Black Jack
19 Dolorosa Verdade
Notas iniciais
— Parece seguro. — confirmou Rony, aproximando-se à cavalo.
Hermione já estava montada no seu. De pé, na beira da colina, esperou o mercenário descer até uma hospedaria enfim avistada, e fazer rápida análise para descobrir se não havia ninguém que representasse perigo a eles por lá. Enquanto vinha retornando, ela ficou observando-o. Emoldurado no pôr do sol avermelhado, de coluna ereta, braços ágeis, rigidez e firmeza sob cada galope.
Agora já não repeliria mais aquela vozinha interior, intrometida, lhe dizendo sobre sentimentos apenas adormecidos. Só podia se render e aceitar, apenas aceitar, que continuava apaixonada pelo Weasley... Maldito Weasley!
— Certo. — ela anuiu, seguindo-o para o próximo abrigo.
As acomodações tinham uma decoração diferente ali. Eram rústicas e bem precárias como sempre, mas para quem se engalfinhara entre tapas e paixão num celeiro abandonado, um dos cômodos do Rancho Milkers podia ser classificado como grande evolução.
As paredes eram mais espessas, a cama forrada com uma colcha de retalhos de pele de ursos pardos (que fedia a carniça com uma cheirada mais vigorosa), e uns enfeites de muito mau gosto, chifres de cervos e outros pequenos ruminantes silvestres, dispunham-se por todo o lado. Não restava dúvida que alcançaram o leste do país.
Hermione deu um passo para dentro do quarto, se perguntando quantas vezes já repetira tal processo. Hotel do Harry, prostíbulo da Madame Black, hospedaria de Janette... Cada vez que entrava num local desconhecido, sentia mais saudade de seu velho ranchinho.
Ela olhou para Rony que vinha logo atrás, depois de despachar o dono da hospedaria, insistente em mostrar os detalhes sórdidos daquela decoração. Havia uma única cama de casal no centro do quarto.
— Não, esse quarto é só seu. — ele adiantou-se perante o olhar. — Eu vou ficar no ao lado.
A morena foi até uma poltrona e sentou-se. Suas nádegas doíam de tanto ficar sentada no lombo do cavalo nos últimos dias. Passara-se duas semanas desde a noite do conflito. Rony ainda não lhe dera nenhuma explicação sobre as palavras do informante morto. Estava misterioso e assustadoramente gentil.
— E então...? Disse que me colocaria a par do que Haytham contou assim que encontrássemos um teto... — exigiu impaciente.
O ruivo continuava parado na porta. O rosto parecia ter se desfeito um pouco daquele semblante alerta, agora que eles estavam sob um teto novamente. Sua tez, acentuada pela barba ruiva por fazer, era de um homem esgotado.
— Mais tarde eu venho aqui e conversamos. — disse, preparando-se para sair dali.
— Mais tarde?
— Hermione, — ele suspirou —não sei quanto a você, mas eu quero um banho e uma cama quente por algumas horas.
***
Nada era animador, nem mesmo aquela repugnante hospedagem que cruzou o caminho deles. Rony arrastou-se até sua cama e jogou longe o fedorento cobertor que era motivo de orgulho do proprietário falador e bisbilhoteiro. Suas perguntas irritaram o mercenário quando terminava de acertar o valor do pernoite. “Bela esposa!” “ É sua esposa, não?” “E vocês estão vindo de onde? Soube que o oeste anda de pernas pro ar!”. O último resquício de vigência evaporou-se dos músculos e da mente, fatigados, quando ele deu um basta nos questionamento com uma postura ameaçadora. Mas não significava que estavam a salvo no anonimato. Duas noites era o prazo máximo que Rony se dera para montar acampamento dali.
Vendo o dia despedir-se pela janela, dobrou as pernas lentamente, sentando-se na beira do colchão e retirando as botinas. Vinha escondendo de sua companheira de viagem, mas não andava conseguindo fazer movimentos amplos e precisos com o braço ferido. Não queria preocupá-la, fazer sentir-se que estava sendo protegida por um inútil. Não queria pensar no fato também. A tremedeira no pulso passaria quando o ferimento estivesse completamente curado. Tinha que passar.
Os anseios se amontoavam em sua cabeça (salvo de quando ainda era um adolescente e ficou meses inconformado com o abandono de sua namorada), nunca sentira-se tão apreensivo e por tanto tempo. Contar sobre suas suspeitas para Hermione ia, com certeza, destruir a surpreendente ponte de afeto que havia sido construída entre eles nos dias antecessores. Depois da inusitada noite de amor, a expectativa mais ridícula para um homem frio e calculista (como gostava de se definir) vinha o consumindo: a esperança.
Odiou-se por não conseguir parar de observá-la ocasionalmente, feito um jovem deslumbrado, dali em diante. Não evitou algumas gentilezas, e mesmo sem jamais tocarem no assunto, às vezes, deliberadamente, deixava os olhos deles se encontrarem para perguntar-lhe através deles sua opinião sobre o impensado desfecho no celeiro. Vinha se repudiando quando deixava os momentos de guarda de lado para reviver o beijo desesperado, a sensação comprimida dentro do íntimo dela, em contato genuíno com sua intimidade. E não queria acabar com o elo que via se firmando solidamente, invisível, mas poderoso igual uma espada de cristal polido.
Tinha que ter a maldita conversa com ela, não havia mais como adiar. E talvez um banho junto a um bom descanso fizesse com que sua mente se centrasse outra vez, seu braço melhorasse e aquela tola esperança -que ele não conseguia nem conceber do que — desse lugar ao mercenário que construíra para viver.
***
Hermione escutou uma batida leve na porta. O ritmo, um código entre ela e o mercenário, indicava que podia abri-la prontamente, sem desconfiança. Já era início de madrugada e os grilos orquestravam sua serenata no lado de fora.
Rony estava sem chapéu, com um cheiro simples de sabão exalando da pele, a barba feita e havia eliminado parte da terrível olheira adquirida nas noites de sentinela ao relento. Entretanto a tez desmotivadora continuava a lhe acompanhar. Ela também tinha cochilado, tomado um banho, e sentia-se bem mais disposta a qualquer conversa, tomasse o rumo que tomasse.
O ruivo entrou quando ela lhe cedeu espaço dentro do aposento e fechou a porta.
— Também não gostou dos cobertores? — ele comentou vendo a cama apenas no colchão.
— Nem me fale. —argumentou indo sentar ao lado dele, então repensou a escolha e recalculou o destino afundando-se na poltrona perto da janela.
Ele a olhava daquele modo inquietante que a deixava desnorteada. O melhor era entrar no assunto de uma vez.
— Diga logo... — pediu.
— Ok. — viu-o parecer desconfortável, estalando os dedos e tomando coragem — No que o Vitor trabalhava, exatamente?
— Ele, bem... Vitor aprendeu a cuidar de pequenas criações e a caçar como o avô e o pai. Normalmente partia para o Leste quando executava esse tipo de serviço. — apontou para o cobertor socado nas prateleiras — Captura, esfolamento, carne. Mas ultimamente nós vínhamos pensando em juntar algum dinheiro para ele poder desistir das viagens. Nossos cavalos estavam ganhando algumas aptidões interessantes e pretendíamos comprar um reprodutor veloz para... Porque quer saber isso?
— Conhecia seu marido mesmo? Lhe dava alguma prova de que esse ofício...
— Espere aí! Seja claro, Ronald! Nós estamos nisso juntos e eu já fui enrolada por tempo demais.
Rony remoeu um segundo de hesitação antes de prosseguir de uma vez.
— Parece que ele estava envolvido com Arnie Austin em algo grande e acabou o traindo num momento inoportuno.
Hermione levantou-se feito um trovão, o ódio borbulhando por dentro.
— Com isso você insinua que meu marido seja um bandido? Um crápula desses que andam com Austin? — gritou rodeando a janela com pisadas duras.
— São os indícios, Hermione. Eu não insinuo nada. — rebateu com o mesmo timbre farto e indiferente. Não queria alavancar tal discussão.
— Pois eu não sei o que andaram te passando pelo meio do caminho, mas não! Vitor jamais se envolveria com aquele assassino... ou... ou qualquer outro negócio ilícito.
— Tudo bem então. — Rony não contrariou, esgotado demais para discorrer sobre o caráter de Vitor Krum, sujeito do qual ele jamais conhecera. — Quem sabe ele só tenha estado no lugar errado na hora errada, ouvindo algo muito importante e confidencial.
— Não tenho dúvida! — respondeu ela com sagacidade e aspereza. — Continue...
— Nove cavaleiros vêm cruzando o leste pelas sombras das cordilheiras de Ampares. Saquearam alguns estabelecimentos pelo caminho, mas quem os viu não tem dúvida: é Arnie e seu grupo.
— O que eles podem estar querendo lá?
— Aqui que as coisas ficam estranhas. Não há nada de interesse a ninguém quando o oeste torna-se leste. O frio não deixa nada prosperar. Uma vez que as cidades são muito pobres e quase inexistentes, animais selvagens e nativos dominam as florestas. O que poderia haver para um bando de assassinos e ladrões, ostentarem?
— Eu achei que eles estavam vindo de encontro a mim.
— Não podemos ficar tão animados. Arnie tem uma pequena legião de vagabundos que o acompanha por aí. Estar sendo visto apenas com mais oito pistoleiros é sinal de que o trabalho foi dividido. — então ele levantou-se e caminhou até ela, aproximando-se o máximo que pode sem tocá-la. — Ninguém que deu cabo de um abutre dele teve tanto foco de vingança, Hermione.
—O que quer dizer? — perguntou com um aperto na garganta.
— Querem te silenciar.
— Me silenciar?
— Sim. Acham que você sabe de algo, que Vitor te contou do motivo da vinda deles para o leste.
Hermione encostou-se na parede, aturdida.
— Meu marido chegou quase morto aos meus pés. Como poderia ter dito qualquer coisa...? — engasgou emocionada e cheia de ira. — Vamos seguir na mesma direção que ele foi visto, pela manhã. Vou pegar esse cretino, antes que me pegue!
— Eu posso te esconder e resolver...
— Por que quer ficar me protegendo? Eu já disse que essa guerra é minha. Se quiser apontar o caminho e me deixar sozinha daqui em diante, eu não ligo.
— Partimos amanhã então. — foi resposta dele, e saiu do quarto aumentando a distância entre seus corpos bruscamente.
Hermione ficou a fitar a porta. Havia sido ríspida e arrogante com o ruivo. Por mais que ela lhe saldasse toda a peleja dos dias antecessores, sabia que Rony não precisava correr todo aquele risco por causa de dinheiro. Um sentimento proibido passou-lhe pela cabeça e quando viu já estava saindo do quarto e entrando no dele.
***
Sorrateiramente ela entrou no cômodo. Não bateu na porta avisando de sua presença e nem ele se assustou ao vê-la surgir na espreita. Parecia, inclusive, que haviam usado de habilidades telepáticas para chamar um ao outro. Rony a queria ali e Hermione não conseguia não estar.
O intitulado mercenário repousava na penumbra e não parecia nada ameaçador sem o chapéu, o coldre, o colete de couro e a carranca de aço. Sentado sobre o colchão velho, somente um candelabro iluminava seu rosto, curiosamente esperançoso como de um menino apaixonado. Ambos se fitaram sem palavras ou gestos, pois nenhuma ação era necessária para confirmar o que queriam saborear: o passado doce, mesmo que salpicado no presente amargo.
A antiga namorada perfurou-o com astutos olhos mel como se pedisse desculpas pelas ações de outra vida. O que realmente soou estranho, afinal ele que vinha se sentindo o real culpado. Juntando fatos, agarrando fragmentos açoitados pelo vento e colando-os numa trama de horror explícito. Se não tivesse partido, se permanecesse ao seu lado, ninguém chamado Vitor Krum tomaria posse de seu destino e o levaria embora. Sem suas infantis escolhas eles nem estariam ali, afinal. E poderia haver muito mais do que era de seu conhecimento. Ele estava apavorado com as possibilidades.
Abriu a boca formulando palavras de perdão, mas foi arrematado pelo toque do dedo dela em seus lábios. Soube então que outro presente ganharia, mais um momento, mesmo que não merecesse nem um beijo dela. Fechou os olhos, afastou as mãos e deixou Hermione aconchegar o corpo sobre seu colo, entrelaçando as pernas ao redor de sua cintura. Abraçou-a. Suspirou mergulhado nos fios daqueles cabelos castanhos e, cadentemente, deitou-a na cama.
Hermione agarrou seu pescoço e procurou sua boca com ternura e paixão. Ele retribuiu, retribuiu e retribuiu, experimentando o coração saltar dez batimentos por segundo. Navegou a palma da mão pela cintura dela, galgou o toque por dentro de sua roupa com cautela, para ter certeza de que a morena permitiria a invasão, e teve consentimento para explorar onde quisesse, na intensidade que quisesse. Escolheu movimentos contidos, suaves e lentos. Na verdade, queria que a segunda noite de amor dos dois se prolongasse pela eternidade.
***
A madrugada adentrou fria e sepulcral. Após quase uma hora do fim do amor ainda continuavam entrelaçados num abraço bem apertado. Então a consciência de Hermione teimou em alerta-la e achou mais adequado sair dali. Tentou levantar, vestir-se, mas foi gentilmente agarrada pelo braço do ruivo convidando-a a permanecer.
—Eu fiquei pensando em muitas coisas durante todos esses dias. — falou baixinho assim que a morena voltou a aconchegar a cabeça em seu peito nu. — Voltei no tempo para tentar entender a maioria delas.
— Talvez certas coisas tenham de ficar onde estão. — forçou-se a argumentar com medo do que viria.
Em breve voltaria ao papel de Sra. Krum e já deduzia que todo aquele envolvimento com Rony machucaria suas lembranças novamente. Não queria a reciprocidade de sofrimentos e vãs esperanças do lado dele também.
— Isso não... — sonorizou, com efeito. — Córmaco. — tentou começar a frase, mas aquela ideia causava no mercenário tanta aversão que era difícil encaixar todas as palavras num contexto só. — Era mesmo você a suposta prostituta a quem ele tentou estuprar naquela noite em que brigamos?
Hermione considerou a possibilidade de mentir, afinal o maldito estava morto e o tempo não retornaria até os minutos antes da tragédia. Entrementes, pensou que ele merecia saber o que a levou a aproximar-se de Krum, da mesma forma que ela tinha o direito de dividir tão repugnante verdade, consequência de um Ronald Weasley imaturo, porém vívido numa parte dele.
— Faz quinze anos já. — foi sua resposta.
A atmosfera mudou. A pele sardenta ficou quente como brasa e ele levantou afoito, desnorteado. Ela divisou sua silhueta muito trêmula atravessar o quarto, aproximar-se da parede e, a seguir, esmurrá-la repetidas vezes até o sangue respingar sobre a pintura fosca. Hermione sentou-se na cama, sem ação, sem direção, amargurada por sentir a amargura dele. Acompanhou a evolução do sofrimento de seu amado, agora soluçando silenciosamente como uma colunata de mármore ruindo ameaçadora sob franco terremoto. Teve vontade de ir abraçá-lo, aconchegá-lo de alguma forma, mas sabia que àquele momento era importante e não poderia ser poupado.
— Eu quero saber como aconteceu! — disse, após dez minutos de carregadas lágrimas de remorso.
Permanecia com as mãos espalmadas na madeira e o semblante oculto nas sombras. A voz tentava ser sólida.
— Você não tem o direito de me fazer relembrar isto! — Hermione se impôs, erguendo o tom e esticando o corpo, impetuosa.
O momento da verdade havia chegado e não faria o papel de donzela frágil, não cultivava nem um resquício de pena de si mais.
— Eu tenho o direito! — berrou, virando-se ensandecido, rosto molhado, uma expressão de choque.
— Não! — insistiu encarando-o profundamente.
Lágrimas recomeçaram a escapar pela face dele, trazendo um brilho fatídico ao olhar impotente. Espremeu os lábios, levou uma mão a testa, respirou fundo, e engoliu em seco um pouco da mais nova dor que vinha lhe testar. Caminhou até onde suas roupas estavam e vestiu a calça silenciosamente.
Hermione acompanhou seus movimentos, depois o imitou colocando o vestido surrado e as velhas botas de couro. Decidiu deixar que o mercenário experimentasse sozinho o impacto da verdade, aproximando-se da saída. A cada novo minuto, a vontade de acalma-lo ia abandonando-a e o ensejo por vê-lo perecer diante de suas falhas aumentando.
De repente, foi arrematada para longe da porta e abraçada firme e desesperadamente por braços trêmulos. Ficou sem ação, no início pelo menos, depois aceitou o gesto, retribuiu, escutando mais dos soluços brutos.
— Desculpe... — a voz dele era quase irreconhecível: falha e muito dolorosa.
A palavra lancetou o peito dela como uma estaca quente. Foram incontáveis dias e noites aguardando, divagando naquela fração de instante.
— Me perdoe... Me perdoe... — Rony continuou a suplicar, abraçando-a mais, como se a intensidade do aperto definisse o revés de suas ações.
Quinze anos de injustiça somado ao terror da noite que Córmaco atacou-a não se equiparia ao raso sofrimento dele se ela dissesse que não o perdoaria. Passou-lhe pela cabeça vingar-se ali, na próxima frase, mas Hermione só conseguia ser mais e mais da velha Granger quando próxima daquele Weasley.
— Eu já te perdoei. — confessou.
O ruivo afastou o tronco, entretanto persistiu no toque, segurando-a gentilmente pelos ombros. A máscara caiu por completo. Sem cinismo, arrogância, orgulho, violência, descaso ou qualquer dos adjetivos que haviam sido sua marca para entrincheirar-se da ex-namorada durante toda a jornada. Finalmente chegara ao rapaz que amara. A felicidade dominou-a, lágrimas transbordaram animadas, e a morena as conteve trazendo apenas refulgência de emoção ao olhar.
— Te perdoei no momento que o reencontrei. — anunciou sorridente, indo secar-lhe o pranto infinito das bochechas sardentas.
— Fui estúpido, perverso. Te odiei ali e durante toda... a minha vida.
— Agora já passou.
— Não. — Rony balbucio no seu inconformismo. — O que fiz com você? Conosco?! — levou às mãos a cabeça e caminhou até a janela, fatalista. — Foram quinze anos de merda! Uma maldita e interminável vida miserável me perguntando qual passo dei errado, onde deixei de ser eu para você preferir outro... Deus! Egoísta! Te punindo nos meus sonhos e pelas minhas desgraças, quando na verdade fui responsável por algo hediondo, por tudo.
— Aquele acontecimento não afronta mais meus pesadelos, Rony... — tentou diminuir o peso da culpa dele, embora ainda, às vezes, acordasse assustada relembrando o ataque.
— Sou um grande filho da puta, desgraçado! — puniu-se cerrando os punhos. — Aquele corte na cara do McLaggen foi obra sua mesmo?
— Eu não...
— Por favor! — o mercenário implorou. Precisava saber os detalhes, recriar a cena na mente para poder odiar-se mais de sua negligência adolescente.
Diante de sua expressão minguada, Hermione rendeu-se a falar. Apoiou na cama, afinal as pernas pareciam querer bambear no afluxo de comoções. Rony sentou-se ao seu lado.
— Nós brigamos e fui caminhando sozinha para casa. Córmaco e outro homem vinham a cavalo e me abordaram na rua deserta. Ele saiu da montaria, começou a mexer comigo, quis um beijo, tentei fugir, fui agarrada... — o coração do mercenário pulsava de cólera a cada ação relatada. — Era forte demais para mim. Me colocou de frente e... puxou minha... Me debati, gritei, fui mordida...
— Mordida? — o ruivo repetiu, horrorizado.
— Sim. — ela anuiu e afastou o decote indicando o local da agressão.
O pesadelo era ainda mais horroroso do que ele imaginara. Arrependeu-se de ter matado Córmaco McLaggen. Almejava a chance de fazê-lo sofrer impiedosamente no gargarejo da dor ao invés de finaliza-lo com um misericordioso tiro na cabeça. Mas sabia que dali em diante, em seus sonhos, o chacinaria das maneiras mais atrozes que seu espírito encolerizado desejasse.
— Pode continuar? — perguntou à morena. Entendia o quão terrível estava sendo tal vivência.
— Sim... Eu fiquei desesperada, estava sozinha, ia ser estuprada ou algo pior. Tateei um pedaço de graveto no chão e com ele fiz aquela marca em sua face. Saiu muito sangue, muito mesmo... — relembrou — Sofri com uma reação imediata. Ele me socou duas vezes.
— Socou?! — a vontade de chorar estrangulou sua garganta e desceu novamente.
— Ia me matar, certamente que ia. Estava quase desmaiando quando fui salva...
— ...Por Vitor Krum? — Rony completou a frase.
— Isso. — balançou a cabeça e emendou — Sem meu marido jamais estaríamos aqui tendo essa conversa. Vitor matou o acompanhante de McLaggen e deu uma surra tão grande no próprio que ele teve de sair da cidade para se tratar.
Os sons dos grilos no terreiro voltaram a se sobressair no quarto outra vez. Somente com o final do décimo minuto de quietude, a conversa retomou.
—Ele te ama e te merece de verdade. Eu perdi qualquer direito sobre você, Hermione, quando negligenciei sua segurança, entreguei-a aos lobos por conta de caprichos infantis. É. Se dependesse de mim... Como você mesma disse, estava morta. Que tipo de pessoa diz que ama e faz algo assim? — fitou-a desolado.
— Éramos quase crianças, Ron.
— Não! — ele negou muito sério — Ninguém é mais criança com quinze anos, não no Oeste ou em qualquer lugar desse país. Aqui nós temos apenas uma oportunidade, apenas um tiro e uma decisão. Não me perdoe, eu não mereço.
— Desculpe, mas não sou igual você. — rebateu, mas arrependeu-se no momento seguinte da dura afirmação.
— Tem razão. — Rony concordou enxugando o rosto. Então abraçou-a novamente com carinho sublime. Hermione tentou alcançar seus lábios, mas ele se esquivou, beijando o alto de sua cabeça de forma fraterna.
— Vamos acabar com isso de uma vez. — comentou, ainda de voz embargada — Vou levar você até Vitor, nem que seja minha última boa ação no mundo. Ele merece rever esse rosto lindo, beijar esses lábios divinos e passar o resto de seus dias na companhia da mulher mais incrível desse continente. Depois sumo para sempre e finalmente faço uma boa ação no mundo.
Hermione começou a chorar baixinho. Queria Rony de volta, mesmo sabendo que era impossível.
***
Cavalos relincharam do lado de fora. O mercenário pôs-se alerta indo para a janela verificar se eram viajantes indesejados chegando e tudo que viu foram as próprias montarias soltas do cabresto.
— Porcaria... Como conseguiram?!— bufou.
— O que houve?
— Os cavalos se soltaram! — pegou a camisa para cobrir o tórax do frio da noite — Vou lá amarrá-los melhor, antes que fiquemos sem condução.
Quando ele se preparou para sair, tudo aconteceu depressa. Do corredor, a espreita no umbral, um braço potente armou o soco que veio lhe acertar no estômago. Seu corpo curvou-se no impacto, mas não caiu. Então surgiram dois homens da escuridão, agarraram-no pelos braços e o empurraram para dentro antes que pudesse agir. Um terceiro sujeito lançou-se das sombras e aplicou-lhe mais dois golpes no abdômen. Era habilidoso no combate, conseguindo arrancar uma sonorização dolorosa do mercenário.
— Como vai, Weasley? — disse seu atacante de rosto bronco e asqueroso.
— Por acaso te conheço? — inquiriu o ruivo, tentando se livrar dos outros dois que o seguravam.
— Caçador de recompensa, todos sabem quem você é. — respondeu com escarros. — Chega de interferir nos negócios de Arnie Austin. Só queremos ela!
Hermione correu para pegar uma das pistolas do mercenário. Mais rápido foi seu algoz, que pulou sobre o colchão e agarrou-a pelos cabelos, minando seus planos. Ela girou o corpo para direita, deitou contra o chão e impulsionou as pernas tentando chutá-lo nas partes íntimas.
Do outro lado do quarto, Rony entrava em ebulição. Urrou de raiva, inclinou os braços para frente e debateu-se feito uma fera errante até soltar-se dos agressores. Um dos criminosos caiu para o lado, sendo fácil livrar-se do outro. Ergueu com vigor e disparou uma sequência alucinante de socos contra a cabeça do segundo. A seguir pulou sobre aquele que dominava a morena, agarrando-o pelos ombros.
— CORRE, HERMIONE! — gritou seu protetor.
Hermione raspou o salto da bota no assoalho, afoitamente, buscando equilíbrio e distância da briga. Atordoada, mirou a janela livre e a porta bloqueada pelos outros capangas que ainda se recompunham do assalto do ruivo. Pensou numa terceira opção, jamais o deixaria sozinho com três elementos armados, procurando a bendita pistola em meio à escuridão e toda confusão.
Weasley dominou o comparsa que o havia golpeado no início e recheou-o com socos rápidos e curtos. A cada investida soltava um libertador ruído de ódio, e no auge de sua ira não notou que estava novamente sendo cercado.
Levou a coronhada de Winchester na nuca, obrigando-o a cair para o lado. Logo, bloquearam qualquer investida, prendendo-o pelos braços e jogando-o na cama. A chegada do quarto pistoleiro foi necessária para que finalizasse a imobilização num “mata-leão”. Finalmente, Ronald Weasley não conseguiu se mover.
Aquele que havia sofrido mais escoriações levantou-se do chão com dificuldade e encarou sua missão: A Sra. Krum. Ela lhe apontava o cano de uma pistola velha, mas que, com certeza, era muito eficiente por pertencer a um caçador de recompensas.
— Larga isso, senhorita. — cuspiu um pouco de sangue no chão.
— Solte ele e nos deixe ir. — Hermione tentou barganhar enquanto Rony lutava em vão para se soltar dos três homens.
— Desde quando sabe mexer com isto?! — o algoz especulou e aproximou-se dois passos.
Hermione tropicou na poltrona e recuou. A arma continuava no alvo, embora braços e mãos tremessem violentamente.
— Eu já matei um de vocês antes... e posso matar de novo! — ameaçou-o.
— Chega dessa porcaria! — ignorou-a e avançou.
Ela fechou os olhos e disparou. Uma arma menor era mais difícil e necessitava de concentração. Esqueceu-se de prender a respiração, de olhar para a presa e obrigar os músculos a enrijecerem. O tiro passou longe, servindo apenas para irritar o capanga de Arnie que a pegou com brutalidade, rodou seu corpo com veemência e, sem demora, imobilizou-a no chão. Com a corda presa à cintura, apertou os pulsos dela um contra o outro e amarrou-os unidos.
— Gosta de usar as pernas, não?! — rosnou.
Da cama, Rony debateu-se.
— Não encoste nela, filho da puta! Eu te castro! Te castro com menos dignidade que um porco!!!
— Uhhh... — o bandido esnobou. Os outros três riram feito hienas. — É rapazes, a relação aqui é mais do que profissional. Fique tranquilo Weasley, essa mercadoria, embora apetitosa, ganhou um pedido especial para não ser violada de nenhuma forma. Uma pena... Mas só vou precisar das pernas dela porque preciso atar bem forte e me assegurar que não levarei um chute nas bolas!
— Desgraçado! Me solta!! — Hermione gritou, mas logo não conseguiu articular nada ao ter um lenço tapando-lhe a boca.
— Agora fique quietinha aí. Tenho que cuidar do rapaz aqui.
— As ordens são não matar. — lembrou um capanga ao outro.
— Eu sei. — o que amarrara a morena replicou. Parecia muito insatisfeito com a ordem que recebera, ainda mais porque fora surrado pelo ruivo. — Mas temos que imobilizar ele de alguma forma.
Pelo canto de olho Hermione acompanhou, tão assustada quanto foi ver Vitor ensanguentado, Rony ser esmurrado covardemente em cima da cama. Quando acharam que havia sido o suficiente, abandonaram o mercenário e arrastaram-na para fora no quarto. A última visão que teve dele foi um rosto muito machucado e um corpo, ansiava ela, apenas desfalecido.
O que viria a seguir? Nada mais de bom, pensou. Dali em diante, Arnie Austin havia vencido!
***
Lutando contra a fraqueza, Rony conseguiu acordar. O senso de proteção a Granger não o deixava relaxar, nem mesmo com diversos cortes pela face e muita dor. Forçou-se a ser rápido, mas os movimentos eram letárgicos. Caiu da cama para o chão e firmou-se numa luta árdua a procura pelas pistolas. Encontrou uma delas ao pé do armário e foi, entre escorregões e tontura, para fora da hospedaria. Tudo estava escuro e aparentemente inabitado lá dentro. Ao chegar ao terreiro, forçou a vista na noite, procurou algo para montar e persegui-los ao resgate de Hermione. Não havia cavalos em parte alguma. Avistou ao longe os animais se distanciando. Os homens de Arnie estavam neles. Tentou correr, andar, mas logo parou, fatigado. Atirou para o alto, chamando-os para um duelo, entretanto sabia que não seriam burros o suficiente para voltar. Estava perdendo Hermione, e não podia conviver com aquilo.
Caiu de joelhos no chão e gritou em desespero.
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