Black Jack
9 Cada Cabeça Uma Recompensa
Notas iniciais
— Não posso ficar presa aqui, fingindo ser uma das suas garotas.
Narcisa sentou-se na beira da cama e estudou-a com paciência.
— Também não pode sair. — instruiu a Hermione — Os homens de Austin estão lá fora, por toda parte. E você, mocinha, veio simplesmente para o lugar onde está mais propícia a ser reconhecida como a esposa de Vitor Krum. Aliás, ainda não tive a chance de lhe perguntar qual é o real estado de saúde dele.
Hermione parou de andejar pelo quarto e sentou-se ao lado da cafetina. Os últimos dias haviam tirado-a completamente dessa questão.
— Quando o vi pela última vez... — a frase morreu no ar. — Porque está me ajudando, Madame Black?
A mulher mais velha tocou a mão da mais nova com ternura. Deu-lhe um sorriso cansado e rugas surgiram ao redor dos olhos e da boca fina. Uma vez, e Hermione conservava essa lembrança de forma muito vívida, Narcisa Black fora uma jovem incrivelmente linda. E mesmo agora, na casa dos cinquenta anos, ainda carregava muito daquela beleza.
Entretanto, por debaixo da maquiagem excessiva, do invólucro confiante, às vezes prepotente, havia uma criatura madura, e completamente fatigada de tudo aquilo que a rodeava.
— Lembra quando lhe fiz a proposta para vir trabalhar comigo, quando era garota?
— É claro que sim.
— Naquele dia saí com uma grande expectativa que você aceitasse. Uma lindeza inocente era como eu a definia. Tinha certeza que não haveria um homem que não pagaria muito para ter-te por algumas horas. Desfrutar dessa tua formosura! Mas eu sabia, sabia que não conseguiria. Seus pais honravam esse título, diferente da maioria por aqui, e você mesmo, apesar de bem novinha transparecia no olhar toda a gama de valores que recebia em casa. — ela molhou os lábios com a língua antes de prosseguir, a morena continuou escutando-a em silêncio — Pois bem, eu saí da sua casa um pouco frustrada. Via muito de mim em você, não me pergunte o que, e quando eu fui tentada a entrar nesse mundo há muitos anos simplesmente não hesitei. Mas como o esperado, eu consegui conquistar algumas ovelhas para meu rebanho. Cinco garotas. Lembro-me do rosto, das vozes e dos sonhos de todas elas...
— O que aconteceu?
A cafetina suspirou, fitando um ponto na parede com tristeza.
—Três morreram contaminadas por doenças sexuais severas. Uma fugiu com um mercenário de quinta e foi assassinada de forma igualmente brutal ao lado do seu amor, em algum ponto ao Leste. E a quinta, ela continua viva morando em outra cidade com uma avó, entretanto com a face desfigurada depois que um cliente saiu do controle e a espancou. E então, quando te revi ontem, apesar deste pensamento já ter-me passado diversas vezes, fiquei feliz, muito mesmo, por não ter te arrastado para esta vida. Foi gratificante te ver uma mulher tão linda quanto me lembrava... E com perpétuo olhar convicto. Te ajudar é minha forma, patética eu sei, de me desculpar pelas outras.
Hermione entendeu a profundidade da culpa daquela mulher e preferiu calar-se para poder presenciar um fato que, talvez, ela nunca mais fosse rever: Madame Black chorar. Não foi nada espalhafatoso ou incontido. Apenas duas ou três gotas desavisadas. Então ela enxugou-as quase que imediatamente e apertando a mão da morena prometeu:
— Não se preocupe. Ronald vai reaver sua proposta e a ajudara, eu lhe garanto.
***
Rony estava atormentado como uma pessoa que depois que leva uma notícia chocante sente-se, sem rumo, com a cabeça letárgica e as pernas sem direção. Ao sair do saloon achou que o sol de um novo dia o fortaleceria de alguma forma, mas, pelo contrário, quase queimou sua retina. Via-se debilmente frágil, de um jeito como há muito não sentia. Precisava da penumbra, um canto solitário e incrustável onde pudesse refletir e pensar... pensar naquele nocaute que a vida acabara de desferir-lhe.
Havia tomada sua decisão no instante que atravessou a porta do estabelecimento. Encontraria os homens de Arnie Austin, provavelmente vagando pela cidade, e se fossem poucos, os afugentaria dali. Depois diria para Hermione abandonar sua identidade, indo resguardar-se por cinco anos ou mais, numa cidade distante.
E não pensaria. Absolutamente, não despenderia mais um minuto de seu tempo em prol da Sra. Krum.
Montou em seu garanhão de pelame castanho, Nebraska, cavalgando entre a cidade até o local mais propício a boataria aquela hora do dia; O General Store do centro. A loja de artigos diversos e indefinidos. Havia cabrestos e celas com uma infinidade de cores e materiais; Alimento a céu aberto sendo vendidos a granel, de cereais trazidos dos carregamentos de partes distantes do país; artigos para higiene; roupas usadas e semi-novas; aguardentes armazenadas em barris de madeira apodrecidos; e tudo o que a imaginação de um nativo do oeste tivesse vontade ou necessidade de adquirir.
O mercenário esquivou-se entre a clientela para chegar até o balcão, já sentindo o assunto sobre Arnie Austin pairar no ar. Cumprimentou uma dúzia de conhecidos que nutriam respeito pela sua pessoa, acenando comedidamente para quem achasse importante isso fazer. Moody, O Olho Tonto, veio manquitolando do depósito e encostou o corpo parrudo e torto, com um sorriso solícito para atender Rony.
—Há quanto andas, Moody? — saudou o ruivo, deixando o chapéu de lado.
O velho esfregou a superfície mal cheirosa do balcão com um pano encardido e fitou-o intrigado, usando o olho bom. Possuía um rosto medonho, repleto de cicatrizes, assim como o corpo, outrora fragmentado em diversos pontos durante a Guerra da Sucessão. A perna permanentemente lesionada o fazia mancar de forma bisonha, mas era o olho direito, o que fora acometido pelo disparo de um mosquete, a parte mais sinistra de sua anatomia. O globo continuava lá, porém opaco, cinzento, um pedaço de tecido morto fundido numa íris e pupila negra, e ainda por cima, se comportando como uma esfera mole desconecta de seu nervo óptico.
—O de sempre? — rosnou para Rony. Sua voz também não era das mais suaves.
—Metade de uma dose, por favor. — pediu.
Moody foi até o barril e tombou uma pequena dose de um destilado a partir do trigo.
—Impressão minha ou você teve uma péssima noite? — quis Moody saber.
Rony tomou a bebida num gole só e não pediu outra dose.
—Acho que não tenho mais idade pra essas coisas. — e fazendo careta, apontou para o copo.
— Pela minha experiência, garoto, é diferente. Você ainda não tem idade para essas coisas!
O ruivo riu. Só Olho-Tonto e suas observações realísticas para diverti-lo num dia como aquele.
— Deixe-me ouvir de sua boca, que confusão foi aquela no bordel de Madame Black?
— Foi por isso que veio correndo do depósito até o balcão? — o mercenário fingiu-se de ofendido.
Olho-Tonto talvez fosse o último homem na Terra a se encabular quando desmascarado, e prosseguiu.
— Preciso manter meus clientes informados. — grunhiu.
— Então sinto lhe informar que sou tão expectador quanto você. Eu enchi a cara ontem, e não me lembro de nada. Essa minha cara de atropelado por um trem, que você notou hoje, é, digamos que a consequência de ontem. Quem veio atrás de informações sou eu, meu caro. O que já andou ouvindo essa manhã sobre os homens de Austin?
Ele espiou os lados antes de prosseguir.
— Até onde eu sei, eles podem ser qualquer um. — sussurrou.
— Qualquer um? — Rony não entendeu.
— Rapaz, o que andou bebendo ontem?! — impacientou-se Moody, mas prosseguiu — Parece que os sujeitos que foram ao bordel ontem eram apenas porta-vozes. Dizem que há mais três ou quatro homens de Austin por aqui, apenas esperando a hora oportuna para entrarem em ação.
Rony tocou o cabelo, pensativo.
— Por um acaso lembra-se desse tal de Krum ou da mulher dele? Dizem que os dois já moraram aqui.
— Não faço ideia. — respondeu o ruivo, rispidamente.
O astuto Olho-Tonto estudou-o, e pigarreou antes de falar:
— Tem uma recompensa pequena para quem entregar esse casal. Promessa do próprio Austin.
— E desde quando o velho Moody acredita na conversa de foras da lei?! — instigou-o.
— Não acredito! — vociferou — É um puro e simples comentário. Da mesma forma que existe uma recompensa pela captura de Arnie. Hoje de manhã, pela boca do próprio xerife, fiquei sabendo o quão alto e tentador é.
Os olhos de Rony faiscaram de ambição.
— Mas claro, um mercenário convicto como você já deve saber...
— Não me provoque, Moody! — exclamou o ruivo, impaciente.
— Tudo bem! — o velho riu com gosto — Algo perto de 50 mil dólares.
~~
Demorou algum tempo, após ela acordar, para se situar sobre o que havia acontecido com seu rosto. O olho esquerdo não abria por mais que se esforçasse, parecendo que uma bola comprimia sua pálpebra. Os lábios estavam tumeficados e muito doloridos. Então, lentamente, o cenário da noite retrasada foi ganhando espaço na sua cabeça.
Ela quase fora estuprada.
Rastejou para fora da cama, levantou-se com dificuldade, e foi de encontro ao seu espelhinho. Não o derrubou no chão, mas por dentro o choque que sua imagem lhe causou a fez levar um tombo. Estava horrorosa. A pele arroxeada, repleta de hematomas, quase desfigurada. Trouxe o espelhinho mais para baixo, na altura do busto, e observou, cheia de nojo, as marcas que os dentes do seu agressor deixaram.
Com grande esforço segurou as lágrimas e arrastou-se para cama novamente. Sua mãe entrou no quarto em seguida.
— Oh, minha querida... — sussurrou quando viu a filha acordada.
— Mãe, o que houve comigo? — choramingou Hermione.
A Sra. Granger correu de encontro à filha e abraçou-a com força.
— Está tudo bem agora. — disse-lhe afagando os cabelos.
Aos poucos Hermione foi acalmando e parando de chorar.
— Tem alguém querendo lhe ver lá embaixo.
— Rony? — perguntou, ansiosa.
— Seu noivo foi embora da cidade ontem com uma caravana de mercenário, sabia disso? Dizem que eles foram atrás da recompensa gorda que o governo oferece pela captura de Tom Riddle. — questionou a mãe, num tom rancoroso.
Sentindo-se extremamente desapontada e vazia, a morena afastou-se da mãe, sentando-se ereta na cama.
— Quem está aqui? — desconversou.
— O rapaz que trouxe você na noite retrasada. O que, até onde seu pai e eu sabemos, salvou sua vida.
A garota virou-se para a janela, fitando o movimento das ruas durante o dia.
— O que ele quer?
— Saber como está, é óbvio. Ficou extremamente preocupado. Todos nós ficamos. — e tocando no ombro da filha, forçou-a a encara-la — Harry me disse que você e Rony estavam juntos naquela noite. O que aconteceu exatamente?
— Eu mal acordei e já está me questionando? — gritou Hermione, explodindo em lágrimas, e sentindo todos os músculos do rosto se contraírem de dor.
Enfiou a cabeça contra o travesseiro com força, extinguindo a luz do dia para longe dos seus olhos.
Sua mãe afagou-lhe os cabelos e desculpou-se num murmúrio. A garota continuou enterrada no seu mundo de desilusão e raiva. Não conseguia discernir direito sobre a violência da qual sofrera, tão pouco do papel de Rony, seu noivo, naquilo tudo. A discussão deles, a partida dele... Eram coisas distantes, quase ilusórias, das quais ela teria as próximas horas, dias, meses, e no futuro, anos para refletir.
Percebeu quando o colchão se moveu avisando que sua mãe havia levantado, mas continuou socada no travesseiro. Ouviu os passos do sapato da mulher ecoarem pelo quarto, parando abruptamente ao que deveria já ser em frente à porta.
— Não quer falar com o rapaz, então...
A morena sacudiu a cabeça.
— Eu já imaginava, e já o dispensei. Entretanto ele veio com uma informação. Os rapazes que te atacaram eram o filho do xerife e um amigo dele. O amigo morreu pelas mãos dele, mas o outro continua vivo e gravemente ferido. O xerife levou o filho para o leste para trata-lo, ou melhor, tentar salvar sua vida. Existe uma chance de ele sobreviver. Nós vamos precisar pensar em alguma coisa se esse marginal melhorar e voltar. Aliás, o maldito xerife já está começando uma caçada aos agressores do filho. E, Deus, tem recompensa e tudo... — ouviu a mãe suspirar.
Hermione não se moveu. Por dentro sentia mais ódio do que medo, e se ficasse novamente face a face com o infeliz poderia muito bem atirar contra sua carcaça sem guardar uma fagulha de remorso. Os socos e a dentada continuariam doendo mesmo depois de sarados.
— Esse rapaz que salvou sua vida — voltou a mãe a dizer, em tom pomposo — disse a mim ao seu pai que vai procurar manter-se informado quanto a isso, embora acredite que ninguém possa ligar você ou ele ao ocorrido, uma vez que a rua estava deserta. Também disse que voltará quando melhorar...
Depois de um silêncio que pareceu infinito, ela ouviu os passos da mãe se distanciando. Então, ergueu a cabeça sem virar o corpo para porta, e perguntou:
— Qual o nome dele?
— Vitor Krum. — respondeu ansiosa para que a filha perguntasse isso.
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