Black Jack

1 Mata-me se For Capaz


Notas iniciais
Se ler a fanfic, por favor, comente! :D

Meu nome é Hermione Granger, e esta é a minha história. Não toda ela. Quero dizer, não é a história da minha vida, mas de uma parte dela. Para ser mais precisa — e eu sempre sou — ela se passou durante três meses.

Na Louisiana eu era uma mulher de família. Uma esposa devota, que jurou numa capelinha encarquilhada de Rocky Deep, servir e amar meu esposo.

Nos apaixonamos à primeira vista, e no mês seguinte, minha mãe já remendava seu antigo vestido para que o casório fosse firmado antes que a caravana do vigário Smith fosse embora do nosso pequeno pedaço de fim de mundo.

Bebida, alguns tiros de comemoração dos irmãos de Vitor e muita dança animada regou nossa união.

“Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza...”.

Ah Vitor! Depois desses quinze anos, ainda me sinto como da primeira vez que te vi. As pernas bambeiam quando você me toca, os músculos do ventre se contraem de forma involuntária, meus pensamentos transbordam volúpia, nadando em desejos pecaminosos demais para uma senhora de família ter.

Mas o pior é: Eu sei que fiz uma péssima escolha.

Sempre faço, aliás.

Uma noite de verão excepcionalmente quente pairava sobre o rancho. Sua camisola era de um tecido fino, quase transparente, e não pela textura natural das tramas, mas porque estava gasto pelo uso excessivo. Nas nádegas e nos seios era onde ele ficava mais visível.

Deitada no extremo esquerdo da cama, ela agradecia por Vitor não estar ali, dividindo o colchão, senão teria que vestir a camisola de flanela, quente como a cova de um demônio. Jamais as esposas podiam deitar com um pano obsceno no corpo junto aos seus esposos. Sua mãe que lhe ensinara isso.

Hermione achava tudo uma hipocrisia, mas acatava. Ela sabia que não conseguiria ser outra coisa, além de mais uma ovelhinha daquele rebanho alienado. Talvez Vitor nem se importasse com as regras.

Ele sempre fora diferente dos roceiros rústicos de Ken West, porém, havia um hábito comum entre os homens das cidadelas do Oeste, do qual nem mesmo ele conseguira se desprender – cair naquele mundo seco e traiçoeiro, ao invés de procurar um emprego estável na cidade.

Tentou não pensar nisso. Tinha mais medo que ele estivesse numa mesa de jogo do que no balcão de um bar ou na cama de uma prostituta. Vitor tornava-se inconsequente nas apostas. Uma autoconfiança perigosa diante das cartas.

Com o colo empapuçado de suor, não tardou a ela descobrir que não conseguiria dormir. Ergueu-se lentamente na escuridão, e as molas do colchão rangeram na medida em que o peso de seu corpo magro rolava para fora da cama. Foi andando pelo cômodo até o banheiro. As janelas recebiam a luz fria de uma lua nova, deixando os aposentos pálidos e visíveis sem o auxílio da vela.

Uma tina de água limpa a esperava perto da banheira. Desvestiu a camisola pelo pescoço, ajoelhou-se sobre a bacia e fazendo concha com as duas mãos, encharcou o rosto e colo, repetidas vezes. O frescor abalou-se sobre a pele.

Sua sensação de alívio foi bruscamente interrompida quando um ruído incomum rasgou o silêncio da madrugada, fazendo-a enrijecer. No rosto, a água ia escorrendo pelas têmporas para aninhar-se num gotejo na base do queixo. Vagarosamente, Hermione foi erguendo-se, com a camisola na mão. Vestiu-a em dois movimentos ligeiros e pôs-se a tentar escutar o ruído novamente. Ainda estava lá. E vinha do andar de baixo, com certeza. Uma batida fraca e inconstante.

Deslizou do banheiro para o quarto novamente, a porta continuava seguramente fechada. Precisava pensar com frieza, o que nunca fora um problema para ela.

Sozinha naquele rancho, cercada por montanhas e um terreno deserto, qualquer outra senhora do lar no seu lugar passaria aquelas noites solitárias a base do medo e muito choro. Outras, ela conseguia até citar nomes, simplesmente abandonavam suas propriedades quando os maridos estavam viajando, preferindo ir morar na casa de algum parente, na cidade. Quando voltavam, normalmente tudo estava depredado, os cavalos roubados, e com alguma sorte os fora da lei não deixavam o fogo consumir tudo ao final. Havia também as mulheres que tornavam-se rústicas rancheiras, uma vez que a vida não deu outra escolha. Estas laçavam garanhões arredios nas planícies, e esfolavam suas cabras, sem pestanejar, para fazer roupas de cama.

Abatiam as pequenas criações para o jantar, mesmo que tivessem que ficar atoladas até os joelhos de lama, dentro dos currais. Matavam o resto da tarde sentadas numa cadeira de palhoça, mirando nos chapéus de vagabundos, com seus rifles de mira cega, afugentando-os para outra freguesia. Hermione também não se via nessa categoria. Seu lema era simples: o que era dela era dela e defenderia tudo que havia conquistado — o que não era muito — até o fim.

O ruído persistia, ainda que quase inaudível às vezes.

Precisava lançar mão de hipóteses. Existia a possibilidade de ser o vento sacolejando uma mobília, devido a uma janela esquecida aberta lá embaixo, mas a falta de sincronia era estranha. Poderia ser um coiote selvagem, mas o animal não tentaria forçar nada dentro da casa, e sim faria um alarde absurdo no estábulo.

Do deserto desembocava todo o tipo de escória, e a propriedade era quase que como uma rota para as pessoas que quisessem alcançar a cidade. Vagabundos já haviam forçado a porta da sala uma vez, mas Vitor estava ali, na ocasião. Bastou um tiro pela janela e os desgraçados correram feito gazelas na escuridão.

Agora não tinha Vitor.

A arma. Só se sentiria segura para verificar o barulho no andar debaixo, com o auxílio de uma. E sim, havia uma, mas estava na cozinha. Um rifle. Hermione lembrava bem o dia em que o marido a colocara lá, atrás do balcão da cozinha.

~~

— Vamos jantar?— quis ela saber, após voltar do banho.

— Sim. Mas antes quero falar com você. — disse Krum, sentado na cabeceira da mesa, o olhar cheio de seriedade. Hermione analisou-o desanimada.

— Eu já sei. —suspirou.

— Sabe o que?

— O que você vai dizer.

— Não sabe não. — sorriu ele, e agarrando-a pelo braço a fez sentar-se no seu colo. Ela tentou levantar. Ele agarrou-lhe pelo quadril, não a deixando escapar.

— Hei, porque quer fugir? Fique no meu colo. — ordenou com doçura na voz. Logo, ela parou de resistir. Enlaçou o braço direito ao redor do pescoço dele e estudou a fisionomia de pedinte solitário do marido. Difícil resistir a Vitor quando a olhava daquela forma. As pupilas negras, feito obsidianas misteriosas.

—Vai partir, eu já sei disso. —argumentou, tentando esconder a irritação.

—Sim, essa é uma época boa para caça. E eu sei que a senhorita já sabe. — cutucou as costelas dela de uma forma irresistível.

—Pare! — exigiu Hermione, em meio a risos. Krum segurou-a com firmeza, enquanto suas pernas debatiam-se para escaparem da sessão de cócegas.

— Não é isso que eu quero falar. — Vitor disse, por fim — Eu queria... Me sentiria mais seguro, se partisse para Ken West na minha ausência.

Ela parou de rir e se debater, instantaneamente.

— Isso está fora de discussão. — e fechou a cara, virando o rosto da direção da mesa.

— É por isso que eu arrumei isto! — exclamou fazendo surgir um rifle paralelo, de trás da cadeira, para cima da mesa.

Hermione permaneceu calada, fitando a arma surrada e grosseira que parecia avalia-la com seus calibres 12mm. Eles possuíam duas pistolas de mão, um Colt e uma 44, mas nenhum rifle. Era uma arma nova.

— Quanto mais a cidade cresce, mais vagabundos são atraídos para lá. No meio disso tudo, estamos nós. Não me ausentarei por muito tempo, mas durante esse tempo, você precisa se cuidar.

— Onde conseguiu isso? — não era contra armas, apenas contra gastar dinheiro desnecessariamente.

— Emprestado com um amigo. — disse rapidamente — O que importa é que quero que você o use quando qualquer desavisado cruzar as cercas que separam nossa propriedade do resto do mundo. É simples de usar.

— É? — perguntou, sem realmente estar interessada na explicação.

—Claro meu bem. Após o disparo, duas balas explodem do cano direto para a carne do miserável que tiver na mira. Acerte no peito para não ter como errar.

Voltando a fita-lo, exibiu seu semblante mais confuso. Não esperava ter de usar aquilo.

— Amanhã nós treinaremos nas colinas, fique tranquila! — informou, acreditando que a mulher enxergava uma engenhoca complicada diante de si — Você vai ver. Vai parecer que sempre soube como manejar uma dessas.

Como se ela não soubesse. Havia perdido a conta de quantas vezes seu pai a levara para caçar coiotes com uma daquelas. Mas Vitor não precisava saber, e ela estava totalmente enferrujada no tiro ao alvo, afinal. Os homens não gostavam que as mulheres se igualassem a eles, ainda mais se fossem as suas mulheres.

— Sim, nós podemos treinar. —disse, evasivamente. Vitor trouxe seu queixo para perto do rosto dele.

— Pouco tempo, certo?! Eu prometo.

Ela confirmou com a cabeça, tentando esboçar um sorriso. Se o dia da partida dele aproximava-se, não queria perder esse tempo de cara amarrada.

—Mas não se esqueça de guardar num lugar oculto. Ali, naquele vão mal encaixado, atrás do armário dos pratos, o que acha?

— É, parece um bom lugar.

~~

A arma continuava no mesmo lugar. No andar debaixo. Chegou a pensar em levar um castiçal consigo, mas aquilo só chamaria mais atenção, se, de fato, houvesse alguém para prestar atenção.

Em passos diminutos, encostou-se à janela do quarto e olhou para fora. Uma noite clara, sem nuvens, típica de verão. Pode enxergar o terreiro tão adormecido quanto deveria estar. O celeiro silencioso e fechado, da forma como ela deixara antes do Sol se pôr. O único sinal de vida ao redor da casa era Uhgan, o potro, amarrado a cerca por uma corda longa, porque tinha o péssimo costume de escoicear qualquer companheiro de baia. Sua cabeça estava baixa, talvez dormindo, talvez pastando, — difícil saber àquela distância – mas, sem dúvida, calmo.

Resolveu sair do quarto, abrindo a porta cuidadosamente, e inspecionando o corredor antes de se decidir por descer. Atentou-se ao ruído — havia parado. Continuou caminhando, sem deixar o assoalho tremer, com seus passos vacilantes. Descalça não emitia barulho algum. Desceu os degraus enxergando o vestíbulo com a ajuda da lua. Não havia uma sombra a mais além daquelas que a conhecida mobília delineava.

Uma vez no primeiro andar, olhou para os lados, temendo que até os mínimos sons dos músculos de seu pescoço pudessem chamar atenção.

O que estava acontecendo? Nunca fora tão impressionável assim. Provavelmente tratava-se apenas de um barulho na madrugada.

Com os sentidos alerta, decidiu-se pegar a arma só por segurança, já que o ruído cessara definitivamente. Foi até a cozinha, atenta a tudo em volta, como um gato arisco. Tateou o balcão na parte de trás, e inicialmente tudo o que conseguiu agarrar foi um punhado de teia de aranha.

— Conseguiu me deixar paranoica, Vitor. — murmurou irritada, enfiando metade do braço pelo vão e, sentindo o metal gelado do cano do rifle, entre os dedos.

Tec!

Quase caiu de susto!

O barulho outra vez. Agora tinha certeza, o som era da porta de entrada. Empunhou a arma contra o peito. Já estava carregada.

O suor começou a brotar em bicas pelas costas, palmas da mão e nuca. Não era pelo calor que transpirava. Era por medo. Mas ainda poderia ser um cão selvagem, Hermione agarrava-se a tal hipótese.

Arrastou os pés pelo vestíbulo, parando a meio metro da porta, perscrutando a escuridão, vigilante ao mínimo ruído que fosse produzido do lado de fora. O dedo sempre enganchado ao gatilho, trêmulo.

Então um som diferente veio. De início apenas um murmúrio abafado, longínquo, que foi encorpando para um sussurro; Um sussurro que chamava seu nome, vindo de um algum lugar debaixo dela.

Um bolo de apreensão apertou sua garganta, porque a voz que a chamava na escuridão era a de Vitor. Abafando o medo, Hermione escancarou a porta e choque foi tamanho, que deixou o rifle cair entre os dedos com um estrépito.

Seus olhos focavam um vulto contorcido e aninhado à soleira da porta, rodeado numa poça nesga de um líquido escuro. Reconheceria aquele vulto em qualquer lugar.

— Vitor? – chamou horrorizada, levando as duas mãos à boca.

Ele mexeu os dedos minimamente contra o a assoalho, esforçando-se para dar um sinal de vida. Seu sussurrou foi uma lamúria fantasmagórica.

— Her...mione...

Lágrimas começaram a brotar inesperadamente pelos olhos dela.

— Vitor... Vitor... O que houve? — foi tudo o que conseguiu articular.

Não houve resposta. Seu corpo permaneceu inerte.

— Oh, querido... Querido, fale comigo. — insistiu, agachando-se ao lado dele.

Avaliou-o. Estava espantada com o que via. Pústulas de sangue no braço esquerdo denunciavam que havia sido baleado. Mas outros lugares também foram lesionados, a maior parte da poça que se formava ao redor dele provinha do abdômen.

Milhões de questionamentos inundavam-na. O que houve? Como ele havia chegado até ali? Quem fez aquilo?

Uma das perguntas foi respondida instantaneamente. Havia um cavalo, andando a esmo a cerca de 20 metros do terreiro, e dele, um rastro bizarro que ela sabia ser o sangue do seu marido, serpenteava pela terra até a entrada da casa.

Rezando para que ele estivesse apenas desmaiado, ergueu a mão diante de suas narinas, sentindo uma fraca brisa. Vitor ainda respirava. O próximo passo então era trazê-lo para dentro. Acomodá-lo no sofá, tirar suas vestes embotadas de poeira e sangue, verificar os ferimentos, cuidar dele, e rezar para que nada tivesse sido tão grave quanto aparentava.

Cautelosamente enlaçou-o por debaixo dos braços, tomando todo cuidado possível para não machucá-lo mais, e usou sua força, que não era muita, para arrastar-lhe vestíbulo adentro.

Vitor sempre fora um homem grande e forte, por isso, avançar poucos metros com seu corpo, da soleira até a sala, foi uma tarefa árdua para os braços frágeis de Hermione. As mãos escorregavam a todo instante, lambuzadas com o sangue do marido, que continuava a brotar por todos os lados. No chão um pesadelo estava sendo desenhado, como se houvesse acabado de ocorrer um abate no meio da sala.

As tentativas de colocar Vitor no sofá foram um capítulo a parte na agonia de Hermione. Com muito esforço, e torcendo para que não tivesse lesionado nada mais, além do que já estava nele, enfim, ela conseguiu deitá-lo no sofá.

Já não mais suava. Sua pele agora ficara fria como o orvalho no inverno.

Tremendo loucamente, foi até a cozinha e voltou com uma vela acesa, um pano limpo e uma tina de água. Não havia tempo a perder quando em pró da saúde de Vitor. Ajoelhou na frente do marido e começou a desabotoar-lhe a camisa, lentamente.

— Ah, Deus! — exclamou, engolindo um soluço. Seu peito era um retalho sangrento, de onde três buracos escarlates, um no ombro, um no baixo ventre, e o último muito próximo ao lado esquerdo do peito, escancaravam a pele. — Eu vou cuidar de você, querido. — prometeu com ternura ao homem desmaiado e muito pálido diante de si.

Voltou para a cozinha e procurou a faca de cortar carne. Mais pontiaguda e precisa. O que iria fazer a seguir, nunca havia feito, mas já vira uma vez sua mãe retirar duas balas e estancar o sangue, cauterizando vasos expostos, que haviam acertado seu pai durante uma caçada.

Fez o procedimento de forma metódica. Primeiro encharcou o pano com água, repetidas vezes, e torceu sobre os ferimentos do abdômen, — os mais críticos — lavando-os.

— Prometo ser precisa. — sussurrou a Vitor, quando a tarefa de retirar as balas de seu corpo chegou. Nunca gostara de cutucar feridas. Quando criança e levava tomba durante as brincadeiras com os primos, evitava até mesmo fitar os joelhos esfolados.

Entrementes, quando ela iria começar a extrair a primeira cápsula, um som do lado de fora a interrompeu. Hermione ergueu-se de um salto, alerta. Eram os trotes rápidos de um cavalo vindo pela terra batida do terreiro, que chamou sua atenção.

Seus sentidos a alertaram que o pior ainda estava por vir. Correu para a porta e abriu uma fresta mínima, onde viu um cavaleiro de costas curvadas descendo do seu cavalo magro. Na mão portava uma pistola, na cabeça um chapéu de aba larga, ocultando seu rosto nas sombras da noite. Seus passos selvagens começaram a seguir calmamente em direção a casa.

Não precisava pensar muito sobre aquilo, um homem surgindo com uma pistola na mão, no meio da madrugada, minutos após seu marido surgir completamente alvejado e com uma trilha de sangue para denunciar seu rastro não dava margem à dúvida sobre a intenção daquele sujeito.

Com a pulsação esmurrando no alto do tórax, Hermione fechou a porta, pegou o rifle que continuava no chão e fitou a mobília em busca de algo grande suficiente para travá-la.

Hermione agarrou o armário de carvalho, — o mais próximo da porta — presente do primo lenhador de Vitor, e forçou-o com toda força oculta dentro de si. O armário avançou alguns centímetros, cobrindo um terço da porta. A maçaneta girou do lado de fora.

Alguém suspirou de forma asquerosa do outro lado. Hermione viu-se prendendo a própria respiração.

Contudo, no segundo seguinte, um estampido cortou o silêncio dissimulado da noite e ela viu seu corpo sendo arremessado com violência em direção ao chão. Bateu a cabeça na quina pontiaguda da mesinha da sala, abrindo um talho doloroso em sua testa. O sujeito estourara a maçaneta com um tiro e jogara o peso do corpo contra a porta, empurrando ela e o armário para longe.

Afoita, Hermione engatinhou dois metros em direção ao vestíbulo, pegando o rifle pelo cabo. O sujeito livrou-se do bloqueio do armário surgindo por de trás dele. Ela já o esperava com o rifle apontado e engatilhado, algo que conseguiu executar numa velocidade impressionante para sua habilidade amadora.

— Boa noite Lady. — Sua voz era asquerosa, assim como seu rosto vilanesco por debaixo do chapéu surrado. — Eu não quero incomodar, mas acontece que tenho um assunto a tratar com esse sujeito — disse, apontando para Vitor, inconsciente no sofá,com o cano de sua arma.

Hermione empunhou a arma com mais firmeza, exatamente na direção do peito dele.

— Saía da minha casa. — sussurrou, tremendo dos pés a cabeça. A cólera e o medo se fundindo dentro dela.

— Nós temos algumas opções e essa não é uma delas. Ele me roubou no jogo, ali em Wood Valley, e precisa honrar sua dívida, com dinheiro vivo ou com a vida.

— Quanto? — viu a pergunta saindo de sua boca. Algo dentro dela ludibriava negociar com aquela escória e, ainda, conseguir sair ilesa.

— Digamos que se você tiver uma dúzia de cavalos dentro daquele estábulo lá fora, mais o pangaré amarrado ali na cerca, ainda não vão quitar nem um terço da dívida dele.

O cano da arma começou a tremer. Hermione segurou-o com mais firmeza, precisava mostrar atitude, por mais que a coronha quisesse escorregar de suas mãos manchadas de sangue.

— Qual era o jogo?

— Como? — perguntou ele, confuso.

Ela repetiu a pergunta, esforçando-se para manter controle na voz e não falhar em nenhuma sílaba.

— Qual era o jogo?

— Humm... Black Jack.

Como se perdia tanto em tão pouco tempo naquele maldito jogo de azar? De todos os vícios de Vitor, Black Jack sempre fora o seu maior.

— Ele pode pagar a dívida quando se recuperar. — ela tentou.

— Lady, seu marido.... Ele é seu marido, não é?

Apenas um meneio de cabeça foi o que ele recebeu em resposta.

— Certo. Seu marido vai me pagar agora, e será com a vida dele. Não adianta me apontar esse rifle de segunda mão, porque eu sempre fui o cara mais rápido da minha cidade nos duelos. E sou certeiro também. Não será uma vadia sem pontaria que vai me cravar de bala.

“Se continuar no meu caminho vou acertá-la na mão. Depois, montarei na senhorita como seu marido nunca fez, cuspirei na sua carne, e quando estiver saciado, acertarei uma bala no seu crânio. — disse numa calma maquiavélica — Se sair do meu caminho, deixar seu marido pagar sua dívida, prometo montá-la gentilmente apenas. Depois, irei embora sem olhar para trás, e você enterrará o cadáver dele antes do Sol se erguer, seguindo sua vida como se esta noite nunca tivesse acontecido.”

Os quinze segundos seguintes, duraram o tempo de uma eternidade. Era como se ela pudesse sentir o hálito podre do desgraçado em seu pescoço. Hermione nunca havia matado um ser humano, e ainda não queria fazê-lo. Mas sentia-se como naquele ditado “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

O erro do pistoleiro veio a seguir.

Ele deu um passo mínimo na direção dela, o suficiente para que seu sistema de alerta total, irracional e essencialmente vital, entrasse em ação. O gatilho foi disparado antes que ela pensasse em tal ação. Uma reação involuntária que ecoou feito um trovão indomável na salinha abafada, levantando cheiro de pólvora e carne esfacelada.

Hermione nunca viu um corpo voar depois de levar duas balas calibre 12 no meio do peito. Os animais costumavam quicar pelas pedras e cair em seguida. Mas com o sujeito, viu-o ser lançado longe, feito folha de papel solta na ventania.

O desgraçado só poderia estar morto depois daquilo.

Hermione enxugou uma gosma de suor frio e sangue coagulado que havia se formado no alto da testa. Então, fitou Vitor, ele continuava com a mesma expressão tranquila, distante de tudo aquilo.

"Droga! Eu ainda tenho que retirar as malditas balas" pensou, deixando o rifle tombar sobre assoalho.

Ninguém mais apareceu naquela noite.