Black Jack
18 Quem é Arnie Austin?
Draco esqueceu de sentir medo debaixo do seu disfarce quando colocou os olhos naquela beldade dourada. Já vinha assistindo os movimentos lentos de seu quadril, se apresentando no palco com apenas meia dúzia de penas pelo corpo, mas de perto ela era ainda mais exuberante.
Esperou que a concubina chegasse ao balcão para pedir-lhe informações diretamente. Com uma dose de uísque entre os dedos, abriu um sorriso sedutor, embaixo do bigode que deixara crescer para melhorar o disfarce, e perguntou-lhe:
—Boa noite! Quem por aqui pode me dar algumas informações?
A loira apoiou-se na bancada, o decote provocante a mostra, e estudou-o com o olhar divertido.
— Não precisa ter vergonha de pedir por uma das garotas, meu querido. Todas as que rodeiam o salão estão disponíveis, é só dizer qual, que o encaminho para o quarto sem nenhum contratempo.
— Não é isso... — argumentou, um pouco tímido.
“Caramba, porque aquela prostituta o estava deixando tão encabulado?” Inquietou-se.
— Oh, entendi. — ela deu risinho — Sinto muito, mas como madame Black viajou, eu estou encarregada daqui. Não posso atender ninguém porque fico supervisionando o salão na sua ausência.
Draco riu.
— Eu bem que gostaria de uma noite com você — criou coragem para confessar — Mas, como venho tentando dizer, não quero mulheres hoje. Procuro alguém que conheça bem as redondezas, e que não seja uma boca aberta.
A concubina endireitou o tronco e encarou-o.
— Ao acaso não está planejando um assalto, ou está? — desafiou-o impetuosamente.
— Hã? — o loiro olhou para os lados, preocupado que a suposição dela atraísse atenções para ele — Não! —disse de supetão — Qual seu nome?
— Meu nome? — a viu fazer uma expressão desconcertada.
— É, seu nome.
— Aqui sou conhecida como Lilá. — estudou-o, incrédula.
— Lilá, eu vou te confessar uma coisa. Não deveria, mas senti que posso ter sua confiança. — tomou um gole do uísque —Vim de Harrysonberg e estou aqui numa missão muito séria.
Viu a meretriz ficar boquiaberta. Os olhos espantados da moça o deixaram um pouco satisfeito, ela estava acreditando.
— Sim, sou do tribunal, — continuou no papel —mas não posso ficar espalhando isso pra ninguém. É uma investigação delicada.
— Entendo. — comentou, muito séria.
— A proprietária não está mesmo?
— A madame Black não fez nada...
— Eu sei, eu sei. Soube que ela é uma mulher influente que conhece bastante das pessoas e das histórias daqui, queria apenas conversar com ela. — explicou.
— Como disse, senhor, ela precisou viajar. Não disse pra onde ia nem quando retornava.
— Ok... Mas é você, senhorita? Conhece alguém com quem eu possa conversar?
— Depende do assunto.
— É... — era arriscado, mas Draco tinha de dizer aquele nome — É sobre Arnie Austin.
— Oh... — a loira levou a mão as lábios.
Um rouco de martírio se intrometeu na conversa dos dois.
— O tribunal resolveu agir? — vociferou.
Draco virou-se e encarou um homem muito velho, sentado no banco ao lado. Tinha o rosto arrasado e bolsas embaixo dos olhos, muito inchadas. Suas expressões eram amarguradas.
— Claro. — o pistoleiro foi obrigado a encarnar de vez o papel — E dependemos inteiramente da boa vontade das pessoas comuns, em nos passar informações.
— Eu conheço um pouco da história desse crápula.
— Conhece?
— Conheço. Você é surdo? — perguntou rudemente.
Draco preferiu manter a retaguarda, apenas o encarando. Lilá se intrometeu.
— Não ligue, senhor. O xerife McLaggen anda um pouco fora de si depois que seu filho morreu.
Estático com a falta de sorte de estar justamente, frente a frente com o homem da lei de Rockye Deep, o loiro alisou o bigode e trouxe a aba do chapéu mais para frente.
— Cala a boca, prostituta! — exclamou o xerife à mulher.
— Ei, não fale assim com a moça. — pediu o pistoleiro, brandamente.
— Não tem problema. — Lilá disse sem se importar — Este é meu ofício mesmo.
— Mesmo assim...
— Era só o que me faltava. — o xerife revirou os olhos e bebeu generosos goles de sua aguardente.
— Houve uma confusão por aqui há algumas semanas. O filho dele foi envolvido e assassinado. Foram os capangas de Arnie Austin. — a meretriz continuava a falar.
— É mesmo? Sinto muito.
— Ele era um bom rapaz, o Córmaco. — os olhos do velho se encheram de lágrimas —As vezes, um pouco impulso e encrenqueiro, mas nunca capaz de ferir alguém de verdade. Minha alma se partiu quando ele foi ferido por uma prostituta, na juventude. Um garoto inocente demais para essa cidade. Nunca me perdoei de não ter encontrado a responsável por deformar o rosto dele... E então, o destino vem e me apronta uma pior. Eles estouraram a cabeça dele! Não me deram o direito de vê-lo mais nem uma vez!
— E tem certeza que foi os seguidores desse bandido?
— Absoluta! As prostitutas testemunharam, todas elas viram os sujeitos fazendo isso. Atiraram no meu menino, só porque ele estava no meio da rua, entre eles e um casalzinho que foi jurado de morte pelo maldito Arnie. Não sei bem essa história. Mas desse cretino eu sei. Os rumores sobre a origem dele sempre foram muito fortes e eu conheço um pouco, sei, porque sempre fui da lei.
— Está se referindo a Arnie Austin?
Ele confirmou com um aceno e prosseguiu.
— Interrogamos um homem que sabia de cor toda sua história. O deixamos livre porque realmente não tínhamos nada contra aquele velho... Ou porque ele tinha alguns favores pendentes com algumas pessoas da lei. Mas sei onde ele mora, aquele decrépito deveria ter morrido por ser o mentor de um ser humano tão desprezível.
— De quem está falando?
Lilá fez um sinal com a mão, indicando que o xerife estava muito bêbado, e que nada do que dizia deveria ser levado em conta.
— De quem o ensinou a roubar, extorquir e matar, oras. Todo mundo começa como aprendiz.
Aquela informação era realmente boa, Draco concluiu. Animado, tentou arrancar mais informações do xerife.
— E quem é este homem?
— Hoje em dia ele é um curandeiro recluso nas montanhas. Mais velho que três reencarnações minha. Alvo Dumbledore é como é conhecido.
***
Sua intuição poucas vezes o abandonou e ela andava mais aguçada do que nunca. O desespero por querer fugir da dominação de Arnie Austin era tão visceral dentro de Draco, que ele desistiu completamente a tarefa da qual fora designado, e mergulhou de cabeça nas pesquisas relacionadas a identidade dele.
O roubo ao trem não lhe saía da cabeça. O que levava Arnie a pensar que sua reputação a prêmio, não estaria sendo ameaçada com tão ousado plano? Estava com as costas quentes, obviamente O superintendente e o banqueiro, duas figuras no patamar acima da lei... Uma mão vinha lavando a outra em benefício de algo maior, uma fortuna incalculável.
Finalmente Arnie Austin se tornou uma lenda. Com a justiça do seu lado, estava ficando a um passo de se tornar intocável. Mas como esse assassino desconhecido chegara a este ponto? Era atrás das origens, que Draco descobriria como.
Ele seguiu as coordenadas impostas pelo xerife bêbado de Rockye Deep, e chegou, tarde da noite, ao casebre erguido no fim do mundo. Era um local decrépito, madeiras gastas e podres e nenhum zelo ao redor. Entretanto havia sinal de vida, alguém andava dentro da casa.
O loiro parou seu cavalo alguns metros longe e aproximou-se a pé, guiado pela luz dentro da casa e a fumaça que era expelida pela chaminé. Subiu os primeiros degraus da varanda e estava prestes a espiar pela janela da casa, quando ouviu uma arma de grande porte, ser engatilhada.
Com o pescoço rijo, ameaçou uma olhadela para a esquerda, e entreviu, sentado numa cadeira de palha, escondido num ponto quase sem iluminação, um velho altivo, barba longa e cabelos cumpridos. Entre as mãos translúcidas e gastas portava uma espingarda, os canos apontados para o loiro. Olhava-o com serenidade.
— Desculpe senhor. — Draco adiantou, erguendo os braços.
— O que quer, filho? — o velho quis saber. Sua voz era extremamente calma, quase tranquilizadora.
— Primeiro que o senhor abaixe essa arma...
— O que quer? — impôs um pouco mais de firmeza no timbre da voz.
Não abaixou a arma.
— O senhor é Alvo Dumbeldore? — ele precisava ser direto se não quisesse levar uma bala imediatamente
— Não.
— Eu sei do passado do senhor, queria falar sobre isso.
— Não tenho passado, filho. — prosseguiu docilmente — Mas você vai se dar mal se quiser ficar querendo saber da vida dos outros assim, de modo tão invasivo.
— Ele me contratou para encontrar algumas pessoas que vem o incomodando... O seu antigo aprendiz, eu digo.
— Do que estaria falando?
— O senhor sabe... Do seu pupilo, Austin.
A expressão de Alvo era inabalável.
— Não me relaciono com este homem há muitos anos. Minha memória velha também não lembra muito sobre quem ele foi.
— Eu sou persistente. Deve, senhor, ter algo em que possa me ajudar. Eu fui capanga dele, mas agora quero sair dessa vida, porém não irei muito longe se seu aprendiz não estiver acabado.
—Arnie é vingativo, se envolveu-se com ele já era para estar morto. — comentou com propriedade.
—É? Eu ando um pouco desconfiado dele.
— Um pouco? — debochou.
— Me culpo todo dia por ter cruzado seu caminho, mas as coisas estão piores, ele em breve se tornará indestrutível Arnie está junto com alguns homens do governo, engajado num plano de roubo.
Dumbledore se inclinou para frente, interessado.
— Admiro sua causa, embora ela possa ser somente uma fachada. Filho, vou dizer tudo o que sei desse homem, do tempo que convivi com ele. Fui com a sua cara. Arnie é brutal, assassino, odeia qualquer criatura com vinculo com a lei, e por nenhum segundo, tem voz de liderança sobre ninguém. Pode ser cativante quando quer, mas na maioria do tempo é um carniceiro. Fiquei surpreso com a legião que trouxe para si nos últimos anos, tenho de admitir.
— Alguns pontos não batem com o Austin que eu conheço...
— O tempo muda um homem.
— Também acho. — concordou Draco — Mesmo assim, o senhor poderia me tirar uma dúvida?
Alvo anuiu, ainda com a espingarda em sua mira.
— Posso pegar uma coisa no meu bolso?
— Claro. Se eu ver um reluzir semelhante a uma arma, está morto.
Apreensivo, Draco tirou um papel dobrado.
— A quanto tempo o senhor não vai para uma das cidades?
— Anos.
— Posso me aproximar? — pediu, mostrando o papel a ele.
Alvo estendeu a mão e pegou o objeto.
— Este é o Arnie Austin que todos nós conhecemos. Este é seu retrato falado oficial que roda pelas ruas das cidades.
O velho lançou um olhar rápido ao retrato do bandido e depois encarou Draco. Seus olhos impossíveis de deduzir algo.
— E então?
Alvo começou a gritar o nome de alguém
— Hagrid! Hagrid!
Um homem gigante abriu a porta com força e surgiu na varanda entre o loiro e o velho.
— Mas o que é isso? Quem é esse...? — inquiriu-os.
Draco esperou que Alvo dissesse ao gigante.
— Hagrid, me traga um papel e uma pena, por favor. Tenho algo que preciso desenhar para esse garoto esperto.
Quando Hagrid voltou, Alvo lhe entregou a arma, não confiava nem por um segundo em Draco, e pôs-se a desenhar.
— Este é o infelizmente que ensinei tudo que sei... — anunciou quando terminou.
O pistoleiro pegou o rascunho da mão do velho e trouxe a luz do luar. Então teve um choque; Viu um homem de expressões grosseiras, atarracado, nariz largo, olhos negros. Era praticamente um mexicano.
– Deus! Tem algo muito errado! — exclamou, pasmo.
Fale com o autor