Black Jack
12 Lobo em Pele de Cordeiro
Notas iniciais
Abriu e fechou os olhos diversas vezes, fitando o firmamento com a mente vazia. Ursa Maior brilhava com um desejo vaidoso de ser notada, ofuscando as demais poeiras cósmicas num segundo plano pueril daquele manto enegrecido da madrugada. A carroça continuava a se movimentar morosamente por cima do vale. O corpo de Hermione, exausto pela súbita onda de fadiga após momentos com êxtases de adrenalina, balançava molemente na caçamba. Tinha um desejo obscuro de que o mundo acabasse naquele instante, numa explosão estrelar, para que não tivesse mais de se preocupar com o que iria ou não ser...
Das vezes que escapara da morte no decorrer daquela semana, já perdera a conta, e não estava sentindo-se nada afortunada por tal mérito. Claro que era a primeira vez desde que tudo começara, que a sensação de real proteção a preenchia. Estava com Ronald Weasley, um pistoleiro hábil, com uma pontaria certeira e uma ação rápida. Entrementes, o medo de Hermione agora não mais se encerrava sobre sua pessoa; Seu nome caíra no conhecimento do inimigo, e se antes podia passar despercebida por ser uma fugitiva sem identidade, agora quem mais tivesse seu sobrenome estaria correndo perigo... Como sua mãe, por exemplo.
Deus quisesse que ninguém ligasse uma velha cega, moradora de um cortiço caindo aos pedaços, à esposa de Vitor Krum. Esse era seu maior medo agora. O rapaz morador do cortiço disse que o Arthur Weasley dividia sua casa com uma senhora. Isso era muito bom, quase animador. Sua mãe estava oculta atrás do nome do Sr. Weasley e nada, há muito tempo, ligava diretamente ou intimamente um Weasley a um Granger. Engraçado, Hermione pensou, como chegar aquela conclusão era quase um eufemismo. O que Gina Weasley fez por ela há dias atrás? Acolheu-a em seu teto até que a primeira poeira abaixasse. O que Arthur Weasley fez pela sua mãe? Acolheu-a em seu teto durante todos os anos depois da morte do pai. O que Ronald Weasley fizera e estava disposto a fazer por ela a partir dali? Lutar pela sua vida, ainda que fosse em forma de moeda de troca. Sim, os Weasley e os Granger estavam mais entrelaçados do que se podia imaginar.
Hermione ergueu a cabeça e olhou para a dianteira da carroça, na direção do condutor. Ronald assumira as rédeas do veículo há uma hora, mas antes disso era ele quem estava ali atrás, em meio à palha, calado e pensativo. Há pouco mais de três horas conseguiram despistar os homens de Arnie Austin e fugir das cercanias de Rocky Deep, seguindo pelo leste nas planícies campineiras, na mais completa escuridão. Mas não trocaram uma palavra desde então. Trocaram a dianteira da condução com um simples “Agora é minha vez” do pistoleiro e um meneio de cabeça da morena. O clima se tornara formal como com duas pessoas desconhecidas que tem de trocar amenidades.
O ruivo orientava os animais com monotonia. Havia perdido seu chapéu no tiroteio, passando as mãos na cabeça a todo instante, certamente para se certificar de que ele não se encontrava ali mesmo. As duas pistolas continuavam presas no coldre, à cintura, carregadas e prontas para defendê-los de imediato, caso fosse necessário.
Será que se sentia protegida pelo fato de ele tornar-se um exímio pistoleiro, ou porque era Rony embaixo daquela carcaça maciça de brucutu? Considerou a morena, enquanto o fitava. Quem imaginaria que o caçulinho Weasley iria crescer, aprender a cavalgar, querer desbravar o mundo e caçar bandidos?
Se no passado alguém dissesse que Rony, Rony seu namorado, daria um show de disparos a sangue frio contra o corpo de outra pessoa, ela não acreditaria nem que fosse forçada. Ele era um garoto meigo, com doses um ímpeto aventureiro sim, mas nunca tendera a violência extrema.
Isso provava o quanto o tempo e o meio mudava as pessoas...
Será que fazia as contas de quantas pessoas já matara na vida? O que havia visto e vivenciado durante esses anos todos, para ter coragem suficiente de puxar o gatilho sem avaliar as consequências? Quem era, na essência aquele ruivo agora?
Hermione deixou os questionamentos num canto escondido dentro do seu peito. Não havia motivos para deter-se em saudosismos que não levariam a lugar algum. Seu compromisso com Ronald começava ali e terminava quando Arnie Austin fosse entregue as autoridades. Precisava encara-lo como um mero conhecido dotado dos meios para ajuda-la. Direcionar as energias para preces, pedindo pela sobrevivência de Vitor, era, por exemplo, uma forma de afastar-se sentimentalmente do pistoleiro.
Jamais esquecera o que a impulsionara a começar tudo: O desejo instintivo de proteger o seu marido. Manteria o foco naquilo, porque também mudara durante os anos. Tornara-se uma mulher mais grata, de princípios sólidos para com Vitor.
Os cavalos relincharam repentinamente, rasgando os pensamentos de Hermione e fazendo-a estarrecer de apreensão. Olhou para os lados e não viu viva alma no meio da madrugada, apenas as sombras negras das cadeias montanhosas que ladeavam a trilha. Ronald resmungou com os animais, agitou as rédeas e exigiu que eles ficassem quietos. Pelo seu tom de voz não parecia preocupado, apenas cansado.
— O que houve? — ela quis saber.
— Não é nada. — resmungou laconicamente, sem virar para trás.
Ela precisava quebrar o silêncio, romper a barreira desconfortável entre eles, ou simplesmente penetra-la e dizer o que pensava que deveria ser feito a seguir. Levantou, sacudiu a palha que grudara nas lantejoulas do vestido e passou para o banco da frente, ao lado dele. O pistoleiro retraiu o corpo, assumindo uma postura menos relaxada, mas continuou calado.
— Porque os cavalos reclamaram? — insistiu.
—As coisas vivas dão sinais de vida de vez em quando. — ironizou.
Ela não entendeu porque ele estava tão hostil, aliás, não havia recebido nada além da grosseria desde o reencontro, mas resolveu ignorar e questioná-lo mais:
— Faz quanto tempo que estamos andando com os cavalos?
— O tempo necessário para nos assegurarmos de que não estamos sendo seguidos. — disse, categórico.
A morena virou-lhe o rosto, aborrecida. Porque tentar conversar com esse bronco?Pensou irritada. Tinha certeza de que os animais estavam nos seus limites físicos, pois pelas suas contas, deveriam ter cavalgado bem mais de dez milhas. Um deles, inclusive, deveria ser um potro, a outra era uma fêmea que poderia muito bem ser sua mãe.
Ela apalpou os cabelos, completamente desgrenhados e em seguida passou os dedos pelo pescoço, extremamente dolorido e tendo a certeza que se olhasse no espelho veria um vergão arroxeado envolvendo-o. Ainda com a cabeça virada para o outro lado, não percebeu que Ronald a fitava de esguelha.
— Como está? — ele perguntou bruscamente.
Hermione virou-se e questionou-o usando um pouco da frieza que andava recebendo.
— Como está o que?
— Seu pescoço, como está? — repetiu a pergunta com cerca impaciência.
— Ah, acho que vou ficar bem. — disse, evasiva.
Ele calou-se novamente e o silêncio recaiu mais uma vez sobre os dois. Estavam prestes a subir uma ladeira com capim rasteiro e os equinos iam num ritmo extremamente lento, quando Hermione disse novamente:
— Então, não acha que está na hora de pararmos? —sugeriu.
O mercenário deu de ombros, novamente usando seu jeito rude para tentar repeli-la.
— Pararmos? Pra quê? Se esta com sono pode ir dormir na carroça. — apontou com a cabeça para trás.
—Eu não falo por mim. —insistiu — Falo por eles... — e apontou pra os animais exaustos.
Ronald riu cinicamente e coçou a cabeça com força, espalhando fios ruivos ao vento. Seu sorriso, embora sarcástico, continuava bonito, fazendo seus olhos ficarem miúdos e risonhos.
— Qual sua experiência com montarias? — perguntou num tom de desafio.
— Minha experiência? — retrucou — Bem... Eu... Eu que cuidava dos cavalos do rancho na maior parte do tempo.
— Sei. — revirou os olhos — Nenhuma então. — deu de ombros.
—Não nenhuma! — ela exclamou, insultada — Eu organizava as baias, casqueava, colocava ferradura nos potros, manejava eles...
— Tá bom Hermione, entendi. — cortou-a, grosseiramente —Eu cavalgo há muito, muito tempo. — argumentou orgulhoso. — Conheço quase todo o oeste, um pedaço considerável do leste e ultimamente venho explorando o sul. Sei bem até onde vai à capacidade de um cavalo de acordo com sua raça ou falta dela, peso e sexo. Acontece que esses dois podem e vão nos levar para mais longe ainda, antes de descansarem.
Aquilo é que era egoísmo, concluiu ela.
— Mas não custa nada esperarmos um pouco mais. Estamos no meio do nada mesmo. Quem você acha que nos seguiu até aqui? Tenho certeza que eles acham que fomos para mais dentro do Oeste.
— Caramba, essa vida não deve ter lhe dado nenhuma experiência mesmo! — o ruivo olhou para o céu, resignado, antes de encara-la — Acha que estou preocupado com capangas? Treinei esses olhos para enxergar a silhueta de um pilantra na escuridão, Srt. Granger...
Nesse ponto ele se interrompeu. Pareceu meio desconcertado, provavelmente lembrando-se de que a morena não era mais Granger e sim Krum. Mas então, recuperou-se no segundo seguinte e continuou seu discurso petulante:
—Estamos no meio do nada. Viu alguma habitação no caminho? — não esperou que ela respondesse — Você sabe o que um lugar remoto tem e atraí? Jaguares, lobos, carnívoros no meio do nada, sedentos por um pedaço fresco de carne. Entende o risco de ficarmos parados num local por muito tempo?
Ela não se convenceu.
— Nós acendemos uma fogueira, isso vai afastá-los.
— Não, não.
— Deus, como você está sendo mesquinho...! — apontou-lhe o dedo e em seguida, tentou tirar-lhe as rédeas da mão.
Ronald repeliu-a com os ombros.
— Tudo bem, você quer mesmo parar? — ela anuiu, cruzando os braços — Certo então, só achei que tinha me contratado para ajudar.
***
Ficar exposto, desprotegido nas planícies, não era uma opção segura. Assim, Ronald guiou a carroça por um caminho estreito, na bifurcação de duas rochas, descendo com os animais num chão de relva cada vez mais alta. Mas isso também não era o melhor. Quanto maior o mato, mais difícil seria a visualização se algum animal perigoso ousasse aproximar-se.
Não trocou mais uma palavra com Hermione durante o restante do percurso. Esforçava-se para não se arrepender da situação na qual se metera. O dinheiro seria a gratificação, mas já desistira de serviços lucrativos por achar que despenderiam muito mais do que sua habilidade, um mínimo de sorte. Ali era o caso também. Dizer que não ficava cauteloso com relação à Arnie Austin era pura hipocrisia. O sujeito tratava-se de um animal, e, não obstante, recrutava crápulas igualmente desumanos dos quais tinham uma lealdade quase cega por ele.
Ronald confiava na sua mira, mas não confiava na sorte. Esta não costumava acompanha-lo.
As estrelas estavam fortes aquela noite, de forma que, vez por outra, ele conseguia espiar sutilmente, Hermione com o canto do olho. Sua ex-namorada parecia uma boneca de pano, frágil, magra e desprotegida. Apenas aparências. A pele ao redor do pescoço tornava-se mais escura a cada hora, mas a morena continuava firme, sem se queixar da dor que deveria estar latejante. Também deveria ter passado por maus bocados a caminho de Rocky Deep. Ele não perguntara, nem o faria se pudessem evitar conversas desnecessárias, porém, gostaria de saber qual fora sua jornada até ali.
Na verdade, era um sentimento esquisito que vinha dominando-o a cada minuto. Não experimentava daquele amor platônico dos tempos da juventude, colocaria sua mão no fogo, como sequer passou-lhe essa sensação quando a reviu. Contudo, existia algo além que não o fazia encarar o serviço como um serviço. Nem favor.
Era uma terrível, uma agoniante consciência de que, ajudando-a estava ficando quite com ela. Quites pelo quê? Questionou-se ressentido. Não fora ele que a abandonara com uma forasteira.
“Águas passadas não movem moinhos”, concluiu, concentrando-se na clareira que surgira adiante. Quanto mais focada no trabalho, mais concentrado estaria e menos tempo de pensar nas coisas que não voltavam mais, teria. Sua vida era razoavelmente divertida. Tinha Lilá, tinha o bordel, tinha os dias de caça e as recompensas avarentas.
— Vamos parar aqui. — anunciou quando chegaram à clareira. — Pelo menos estamos protegidos nas rochas se alguém passar pela trilha principal.
Hermione saltou da carroça ao encostarem. Ele também pulou para fora, indo amarrar os animais num galho seco próximo. Começou a recolher alguns ramos de uma árvore baixa próxima e um pouco de palha ressecada, amontoando tudo no meio da clareira. Ajoelhou-se sobre a folhagem, retirou uma bala do tambor de sua pistola, abriu a cápsula expondo os grãos cinzentos de pólvora, e, com ajuda de um canivete para dar fricção, produziu algumas fagulhas convincentes o suficientes para iniciarem a queima dos caules esturricados. Então se sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos e cutucou a fogueira, incentivando-a a crescer.
Ao observar o que a morena fazia, encontrou-a pegando o cantil de água e oferecendo com a mão em concha, água aos cavalos. Que ideia! Essa era a Granger que ele conhecia, sempre que possível, tentando ser altruísta com os animais...
~~
—Eu achei que você tinha coragem... —provocou Rony, sendo sarcástico com a amiga.
Hermione, filha do feirante e caçador nas horas vagas, Sr. Granger, fez um sinal com o indicador mandando-o calar-se. Era uma moreninha pequena e esbelta, carregando uma espingarda maior do que o comprimento de suas pernas, mas cheia de dignidade. Saia com o pai para caçarem juntos, ocasionalmente, lebre na maioria das vezes, e apesar de ter apenas doze anos e ser mulher, já disparara uma arma contra algo vivo.
Rony tinha treze, e uma experiência muito maior com armas de fogo. Saíra das coisas pequenas há muito tempo. Agora acertava o chanfro de um búfalo há vinte metros e conseguia esfola-lo em vinte minutos. Tinha o desejo de ir para o leste caçar os temíveis ursos pardos, ouvira histórias de homens que enriqueceram vendendo a pele desses animais.
Mas nas cercanias de Rocky Deep o homem já havia aniquilado tudo com relevância e potencial financeiro. Só haviam sobrado lebres, aqueles cunículos apetitosos para o jantar. E fora por isso que ele havia chamado Hermione naquela pequena excursão. Trouxera a arma do seu pai e a convidara para caçar e fazer uma surpresa para os pais numa forma de amenizar outra mancada que deram na semana passada ao irem para os Vales sozinhos.
Chamara ela porque gostava da companhia da amiga, mas também porque ela vivia se gabando que caçava lebre com o pai. Porém, quando avistaram as primeiras correndo para dentro de uma toca, ela não atirou, parecia que não tinha coragem...
—Quando a próxima chegar. — disse-lhe, fitando o canteiro de terra.
Rony não acreditava mais.
— Me dá essa espingarda! Já te vi fingindo não ver umas três, pelo menos.
— Eu não estava fingindo não ver. — revirou os olhos — Elas eram magrinhas demais.
— Tem certeza que caça lebres com seu pai? — provocou-a novamente.
Ela fechou a cara, detestava que duvidassem de sua palavra ou a contestassem. Seu lema era que ela estava certa, sempre estava!
—Escute aqui, quando achar uma adequada vou atirar.
— Daqui a pouco escurece e esse jantar foi para o espaço... — bufou, provocando-a pela terceira vez.
Munida de fúria, a garota empunhou a pesada arma e atirou assim que viu algo se mexendo no mato rasteiro. O cheiro de pólvora impregnou o ar.
Rony deu pulo, não esperava o disparo repentino, mas logo se recuperou, correndo para ver o que Hermione havia acertado. A garota o seguiu. Quando chegaram ao local encontraram sangue espalhado pela terra e uma lebre gigante, marrom escuro, caída com um imenso buraco no pescoço.
— É, você anda mesmo treinando com seu pai. Desculpe duvidar da sua palavra. — disse, agachando-se em frente ao corpo do animal.
Entretanto, Hermione não respondeu. O garoto ergueu a cabeça e viu-a tremendo lentamente, os olhos muito vermelhos, minados de lágrimas.
— Ah, qual é? É só uma lebre.
— Ela... ela... era... mãe... — arfou a moreninha, transtornada.
— Quê... Como? — quis saber, confuso.
Ela, já em prantos, apontou para a esquerda, num amontoado de terra que se formava num buraco no solo. Rony viu saindo de dentro da toca um filhotinho lebre de pelagem branca e preta.
— Hã... Bem... — não encontrou palavras.
— Eu matei uma mãe! Ele está sozinho agora... Sozinho... Como pude... — soluçou, inconsolável.
O garoto levantou, e, sentindo uma sobrecarga de pena, tentou afagar-lhe as costas. Hermione se desvencilhou, chorando mais, e correu em disparada em direção ao centro da cidade.
— Hermione, — ele tentou chamar em vão. Então olhou novamente para toca e viu além do filhote, um espécime maior saindo. Sua pelagem era malhada e seus traços menos robustos que o que fora abatido.
Aquela era a mãe!
Sorrindo, o ruivo pegou o coelho abatido e correu atrás da amiga, anunciando aos berros:
— NÃO ERA A MÃE, MIONE! ELA ESTÁ VIVA! ELA ESTÁ VIVA!
~~
Hermione ergueu os lábios do cavalo mais castanho, inspecionando sua boca sem nenhum receio. Rony ficou intrigado.
— O que você tá fazendo? — perguntou a ela.
— Estou verificando se ele é mesmo um potro como eu imagino que ainda seja. — disse, concentrada nos dentes do animal.
— Como você tá fazendo isso? — questionou-a, confuso.
— Achei que soubesse que se dá para estipular a idade de um cavalo de acordo com sua arcada dentária. — provocou-o.
Rony deu de ombros.
— Já ouvi falar nisso, claro. Mas nunca me importei em verificar.
— Entre os meus deveres no manejo do rancho — começou para alfineta-lo — adquiri essa pratica. É importante quando se tem uma rotatividade de animais. Basicamente, conseguimos estipular a idade pelo incisivo, que sofre 2mm de desgaste ao longo de um ano. Mas eu estou somente simplificando. — esnobou-o, provavelmente vingando-se do jeito indiferente como vinha tratando-a. — Ele, por exemplo, tem os incisivos novinhos. Se tiver um ano e meio é muito.
Rony ficou impressionado com o conhecimento da morena, mas não deixou aparentar. Voltou a cutucar o fogo, recordando de como ela, um dia, tivera medo de cavalos. Vitor Krum poderia ter lhe ensinado sobre a cronologia dentária, mas quem a mostrara a tolice que era temer uma montaria fora ele.
— Anda precisando de umas aulas de tiro... —comentou, lembrando-se do tiroteio de antes.
A morena lavou a mão com a água do cantil e foi juntar-se a ele, mas do lado oposto da fogueira. Contra a claridade a agressão que Córmaco deixara em seu corpo era mais evidente. O que levara aquele maluco a ataca-la? questionou-se irritado.
— Não costumo ser tão péssima com uma espingarda. — rebateu.
— Não vai poder carregar uma arma tão grande o tempo todo. As armas maiores dão mais precisão porque são pesadas, e não muda muito o trajeto da bala caso a mão trema.
Ela abraçou os joelhos, pensativa. Ele faria de tudo para que a morena não tivesse de pegar numa arma, mas tinha a impressão de que ela não conseguia avaliar o risco que era enfrentar Arnie Austin.
—Eu sei que já combinamos os termos desse trabalho, mas queria saber... Hermione, o que conhece da vida do cara que quer caçar?
— Ele é um pistoleiro muito procurado...
— Além disso?
— Além disso, sei o que todo mundo sabe. — informou-o.
— Posso te dizer o que sei o que ouvi por aí, então você me diz se quer mesmo prosseguir.
— Sou toda ouvidos! — ergueu os braços.
Rony apoiou um dos cotovelos no chão e parou de cutucar o fogo.
— Ninguém sabe dizer de onde ele veio. Não há informação sobre pai, mãe, irmãos. Sua história começa a ser conhecida a partir dos vinte e poucos anos, quando pediu emprego num rancho de gado leiteiro, e dispo-se a trabalhar carregando feno. Ele ficou um ano a serviço dos Rushs. Era um sujeito tão cativante que ganhou um quarto na casa da família. Hospedou-se por um ano, comendo na mesa deles, bebendo do leite deles, antes de assassinar todos e queimar a casa, depois que descobriu que o Sr. Rushs não guardava sua pequena fortuna no banco. É bem provável que só aceitou o emprego no rancho, porque sabia que o homem tinha o dinheiro fácil. Passou um ano como um lobo em pele de cordeiro. Alguém assim não tem nada a perder. Nunca. — a morena permaneceu muda, estudando o fogo, o pensamento longe — Qual o seu plano? — ele quis saber.
— Meu plano sobre...?
— Arnie Austin? Como pretende pegá-lo?
— Hã..., é por isso que preciso de você. — disse, atônita.
Rony balançou a cabeça e suspirou.
— Não tem nem ideia de onde ele possa estar?
— Ao leste! — foi enfática.
— Disso, todo mundo sabe. Mas em que lugar do Leste? Ele não vai estar na porteira da primeira propriedade quando começarmos a ir naquela direção. — um silêncio pessimista se abateu entre eles. As coisas que já não eram fáceis naquele caso, agora complicariam um pouco mais. — Precisamos de alguma dica.
— Chegamos ao leste e começamos a perguntar.
Ele franziu o cenho, surpreso. Ela não podia estar falando sério.
— Seriamos assassinados assim que perguntássemos para alguém com alguma ligação com Arnie. Hermione, será que você entende a seriedade disso?
— É claro que eu entendo! — aborreceu-se — Eles quase mataram meu marido!
— Tá, tá certo! — interrompeu-a, elevando o tom de voz — Mas é o seguinte: A coisa é muito maior do que você imagina. Existem pessoas certas para fazer certos tipos de perguntas. Acontece que essas pessoas não abrem o bico de graça.
— O que está sugerindo? Não tenho dinheiro comigo.
— Não estou pedindo que dê dinheiro! — impacientou-se — Me escute, agora! — a morena fitou-o com indulgencia — Fugimos inesperadamente da cidade, somente com a roupa do corpo e algumas balas na arma, é certo que teremos que de parar para compramos o básico. Acontece que eu tinha uma proposta de serviço antes de aceitar este. Para levantar um dinheiro, vamos ter que desviar um pouco do objetivo. Eu vou ter que aceitar esse serviço, coisa rápida.
Hermione abriu e fechou a boca. Estava prestes a protestar, ele sabia, mas não tinha o que argumentar. Encontravam-se encurralados na falta de informações.
— Qual é a próxima cidade que vamos visitar? — enfim perguntou.
Tinha a cabeça apoiada nos joelhos. Parecia cansadíssima.
— Não é uma cidade. É um acampamento de mineradores. Doldrums. — disse simplesmente.
— Tá bem então. — ela aconchegou-se próximo a algumas pedras. — Acho que não podemos descansar os dois juntos, não é? —questionou-o fechando os olhos. — Você fica com o primeiro turno?
— Fico. — resmungou, cutucando a fogueira.
É claro que ele não deixaria uma rancheira, contadora de idade de cavalos, de sentinela durante a noite. Lembrava bem o que aconteceu da última vez que a encarregou desta função.
***
Hermione acordou repentinamente com diversas sacudidelas nos ombros. De cabeça zunindo, foi abrindo os olhos e apurando os ouvidos até conseguir distinguir o rosto e a frase de Rony.
—Acorda! Fomos rastreados! —alertou-a aos sussurros.
Erguendo-se prontamente ela esperou ouvir trotes de cavalos, tiros ou gritos. Não escutou nada disso. O ruivo fora para o meio da clareira e atiçava algo no chão. Mal conseguia enxergar as coisas na sua frente, estava escuro, a fogueira havia se apagado.
— Como sabe quem está nos rastreando? — murmurou de volta.
A resposta veio com um sonoro e estridente rugido, penetrando o ambiente, agourento, como prelúdio de uma ameaça felina. Não era quem, mas o que. Com os olhos um pouco mais adaptados a noite, viu quando Rony voltava em sua direção.
— Vou tentar acender a fogueira, mas desamarre os animais porque é bem provável que precisemos ir embora.
Experimentando um medo pungente do que só podia escutar, e estava cada vez mais perto, ela foi até os cavalos, agitadíssimos em pressentir um predador, e começou a desamarra-los dos galhos. Os dedos trêmulos manusearam a corda afobadamente; sem sombra de dúvidas aquela era a noite mais azarada de sua vida.
No centro da clareira, Rony conseguiu acender o fogo, atiçando-o no auxílio de um amontoado de ramos que organizou para formar uma tocha. Hermione ousou virar a cabeça para trás e por pouco não caiu de susto ao ver, no foco de luz da tocha, dois imensos jaguares de caninos potentes encurralando-os. O mercenário ameaçou-os com o fogo.
— Oh... — ela arfou.
— Hermione! Solte os cavalos da carroça! Vamos ter que fugir rápido. — gritou-lhe. — Não vou disparar a arma para não chamarmos a atenção para nós, caso tenha alguém pelas redondezas.
As feras carnívoras não estavam se sentindo muito intimidades pelo fogo da tocha.
Os dedos suados dela, agora se direcionavam para as amarras da carroça que prendiam os animais a carroça. Eles escorregavam, não se firmavam, tão pouco encontravam força para desatar os nós.
— Rápido!
— Não estou conseguindo! — exclamou quase histérica. Os rugidos cada vez mais altos, os animais sentiam-se otimistas.
— Tome! Segure isso! — disse ele, tomando a frente da situação, sacando um canivete e entregando-lhe a tocha.
Ela avançou um passo e agitou o fogo, indecisa. Seriam devorados vivos se não saíssem imediatamente.
Num repente seu corpo foi erguido, pela cintura, e com extrema facilidade, para cima do lombo de um dos cavalos, o potro. Rony subiu no outro animal, tomou a tocha de sua mão e lançou-a na direção dos jaguares.
—Agora não é momento de ter dó dos animais! — berrou, esporeando sua montaria.
Hermione agitou as rédeas com firmeza e seguiu o ruivo a toda velocidade.
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