasa-lo durante o percurso. Eu vou atrás do Riddle com um bando experiente. E cá entre nós, sou ótimo na mira também.
— O que?! Você vai atrás do maior assassino da atualidade?Endoidou? — gritou ela, pondo-se de pé.
— Acha que eu não tenho capacidade?
— Claro que não! Você é um garoto ainda! — devolveu-lhe elevando ainda mais o tom.
Rony fechou a cara, visivelmente ofendido.
— Quero ver se você vai dizer isso quando voltar com uma bolada da recompensa que esse miserável vai me proporcionar.
— Eu não quero dinheiro. Aliás, eu nunca pedi pra sair daqui. Esquece isso, agora!
— Como assim, esquece isso? — ele levantou-se também — Que tipo de ordem é essa? Tá achando que é minha mãe?
— Bem que faltou uma na sua vida, pra te colocar no seu devido lugar de vez em quando. Onde já se viu sair por aí, num trabalho de mercenário?! — colocou a mão cintura, e, para completar sua postura costumeiramente mandona, apontou-lhe o dedo.
— Pois saiba que é isso que pretendo fazer da vida, goste ou não! — foi a resposta que recebeu.
— E... se eu não gostar?
— Vai ter que se acostumar...
— Ou...
— Faça como quiser.
— Você vai amanhã? — não estava acreditando no que ouvia e via.
— Mas é claro que eu vou.
— Se for, saiba que nós rompemos aqui. — disse impulsivamente — Eu não vou esperar para ter notícias suas, escalpelado em algum vale deserto! — berrou com lágrimas nos olhos.
— Acha que me intimida com essa chantagem? — questionou-a com a voz trêmula.
Apesar de saber que Rony tinha talento para ser rude quando se esforçava, o rapaz diante de si não se assemelhava nem de longe com o que ela se apaixonara.
— Não é chantagem! Eu sou sua noiva!
—Mas não minha dona. — e virou-se, caminhando no sentido oposto.
Hermione estarreceu, abismada. Piscou diversas vezes para ter certeza de que não tinha mergulhado num pesadelo provocado pelo calor infernal do seu quarto. Mas não. Rony havia deixado-a ali, nas ruelas perigosas da cidade, morta de raiva pelo desenrolar da conversa e das atitudes dele. E, por consequência, preocupada por saber que partiria na caça de um dos mais inumanos assassinos da década.
Quando se deu conta e, olhando para os lados, viu-se solitária numa rua deserta, começou a andar a passos apressados para casa. Passou os primeiros quarteirões com a cabeça longe, tramando uma estratégia de estar na casa do namorado minutos antes do pôr do sol, e desmascarar seu plano na frente do Sr. Arthur, que muito provavelmente não sabia da ideia eloquente do filho. Rony a detestaria por alguns dias, algumas horas talvez, mas depois tudo voltaria nos eixos.
— Ei, Blaise! Olha o que nós temos aqui. — uma voz cheia de más intenções cortou a noite. Hermione olhou para sua esquerda e viu um homem aproximando-se num cavalo de trotes silenciosos. Atrás dele vinha outro cavaleiro. — Como vai docinho? — ele tirou o chapéu.
A morena virou-se para frente e continuou caminhando, decidida a ignora-lo.
— Ei! Não finja que eu não falei com você. Qual seu nome? —Ela apressou os passos. Os primeiros vestígios de pavor dominando-a.
Num repente, deu um pulo para trás, assustada quando ele fechou-a com o corpo do cavalo e saltou da montaria.
— Deixe-me apresentar! Córmaco MgLaggen, filho do novo xerife. — era um rapaz bem aparentado, mas de olhar extremamente selvagem.
Hermione virou-se para o outro lado, mas o cavalo do seu parceiro, o tal do Blaise, fechou seu caminho. Dolorosamente, sentiu dedos grossos e duros cravando em seu braço.
— Me solta! — exigiu, instintivamente.
— Não antes de um beijinho. — balbuciou o filho do xerife, apertando-a com mais força. — O que está fazendo aqui, hein? Tão tarde?
— Eu disse para me soltar! — berrou em pânico.
Ele pegou-a pelo queixo e, com a outra mão agarrou-a pelo ombro. Ela tentou se desvencilhar, mas não obteve sucesso, Córmaco era muito mais forte.
—Calma, querida. — sussurrou-lhe.
— Deve ser uma das meninas da Madame Black. — arriscou Blaise, montado no cavalo.
— Sério?! Desculpe-me, então. — falou ironicamente — Deveria ter perguntado quanto cobra, ao invés do seu nome.
—Eu não sou prostituta! Me solte! — berrou ela, acertando-lhe o meio das pernas com uma joelhada.
Córmaco solta-a por um segundo e gritou de dor. Hermione viu ali sua oportunidade e começou a correr. Seu salto bateu numa pedra e ela caiu com força no chão. Recuperou-se imediatamente, e, quando apoiou os braços para levantar teve o corpo novamente comprimido pelo corpo de seu algoz.
— Não! — gritou, quando se viu sendo virado de barriga para cima como uma boneca sem peso.
Com as duas mãos começou a arranhar o rosto de Córmaco que já se punha em cima dela feito um animal, metendo-lhe a mão por debaixo do vestido, a procura de um modo rápido e violento de viola-la.
— Para! — ele praguejou, torcendo um dos seus braços para trás.
Desesperada, ela buscou qualquer coisa para se livrar daquela situação horrorosa. Tateou algo no chão para lhe ferir para valer, e seus dedos encontraram entre a terra vermelha do chão, um fiapo relativamente grande de madeira.
Parte de sua roupa íntima foi arrancada no mesmo instante em que ele gravava os dentes no seu decote. Uma dor lancinante dor veio daquele gesto. Uma dor necessária para que ela cria-se ódio e forças suficientes para cravar-lhe a madeira na bochecha, transpassando a carne e indo chocar-se contra o osso.
Ele urrou desta vez, feito um porco quando transpassado com um facão no coração, mas como um último reflexo, antes de rolar o corpo para o lado, aplicou-lhe dois socos certeiros no meio do rosto.
A partir daí o mundo foi algo desfocado para Hermione. Gosto de sangue e borrões enegrecidos foi tudo o que a garota sentiu e viu. Mas seus ouvidos continuavam apurados, fazendo-a conseguir identificar sons de vozes masculinas alteradas, relinchar de cavalos assustados, passos apressados, socos... E tiros. Havia uma quarta pessoa ali.
Num estado entre a consciência e a perda dela, a morena achou que Rony estivesse vindo salvá-la. Mas então uma voz se pronunciou levantando seu corpo com carinho e cautela.
—Vai ficar tudo bem.
Era a voz do rapaz que a “humilhara” no episódio da maça, no dia passado.
— Obrigada. — lembrou-se de dizer pastosamente — Me chamo Hermione... — sussurrou com dificuldade.
Ele ergueu-a entre os braços, levando-a para longe dali.
— Não fale. Estou te levando pra casa.
~~
— Ela veio até aqui apenas para falar-lhe. — anunciou Madame Black, quando Hermione aproximou-se da mesa — Vou deixá-los sozinhos. — e levantando-se saiu salão afora, levando Lilá e a moça que limpava o chão, junto.
*O ambiente caiu em total ausência de som. A respiração para Hermione vinha com dificuldade. Reencontra-lo, agora sóbrio, era mais assustador do que imaginara. Rony continuava a encara-la com uma expressão, inicialmente chocada, que foi desmanchando para uma mais defensiva. Estava mais parecido com o garoto do seu passado agora, sem a barba.
Ela sentou-se na cadeira, de frente para ele. Ele permaneceu mudo, esperando-a dizer a primeira palavra, e tirou o chapéu, depositando-o na mesa.
—Olá, Ronald. — cumprimentou-o sem saber se deixava as mãos em cima da mesa, ou embaixo, no colo.
— Como vai, Hermione? — saudou-a num tom neutro.
— Há quanto tempo, não? — comentou, tentando imaginar como poderia pedir ajuda a alguém que há muito não via, e que tivera como os últimos momentos somente lembranças amargas.
Ele anuiu.
— Quinze anos, eu acho.
— É, por aí. — ela curvou-se para frente e juntou as mãos no tampo. — É estranho... Você é o mesmo, mas parece tão diferente.
— O que está fazendo aqui, na cidade? — perguntou-lhe sem rodeios.
Ela endireitou as costas e trouxe as mãos para baixo da mesa outra vez. Se a postura adotada por ele seria a de distanciamento e objetividade ela não faria diferente.
—Fui obrigada a abandonar minha casa. Meu marido, o Vitor...
— Sei quem é seu marido. — interrompeu-a apenas para deixa-la informada.
Hermione assentiu e continuou.
— O Vitor gosta de jogar. BlackJack na maioria das vezes. — parecia irreal aquela conversa para ela — Acontece que a sorte nem sempre acompanha nós, e ele deu o azar de cruzar o caminho de um grande fora da lei. Arnie Austin. — fez uma pausa, esperando que o nome fizesse algum efeito nele. Se fez não aparentou. — Vitor foi baleado. Cinco tiros. Está muito mal agora, sob os cuidados de um médico amigo do Harry. Lembra-se do Harry?
— Ele é casado com a minha irmã. — sua voz tornava-se mais fria a cada frase. Parecia que ele tinha se recuperado da surpresa inicial de revê-la, e começava a se fechar em sua carapaça arrogante.
Hermione sentiu-se tola, humilhada, por estar tentando preparar o terreno para pedir favor a alguém que determinantemente não a queria tão bem quanto antes.
— Eu... Quer dizer, esse tal Arnie Austin, está caçando meu marido e a mim agora, por causa de uma suposta trapaça no jogo. Também porque houve baixas da parte dos homens dele nesse percurso.
Ele pegou o chapéu da mesa.
— Eu ando sem saída. E sua irmã me disse que você poderia me ajudar com o problema, já que se tornou um mercenário.
— Quanto?
— Como? — piscou.
— Quanto pode me pagar para resolver seu problema? — fez a pergunta lenta e pausadamente.
— Não tenho nada. —abaixou a cabeça – Há esta altura minha casa deve estar queimada e a única coisa que me pertence são dois cavalos que estão no estábulo do Harry.
— Sinto muito... — ele resmungou — Mas não uso animais como moeda de troca.
Hermione esperava por algo assim, mas no fundo tinha uma débil esperança que ele aceitasse protegê-la sem nada em troca.
— Eu tenho algo de mais valor! — exclamou para detê-lo. Estava desesperada e aquilo veio em sua cabeça naquele segundo. — Ainda tenho o colar de Edwin Gorila. Há alguns anos levei-o a um avalista e posso afirmar-lhe que ele vale muito.
Rony hesitou. Fitou-a com um brilho incomum. Um olhar que poderia dizer tanta coisa, mas que ficaria somente nas suposições. Poderia até estar se indagando do porque guardara a prova de uma antiga relação entre eles, por tanto tempo.
— Não estou precisando de serviço no momento, mas vou pensar. — e saiu pela porta da frente, deixando-a solitária na mesa.
Fale com o autor