Black Jack
10 Façamos um Acordo
Notas iniciais
Lilá Brown possuía uma coleção espalhafatosa de pós para o rosto na penteadeira do seu quarto. As outras meninas do Saloon Black se empoleiravam na cama, animadas, enquanto a meretriz maquiava uma há uma, preparando-as para mais uma noite de serviço.
—Esse pó dourado combinará com seus olhos. — guinchou Lilá, quando chegou à vez de Hermione. — Sei que você não vai descer, nem nada do tipo, — tagarelava e articulava — mas se vai fingir que é uma de nós, é bom que o disfarce seja completo.
A morena ficou calada. Sua maquiadora trabalhava o pincel no contorno dos olhos usando movimentos precisos e suaves, com um ar de contentamento pelo serviço a mais que prestava para Madame Black.
Ela bem que tentou ignorar a beleza de Lilá Brown enquanto esta se ocupava com tonalidades de sombras e blushes. Contudo, a avaliação visual do que na loira chamara a atenção de Ronald, foi inevitável. Lábios carnudos, pele limpa e macia, cachos dourados e olhos curvilíneos já faziam dela um afresco divino num palacete de sexo. Não obstante, havia a cintura delgada, o busto avantajado, saltando para fora do decote e pressionado pelo espartilho, além de outros atributos que Hermione tentou não imaginar.
Devia ser ótima na cama também. Que dúvida idiota, repreendeu-se a morena em pensamento, aquilo era a profissão dela. Satisfazer os mais devassos e variados apetites sexuais masculinos, sob quatro paredes.
As estranhezas nunca acabavam, constatou Hermione. Uma prostituta realizando pintura vulgar em seu rosto, para aprimorar um disfarce imoral. E não uma mulher da vida qualquer, mas sim a que, sabidamente, assumira o posto de meretriz preferida do seu ex-namorado. Se tudo terminasse bem não tinha muita certeza se narraria aqueles sórdidos, detalhes de sua jornada aventureira, para Vitor.
— Como era o Won-Won quando adolescente? O que ele gostava de fazer? — perguntou Lilá de supetão.
Hermione piscou, sem ter certeza sobre o que dizer.
— Ah... Não me lembro. Faz muito tempo. — mas era claro que lembrava.
Podia até dar detalhes se isso fosse vital. Desde a mania de ele enrolar as madeixas da franja quando pensava, até o fascínio pelos novos modelos que chegavam à loja de armas.
— Mas o que houve com vocês? Foi um namorico ou algo mais sério?
— Se tivesse sido sério, acho que não estaria aqui, hoje. — ela respondeu secamente.
Não havia o menor interesse nela de discorrer sobre sua antiga relação com Rony, ainda mais com a concubina. Lilá sorriu, – só sabia fazer isso – terminou de retocar seu rosto e virou-se para começar a guardar seu kit de pintura na gaveta. A morena levantou da cadeira e olhou para os lados, dando-se conta de que as outras mulheres já tinham se retirado. Era somente ela e Lilá ali.
—Não precisa sentir ciúmes de mim com o Won-Won. — comentou, inesperadamente, encostando o belo corpo na penteadeira e estudando-a cheia de cumplicidade.
— Olha, não tenho nada haver com ele mais. — avisou, erguendo com a mão.
— Eu sei o que dizem de nós. São todas um bando de fofoqueiras! — exclamou, cruzando os braços. — Desde quando ele passou a dormir somente comigo, a inveja delas por mim multiplicou. Rony é um tipo bonitão e por aqui nossa clientela se resume a sovinas, banguelas e gorduchos fedorentos. Um homem do porte do dele acaba sendo algo raro.
Hermione não iria perguntar, não tinha nada haver alimentar aquela conversa, mas simplesmente não se controlou.
—Por quê estão com inveja? Ele costumava revezar a noite entre vocês?
Um sorriso malicioso passou pelos lábios da loira. Provavelmente começava a experimentar a satisfação de arrancar sentimentos irrigados da Sra. Krum pelo mercenário Weasley.
— Não... Quer dizer, mais ou menos. Somente no começo para falar a verdade. — disse descontraidamente — Sabe como é um homem: quando Madame Black deu carta branca para ele escolher quem queria, ele ficou meio deslumbrado com a situação.
Promiscuidade? Será que ela esperava algo diferente na vida de mercenário de Rony?
Hermione tencionou sair do quarto. Tinha apenas escutado mais um fato que corroborava com a visão medíocre que ela tinha do ex-namorado atualmente. Lilá, porém, era chegada numa conversa embaraçosa.
— Mas quando ele me conheceu, não digo somente no sexo, apesar dessa ser a melhor parte. Ele tem uma performance impressionante, sabe...— riu num tom agudo. — Bem, o que quero dizer é que ele gosta de conversar comigo, é engraçado. Diz que sou uma boa ouvinte, além de muito bondosa... Somente o Won-Won mesmo para encontrar atributos sentimentais numa prostituta...!
— Que bom para vocês. — resmungou a morena, dando de ombros.
— Não estou dizendo isso para te provocar.
— E não está! — disse ela com veemência. Seu maior medo era ser confundida com a adolescente apaixonada que deixou Rocky Deep há quinze anos.
— Que bom. — Lilá desencostou do móvel e jogou-se de costas na cama. Seus cabelos dourados espalharam-se como tentáculos sob a colcha — Só para você saber, Won-Won já mencionou seu nome uma vez. Claro que ele não vai se lembrar, afinal estava dormindo.
***
Faltava apenas uma hora para a casa abrir e mais uma noite de fornicação e vícios se iniciar. Narcisa deu instruções para que Hermione permanecesse com sua fantasia de meretriz caso alguém a visse, e para reforçar a proteção, o melhor seria ela se trancar no quarto da própria cafetina enquanto o expediente acontecesse do lado de fora.
E ela estava detestando ficar parada.
Rocky Deep significaria a execução de um plano de autossobrevivência, não uma fuga assustada dentro de um prostíbulo. Deveria ter dado ouvidos ao Sr. Weasley quando ele disse que o filho era um caso perdido, ninguém melhor que um próprio pai para saber disso. Rony fez total descaso ao seu pedido, poderia até nem estar na cidade uma hora daquelas, covarde demais para dizer-lhe um Não pessoalmente, olhando em seus olhos.
Precisava de outro plano. Talvez voltasse para a casa de Dumbledore a fim de ficar perto do marido e rezar para que Arnie não os procurassem por lá. Mas também não seria a solução viver à custa do velho doutor. Mais cedo ou mais tarde ele expulsaria aquelas duas bocas à mais de seu teto.
Uma coisa, entrementes, era certa: ficar ali de nada ajudaria.
Aproveitaria o cair da noite e o disfarce, para se esgueirar pela cidade até a casa de Arthur Weasley novamente. Pernoitaria no cortiço e na manhã seguinte pensaria num modo, com a ajuda da mãe e do próprio Arthur, de driblar o destino temível nas mãos do pistoleiro.
Certa de que não poderia informar o que tramava para Narcisa Black — a mulher tinha confiança cega que Rony relevaria -, Hermione esperou pelos primeiros ruídos de movimentação no salão para sair do quarto sorrateiramente. Cruzou o corredor deserto e desceu para escada, à esquerda, que desembocava no térreo, imediatamente ao lado de uma pequena cozinha.
— O Sr. Edward está aqui hoje.
— Ele costuma dar ótimas gorjetas. — escutou gracejos risonhos
Duas garotas passaram da cozinha para o salão. Hermione estancou na parede, ocultando-se do outro lado da escada para não ser vista. Olhou atenta para o corredor que conduzia ao salão, e depois na direção da cozinha: não havia mais ninguém a vista. A porta lateral para rua já podia ser visualizada. Correu até ela, mas hesitou quando estava prestes a abri-la. Sua desagradável experiência com aquela cidade durante a noite lhe dizia que devia, no mínimo, portar algo para se proteger. Voltou para cozinha, abriu armários e gavetas, mas encontrou o que julgava adequado, um pequeno canivete afiado e fácil de esconder entre o decote, enfiado numa maçã na fruteira.
Fracamente armada saiu para rua completamente tomada pela escuridão da noite. Apressou o passo. Casas e pensões com lampiões acessos era a única luz que iluminava seu caminho. Gargalhadas, discussões, trotes rápidos de cavalos roubados, cantoria de indivíduos bêbedos, sons costumeiros de se ouvirem em Rocky Deep ao cair da noite.
Nem bem saíra do quarteirão do saloon e já teve que se esgueirar nas sombras de um sujeito que vinha andando lentamente na direção do estabelecimento. Era alto, bem alimentado, mas não gordo, se encaixando mais no perfil atlético. Vestia-se em panos limpos, com fivelas lustrosas e botas puídas. Seu rosto permanecia oculto nas sombras produzidas pela aba do chapéu, mas já dava para ter ideia de que não se tratava de um mendigo ou um bêbado errante.
— Boa noite, donzela! — saudou o sujeito mexendo a aba do chapéu, tinha um timbre galanteador.
Hermione sorriu, pensando como uma prostituta sorria quando recebia um cumprimento masculino, afinal precisava manter o disfarce. Um homem numa montaria entrou na rua nesse instante, veio passando com seu cavalo a uma velocidade mediana, na extremidade esquerda, e trazia um lampião na mão. Passou reto pelos dois, mas a luz incidiu sob seu rosto maquiado, e o sujeito de voz bonita estancou ao esquadrinhá-la mais detalhadamente.
— Boa noite! A casa já está aberta, é só entrar e se divertir. — disse-lhe a morena, se esgueirando para longe dele.
— Eu não te conheço? — ouviu-o perguntar, aproximando-se rapidamente.
Os problemas tinham uma afinidade com ela, pensou temerosa. Virou-lhe as costas, decidida a ignora-lo, mas tirou o canivete de dentro do decote e apertou-o entre os dedos, um plano B se a tática de ignora-lo não adiantasse.
— Vire para mim! — ele exigiu, seguindo-a.
— Não estou de serviço hoje! — alertou-lhe, erguendo a mão e apressando o passo.
— Hey, espere! — rosnou, puxando-a pelo ombro com truculência.
Hermione viu se corpo rodopiar como uma boneca de pano. O sujeito era forte e tinha dedos duros. Muito próximo a ele, ela pode, em questão de milésimos, avaliar seu rosto masculino dotado de vaidade e grande dose de soberba. Jamais se esqueceu dos detalhes daquela tez, agora com um adicional: uma cicatriz dantesca na bochecha esquerda, o local onde, forçada pelo pânico, fora obrigada a enfiar um graveto de ponta afiada.
Seus sentidos primitivos, instintos cruciais de sobrevivência, entraram em ação quando sua mão, antes mesmo de sua mente, associou o rosto do homem a toda violência que o filho de um xerife novato, causara nela há aproximados quinze anos. Os dedos apertaram o cabo do canivete, lancetando a carne dele com sua pequena lâmina cortante, na altura do ombro.
Surpreso, fitou o local onde fora ferido, ainda processando se aquilo havia acontecido ou não. Então cambaleou para trás, levando uma mão no ferimento, que começava a sangrar. Mas, com a outra mão não deixou de soltar Hermione, botando inclusive, mais força nos dedos para que ela não pudesse ter chance de escapar. Ele arfou, mas não gritou, talvez já acostumado com a dor. A lâmina também era pequena, de forma que a perfuração não fora grave.
— Vagabunda... É você...?! — e, antes que a morena pudesse se desvencilhar, recuperou-se da dor e usou a outra mão, também grande e esmagadora para encobrir seu pescoço. — Agora eu te mato, sua puta. Te mato! Depois vou trepar com seu corpo e mijar nele! — grunhiu de forma odiosa, entre dos dentes.
Feito um peixe fora d’água, Hermione se debateu em vão em braços algozes. A pressão na garganta tornou-se implacável, Córmaco McLaggen exalava um ódio inexorável. Sem soltar a mão de seu pescoço, ele empurrou-a contra a parede, num canto oculto da luz dos lampiões, onde pudesse ficar a vontade para machuca-la como bem entendesse, sem interferências. Ela queria gritar, lutar! Fugir! Mas estava totalmente impotente fisicamente. Uma queimação terrível brotou do peito, o ar não vinha, a traqueia cada vez mais oclusa pela força progressiva que ele impelia.
Encontrou–o no olhar e tentou pedir por uma golfada de ar. Ele usou mais força como resposta, e seus pés ergueram do chão. Iria morrer, não havia mais escapatória. Sua vida minguaria a beira de um bordel, vestida como uma prostituta. Talvez fosse enterrada como uma.
— Solta ela agora, McLaggen. — ouviu uma voz distante, ordenar — Eu disse agora!
A pressão cessou abruptamente. Hermione caiu de joelhos no chão e tocou o pescoço, buscando ar urgentemente. Tentou focalizar a sombra que surgira atrás de McLaggen e viu um vulto masculino.
— Ei, Weasley! Agora não é hora, certo?! — irritou-se o filho do xerife.
— Se afasta dela!
A morena ergueu a cabeça, e ainda com a visão turva pela falta momentânea de oxigênio, conseguiu identificar a figura de Ronald com uma pistola na mão, apontando-a ameaçadoramente para McLaggen.
— Ei, ei! — gritou Córmaco — Aponte essa droga pra lá! Esqueceu quem eu sou?!
— Sei bem quem você é. — silabou ele, trazendo um tom soturno para frase. — Um imbecil que gosta de bater em mulheres quando está de pau duro.
Córmaco recuou um passo, erguendo os braços cinicamente, e trazendo Hermione, antes oculta nas sombras, para o campo de visão de Rony. O ruivo avaliou-a com certa preocupação por alguns segundos, mas logo direcionou sua atenção e o cano da arma para o sujeito adiante.
—Calma... Calma, ok? Eu sei sobre seu dever com Madame Black e tudo mais, e não quero interferir nem desrespeitar seu cargo, o de proteger as garotas. Mas aqui é pessoal e vou explicar: lembra-se aquela puta que falei que fez isso no meu rosto? É ela! É ela!
— Não, você se confundiu McLaggen! — afirmou Rony, convicto e muito sério.
— Não me enganei não! — berrou — Eu tenho certeza! É a mesma vagabunda! — a arma continuava apontada para seu peito — Ei, vamos relaxar, certo?! — pediu ele, recuando mais — Você não tem que se meter nos meus assuntos, tudo bem. Não vou contar pra Madame Black que você fez vista grossa com ela. Se for mais cômodo eu mesmo sumo com o corpo, depois.
— EU DISSE, SAI DE PERTO DELA! —exigiu o ruivo.
Dois cavaleiros que andavam na extremidade da rua pararam para observar a confusão. Hermione observou-os, o pescoço ainda doendo, e viu que eram tipos muito mal encarados, da mesma estirpe que os póstumos Cabelos Encardidos e Rosto Cadavérico.
— Realmente perdeu o juízo, não é Weasley?! Não é porque tem fama nessa cidade que está acima da lei, camarada. Você esqueceu quem eu sou, seu otário? Se não me deixar acertar contas pessoais aqui, vou voltar com meu pai, e além dela, você também vai dançar.
— É somente por ser o maldito filho daquele xerife pilantra que ainda não puxei o gatilho. — respondeu Ronald. Havia tanta convicção em sua afirmação que nem mesmo Hermione duvidou que fosse esse o motivo.
— É só uma puta, droga! — impacientou-se o filho do xerife.
— Estou te afirmando, não é ela quem te deixou assim. Tenho plena convicção disso, e pra sua própria sanidade é melhor concordar. Nem prostituta ela é.
— Eu sei que conhece todas as piranhas da cidade, Weasley, mas pode ter certeza, não estou cometendo uma injustiça aqui.
Dizendo isso, Córmaco virou-lhe as costas e insinuou avançar para Hermione, que levantou rapidamente e recuou. Rony engatilhou a arma e o barulho o fez virar-se novamente para o mercenário.
— Vai me pagar, sabia?! — rosnou, fitando o cano da arma e depois o rosto dele.
O mercenário não se abalou, sequer piscou sob a ameaça, e também não recuou. Ainda encarando seu inimigo firmemente, contornou-o, indo parar ao lado da morena, encurralada contra a parede.
— Hermione, você está bem? — perguntou.
Ela suspirou, tocou o pescoço, mas conseguiu falar.
— Sim...
Inesperadamente ele tocou-a. Um toque sutil, direcionando-a para onde a queria naquela situação. Pegou-lhe pelo braço e trouxe-a para trás de si, fazendo um escudo com o próprio corpo entre ela e Córmaco, para quem ainda apontava a arma.
— Hermione... Hermione... — resmungou o sujeito para si — Esse é o nome da vadia? Ele me diz algo.
A morena olhou para esquerda. Os estranhos começaram a avançar para eles de um jeito suspeito, mas não eram os únicos a assistirem ao conflito. Duas mulheres, moradoras do albergue adiante, estavam debruçadas sobre suas sacadas, parecendo terem encontrado um bom passatempo para matarem a noite. Um velho encarquilha permanecia sentado, oculto da luz, sentado numa cadeira velha de balanço, na sua varanda, serenamente.
— Sim! — exclamou McLaggen, os olhos brilhando de euforia — Me lembro desse nome. Meu pai fez uma busca nas garotas que haviam abandonado a cidade depois do ataque que sofri. Havia uma Hermione que deixara Rocky Deep... Hermione e seu marido, Vitor Krum...
De repente uma luz se acendeu na cabeça dele.
— É ela! Ela e o marido que estão sendo caçados por Arnie Austin! — gritou, extasiado.
Os segundos seguintes vieram em sequências bruscas e destoantes.
Os mal-encarados que avançavam estancaram, os rostos adquirindo expressões selvagens. As mulheres do albergue fecharam as janelas rapidamente. O velho levantou de sua cadeira. Córmaco continuou repetindo, satisfeito e gritante, sua descoberta. E o estopim para o que viria a seguir veio com Rony, quando, inesperadamente, apertou o gatilho e rasgou a noite numa explosão de pólvora e miolos, atirando contra a cabeça do filho do xerife para fazê-lo calar-se.
~~
— Olá! — saudou-a Vitor.
Hermione sentou-se no outro sofá, ficando de frente para o rapaz que salvara sua vida há poucos dias. A mãe saiu do cômodo, seus passos ecoando pelo chão, dizendo que ia preparar um chá para o convidado. Agora ela estava sozinha com ele.
— Obrigada. — foi à primeira palavra que disse a ele.
O rapaz tirou seu chapéu e ficou rodando-o na mão. Estava completamente desconcertado, o que era incabível já que salvara-lhe a vida, e não o contrário.
—Não é necessário agradecer. Eu faria de novo, e de novo, se pudesse voltar no tempo.
— Se pudesse voltar no tempo, eu escolheria nunca ter saído àquela noite. — argumentou, tocando o rosto ainda inchado.
—Bem, sendo assim, eu iria voltar para dar uma surra no cara que te deixou lá, sozinha.
Hermione franziu o cenho e olhou, sob os ombros, para a cozinha. Aquele comentário não viria da boca dele, se já não tivesse tido uma prévia informação, com toda a certeza através de sua mãe. O que ela estava planejando, afinal?
— Isso, com certeza, não é da sua conta. —respondeu com frieza.
Vitor empertigou-se no sofá.
— Claro, desculpe.
A morena prestou atenção nele. Lindo e com belos olhos castanhos, atitude cavalheiresca e preocupada, um porte másculo de homem, mas, com resquícios dos finais da adolescência. Esse rapaz não lhe devia nada e salvou sua vida sem pestanejar. Talvez nunca tivesse matado até aquela noite. Não merecia nada além da eterna gratidão dela.
— Não. Desculpe-me você. Estou cansada, só isso. Tenho que te agradecer infinitas vezes, isso sim!
Ele levantou-se e inesperadamente foi sentar ao lado dela. Tocou nos joelhos, um tanto sem graça e voltou a balançar o chapéu na mão.
— Olha, eu sei que não tenho nada haver com isso, mas o xerife está mobilizando uma trupe de vagabundos para descobrir quem fez aquilo com o filho dele. O melhor seria você não sair da sua casa nem tão cedo. Digo, pelo que aquele ordinário fez com o seu rosto, poderia acabar levantando suspeitas.
— Sim, eu sei. Estou horrível. — disse a garota com amargura.
— Eu precisava vir te ver, e só constatei que você continua linda, como sempre. — afirmou num tom carinhoso.
— Anda me seguindo desde aquele dia na feira? Por isso me salvou a tempo àquela noite? —quis saber.
— Não. — adiantou-se Vitor, sorrindo. — Aquilo foi coincidência. É a partir de agora que já não posso dizer o mesmo.
~~
Hermione segurou o grito quando o cérebro de Córmaco espalhou pelos quatro ventos. Seu corpo caiu sem vida e sem cabeça, produzindo uma reação em cadeia ao redor deles. Rony puxou-a pelo braço, prevendo que os sujeitos adiante sacariam suas armas, e começou a guia-la numa correria desenfreada para o único local onde eles podiam se abrigar de um tiroteio: para dentro do saloon de Madame Black. A morena só caiu em si, e percebeu o quão sério estavam as coisas, quando uma rajada de balas passou poucos centímetros acima de seus ombros, antes de entrarem no bordel pela mesma porta lateral da qual ela havia saído.
Rony empurrou um pesado móvel para frente da porta, a fim de bloquear a entrada dos sujeitos. Seu chapéu já havia caído e seus cabelos estavam colados na testa suada. Parecia prático e controlado, mas nem por isso menos irado.
— Mas que merda de afinidade é essa que você tem para arrumar confusão? —gritou para ela.
Hermione, um pouco chocada com o repentino assassinato de Córmaco, foi voltando a si e dando-se conta de que pela primeira vez os homens de Arnie Austin tinham seu nome e sua fisionomia.
— Eu... Eu... Deus! — levou às mãos a cabeça — Você atirou na cabeça daquele dele?
— Qual seria a saíd... — ele preparou-se para retrucar, mas foi surpreendido quando um tiro transpassou a porta de madeira.
Agachou-se rapidamente, trazendo o corpo dela para baixo também. A porta começou a ser cravejada, destruindo o armário que impedia a entrada dos pistoleiros. Eles não podiam ficar lá.
— Vêm! — ordenou, segurando na mão dela.
Começaram a correr para a esquerda em direção ao salão e a multidão de clientes. A música alta e as risadas ébrias abafavam o som dos tiros vindos da cozinha. Todos estavam muito tranquilos por lá. Rony passou por trás do balcão, a arma na mão, e Jimmy, o homem do bar, fitou-o assustado.
— Sr. Weasley, a Madame Black não gosta que fique sacando a arma sem motivos.
— Vá procura-la e diga que os homens de Austin estão chegando. Logo, logo, ela vai ter uma infantaria por aqui! — ordenou.
Jimmy não se mexeu, e ainda estudou a morena e o conjunto bizarro de seu rosto: suada, maquiagem borrada, olhar vidrado, pescoço arroxeado e respingos do sangue de McLaggen nas bochechas.
— MAS QUE MERDA, JIMMY! VÁ! — berrou o ruivo.
O barman correu para o salão, contornando a massa. Uma aglomeração estranha iniciou-se na porta. Empurrão e gritos de protestos começaram a brotar das mesas próximas a porta. Diversos homens com chapéus negros, cinco no total, surgiram por entre os clientes. Um deles subiu numa mesa e deu dois tiros para o teto. O salão caiu num silêncio mortal. Rony e Hermione esconderam-se para trás do bar.
—Estamos falando em nome de Arnie Austin! Viemos ontem, e acabamos de saber que a mulher de Vitor Krum está se escondendo como uma prostituta aqui. Sendo encobertada! Se ela não aparecer agora, vamos começar a atirar...! APAREÇA, HERMIONE GRANGER!
Rony começou a recarregar seu Colt, habilmente. Hermione, em pânico por ver seu nome na boca dos capangas do homem mais sanguinário do oeste, descobriu chocada, o quão primoroso o ex-namorado havia se tornado em sua profissão de mercenário. Não havia desespero, ou qualquer descontrole no rosto e nos gestos dele. Suas mãos não tremiam, seus pulsos não vacilavam, nem sua voz falhava.
— Essa fica com você, caso não consiga cobrir todos eles e alguém se aproximar. Não hesite. — disse de modo prático, entregando uma pistola na mão dela. — Continue abaixada.
Então ele se levantou portando apenas aquele Colt surrado. A seguir houve um, dois, três disparos sequenciais e muito rápidos saindo do cano da arma. As concubinas começaram a gritar, clientes a correr em legião, estremecendo as estruturas de madeira do estabelecimento, ao lançarem-se escada acima, para se esconderem nos quartos.
...E Rony... Bem, Rony pulou para fora do balcão, atirando feito uma máquina descontrolada contra quem continuasse ameaçando a ordem e interferindo em seu trabalho. Hermione não sabia dizer se ele atirava nos capangas em prol do seu trabalho ou dela. Talvez fossem os dois.
Após os disparos iniciais do ruivo foi à vez da retaliação. A morena jogou-se no chão, ficando praticamente deitada, para se proteger da saraivada de tiros que veio em direção ao bar. As garrafas e copos quebraram nas prateleiras, e ela levou as mãos ao rosto, fechando os olhos firmemente para nenhum caco de vidro feri-la seriamente. Rezou para que nenhum dos tiros tivesse acertado o mercenário. Novos disparos recomeçaram, acontecendo naquela sequencia alucinante que só podia vir das mãos profissionais dele.
Gritos de dor. Corpos caindo ao chão. O salão do bordel sendo completamente destruído. Esses foram os únicos sons que Hermione ouviu, enquanto escondida, nos segundos concomitantes.
De repente alguém passou correndo, contornando o bar. Trêmula, mas resoluta, ela apontou a arma para direita. Um homem de chapéu preto encarou-a. O tiroteio no salão não cessava.
— Então você deve ser a mulher dele. —comentou, satisfeito e avançando.
Não hesite, dissera Rony. Apontou-lhe a arma e atirou. Errou. O homem arregalou os olhos, impressionado que ela tivesse uma arma, e que tivesse a ousadia de usa-la contra ele. Aproximou-se mais. Hermione disparou mais duas vezes, acima dos ombros do infeliz. Definitivamente atirar com uma espingarda era muito diferente, e exigia muito menos prática do que atirar com um revolver. Atentar contra a vida dele só deixou-o irritado, fazendo-o mirar seu próprio Colt contra seu corpo. Ela recuou esfregando as costas no chão, arranhando-as pelos resquícios de vidro, ao mesmo tempo em que tentava mais disparos totalmente fora de ângulo.
Inesperadamente um baque surdo fez seu algoz cair. Levara um tiro na cabeça. A morena ficou aliviada, já estava se acostumando com aquele modus operandi e quem era o dono dele. Rony meteu a cabeça para dentro do balcão, foi por apenas um segundo, mas ela viu uma preocupação extrema em seus olhos.
— Vamos. — disse bruscamente, estendendo-lhe a mão, depois de vê-la sã e salva.
Ela agarrou-o e levantou-se. Esquadrinhou o local, detonado, deserto e manchado de sangue para todo lado. Sete corpos jaziam mortos, das maneiras mais trágicas e esdrúxulas possíveis por entre a mobília quebrada. O cheiro de pólvora e a fumaça pairavam sobre o ambiente.
— Você matou todos eles? — perguntou, abismada.
Rony não respondeu, e sem soltar de sua mão, começaram a subir as escadas.
— Devíamos ir para fora. — alertou ela. — Vamos ficar encurralados nos quartos.
— Aposto minha vida como tem mais meia dúzia lá fora, só esperando o primeiro sair.
Ele forçou as maçanetas das cinco primeiras portas que viu nos corredores do segundo andar. Nenhuma delas abria. As pessoas deviam estar trancadas, assustadas dentro dos quartos. No salão, lá embaixo, novos gritos de ameaça começavam a ecoar. Mais capangas de Austin estavam entrando.
Subiram para o terceiro andar. Finalmente Rony achou um quarto destrancado e vazio para se esconderem. Fez Hermione entrar primeiro. Trancou a porta e, escorando na parede para recuperar o fôlego, esfregou a testa suada. Seu corpo parecia tenso, pronto para um combate surpresa.
— Se sairmos dessa eu quero deixar bem clara minhas exigências. — disse de repente.
A morena, que havia corrido para olhar pela janela, virou-se para ele surpresa.
— Esse cara que está atrás de você e do... seu marido, é um pistoleiro da pesada.
— Não me diga! — argumentou, cinicamente.
Ele fitou-a, irritado e sem paciência. Tudo bem, Hermione não se sentia muito paciente também.
— Eu vim aqui, hoje à noite, pra entrarmos num acordo... E então houve aquele inconveniente com o filho do xerife.
Hermione ficou pensando se ele ainda acreditava que Córmaco McLaggen havia se enganado, mas não disse nada.
— Vamos mesmo ficar conversando? — questionou-o, agoniada por recomeçar a ouvir gritos e disparos nos andares de baixo, que só vinham se avolumando até o andar deles.
— Sim, vamos! — alterou-se o mercenário, desencostando da parede e aproximando-se — Acontece que eu não te ajudo nem mais um segundo se não entrarmos num acordo muito bem esclarecido.
— Que tipo de acordo? —quis saber. Sua vontade era de dar-lhe um murro na cara.
— Esse Arnie Austin. Você quer pegar ele, e precisa de mim. Pois bem... A recompensa por esse sujeito é absurda! Eu te ajudo a não morrer, a livrar a pele do Sr.Krum, e em troca fico com setenta por cento da recompensa pela captura dele.
Eles estavam muito perto da morte, com mais sujeitos armados se aproximando pelo corredor, e a única coisa que Rony pensava era em dinheiro? Avaliou, chocada. Não era apenas pela ótima pontaria que ele havia se tornado um mercenário completo.
— Você pode ficar com todo dinheiro. — disse-lhe estufando o peito, cheia de orgulho... E de raiva.
—Perfeito! — exclamou satisfeito.
Um tiro transpassou a porta do quarto. Estavam cercados mais uma vez. Rony caiu para trás da cama, a arma em punho.
— Vem pra cá! — gritou para Hermione, parada ao lado da janela.
A morena olhou para baixo, avaliou a queda que a esperava a muitos metros abaixo. Podia ser a salvação deles, um modo de fuga.
— Não. Me siga você! — e dizendo isso abriu a janela e se jogou.
***
Rony Weasley ficou paralisado. Na verdade catatônico. Os tiros no corredor se tornaram mais agressivos e em breve a porta não aguentaria e arrebentaria. Não era possível que tivesse visto Hermione pulando a janela...
Uma agonia a muito não experimentada oprimiu-lhe o peito. Levantou-se e correu para janela, esperando ver a pior cena da sua vida, esparramada lá embaixo. Mas então ele sorriu, e suas pernas vivenciaram a onda súbita de alívio amolecendo depois do susto, ao vê-la sair de dentro de um amontoado de feno na caçamba de uma carroça e assumir o assento do cocheiro, no veículo. Olhando para cima ela acenou para ele pular.
Sim! Anuiu. A rua naquele ponto estava quase deserta, esse era o único modo deles fugirem. Transpassou as longas pernas pelo lado de fora da esquadria e se jogou para o amontoado de feno.
O tempo havia passado, mas Hermione Granger ou Krum, ele preferia não pensar muito nisso, continuava esperta como uma raposa.
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