Black Jack

2 O Rapaz da Maçã


Notas iniciais
Olá, pessoal! Curtiram o primeiro capítulo então? Então aqui está o segundo. Espero que gostem e que comentem, ando meio triste essas semanas porque minhas fics andam sem comentários :'( Beijos!

De todas as pessoas que passam em nossas miseráveis vidas, algumas parecem estar predestinadas a nos surgir como um presente ou uma maldição.

Chegam até nossas almas sorrateiramente, e fazem sentimentos remotos entrarem em erupção. Quando nos damos conta, estamos fazendo mais do que estaríamos dispostos, pelo sim e pelo não.

Vitor entrou no meu mundinho e fez com que ele mudasse completamente. Minhas perspectivas melhoram, as manhãs de uma adolescente amargurada passaram a ter vazão e o inesperado, que era alguém colocar uma aliança do dedo de uma garota pobre do centro da imunda Rocky Deep, se concretizou.

Tornei-me mulher brandamente. Tive um pedaço de terra para chamar de meu. Recebi muito amor de um marido do qual minhas antigas amigas certamente não estão tendo em suas vidas atuais.

Um marido que nem minha querida mãe teve a sorte de encontrar.

Vitor me trouxe um sentimento novo: Felicidade.

Está na hora de retribuí-lo.

Em outras circunstâncias Hermione estaria debruçada sobre o assoalho esfregando-o com sabão e uma escova de cerdas grossas até que os rastros e respingos de sangue seco desaparecessem por completo de dentro de seu imaculado lar. Entrementes, a ocasião faz a prioridade.

Havia o temor de que o pistoleiro estendido sob seu vestíbulo não estivesse sozinho. Quantos mais daquela escória poderiam estar atrás de Vitor? Ela tinha medo de imaginar. Uma coisa era certa, sua casa tornara-se um lugar inseguro. O sensato era partir o mais cedo, antes do Sol anunciar outro dia no ranchinho dos Krum.

Vitor continuava inconsciente. Apesar de Hermione ter-lhe retirado cinco cápsulas de pólvora, — do qual suspeitava serem parte do tambor da Colt do pistoleiro – e estancado os sangramentos no abdômen, a cor de sua pele não poderia ser mais preocupante. Estava branco feito cera de vela. Enquanto não estivesse sob os cuidados de um médico, para avaliar possíveis hemorragias internas, sua sobrevida era incerta.

Sentindo a impotência apoderar-se de si, Hermione sentou ao lado do marido, no sofazinho estreito, tão desconfortável quanto toda a mobília humilde que o casal possuía pelo resto do casebre, e colocou a mão grande dele sobre a trêmula dela.

Pensar que a vida dele equilibrava-se sob um muro estreito que desembocava no além produzia a mais aniquiladora revolta que já experimentara. Era algo impossível não pegar-se imaginando em como ele conseguira cavalgar, extremamente ferido, de volta para casa. Rastejando-se pelo terreiro, e usando suas últimas forças para chamá-la.

Não era justo.

Vitor era um homem de índole bondosa, bonito e bem disposto. Tratava-a como muitos esposos não faziam. Nunca erguera a mão para ela, nunca a fez passar fome e conseguia deixá-la nas alturas com um simples beijo. A cada partida dele, parecia que uma parte dela ia junto. A casa tornava-se um amontoado de madeira velha e de silêncio fúnebre.

— Jamais conseguirei viver sem você. — disse baixinho, segredando-o. Uma gota ácida, essencialmente temerosa, brotou através de seu olho esquerdo e rolou pela face.

As lembranças doces de uma tarde pálida e nublada, quando um Vitor adolescente chegou pela primeira vez à cidade de Rocky Deep. Um sorriso torto e um olhar penetrante continuavam vívidos nos mínimos detalhes dentro dela.

~~

— Quanto custa uma? — perguntou ele, parando sorrateiramente em frente à barraca de frutas e segurando uma maçã entre as mãos.

— Não vendemos por unidade. — disse Hermione semicerrando os olhos, e a seguir, puxando a maçã da mão dele. Ela e sua família estavam cansados de ladrõezinhos, furtando as mercadorias de honestos feirantes no centro da cidade.

— Como vendem então?

Olhando-o cheia de desconfiança, disse: — Um dólar o saco.

— Quantas dessas vêm no saco? — ele quis saber.

Hermione reparou em seu queixo quadrado e seus dentes perfeitos no risinho debochado. Aquele garoto estava mais para o filho de um vendedor de armas abastado do que para um larápio de sarjeta.

—Oito. —Respondeu de má vontade, porque, com dinheiro ou não, ele estava a irritando.

Vitor passou uma das mãos pela cabeleira negra. Ela tentou não pensar o quanto o charme do rapaz estava começando a abalá-la, limpando o suor da testa com as costas da mão, num gesto de pouco caso.

Aqui está.

E ele tirou uma nota de um dólar do bolso. Meio amassada, mas verdadeira. Ela puxou-a da mão dele, fingiu não ver seu risinho cínico quando isso o fez. Em seguida pegou um saco de papel e começou a guardar oito maçãs, das mais mirradas do cesto.

—Tenha uma boa tarde. — resmungou, empurrando o saco para ele.

E então ele fez algo nunca visto em uma venda: Abriu a sacola, retirou sete maçãs e depositou-as de volta no cesto.

— Obrigado. – disse pegando uma única maçã e mordendo-a com gosto. O saco jogou no chão, que rolou para longe da barraca da movimentada rua àquela hora da tarde. —Eu só queria uma.

Hermione sentiu-se furiosa. Aquele garoto a havia feito de boba, e ainda ria dela naquele instante, com um risinho cheio de soberba. Parecia possuir uma infinidade de risos diferentes para deixá-la num estado de inferioridade. Ela iria jogar o dólar de volta na cara dele se não estivessem tão necessitados de cada centavo que vendiam na feira. Vivendo esse dilema interno, só conseguia sentir-se mais mendiga.

— Na próxima vez que vier comprar aqui, terá direito a sete maçãs então. —Foi o máximo do orgulho pessoal que ela conseguiu alcançar.

— Obrigado. — e acenou-lhe, desencostando o umbigo da barraca e rumando para rua.

Ela ainda ficou vendo-o se distanciar. De novo, numa luta interna de sentimentos, porque observando seus ombros largos e seu caminhar ereto, percebeu que estava mais o admirando do que rogando-lhe uma praga pelas costas. Inesperadamente, ele deu meia volta em direção à barraca outra vez. Imediatamente ela abaixou a cabeça para as frutas, fingindo separar laranjas dentro de um cesto.

— Se não quiserem acreditar que estou com crédito aqui, —ouviu-o começar a dizer — como é mesmo o seu nome para te chamarem para confirmar.

Erguendo a cabeça para encará-lo, essa parecia uma boa oportunidade para devolver-lhe o troco.

— Não te interessa! – e virou as costas para ele.

Oito meses depois, Hermione estava dando muito mais a Vitor do que seu nome. Estava dando seu coração e sua vida no mutirão de casamentos do padre Smith.

~~

Quinze anos havia se passado desde que aquela tensa venda acontecera entre os dois. Desse tempo para cá, sempre vivera a aba do marido. Cuidando do rancho deles, — uma herança de um tio perdido de Vitor — quando ele se ausentava, mas dependente dele em quase todos os sentidos.

E agora, ali estava, o rapaz que queria apenas uma maçã, tão frágil como ela nunca o tinha visto. Dependente inteiramente dela, pela primeira vez na vida. E tudo o que tinha vontade de fazer era ficar ali, chorando, chorando e chorando...

Sentindo-se fraca como as mulheres que tanto criticava. Mas não. Hermione Krum não era assim.

Nem antes, nem depois de adquirir aquele sobrenome, fazia o tipo que abraçava a fraqueza. Assassinar o algoz que veio bater-lhe na porta para tirar a vida de seu esposo não seria a única coisa que poderia fazer por ele. Tinha a impressão, inclusive, que se tratava apenas do começo. Se entregasse os pontos, existia uma grande possibilidade de não estarem vivos até o próximo nascer do Sol.

Faria muito mais para mantê-lo a salvo. Enquanto sua vida dependesse exclusivamente dela, Hermione sabia que não conseguiria fazer outra coisa, além de esforçar-se para protegê-lo.

Levantou-se, enxugou as tolas lágrimas que se deixou derramar e avaliou os passos seguintes. O mais importante, que era retirar as balas de Vitor, ela já havia feito. Agora havia aquela sensação de urgência. Teria de abandonar a casa o mais rápido possível. Havia muita gente de língua solta espalhada pelo mundo.

Contudo, antes, precisava livrar-se daquele maldito corpo que permanecia estirado atrás da estante de madeira. Não havia tempo para cavar uma cova, como também não deixaria os abutres comerem a carne do desgraçado no terreiro de sua casa.

Havia apenas uma coisa a fazer.

Correu para o andar de cima, no quarto, e acendeu a vela presa ao pires que ficava sobre a cômoda. Com a vela na mão foi até o banheiro e viu seu reflexo num estado lastimável através do espelho. Pegou a toalha mais próxima, molhou-a na água e começou a limpar-se com esfregões rápidos contra a pele.

Tirou o excesso de suor, os respingos do sangue de Vitor que ficaram grudados em seus braços, mãos e colo, e também o sangue que havia coagulado na testa machucada. Não quis atentar-se ao corte que sofrera, afinal não doía. Voltou para o quarto, jogou a camisola ensanguentada no chão e vestiu um vestidinho surrado que usava para trabalhar no campo.

Amarrou os cabelos num rabo de cavalo bem preso, calçou as velhas botinas de couro de vaca e desceu para o vestíbulo em menos de cinco minutos. Então, contornou o cadáver em frente à porta e foi até o terreiro buscar Uhgan.

Entrou no cercado de cavalos sorrateira como uma raposa.

— Sou eu, sou eu. – disse ao potro, quando ele resfolegou e se assustou ao ver uma sombra aproximando-se na escuridão.

Uhgan fitou-a com seus enigmáticos olhos, mas ficou parado enquanto ela ia desamarrando a corda frouxa de seu pescoço de uma das tábuas da cerca. Sua pelagem tordilha, sem muita definição entre o branco e preto, um dia transformaria seu corpo num sedoso tom acinzentado. Muito parecido com seu temperamento nublado, uma má índole que se aplicava apenas a outros cavalos.

“Potro maluco” foi a conclusão que Vitor chegou quando Uhgan nasceu.

Após desamarrar a corda, Hermione guiou Uhgan para fora do cercado e foi até em casa, sempre contornando o corpo do pistoleiro quando passava por ali, e buscou a cela reserva que tinha como costume ser deixada na dispensa. Enquanto passava a cela em Uhgan, olhava pelas planícies, alerta a qualquer cavaleiro sorrateiro vindo pela madrugada, como acontecera com o falecido em sua casa.

Uma vez tendo preparado o potro para a montaria, retirou a corda que o prendia no pescoço e amarrou-a a uma alça de ferro posicionada na parte caudal da cela. Com a outra extremidade fez algo que nunca pensou que faria com ninguém, vivo ou morto. Amarrou os tornozelos do defunto com um potente nó de carrasco. A seguir, empurrou o móvel que antes fora usado para tentar impedir a entrada do invasor para longe da porta. Por último, montou em Uhgan ordenando que o animal começasse a se movimentar.

A cena era bizarra.

Uma mulher montando um cavalo adolescente, de pernas longas e esqueléticas, enquanto uma corda vinda da porta da casa arrastava pela soleira, através dos pés, um homem morto, tingindo o chão de sangue de suas costas esburacadas por calibres 12mm.

Já que aquilo tinha que ser feito, ela faria para valer. Nada de falsos remorsos ou hesitação.

Esporeando Uhgan para dar mais incentivo na corrida, Hermione começou a rumar a Noroeste do rancho, onde, em um quilômetro adiante, havia uma grande vala profunda da qual os viajantes costumavam evitar.

O potro parecia estar necessitado de uma corrida para dar torneamento as suas pernas juvenis, pois, assim que pegou o embalo, chegou há pouco mais de dez minutos ao local de objetivo. Na garupa do animal, Hermione procurava não olhar para trás, mas ouvia perfeitamente o corpo batendo em pedras e contra o chão.

Ao desembocarem na frente da vala, uma garganta de arenito a céu aberto, ela desceu do cavalo e foi ver o estrago que os galopes de Uhgan haviam causado no pobre miserável. Apenas com muito esforço não vomitou.

O corpo do sujeito havia se transformado numa colcha de retalhos. Suas roupas estavam rasgadas. Seu rosto asqueroso, que a menos de uma hora atrás havia articulado que iria montar nela como animal, se transformara num fiapo de pele. O homem estava desfigurado.

Encontrando forças de um lugar a ela desconhecido, soltou a corda de seus tornozelos esganiçados e começou a puxá-los com esforço até as margens da vala. De lá, deu-lhe um empurrão com o calcanhar da botina, não querendo olhar seu corpo cair como uma pedrinha insignificante de uma queda de pelo menos 20 metros de altura.

Tendo somente uma pálida lua como testemunha, montou em Uhgan e voltou para casa.

Quase meia hora havia se passado desde que saíra para desovar o corpo. Tinha medo de encontrar tudo acabado quando voltasse, mas assim que parou no terreiro com o cavalo, sentiu que tudo ainda estava como ela havia deixado. O que não significava que poderia ficar tranquila. Pelo contrário, precisa continuar com aquela eficiência máxima. Queria sair antes do amanhecer.

Já tinha formulado como iria fazer para tirar Vitor da casa. Eles possuíam uma carroça de rodas tortas e com o assento do condutor faltando diversas tábuas. Fora usada para chegarem até o rancho quando casarem em Rocky Deep, e depois assumira a tarefa de carregar feno pelas planícies que divisavam Ken West da fazenda de gramíneas de Stone. Agora, encontrava-se num lamentável estado, após muito uso, mas ainda era uma carroça.

Com Uhgan amarrado a varanda novamente, Hermione foi para dentro de casa – agora sem ter de desviar de nenhum morto — e foi verificar o marido somente para ver se ele estava realmente ali, se melhor, ou pelo menos vivo. Conseguiu uma resposta positiva para a primeira e última questão.

Subiu novamente para o quarto, abriu as gavetas e começou a encher uma mala com a mais singela muda de roupa dela e de Vitor. Tentou não pensar em todas as coisas de que teria de deixar para trás enquanto escolhia o que enfiar na malinha. Nada de valor possuía, mas existiam objetos de estima pessoal que contavam pedaços de sua vida espalhados por todo o cômodo.

Sem querer perder o foco, esforçou-se para não pensar na cadeira de balanço encostada na janela, pertencente a sua avó, ou o candelabro do qual sua mãe se debruçava para contar histórias para Hermione quase todas as noites.

Trocou de roupa novamente. Sabia para onde iria com o marido a seguir; Ken West. No coração daquela cidadezinha hipócrita, causaria um choque se aparecesse lá com seu pior vestido de roceira e botinas cheias de poeira.

Colocou um vestido um pouco mais apresentável. Nada elegante, porque ela não possuía roupas assim. Apenas algo comum, limpo e sem remendos ainda. Calçou suas melhores botas também. De couro vermelho tingido. Um presente de Vitor, do qual ela nunca fez questão de descobrir como ele conseguira.

Quando chegou ao fim, inspecionando o quarto pela última vez, pegou o retrato dos seus pais, na penteadeira, juntou-os aos outros pertences que iriam, e desceu para o primeiro andar.

Na cozinha pegou apenas as duas caixas com mais munição para o rifle e dois saquinhos com cereais, caso algo não saísse como o previsto. Foi aninhando tudo na sala, ao lado do sofá, onde Vitor permanecia imóvel e sempre macilento.

No terreiro outra vez, seguiu em direção ao estábulo. Abriu a imensa porta de madeira fazendo as dobradiças rangerem. Os cavalos nas baias começaram a se agitar.

Encostada, e debaixo de toneladas de poeira e teias de aranha, a carroça continuava no mesmo lugar que Vitor deixou quando resolveu aposentá-la, mas antes de pegá-la, Hermione precisava dar um jeito nos seis cavalos que possuíam. Não havia a possibilidade de levar todos consigo, sendo provavelmente a última vez que os veria.

Como uma amante incondicional daqueles animais, e conhecendo a história de cada um deles até chegarem a sua posse, sentiu-se na obrigação de dar algo de bom a eles.

Saqueadores e pistoleiros buscando vingança tinham o hábito de queimar casa e celeiro com tudo que havia dentro. Não. Aqueles animais que os serviram tão bem durante tanto tempo mereciam destino melhor. Ou, pelo menos, uma chance.

Com o coração partido, Hermione foi abrindo as baias, uma por uma, e os afugentando para fora, aos berros, batidas de pé, e até algumas tapas em seus lombos. Não era de sua índole machucar animais, mas se precisasse agir amargamente com eles para que pudessem ir embora e terem a chance de sobreviverem nas planícies desertas como cavalos selvagens, ela tentaria.

Ao final de tudo, o único animal que deixou foi Lótus, sua égua preferida. Um animal magnífico, todo negro. A mãe de Uhgan. Havia se decidido que seria ela e o filho que guiariam a carroça até Ken West.

De volta à frente da casa com Lótus e Uhgan já amarrados a carroça, — incrivelmente Lótus impunha um respeito quase assustador sobre seu filho rebelde — começou enchendo a parte traseira do veículo com os poucos pertences que escolhera.

O mais difícil foi levar Vitor. Entrementes, talvez pela mão de Deus, o marido conseguiu cambalear nas próprias pernas, com ela o escorando pelos ombros até a carroça. Tinha a impressão que o marido andou os seis metros do sofá até o chão do veículo inconsciente, o que reforçava sua ideia de alguma intervenção divina ou algo tão poderoso quanto. Ela sozinha, jamais teria conseguido carregá-lo até lá.

Com tudo preparado, Hermione deu uma última espiada na direção de sua casa, seu lar. Apesar do olhar emaranhado pelas lembranças guardadas dentro das tábuas e da mobília velha, conseguiu não render-se ao choro. Começou a guiar os animais para se movimentarem para o oeste, longe do rancho. Não adiantava pensar em tudo que deixaria para trás.

Precisava ir para Ken West em busca de uma ajuda especial, que ela sabia que encontraria.

Notas finais
Gostaram? Atrás de quem vocês acham que a Mione vai pedir ajuda?