Black Jack
13 Posso te Ensinar Algo
Notas iniciais
Todos os seus pertences que restavam estavam em cima do colchão. O velho retrato dos pais, antes dobrado em três, agora aberto e cheio de vincos; A aliança de casamento, fina e pouco lustrosa; O cordão de Edwin Gorila. Também não havia se esquecido das botinas de couro vermelho, acomodadas no pé da cama.
Durante os dias de viagem, o retrato e o cordão ficaram aconchegados no meio do seu decote, a aliança ela não tirara do dedo – uma atitude arriscada. As botinas foram seu calçado até ali. Eram resistentes mesmo, como Vitor propagandeava.
Hermione pegou o retrato primeiro. Uma fidedigna gravura do seu pai e da sua mãe. Existia uma curiosa história que o Sr. Granger contava daquele dia em que eles foram fomentados pelas mãos de um pintor habilidoso. Autorretratos sempre foram muito caros, e seus pais jamais estiveram entre as pessoas mais abastadas do Oeste.
Certo dia, apenas um ano antes dela nascer, morrera Hugh Malverik, o xerife mais famoso e farrista que Rocky Deep já tivera. Seus filhos, Dany e Marvin Malverik, querendo angariar prestígio em cima da morte do pai, organizaram o maior funeral que a cidade já tivera, aproveitando para discursarem como a cidade na mão dos irmãos seria ainda mais segura.
Sem se convencerem de que só a popularidade do pai fosse trazer o número desejado de pessoas, eles contrataram diversos serviços dos quais seriam servidos de forma gratuita a quem comparecesse ao funeral-comício. O artista dos retratos era um desses. Obviamente que o Sr e a Sra. Granger aproveitaram a oportunidade.
A morena sorriu, aproximando o retrato para a janela a fim de visualizar melhor seus pais ainda moços. Sua mãe estava sentada numa bela cadeira de alto espaldar. Usava um vestido simples, mangas largas e barra de crochê.
Seu rosto que não era nada simples.
Apesar de desprover de maquiagem, era bela, bela somente da forma como tempo pode agraciar os jovens. Lábios modelados, olhos amendoados, pele intacta. Levava os cabelos presos num coque e os cachos castanhos sobressalentes, caindo teimosamente na nuca. Estava séria e ereta, como sempre fora. Uma mulher forte, irredutível, que gostava de controlar suas emoções.
Com a mão em seu ombro, de pé, à sua direita, postava-se seu pai. Ele não era tão parecido com Hermione fisicamente. Tinha os cabelos negros como a casca de alguma fruta exótica, olhos verdes e bondosos, e pele muito alva. Na foto mostrava-se mais descontraído que a esposa, e, claro, também um homem muito bonito.
Usava colete marrom e blusa branca, cabelos penteados para o lado, e uma leve insinuação de sorriso vagueando pelos lábios. Esse espírito sempre otimista e leve fora sua maior herança para filha. Somente com um pouco de John Granger para conseguir manter-se em pé e com alguma esperança, no decorrer daqueles terríveis dias.
Hermione beijou suavemente o retrato e apertou-a contra o peito, desejando que nada de ruim tivesse acontecido com sua velha mãe. Lágrimas quentes rolaram pelas bochechas, e ela deixou-as virem, calmamente, pelos minutos seguintes.
Precisava chorar, precisava demais.
Quando sentiu sua alma parcialmente aliviada, dobrou o retrato dos pais e partiu para o objeto seguinte: a aliança. Quanta imprudência andar com ela de exibição por aí. Na carroça com Hagrid, nas andanças por Rocky Deep, no Sallon de Madame Black...
Somente por um milagre não fora associada como a esposa de um homem procurado, antes. Seu rosto poderia ser criado num retrato falado e seu nome poderia ter virado nome-comum na boca dos criminosos, mas a informação não chegava rápido no Velho Oeste, e continuar com a aliança era cada vez mais arriscado.
Rolou o anel entre os dedos, lembrando-se da ansiedade de Vitor quando lhe trouxe ele. Eles já estavam casados! Outro marido, a maioria era assim, jamais se importaria com isso uma vez que os laços matrimoniais tivessem se firmado formalmente. Mas Vitor não. Embora não houvesse dinheiro na época para comprar, prometera, mais do que para ela, para ele mesmo, que botaria um anel no dedo da esposa. Demorou cinco anos para isso acontecer, mas não importava, a alegria deles fora tão significativa quanto naquela tarde em frente ao vigário Smith.
~~
Hermione preparava um cozido apetitoso com carne suína para o jantar. Colocou primeiro a água na panela e, enquanto ela ia levantando fervura no velho fogão a lenha, começou a cortar em pequenos cubinhos, a cebola que iria ajudar a dar gosto nas costeletas, em outra panela. O sol se punha lá fora, já estava quase na hora de Vitor chegar. Somente alguns minutos depois, ouviu um cavalo cavalgar e alguém abrir a porta principal da casa.
— Vitor? É você? — perguntou ela, sem desviar da tarefa de cortar a cebola.
— Sim! — ouviu o marido dizer da sala.
A seguir ele bateu a porta e seus passos foram crescendo para dentro da cozinha. Agarrou-a pela cintura antes que ela tivesse tempo de se virar.
— O jantar não tem cheiro de nada. — ele reclamou somente para provoca-la.
Hermione cortou as cebolas com mais força. Detestava quando ele chegava antes da hora e vinha palpitar no fogão.
— É porque ainda não está pronto! Eu mal comecei, Vitor. — argumentava, queixosa — Foi você que chegou mais cedo que o habitual.
Ele trouxe o corpo dela para perto do seu, sussurrou em seu ouvido.
— Da próxima vez prometo chegar depois das seis, mesmo que tenha de encher a cara com os rapazes no bar.
— Não me provoque. — ela ergueu a faca, e estudou-o de lado. Ele ria, e tinha um brilho novo nos olhos. — O que houve?
— Tenho um motivo muito forte para ter chegado mais cedo. — confidenciou-lhe.
A morena largou o que estava fazendo e virou-se para encarar o marido. Vitor pegou um saquinho de couro dentro do bolso e tirou algo pequeno e dourado dele. Manuseou-o com o polegar e o indicador, trazendo diante dela a joia, que se tornava muito pequena e frágil em suas grandes mãos.
— O que é isso? — questionou atônita.
— Você só tem uma chance para adivinhar. — brincou ele, pegando delicadamente sua mão esquerda.
— Co-como...? — gaguejou.
Vitor beijou as costas de sua mão com ternura e vestiu em seu dedo o pequeno aro de ouro, enquanto ia falando:
— Hermione Granger, quer ser minha esposa de novo? Quer continuar sendo a Sra. Krum pelos próximos cinco anos, ou muito mais?
A morena ergueu a mão e esticou os dedos, visualizando com emoção sua aliança de casamento. Brilhava mais que o sol num dia sem nuvens.
— Como conseguiu?
— Não importa... — enfatizou, mal cabendo em si de tanto orgulho — Apenas sabia que ficaria maravilhoso no seu dedo e venho juntando um dinheiro há algum tempo para consegui-la. Os trabalhos extras que faço para o Will foram usados nela. Nada que prejudicará nossa economia doméstica. Mas então, aceita ou não?
— Oh Vitor...!
— Eu vou encarar isso como um sim. — beijou a mão da esposa uma segunda vez.
Hermione sorriu, lágrimas de felicidade escaparam dela.
— Está chorando? — ele quis saber.
— Não, foi à cebola. — mentiu, virando para cortar a cebola novamente.
— Claro. No quer que eu te ajude por aqui, amor?
~~
Ela apertou a aliança forte, muito forte, prometendo a seu marido, onde quer que ele estivesse, vivo ou morto, que usaria-a novamente quando a oportunidade lhe viesse.
Outra vez, Hermione olhou para cama e deparou-se com o colar de Edwin Gorila. Pegou-o com cuidado. Por algum motivo, provavelmente porque ela tratava a joia com esmero, o cordão e a moldura nunca perderam a textura refulgente. Preferia não pensar no colar como seu primeiro firmamento de matrimônio. Gostava de se perder na história piegas do brutamonte de coração de ouro, ainda que houvesse uma grande chance daquilo tudo ser uma lenda.
Ficou pensando em porque não mencionara a Rony o objeto como uma forma de moeda de troca, pela informação de algum famigerado que soubesse o paradeiro de Arnie.
Porque se apegara demais a joia depois de todos aqueles anos na sua companhia, ou por que Edwin e sua amada não merecia um final sórdido, na mão de qualquer um?
Mas não era certo continuar com ele. Em algum lugar alguém merecia tal objeto mais do que ela. Precisava fazer algo com aquilo. Ficar guardando-o era a pior forma de desrespeitar o marido, que ela poderia praticar. Por hora continuaria ali, até que arrumasse um destino digno para o colar.
A morena guardou os três pertences dentro da gaveta do armário que ficava ao lado da cama e levantou-se do colchão. Foi até o outro extremo do quarto, no guarda roupas, e como Janete oferecera, escolheu algo para vestir.
Haviam sido três extenuantes dias de cavalgada até FarWay, o pequeno povoado mais próximo do acampamento de Doldrums. Ronald optara por pararem ali por ser um local de gente simples e acolhedora, também porque estavam esgotados demais para prosseguirem.
Hermione achou o local uma ótima escolha, os conhecidos do mercenário, Teddy e Janete Lough, era o casal que tomava conta da aconchegante hospedaria da cidade. Pessoas gentis, sempre risonhas, além de extremamente prestativas. Janete tratou logo de preparar um banho para ela assim que chegaram, na noite anterior. Deu-lhe um quarto relativamente espaçoso, trouxe algumas roupas limpas, que pertenceram a sua filha antes desta casar, serviu-lhe uma refeição quente e disse para ela não se preocupar porque aquilo tudo era cortesia pelas coisas que Rony já havia feito por lá.
E ela realmente estava aproveitando a hospitalidade. Dormiu como uma pedra durante a noite inteira. Depois acordou, ajeitou suas coisas, foi verificar no espelho a intensidade dos hematomas que vinha ganhando pelo caminho — o pescoço e o machucado mais antigo na testa -, e cobriu-os como pode com o cabelo e uma roupa de gola alta.
Quando terminou de arrumar-se seu estômago roncava baixinho, o que significava que era hora do café da manhã.
A morena vestiu um casaco por cima do vestido simples, FarWay possuía um clima típico de outono, calçou as botinas vermelhas e saiu do quarto.
Passou pelo estreito corredor que levava as escadas, calmamente. Estava sentindo-se um pouco acanhada mesmo com anfitriões tão simpáticos. Passou por diversas portas de outros quartos, e encontrou uma parcialmente aberta, somente uma fresta, na verdade. Um barulho chamou-lhe atenção, parou, e num impulso espiou para dentro do quarto. Rony estava estendido numa cama de solteiro, roncando alto, com a boca semiaberta. Ele estava esgotado. A posição desleixada, a tez impassível e os cabelos bagunçados diziam o quanto profundo era seu sono. Hermione correu os olhos pelo tórax desnudo dele, mas rapidamente desviou-os e continuou seu caminho pelo corredor. Fechou a porta suavemente atrás de si, para que nenhum barulho inconveniente o acordasse nas próximas horas.
Desceu as escadas e tratou de espiar o salão lá embaixo. Com grande alívio percebeu que ele encontrava-se vazio. Ou quase... Janete limpava as mesinhas perto das janelas.
— Bom dia... — a morena introduziu-se no ambiente.
Janete virou na sua direção, segurando uma bandeja repleta de louça usada. Era uma mulher rechonchuda, de bochechas coradas e cabelos muito loiros. Usava um vestido rosa e um avental com respingos de comida. Sorriu-lhe animadamente, pousou a bandeja novamente na mesa, foi até a morena e puxou-a pelo braço para sentar-se na cadeira mais próxima.
— Bom dia, querida. —cumprimentou-a sorrindo de orelha a orelha— Como foi sua noite?
Hermione trouxe algumas mechas de cabelos para trás das orelhas e apoiou as mãos no colo.
— Foi maravilhosa. Dormi como há muito tempo não dormia — confidenciou-lhe.
— Ah, que ótimo! — a mulher juntou as mãos — Eu não quis acorda-los porque vocês pareciam exaustos mesmo, quando chegaram. Pobre Sr. Weasley, que sempre que vem aqui bebe algo com meu Teddy, só quis a companhia de uma boa cama ontem. Mas, como dizem, saco vazio não para em pé! Vou trazer seu café.
Ela olhou para porta, alarmada.
— Os clientes que fazem refeição aqui de manhã ainda não chegaram? Se quiser, posso ir comer na cozinha.
Janete tocou-a compreensivamente nos ombros.
— Não se preocupe. Eles chegaram e já foram. Você está em FarWay, querida, pode relaxar.
Minutos depois, Janete preenchia a mesa dela com um seleto café da manhã. Trouxe pães, leite, queijo, geleias, torradas e uma torta de galinha. Hermione cortou a torta antes de qualquer coisa, e começou a devora-la sem cerimônia ou modos delicados. Janete puxou uma cadeira para si e observou-a em silêncio durante as três primeiras garfadas.
— Desculpe minha grosseira... — adiantou-se a morena, balançando o garfo, ainda de boca cheia. — Mas é que faz três dias que só com lebre e gambás mal cozidos.
A anfitriã riu, brandindo os braços.
— Não precisa se desculpar! Fome é fome! — exclamou. — O Sr. Weasley nos contou, meio por cima, das suas peripécias durante os últimos dias. Cinquenta milhas para uma garota pequenina como você não deve ser tarefa fácil. — riu.
A morena engoliu torta e tomou um gole de leite fresco.
— O que Ronald contou para vocês? — perguntou calmamente.
— Contou quase nada. Disse que cavalgavam há dias, e que estavam sendo procurados, por isso era imprescindível que nós, principalmente meu Teddy... Oh, homem fofoqueiro! Não ficasse espalhando pela cidade que vocês estão aqui. — Hermione fez uma expressão de preocupação, Janete leu seus pensamentos prontamente — Não precisa se preocupar. — tranquilizou-a — Jamais contaríamos nada. Temos não só uma dívida de gratidão com ele, mas também uma espécie de carinho. Seu companheiro já nos ajudou muito por aqui.
A frase ficou no ar. Que tipo de coisa um sujeito que ganha a vida com a morte pode trazer de benfeitorias para duas almas pacíficas? E o que ele se esqueceu de dizer ou disse a mais durante a noite, para Janete estar chamando-o de “seu companheiro”?
— Obrigada pela compreensão. — agradeceu a morena — E já que estamos conversando sobre isso, é importante eu salientar que ele não é meu companheiro... — a loira gorducha franziu a testa — Quero dizer... Não no sentido literal. Estamos juntos, mas apenas nos negócios.
Janete soltou uma gargalhada gostosa e serviu a si mesma de um pouco de leite.
— Oh, tudo bem! Ele já veio com uma das garotas do cabaré para cá. Eu entendo perfeitamente essas coisas. Não existe nenhum sentimento nem nada, a coisa fica somente como um trabalho. — disse, num tom inocente.
— Não! A senhora não entendeu! — Hermione ergueu as mãos, alarmada por a mulher estar deduzindo que ela fosse uma prostituta durante esse tempo todo — Eu, bem, nós não estamos juntos em nenhum sentido e eu não sou uma... A senhora sabe, mulher da vida.
Janete levou os dedos roliços nas bochechas, ficando rubra de constrangimento.
— Oh... Me desculpe, desculpe mesmo! — implorou meio desorientada. — É que ontem você chegou com um vestido daqueles usados...
Hermione interrompeu-a, queria acabar com aquele constrangimento de vez.
— Aquele era meu disfarce, Sra. Lough. Mas não, não se preocupe, a intenção era mesmo eu me parecer com uma concubina.
— Fico aliviada então. — ela relaxou — Fiquei a madrugada toda pensando em como repreender vocês dois, caso nos próximos dias começassem a fazer estripulias no quarto ou em outros lugares. Estava tentando afirmar para mim mesma que isso não aconteceria porque pediram quartos separados logo na primeira noite. Entende, não é? Aqui é uma casa de família, tenho a imagem a zelar.
— Perfeitamente. — Hermione passou geleia na torrada — Esse tipo de problema não terá conosco. Mas, como assim: ele já trouxe outras moças? — quis saber à contra gosto.
Para sua sorte Janete Lough tinha a língua grande como a do marido.
— Isso aconteceu uma vez apenas. Uma moça daquelas do cabaré da cidade dele, veio junto. Que criaturinha exibida! Causou certa comoção entre os homens daqui, tive de ser ríspida com Teddy naquele dia. Consegue ver minha posição? — a outra concordou com uma aceno, enquanto mastigava — Aqui só há pessoas de família. Foi à única vez em que eu tive de dar uma chamada um pouco mais dura no Sr. Weasley. Foi uma coisa meio chata, na verdade. E ainda bem que ele nunca mais a trouxe. Mas se vocês não estão envolvidos emocionalmente, fico mais tranquila. — Janete se embaralhou nas palavras — Não! Digo, fico mais tranquila por você não ser uma delas. Assim sendo não há porque eu ser contra você ter alguma com o...
— Eu entendi. — tranquilizou-a a morena, dando um tapinha amigável na mão da mulher. — E esqueça essa possibilidade de mim com o Sr. Weasley. Sou uma mulher muito bem casada.
Essa revelação trouxe a Sra. Lough outro frenesi de curiosidade.
— Como assim? Onde está seu marido? O que a faz ir por aí sem ele? Se é um serviço daqueles que o Sr. Weasley costuma fazer para as pessoas, não havia condições de ele fazer sozinho? — perguntou compulsivamente.
— Se puder, prefiro não entrar em detalhes de nomes e fatos para não complicar as coisas para senhora.
— Naturalmente. — concordou Janete corando novamente. — Está no seu direito, querida. Vocês dois estão.
Mas Hermione achou que ela é que estava no direito de saber um pouco mais.
— Vou lhe por a par do essencial, pois não vejo problema quanto a isso: Estou aqui em nome do meu marido, porque ele está muito machucado. Preciso fazer uma coisa por ele, mas não posso entregar na mão de Ronald e esperar que ele resolva tudo sem, no mínimo, supervisionar.
— Que tipo de machucado seu marido tem?
— Quanto a isso, prefiro não me adentrar.
— Oh, sim... Que intrometida eu sou!
Hermione riu.
— O que eu posso dizer do meu marido é que ele levaria um susto se me visse vestida como uma meretriz. Nunca tive nem coragem de andar com pouco pano perto dele. Minha mãe sempre me disse que isso era vulgar.
— Vulgar e refrescante! — gargalhou Janete, a morena acompanhou-a nas risadas.
~~
O dia era dos mais ensolarados. Um dia realmente belo e abafado.
Hermione ficou de tomar conta da barraca de frutas sozinha, porque seus pais foram buscar mantimentos a preços de atacado nas cidades fornecedoras. Ela saiu de casa cedo, carregou a carroça sozinha, cavalgou até as ruas comerciais e montou seu ponto para passar o dia.
Seu rosto estava bem melhor, praticamente sem cicatrizes, mas ainda conseguia sentir uma leve dor na base do maxilar, se esticasse demais a boca. O trauma da violência que havia restado nela, fora sempre ficar atenta e desconfiada quando um homem de olhar suspeito aproximava-se demais. Portanto, quando Vitor Krum chegou, tentando pregar-lhe uma peça pelas costas, Hermione quase atacou-o com um pedaço de pau, no meio do dia.
— Ei! Sou eu! — gritou, quando ela virou-se determinada.
A garota apanhou o suor da testa e jogou a ‘arma’ em um canto qualquer na sarjeta.
— Nunca mais me assuste assim!
— Se for em nome da minha sanidade, pode apostar. — ele respirou, aliviado.
Ela virou-lhe as costas e começou a atender um cliente que havia se aproximado para comprar um cesto de maçãs. Vitor foi até um barril com várias laranjas e começou a agrupa-las para exibição, a morena terminou de atender seu freguês.
— Eu ponho as laranjas de três em três na bandeja? — Krum quis saber.
Hermione revirou os olhos e tomou as laranjas da mão dele. Já podia prever o desastre iminente se ele continuasse a empilhar as frutas daquela forma.
— Claro que não, assim elas vão cair. É de cinco em cinco. — ensinou-lhe.
— Oh... Desculpe. — disse Vitor, olhando-a de canto de olho.
A garota terminou de ajeitar a bandeja e foi direta.
— O que foi? — perguntou.
— O que?
— Porque veio até aqui?
— Pensei em ajudar, não posso?
— Que mentira. — disse com convicção — Minha mãe deve ter te passado alguma dica de que eu estaria sozinha aqui, hoje.
Vitor pegou mais laranjas e acomodou-as como ela o havia ensinado.
— Por quê? Não posso te fazer companhia? Te considero minha amiga, natural que queira te proteger.
— Pode, se quiser. — ela deu de ombros. — Mas não vá se achando de mais, ok?! Não é meu guarda-costas eterno. Lembre-se que quase foi surrado por mim, há minutos atrás. — advertiu-o.
— Até parece... — ele resmungou.
— O que disse?
— Humm... Disse que estava justamente testando seus reflexos, na minha ausência.
— Ah! Fique quieto! — zombou a garota, empurrando-o com o quadril.
Vitor fez companhia a ela pela tarde toda.
***
Mais tarde, apenas poucos minutos antes do sol começar a ceder seu espaço para lua, eles chegaram diante do casebre dos Granger. A ausência de luzes dentro da casa dizia os pais de Hermione ainda não haviam chegado.
A garota e o rapaz pularam da carroça e, rapidamente, descarregaram a mercadoria que sobrou. Ela ficou esperando Vitor deixar os barris na varanda, para poder despedir-se dele.
— Gostei do meu dia de feirante. — brincou o rapaz quando terminou.
Hermione aplicou-lhe um soquinho no ombro.
— Aí...! — ele esfregou o local com dramaticidade.
— Nossa profissão é muito justa, saiba disso.
— Eu estou dizendo que não é? — pôs panos quentes — É sempre tão bruta, ou só comigo? Estou relatando que gostei do meu dia do feirante. Posso até ficar com você sempre que seus pais estiverem ocupados.
A garota não respondeu, apenas fitou os pés, em silêncio. Vitor aproximou-se e ameaçou toca-la pelos ombros, mas recuou.
— O que pretendo, afinal? — quis ela saber.
— Como é que é? — ele fez-se de desentendido.
— Não é possível que você não entenda o que quero dizer logo na primeira vez que digo. — disse-lhe impaciente.
Parecia que Vitor queria constantemente que ela esmiuçasse as perguntas que direcionava a ele.
— Eu entendo, mas gosto de ouvir sua voz. Só isso. — respondeu com meiguice.
— Então me responda, porque não serei especifica.
Ele aproximou-se novamente e desta vez teve coragem para toca-la.
— Eu sou um cara mais feliz quando estou perto de você. Meu pai já quis me empurrar umas garotas abastadas e muito, muito feias, ou sem graça nenhuma. Eu nunca me interessei por elas.
— Nem deveria por mim. — repeliu suas mãos.
Krum foi persistente e pegou-a pelos ombros com mais firmeza.
— Por quê?
— Não sou pra você. — seus olhos encheram de lágrimas — Sabia que estava noiva dele?
— Sim, e cadê ele agora? — golpeou-a com força.
— Eu sei que devo culpa-lo por ir e me deixar sozinha aquela noite. — soluçou — Minha mãe certamente não o perdoará mais. Mas, pensando melhor, consigo até entender as motivações dele. Viver como um caça-recompensas dá dinheiro, e ele queria nos tirar daqui.
Vê-la chorando por ele, deixava-o arrasado e com raiva, mas Vitor ainda estava com a vantagem, porque era quem vinha se mantendo do lado dela aquele tempo todo.
— Eu posso te tirar daqui! Eu tenho uma propriedade longe o bastante desse lugar. Um local só meu e que pode ser só nosso. Pergunte ao meu pai, meu avô que me deixou de herança. E... e... e tem mais: sou bom na caça! Minha família tem preferências nesse mercado devido ao meu avô que começou muito cedo nele. — tentou desesperadamente vender suas qualidades.
— Isso não é um concurso pra ver quem tem mais bens. — Hermione enxugou as lágrimas.
— Isso é um concurso pra ver quem merece ter sua companhia. Eu, que estou aqui do seu lado todos os dias, ou ele...?
Ela ficou completamente muda. Fazia mais de dois meses que Rony havia partido sem trazer nenhuma notícia.
— As coisas são sempre tão complicadas... — lamentou baixinho.
— Não, elas são simples. Complicadas são as pessoas.
— É verdade... — teve de concordar.
— Hermione? Você já o beijou?
Ela estudou-o sob a luz crepuscular. Ele tinha as fisionomias tão antagônicas das de Rony. Pele mais morena, cabelos escuros e espessos, barba rala, um olhar meigo. Ganhara os traços masculinos, queixo firme, maxilares quadrados e tórax largo, bem mais cedo do que os rapazes da sua idade. Era o sonho de qualquer garota com o mínimo de bom gosto.
— Claro.
Vitor suspirou.
— Então essa competição não está justa, porque eu ainda não te beijei.
Abandonando sua eterna sutileza na forma como a tratava e conduzia-a, Vitor a pegou inesperadamente e preencheu seus lábios com os dele. Hermione não o repeliu. Deixou que o rapaz ditasse o ritmo e conduzisse a língua pelos caminhos que tanto deseja explorar na boca dela. Foi quando, inesperadamente, ela percebeu que estava apreciando sua forma de beijar.
A partir dali não havia mais competição. Ronald começou a perder feio, a cada dia que passava e ele não voltava.
~~
Rony acordou bem mais descansado. Seu corpo continuava dolorido sim, afinal os chãos com pedregulhos das noites passadas não eram nada ortopédicos. Arrastou-se até o banheiro, lavou-se rapidamente, se trocou, e desceu para forrar o estômago.
O salão cheirava a carne assada: acordara na hora do almoço. Alguns trabalhadores almoçavam nas mesas mais distantes da escada. Ele cobriu o rosto com o chapéu que Teddy lhe dera e esgueirou-se para a cozinha, evitando ao máximo as pessoas da cidade. Nos bastidores do famoso almoço oferecido pelo casal Lough, Rony ganhou um prato de comida da própria Janete, que devorou de pé, perto da porta. Depois perguntou por Hermione, o que a mulher respondeu estar recolhida no seu quarto, porém já acordada.
Rony repetiu o movimento furtivo quando passou pelo salão novamente, subindo até os andares dos quartos, onde parou na frente da porta da morena. Bateu uma única vez com os nós dos dedos e esperou. Hermione abriu-a quase que imediatamente, e ele teve uma visão suave ao vê-la bem mais corada e sadia do que nos dias passados.
— Tudo bom? — perguntou-lhe pouco a vontade. Ainda era tão inusitado ver e conversar com Hermione todos os dias.
— Tudo e você? — ela rebateu, prontamente. Devia estar esperando o momento em que ele bateria na sua porta.
— Está gostando da hospedagem?
“Porque estava minando-a com aquele monte de amenidades idiotas?”
— Muito. Seus amigos são realmente amigos.
— É, eles são... O que é isso? — viu um corte protuberante na testa dela, tocando no local impulsivamente.
Imediatamente percebeu seu movimento insano e recuou.
— Caí na minha casa. — disse, sem se aprofundar no assunto.
— Ah... E o pescoço?
— Vai melhorar. Janete tem uma espécie de pomada cicatrizante na cozinha dela. Já estou até sentindo um alívio.
— Bom. — ele olhou para o corredor.
Então suspirou fundo e tomou coragem lhe dizer o que achava que deveriam fazer enquanto estivessem na cidade. Fora uma decisão fácil de tomar, sensata ele diria, mas falar era um pouco mais complicado. O melhor era que fosse de uma vez.
— Vamos ter que fingir que somos casados.
Hermione arregalou os olhos. Ele sentiu a necessidade de se explicar rapidamente, para que o constrangimento passasse o quanto antes.
—A cidade é muito tranquila e aposto que estamos bem na frente dos homens de Arnie, mas é melhor prevenir. Sob o disfarce de casal podemos chamar menos atenção para nós, agora que sabidamente eles procuram somente pela mulher de Vitor Krum e por um mercenário. Não estou dizendo para ficarmos no mesmo quarto ou andarmos de mãos dadas por aí. Somente vamos confirmar para quem perguntar qual o nosso grau de proximidade.
A morena ficou pensando.
— Mas e quanto a Janete, eu disse a ela que nós não somos casados.
— Janete e Teddy entrarão na jogada. Eles podem até disseminar essa ideia com mais rapidez.
— Combinado então. — ela cruzou os braços.
— E... — porque estava tornando-se cada vez mais penoso e patético iniciar uma conversa com a ela? — Queria te chamar para aquela aula de tiro ao alvo que havia prometido. Você tem de estar preparada para as imprevisibilidades, como te falei.
— Só vou pegar meu casaco.
— Estou esperando ali, na base da escada. O salão tá meio cheio... Acho melhor, só agora, sairmos meio que perto um do outro.
— Tudo bem.
***
A arma menor e mais rápida que encontrou no empório da cidade, e que achava que combinava com Hermione, era uma Smith & Wesson, ano 54, calibre 31. Possuía uma argola a mais, embaixo do gatilho, para que ela pudesse apoiar o dedo do meio e, dessa forma tremer menos quando realizasse o disparo.
Rony pediu que ela ficasse de frente para uma imensa árvore com galhos longos, e se preparasse para o início da aula. Estavam a um quilometro distante da cidade, numa depressão arborizada, e não havia habitações nem ninguém para interrompê-los no treino.
Uma revoada de pássaros podia ser avistada ao longe.
— Vamos atirar em pássaros? — ela perguntou preocupada.
— Não, não vamos atirar em nada vivo. — ele tranquilizou-a, vendo se aquela era a melhor posição para ela iniciar os disparos. — Quer dizer, eu espero que você acerte alguns galhos daquela árvore. — foi especifico.
— Tá... — Hermione molhou os lábios e deu o primeiro tiro a esmo, sem que ele esperasse.
Rony levou um susto.
— Hei! Calma aí! Eu disse que você podia atirar?
A morena abaixou o braço e encarou-o.
— Também não disse que não.
“Caramba! Quinze anos não foram suficientes para tirarem dela aquele ar de sabichona?!”
— Presta atenção. — ergueu o dedo e aproximou-se dela — Essa arma que eu te entreguei é uma Smith &Wesson. Uma ótima arma, e perfeita para você, porque é leve, tem uma boa trava de segurança, além de ser pequena. Mas por ela ser pequena e leve ganha um adicional de dificuldade: se você respirar um pouco mais forte quando atirar, a mira vai desviar completamente do alvo.
— Não respiro então? — arqueou as sobrancelhas.
— Muito engraçado. — fitou o local onde almejava que ela acertasse. Depois veio por de trás dela, e nesse momento percebeu que a morena retesou o corpo. — Pode ficar tranquila que não vou te devorar. — resmungou.
Desceu a mão pelo cotovelo dela e esticou-o na altura do ombro. O cheiro de colônia suave emanava de seus cabelos, teve ele de se esforçar para não retesar.
— Erga o braço, firme e reto. — ela o obedeceu — Agora feche o olho direito...
— Porque o direito?
— Você ainda é canhota, não é? Ou tornou-se destra durante esses anos?
Ela fez o que ele ordenou.
— Isso. Assim você consegue isolar o alvo. — afastou-se dela e estudou sua postura a certa distância. —Quanto menos campo de visão melhor. Pare de tremer o pulso!
— Estou tentando, mas estou com frio. Faz frio por aqui...
— Nós estamos perto do Leste, o que esperava? — perguntou sem esperar resposta. — Mire naquele galho isolado, no quadrante inferior da árvore.
Hermione mirou, continuava a tremer. Isso o deixou aborrecido.
— Não vai parar de tremer?
— Espera aí, deixa eu me acostumar com o frio! — ela retrucou, irritada.
— Vem cá! — ele abraçou-a, impacientemente, por trás e segurou seu braço que pendia, para lhe dar apoio. Com os lábios muito perto do ouvido dela disse — Só vou lhe servir de apoio dessa vez. Agora respire mais devagar, feche o olho direito e aperto o gatilho com rapidez.
Fale com o autor