Black Jack

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Notas iniciais
Pessoal, me desculpem o tamanho do capítulo, mas ele é frenético e impossível de se dividir. Espero, sinceramente, que gostem! Beijos!

Alguns locais na Terra não pertencem ao homem. São muralhas indomadas, muito sucintas, mas bem perigosas quando resolvem mostrar suas garras. Os quatro elementos parecem se unirem num balé sinérgico para protegerem-se contra um predador voraz: o ser humano. Os ventos deslocam cumes, as pedras lançam-se sobre carroças, a água se retraí para dentro do solo tórrido, e a terra se faz de morada para animais ariscos nascerem e se fortalecerem.

Em algumas ocasiões, a ganância sempre o principal argumento, faz com que as pessoas esqueçam-se do medo perante as coisas selvagens. Elas se submetem sobre os desertos e tem somente uma saliva ávida por poder, escorrendo pelos cantos da boca. Bolos compactos de ambição e individualismo vão entupindo suas almas. Nesses momentos a natureza torna-se mais revoltada do que nunca, e recomeça seu sinergismo voraz.

Entrementes, ela se sente regozijada, aprecia, e até da uma trégua em sua fúria, quando é para ver os homens, entre eles, se matarem.

Ao se aproximar do campo de mineração de Doldrums, Hermione notou como a natureza estava silenciosa por todo o redor, como que de luto ou mesmo chocada pelas coisas que estavam acontecendo ali. Porém, não queria dizer que tudo estava quieto pelas planícies. Os tiros começaram a ganhar o alcance de sua audição há quase um quilometro de distância do foco do conflito. Curiosamente, o estopim da pólvora criava anseios opostos dentro dela. Torcia, mas também não desejava que aquele dia chegasse.

Sua trajetória até o vale fora extremamente extenuante. Desde que saíra de FarWay, somente com algumas coordenadas amadoras de como se orientar até o conflito, ela teve de tomar conta de si. Como descobriu que a caravana de guerrilheiros pegaria o caminho mais longo, não pôde segui-los. Assim, dias incertos nasceram e morreram, e as atitudes firmes tiveram que dar destaque sobre as ações fracas. Hermione nunca sujava as mãos com a morte quando Vitor trazia carne fresca para o jantar. Seu passado de caçadora havia sido algo pertencente a sua infância, até aquele momento. Para se alimentar, caçou lebres e gambás na ausência da luz, rastreando seus ninhos e matando seus filhotes com as próprias mãos, ou com algumas faquinhas de lâmina cega.

Para ficar longe da civilização e dos perigos de ser reconhecida, mergulhou por desfiladeiros, cortou caminhos mais penosos, e experimentou uma miscelânea de ameaças selvagens – o vento, os animais, as baixas temperaturas — nas noites de reclusão e viagem pelo miolo do deserto. Nem se reconhecia como a mulher acuada de pavor, passando por locais soturnos na companhia de Hagrid, muitos dias antes.

Aquilo já contava mais de um mês.

Com todos os problemas reais e imediatos que tinha de enfrentar, ainda encontrava tempo para pensar em Krum. No acalento do casamento, na volta para casa e sua vidinha tão simples, aconchegante... sem grandes atrativos. Uma vida boa. Esses devaneios faziam parte do seu dia.

À noite, quando o medo se multiplicava por cem, e ela tinha de acender uma fogueira para não ser devorada por feras, ainda que temendo ser um ponto bem visível na escuridão pelos seus inimigos, era, agarrada a sua Smith&Wesson calibre 31, que Hermione pensava em Rony.

Ele não havia mudado em nada.

Sempre ações impulsivas e desrespeito pela opinião alheia. Covarde, fugindo igual ao adolescente de quinze anos antes, dos seus deveres para com ela. Sua falta de escrúpulos cresceu assim como seus músculos. Para que informa-la dos planos em mente, enfrentando as consequências e um provável “não”, se podia passar-lhe uma rasteira deslizando pela porta dos fundos?

Obviamente, naquelas noites todas de reflexão, a morena teve certeza de que o destino daria um jeito de separa-los novamente se todo aquele drama envolvendo McLaggen e Vitor não tivessem se encarregado de afasta-los. Era impossível fomentar sonhos ao lado de Ronald Weasley.

Contraditoriamente, por algumas noites, em seus agitados sonhos, idealizou como estaria agora se casada com ele. Viu uma casa grande, muitos filhos de cabelos ruivos e um marido trocando a arma pela pá de arar terra. Sonhos. Ela não podia dar filhos a nenhum homem, e Rony só largaria suas pistolas quando estivesse morto e enterrado num caixão de pinho.

Quando mais um dia de cavalgada chegou, e ao final dele uma montanha recortada no horizonte lhe disse que Doldrums se aproximava, Hermione apertou as rédeas do cavalo e deixou que seus tremores por Rony voltassem a se aproximar. Somente ele para leva-la ao centro de uma guerra. E já que estava ali, não havia como recuar mais.

Avançou com cautela em cima da égua que conseguira emprestado com o prestativo Teddy. Vinha criando um caminho de migalha, uma coleção de favores a cumprir e devolver, por onde passava. Trotou mansamente até a crista do vale e teve uma vista panorâmica de tudo lá embaixo, muitos metros longe. Dentro dos lúgubres e repulsivos paredões do acampamento da mina de carvão, um cheiro de pólvora pairava sobre os ares. Havia outros odores que se misturavam ao dos disparos desesperados e cheios de ódio: A adrenalina, o medo incalculável que brotava da pele de cada guerrilheiro em meio aquela batalha.

Jamais se imaginou em meio aquela atrocidade. Seus sentidos tornaram-se aguçados, a garganta se retraiu de tensão, e teve que estar muito determinada para descer com o cavalo por um terreno menos vertical, que surgia à direita. Se lhe perguntassem, diria sem nenhuma vergonha: estava morrendo de medo.

As balas de uma arma nunca passavam tão perto dela como ultimamente, mas num campo de batalha a chance de ser acertada por uma capsula perfurante era infinitamente maior. O terror também era triplamente amplificado. Hesitou em recuar quando viu um pequeno pelotão de rapazes afoitos, recarregando suas escopetas e as disparando desajeitadamente contra o outro grupo de inimigos. Talvez a Hermione do começo daquela jornada realmente desistisse da ideia estúpida de emprenhar-se numa guerra e voltasse para trás. Mas não, está que estava escondida atrás da pedra, com medo, mas com bravura, já provara sua insanidade ante ao perigo quando fora recrutar um ex-namorado mercenário.

À medida que seu cavalo avançava, os cascos bambos entre as pedras cada vez mais íngremes e lisas, ela sentia mais desespero. Corpos se empilhavam para todo o lado. Nunca vira tantos homens mortos em tão pouco tempo... e tão amontoados. Havia rostos desfigurados, peitos cravejados, pernas destroçadas, e gente viva gemendo de dor embaixo de pilhas de gente morta. Em todo e cada combatente, tinha medo de deparar-se com Rony, mesmo sabendo que ele era bom demais na pontaria para sucumbir logo na orla do campo de guerra.

Era noite, pela sua conta já passavam das oito, mas a morena conseguia enxergar bem na escuridão. Todos os seus sentidos estavam apuradíssimos. Em determinado trecho teve de descer do cavalo e decidir avançar com mais lentidão. Colocou uma pequena trouxa com poucas roupas e alguns instrumentos do seu kit sobrevivência durante a viagem nas costas, e deixou o animal ali. Teddy teria de se contentar com outra montaria, esta estava fadada a outro dono ou, quem sabe, a vida selvagem. Seus pertencem de valor haviam ficado em FarWay, sob os cuidados de sua mais nova amiga, Janette.

Olhou para a clareira do vale e levou as mãos aos lábios, sabendo que aquela seria uma tarefa árdua, com riscos de não ter volta. Acampamentos de lona em ruínas pegavam fogo, homens gritavam e atiravam para todo lado, e no centro de tudo, a entrada para mina de carvão era protegido com tiros e sangue por um pelotão de americanos inexperientes, mas cheios de bravura. Ela supunha que dentro da mina muitos outros já deviam ter matado, furado a barreira e estendido o conflito lá para dentro.

Hermione vestia calça escura, um colete de couro, camisa e chapéu. Com esse vestuário padrão, tinha consciência que, na luz traiçoeira da noite, poderia ser confundida tanto como um americano quanto como um mexicano. Bem provável que levasse uma bala de seus próprios conterrâneos por estar com um rabo de cavalo saindo da nuca. Agir nas sombras, quase sem movimentos, era sua melhor opção. Começou a andar quase agachada.

Um grupo de mexicanos gritando e exasperados, correu cinco metros de onde ela estava e foi se esconder atrás de algumas rochas tomadas por cactos. Com suas carabinas começaram a alvejar um grupinho de americanos muitos metros abaixo.

A reação natural da morena foi cair estatelada no chão. Se ficasse agachada, seria notada por eles e em poucos segundos viraria uma peneira sem vida. Completamente com o rosto no solo, arrastou-se, usando os braços como alavancas, milímetros por minuto, até um ponto mais seguro: uma vala fedorenta e cheia de corpos ensanguentados, onde seria quase invisível. Dali pegaria uma trilha pouco explorada pelos guerrilheiros, que levava até os fundos do acampamento lá embaixo.

O arrastar de poucos metros, demorou mais que quinze minutos para ser percorrido, tamanha era a cautela e o medo pela sua vida, que Hermione temia. Foi esfregando e ralando os joelhos, machucando o rosto, ficando inteira coberta de terra e das sujidades da guerra. Quando chegou a vala, foi obrigada a mergulhar num mar de homens mortos. Prendeu a respiração, mas não conseguiu fazê-la por muito tempo. O cheiro repugnante de sangue coagulado e carne sem circulação veio até suas narinas.

Começou a lacrimejar, tendo dentro do peito um leque de sentimentos destrutivos. Abriria mão de muitas coisas somente para não estar vivendo aquilo. De repente, ainda se fingindo de morta, sentiu algo se aproximar. Fechou os olhos, cravou o rosto na terra, e mesmo sem querer, deixou os músculos mais moles para que parecesse mais um cadáver na pilha.

Ouviu um som gutural vindo da garganta de uma fera irracional, um rosnar que vibrou dentro de seu próprio tórax, fazendo com que mais doses de desespero fizessem-na choramingar em silêncio para que tudo desse certo. Logo, outras feras passaram a sua direita, levantando consigo o odor pungente da adrenalina de um predador carnívoro. Quando sentiu que eles haviam se afastado, ergueu a cabeça muito lentamente e entreviu, com o coração descompassado, dois imensos coiotes, caninos carniceiros e aspectos letais, arrastando dois corpos para uma fenda escura dentro da rocha.

E outros mais vieram.

Ela novamente enfrentou o pânico, baixando a nuca de encontro a terra dura. Eram camadas de armadilhas suntuosas das quais tinha de ultrapassar. Poderia ser a próxima presa daqueles caninos ou a próxima vítima do grupo inimigo. Um a um, ouviu cadáveres de pais, filhos e netos desaparecendo para um covil estreito, onde seriam completamente devorados, nunca mais deixando rastros de seus corpos na Terra. Quando percebeu que enfim, as feras já tinham selecionando homens suficientes para seu banquete depravado daquela noite, foi que conseguiu voltar a se mexer. Suas pernas formigavam demais.

Estava trêmula, perturbada, quase como uma personagem saída de um conto de horror.

Uma espiada para cima a fez confirmar que o grupinho de mexicanos tinha se reduzido a um único homem, afoito em proteger a trincheira e sua vida. Ele estava ocupado demais, lutando por alguns minutos a mais respirando, para nota-la se movimentando um pouco mais ativamente agora. Os americanos dos quais combatia, também se transformaram em apenas dois rapazes despreparados.

“Que sentido havia naquilo tudo?” ela se perguntou antes de sair da vala, agora ensanguentada, cheirando a morte e também e com as pernas feito borracha. “No fim todos morrem e ninguém fica com nada.”

A perseverança nas articulações voltou, e deslizou até a trilha, sempre andando de cócoras e ouvindo o grito flamejando dos combatentes ávidos. Vez por outra uma bala passava muito perto de seu corpo, tinha certeza que não estava sendo vista por ninguém em especial naquele breu, mas muitos americanos atiravam a esmo pelos quatro cantos do vale para que nenhum mexicano se esgueirasse até eles.

Quando desceu até o fim da trilha e alcançou o acampamento pelos fundos, estava arfando. Escondeu-se atrás de um morteiro quebrado enquanto calculava como tinha de ser sua rota, impregnada de pessoas, até a entrada da mina.

Ele surgiu inesperadamente.

Era um rapaz alto, colete azul marinho, olhos verdes e em alerta, um americano. Talvez um daqueles rostos muito jovens da festa em FarWay. Ele quase a cravejou naquele instante, mirando sua espingarda direto contra o peito dela. O extinto a fez retirar o chapéu rapidamente, mostrando seu rosto feminino, também nortenho, para que pudesse ter certeza de que não era um mexicano. A visão de uma mulher ali, no meio daquela carnificina, pareceu o deixar mais atônito do que antes. O importante foi que ele abaixou a arma, analisou-a ainda parecendo querer respostas, e resolveu partir, acenando com a mão como se lhe desejasse boa sorte.

Sem olhar para trás, correu para o centro de uma grande trincheira a esquerda, deixando Hermione lívida.

Ficou olhando-o se distanciar, zonza pelo susto, mas algo aterrador fez o medo ir embora. Uma bomba lançada pelos inimigos se deslocou para a grande trincheira levando uma dezena de rapazes a voarem pelos ares.

Chocada, assistiu por segundos, um tempo que lhe pareceu eterno, criaturas humanas aos pedaços, gritando e pegando fogo por todos os cantos. Mas Hermione nunca fora de ficar olhando. Num surto de loucura, se lançou correndo e tropeçando, para prestar algum auxílio. Por instante esqueceu-se de sua função ali, esqueceu-se de Rony, de Vitor, dos motivos, e se concentrou apenas no seu lado mais humanitário.

Outras bombas começaram a voar para a clareira, mais gente gritando, se desfazendo em pedaços e Hermione somente pensava em ajudar o rapaz que lhe poupara a vida, segundos antes.

Ela ajoelhou-se até ele, ficando nada menos do que horrorizada por ver que aquelas pernas sãs que antes correram para uma luta indômita, não estavam mais lá. Os mesmos olhos verdes alertas miraram-a bem no fundo dos seus, e seu olhar era um mistério. Não tinha dor neles, era pior que isso. O jovem estava confuso e profundamente assustado. Era um rasgo na alma supor o que estava pensando naquele instante.

A reação natural dela foi segurar-lhe pelas mãos, e por um segundo viu o rosto de seu marido, como naquela noite infernal, no lugar do precoce soldado.

Apertou com mais força seus dedos, e as palavras saíram sussurrantes de seus lábios.

— Tudo vai ficar bem.

Ele continuou a observa-la confuso e confuso, mas sem emitir um som.

Cada novo avaliar pelo que restara do corpo dele era uma nova descoberta chocante. Na barriga, através de um buraco grande suficiente para poder abrigar uma maçã farta, muito sangue se esvaia. Novamente o destino à fez ter em total vulnerabilidade nos seus braços, um homem agonizando. Sem nenhum receio ou nojo, fechou os dedos num punho cerrado e tentou estancar o ferimento com a própria mão. Dentro do machucado era muito quente e pastoso, mas em breve todo aquele calor o abandonaria.

— Vai ficar tudo bem. — acalmou-o, limpando suas próprias lágrimas com a mão livre.

— Diga para minha mulher... q-que o dinheiro está debaixo do celeiro. — ele enfim resmungou.

— Como? — ela começou a achar que o pobre já estava era delirando.

O rapaz respirou fundo, como se tivesse corrido uma maratona em poucos minutos, e tentou dizer algo. Simples palavras já lhe pareciam tarefas árduas.

— Eu escondi... Fui mal... Não queria que fosse... Que fosse...

Hermione apoiou sua cabeça em seus joelhos. Ele se acomodou, quase fechando os olhos. Uma golfada de sangue escapou pelos seus lábios. Toda aquela cena era surreal.

— Não tente falar! Você terá tempo e saúde para lhe dizer isso. — pediu-lhe, num acesso irreal de otimismo.

Não havia o que ser feito. O soldado, quanto tantos outros, estava morrendo, sem metade do corpo. Seus sangues se confundindo e misturando com a terra bruta do vale eram os pagamentos que a natureza comprava por estar sendo usada como palco para todo o terror do conflito.

— Diga que não fiz.... por mal.... pareceu... m-mas.... não...

— Não diga nada.

Ele ergueu uma das mãos e tocou o rosto dela. Seus dedos manchados de sangue a tocaram com ternura. Assim como ela reconheceu Vitor nele, segundos atrás, agora tinha certeza de que ele estava vendo outra pessoa no semblante dela. Dos olhos a confusão sumiu, e uma docilidade invadiu-os. Para o jovem soldado, não era Hermione que vinha lhe velar a morte.

— Eu quis que sofresse, mas não foi por mal. Pegue o dinheiro... pegue todo ele e crie nossa filha.

A morena pensou em dizer algo, trazê-lo para a consciência, mas talvez fosse crueldade roubar os segundos de vida finais daquele homem com qualquer verdade. Ela também poderia perguntar seu nome, quem era sua mulher, onde encontra-la, mas isso demandaria tempo, energia e lucidez que ele não possuía mais. A coisa mais humana que encontrou para fazer então, foi:

— Tudo bem, meu querido. Vou pegar o dinheiro e esperaremos por você, eu e nossa filha. — acalentou-o num leve cafuné.

O jovem sorriu muito satisfeito, e num último lampejo naquele mundo, admirou-a cheia de significância, antes de morrer em seus braços.

Foi necessário uma saraivada de bombas, lançadas próximas dela, para tira-la daquele torpor melancólico, despertando-a para o mundo caótico ao redor. Uma observada panorâmica na direção da mina, a fez enxergar o local todo desprotegido. Os homens que tomavam conta da entrada estavam mortos e uma legião sedenta de mexicanos corria do ponto extremo sudeste do vale, para a clareira de mineração.

Hermione tinha de agir rapidamente agora. Seus pressentimentos firmavam a mais absoluta certeza de que Rony não estava ali fora, mas nas cavernas escuras da mina, talvez até lado a lado com o tal contato. Embora houvesse grande chance de ficar presa dentro daquele labirinto cavernoso sem encontrar nenhum deles, tinha de arriscar.

E o instante era o ideal.

Tirando a mão de dentro do ferimento do rapaz e o depositando sobre o chão com cautela, começou a correr para chegar à entrada da mina, antes daquele pequeno exército de invasores. Suas pernas não a decepcionaram, e mesmo quase sendo pega por dois disparos, conseguiu se esgueirar para a gruta.

O clima imediatamente se tornou mais denso e abafado. Sofrendo um pouco pela falta de ar, ela apoiou as mãos nos joelhos e se permitiu respirar avidamente por alguns segundos. Sem tempo a perder, voltou a correr através de um corredor muito escuro e irregular. Não sabia aonde aquilo ia dar, mas não era mais possível voltar. Os ecos de tiros e gritos vinham logo ao seu encalço. Avançou ainda mais rápido, mas foi obrigada a parar abruptamente ao escutar uma sequencia de recarregar de armas. A luz de uma tocha se acendeu, Hermione espremeu os olhos para proteger-se da claridade instantânea no meio do breu. De repente, quando conseguiu focalizar algo, deu-se com um paredão negro e cinco canos de espingarda voltados para ela.

Ergueu os braços para o alto, deixando sua Smith & Wesson cair com um estrépito nas pedras. Um dos portadores das armas deslizou para fora da nesga escuridão e a fitou minuciosamente.

Um alívio perpetuou-se em seus músculos ao reconhecer o colete azul marinho.

— Sou americana! — exclamou alarmada.

— O que faz aqui... mulher? — disse o soldado usando espanto e desprezo na última palavra.

Mais nortenhos saíram das pedras rochas entrando no foco de luz da tocha acessa.

— Estou procurando Ronald Weasley. Ruivo, alto, pele muito clara. Ele está aqui dentro, não está?

— Ronald.... — um olhou para o outro, pensativo.

Não demorou a um deles associar a descrição a pessoa.

— O ruivo bom de mira, senhor!

— Oh, claro... — ele pareceu momentaneamente impressionado com alguma lembrança — Pois então, ele passou faz mais de uma hora.

— Passou para onde? — sua garganta ficou apertada.

— Tem mais conflito lá embaixo.

— Você também está atrás do Haytham? — outro soldado perguntou

— Haytham?

— Seu amigo está atrás de um dos nossos oficiais, que está no meio de um grande conflito lá embaixo. Há bifurcações por todo o lado nessa mina velha, seus malditos mexicanos entram como formigas. Veio atrás dele, suponho?

— Ah sim... Olhem, eu preciso ir... — após perguntas respondidas, não tinha mais tempo a perder.

— Ei, é perigoso.

— Perigoso é vocês ficarem aqui de conversa comigo. Sabem como eu entrei?

As carrancas daqueles homens não a assustaram.

— Eles já furaram a barreira que vocês fizeram no início da caverna. Tem centenas, correndo aqui pra dentro nesse momento.

Imediatamente os sujeitos pararam de se importar com Hermione. O que parecia ser o líder deles ordenou para cada um armar seus postos. Correram para montar, numa sincronia eficiente, um rastro de dinamite no corredor adiante. A seguir a tocha foi apagada e ela teve de voltar a acostumar os olhos com a franca escuridão.

— A passagem é por ali. — ouviu o sussurro do líder informa-la. Sua silhueta apontava por uma fenda muito pequena atrás da rocha onde estavam a postos. Pegou a arma dela do chão e lhe entregou. — Tente ter cautela, porque tem muitos deles . E espero que saiba usar isso.

— Eu também. — disse Hermione trêmula, entrando pela fenda.

***

Escondido dentro de uma plantação de trigo, um casebre pouco estruturado se erguia penosamente. A sinfonia fora do tom de meia dúzia de galinhas cacarejando pelo terreiro, trazia um clima de calmaria à pequena propriedade.

Em breve, aquela paz seria quebrada.

Eles encontravam-se agachados no meio da plantação. Vieram em cavalos separados, e os amarraram muito metros antes de ficarem no foco de visão do casebre. Serpentearam o mato até pararem próximo do alvo. Eram três homens, rapazes na verdade. Um robusto e alto, um magricela e desdentado, e um terceiro, mais bem aparentado que os demais, e definitivamente melhor na pontaria.

Terrence, Andy e Ronald estavam diante de seu primeiro trabalho como mercenários sem a ajuda do bando mais experiente. Embora se gabassem do ofício que já jovens exerciam — ninguém ali completara dezoito anos ainda -, a angustia de que algo desse errado estava presente neles.

—Esse serviço não tem segredo. O xerife disse que a grana é boa. — Terrence sussurrou, enquanto eles recarregavam suas armas no mato — Nós só temos de entrar na casa, colocar eles nos cavalos e buscar nossa recompensa quando entregarmos os meliantes.

Um mau presságio assolou Rony. Não queria pensar, mas, sem alguém mais velho e experiente por perto, a confiança parecia abandona-lo. Sua mão tremia um pouco enquanto enfiava uma a uma, as balas de sua pistola no tambor. Era o único que utilizava uma arma pequena, pois esta precisava de mais habilidade perante o alvo. Quanto terminou de carregar o tambor, ocultou as mãos dentro do casaco. Tremiam loucamente.

Como teria mira, agindo feito uma menininha daquela forma? Repreendeu-se em pensamentos.

A ambição brilhava nos olhos dos seus companheiros. Os conhecia desde a caravana pela cabeça de Tom Riddle, logo sabia de seus modos estabanados e da ganância que vinha na frente da ação em si. Dentre eles, o único que já atirara em um ser humano fora Terrence, embora o homem já estivesse meio morto naquela ocasião.

Toda a habilidade de Rony vinha de abater animais e treinar alvo em embalagens de bebida. Jamais contra uma pessoa. O momento um dia chegaria, afinal ele estava escolhendo ser um mercenário, entretanto torcia para que não fosse em instantes que teria de provar sua mira.

Os larápios dentro do casebre não pareciam tipos que saíram num conflito armado com eles. O xerife lhes disse que eram, apenas, quatro miseráveis que angariaram uns trocadinhos assaltando o singelo posto de correspondências. Muito provável que nem tivessem armas suficientes para reagirem.

— Hora de agir! — disse Terrence, vendo que Rony e Andy já estavam prontos.

Rony virou de costas para os companheiros e contornou por trás da casa. Algumas galinhas vieram ciscar perto dele, mas continuou bem parado embaixo da janela, tentando escutar o momento do qual deveria agir.

Terrence e Andy cobriam a frente. Arrombariam a porta principal com tudo e abordariam os bandidos, que estavam numa mesa, na sala. Uma vez que suas armas estivessem rendendo-os, Rony entraria em ação, surgindo pelos fundos para se certificar de que nenhum deles tivesse ou tentasse escapar por aquela área.

Contudo, o plano falhou.

Escondido atrás da janela, Rony aguardava o tranquilo som de calhordas se rendendo. No lugar disso o que escutou foram fortes estrépitos, correspondente a armas sendo descarregadas. Seu coração gelou. Retirou sua Colt do suporte e deu um chute na porta podre que guardava os fundos. Entrou tropeçando por um corredor incerto, e contou mais três disparos.

A coisa saiu do controle! Como foi sair do controle?

Quando chegou a sala, a arma apontando para todo lado e o desespero a mil, sentiu o terror abater-se sobre si. Cinco homens agonizavam e morriam no chão de madeira. Andy e Terrence estavam entre eles. Verificou se existia chance para algum dos companheiros, mas obviamente que com um tiro no meio da testa e um tórax cravejado por uma espingarda, não havia volta.

De alguma forma, os cretinos descobriram que estavam sendo emboscados e já esperavam pelo ataque. Talvez, sua própria equipe fora ineficiente no processo de cercar a casa.


Rapidamente Rony fez as contas, faltava um dos criminosos ali. Esse foi o tempo que ele teve de virar para esquerda e desviar de um disparo vindo da direção das escadas. O quarto havia escapado para o andar de cima. Ódio e medo tomaram o formato de vingança e jovem mercenário viu-se numa obrigação moral de assassina-lo por honra. Não se importava mais com a recompensa, não entregaria aquele canalha vivo!

Rony subiu as escadas devagar, tomando todo o cuidado para que os degraus não rangessem. Com a respiração suspensa, pairou sobre um pequeno hall que dividia os quartos. Nunca havia matado ninguém, mas confiava no seu treinamento e na sua obsessão vingativa.

Esgueirou-se pela parede da direita e arriscou uma olhada para o cômodo lá dentro. Viu uma cama quebrada, um par de sapatos empoeirados e um armário sem portas. O assoalho rangeu do lado o oposto e ele teve de mergulhar no chão para não levar tiro. Levantou-se sedento de raiva e correu para o cômodo a esquerda, dando um disparo a esmo. Quando chegou até o segundo quarto, viu um homem jogar-se da janela sem titubear.

Enfurecido, Rony saltou junto com ele e, sem muito racionalizar, atirou contra as costas do sujeito até descarregar toda a munição do tambor, quando chegaram no chão.

Após o último disparo, a pequena propriedade foi tomada pelo silêncio novamente. As galinhas voltaram a cacarejar no terreiro, a plantação de trigo não escondia ninguém, e Rony podia ouvir, inclusive, o canto dos grilos.

Mais trêmulo do que no início, se aproximou de sua primeira vítima e virou seu corpo. Era um garoto que deveria ter a mesma idade dele, dezessete anos. Seus olhos se cruzaram com os do assassino numa melancolia e confusão plena. Respirou meia dúzia de vezes e morreu de olhos abertos.

Com as mãos ensanguentadas e um vazio indizível dentro da alma, Rony largou sua pistola no chão. Caminhou letargicamente para o poço adiante e começou a lavar os dedos, as mãos, os braços, o pescoço, com aspereza e fúria.

De repente, percebeu que estava chorando.

***

Um labirinto traiçoeiro fedendo a pólvora, era assim que a mina de Doldrums podia ser definida. Hermione foi obrigada a caminhar pelas valas novamente. Ao atravessar a fenda, deparou-se com uma passagem irregular de trilhos de ferro onde por toda sua superfície, uma batalha sangrenta acontecia. Só ficaria invisível se andasse por debaixo desses trilhos, e foi isso que fez. Pisando em corpos e mais corpos, vez por outra, sentia algo se mexendo e queria acreditar que eram os animais mais peçonhentos das cavernas, do que gente meio morta, meio viva.

O tempo todo levava a arma na mão. Vigilância constante.

Atravessou mais fendas, desviou de mais batalhas e até de algumas balas, mas preferiu se manter neutra, e jamais atirar de volta. Ao passar por cima de amontoado de rochas que parecia ter sido um pedaço do teto que havia desabado, viu uma trincheira armada do lado direito. Desceu arrastando as nádegas pelo chão e acabou esbarrando num mexicano, mais um que primeiro mostrou surpresa por estar diante de uma mulher. Agarrou-a pela mão. Hermione rodopiou com força e se soltou, logo um disparo certeiro arrematou a cabeça do homem.

Outros prestaram atenção nela, talvez fossem uns sete, e começaram a correr em sua direção. Hermione pulou várias pedras, jogou alguns contra eles, mas ficou abismada ao ver que todos iam tombando a medida que se aproximavam. Um pistoleiro misterioso agia da caverna muito escura, logo à frente. No fim, só sobrara um sujeito que foi nocauteado pelos braços ágeis da morena em desferir-lhe uma pedra bem no meio da testa.

Hermione correu para a caverna de braços erguidos. Devia ser um pelotão de americanos, escondidos no negrume como lá no início da mina.

— Sou americana!

Imprevisivelmente, Rony veio à claridade na companhia de mais três soldados. Suado e muito sério, mas com certeza nem perto do estado visual deplorável dela.

— Mas que merda você está fazendo aqui ? —ele berrou, irado.

Podia-se ouvir mais homens se aproximando pelo lado oposto da caverna. O grupo pequeno, dois jovem soldados e um mais velho que parecia ser o comandante, pararam um pouco com a vigília para prestar atenção naquele pequeno conflito.

— Eu disse que te acompanharia. — ela respondeu secamente. — Ele é o tal contato? —Apontou para o sujeito mais velho.

— Ela é a moça indefesa que Arnie está ameaçando? — Ele também perguntou a Rony.

O mercenário ficou meio confuso, mas logo a cólera voltou a transborda-lhe no olhar.

— Ele gosta de me deixar de fora das coisas. — Hermione continuou — E então, senhor, onde está o homem?

— Eu já tratei disso com ele. — o ruivo se intrometeu — Mas que droga! Não era para estar aqui!


— Mas estou. — cruzou os braços e virou-lhe a cara.

O conflito que não dava uma trégua, recomeçou. Corjas de inimigos espreitaram eles e os atacaram. Os oficiais menores caíram, provavelmente mortos. Haytham, o contato, sofreu um severo tiro do abdômen e tombou para trás de uma pedra. Rony ficou alerta e avançou sobre o sujeito que atacara o oficial, com a pistola muito bem preparada.

Confusa na encruzilhada daquela troca de tiros, Hermione foi rapidamente abordada por um mexicano que agarrou-a numa chave de braço.

— RONY! — foi seu grito por socorro, instintivo.

O ruivo se virou imediatamente para ela, abaixando a guarda pela direita e, por consequência, levando um tiro certeiro no ombro. Ele escorregou contra as pedras, mas a queda e o disparo não foram o suficiente para inutiliza-lo. Com uma rapidez impressionante matou o homem que a pouco o havia alvejado. Então apontou o cano, certeiramente, para quem segurava Hermione e o abateu também. Por fim, terminou de eliminar o restante do grupo, mesmo caído e machucado.

— Merda!!!! — enfim, encontrou tempo para tocar onde fora baleado, e praguejar.

A morena correu para acudi-lo, mas foi duramente repelida.

— Saí de perto de mim e vai ver como o Haytham está!

Obedeceu, notando o quão sério era o momento.

— Ele morreu...

O mercenário levantou um pouco zonzo. Sangue esvaia-se pelo seu ombro.

— Vamos sair daqui. — ordenou, ainda mais sério do que antes.

— Mas...

— Me acompanha, e rápido!

***

Eles encontraram um modo de saírem da mina, como sempre, mesmo machucado, Rony tinha aquele dom, aquela malícia, de conseguir se livrar de tudo. Pegaram uma carroça abandonada em uma das cavernas e seguiram para longe do conflito. Para o leste.

Em nenhum instante, o ruivo deixou que ela avalia-se o ferimento. Pelo contrário, cada vez que olhava para ele, suas expressões estavam mais e mais fechadas. Estava querendo jogar na cara dela, Hermione supunha, de que ela tinha sido a culpa pelo ombro machucado e oficiais mortos, dentro da caverna. Também recusara-se a deixar que ela guia-se o veículo, e lutou bravamente contra o mal estar que deveria estar sentindo, por conta do sangue que perdia.

De vez em quando tombava molemente de um lado para o outro, letárgico e macilento, porém era somente a morena ameaçar tocá-lo, para pôr-se firme e resmungar para manter distância.

Hermione sentiu-se intimidada pela aspereza dele. Sua zanga era algo profundo. Em nenhum momento colocou fé de que ela fosse atravessar cânions para chegar até ele. Somente isso era motivo suficiente para abalar a estrutura do seu orgulho.

Em hipótese alguma, ela se via sentada no banco dos réus. Agiu como prometera a si desde que partira do hotel de Harry, iria encontrar Arnie Austin pessoalmente. Também tivera sua cota de sacrifícios e sofrimentos por causa do ex-namorado. Nem a vala cheia de coiotes, nem as balas de raspão, muito menos o pobre soldado moribundo, nada disso teria de passar se não fosse por Rony.

Seu espírito estava pesado por tanta violência, mas sua consciência limpa.

Após duas longas horas de cavalgada, um celeiro abandonado surgiu magicamente diante deles. Estava tomado por um matagal arredio, o que seria um disfarce ideal para esconder os cavalos.

Saíram do transporte e entraram no abrigo sem trocarem uma palavra. Havia um laguinho perto, o que foi um ótimo motivo para deixar o mercenário sozinho com sua zanga, e ir se lavar-se. Entrou na água, banhou-se repetidas vezes, somente saindo quando a última crosta de sangue havia sumido de sua pele, e vestiu uma muda limpa de roupa.

Quando voltou para o celeiro, Rony já havia encontrado um lampião e acendido uma fraca luz dentro do aposento. Ele estava sentado num fardo de feno, encarando a noite através da janela. Parecia melhor. Rasgara a manga da camisa e fizera uma atadura no ombro. O forte cheiro de bebida anunciava que ele também já se encarregara da desinfecção.

Hermione não podia adiar suas perguntas, aproximou-se dele e disse:

— Conseguiu descobrir onde Arnie está? — Ele apenas maneou a cabeça, sem olha-la. — Como está o ombro?

— Saí de perto de mim. — desprezou-a.

A paciência da morena só foi até ali. Ronald havia conseguido romper a barreira da compreensão que restava nela.

— O que há?! Quem tinha de estar irada era eu! Me abandonou com um bilhete cretino em cima da cama, sabendo que eu queria estar presente durante toda a busca! Porque resolveu sair sem meu consentimento?

— Ainda me pergunto por que fui me meter nisso tudo. — virou-se para ela e lhe apontou o dedo.

— Ainda está em tempo de sair! — ela controlou-se para não berrar — Me diga onde esse maldito está, vou procurá-lo e mata-lo sozinha. Quanto a você, Ronald, pode retornar pro seio da sua cidade imunda. Vocês dois tem tudo haver!!!

— Oh, desculpe. — num gesto teatral, levou as mãos ao tórax — O paraíso onde você mora com seu marido viciado em jogo, é cinquenta vezes melhor!

Ela arregalou os olhos, indignada.

— E é mesmo! A melhor coisa que um homem pode dar para uma mulher. Não vejo a hora voltar para lá. Para meu Vitor, viciado em cartas, não em cometer assassinatos.

O ruivo levantou abruptamente, chutando o feno longe. Olhos flamejantes de ódio. A morena não recuou.

— Toda vez que você aparece na minha vida é esse inferno! — gritou, ficando vermelho — Porque foi me conhecer, Granger?! Porque veio me procurar?

—Sua irmã ainda acha que você é um ser humano. Tenho dó, dó da Gina!

— Para de falar neles! — rugiu estufando o peito contra ela — Gina, meu pai, meus irmãos, Harry, ou seja lá qual porcaria de recursos emocionais você gosta de usar pra tentar me persuadir. Eu não tenho família! Eu não tenho ninguém, e quer saber? Eu adoro isso! Sou um homem livre, sem uma porra de mulher no meu pé pra dever satisfações.

— Claro, claro. — Hermione sorriu, debochada. — Nem é preciso frisar isso! Conheci todas as suas namoradas prostitutas quando estive no Saloon Black. Parabéns, sua família é cheia de moral e afeto sincero.

— Com certeza! — ele jogou seu chapéu longe — Nem um pouco intrometidas, dissimuladas e interesseiras! — pontuou cada adjetivo com uma dedada na direção dela.

— Que maravilha de discurso. — aplaudiu-o falsamente —Também estou de saco cheio de você...

Rony esbarrou nela com aspereza, indo até sua minúscula trouxa de pertences.

— Eu vou lhe entregar o mapa da direção onde Arnie está. E aí você, sua caça dotes de uma figa, vai sair da minha vida pra nunca mais aparecer!

Ela perdeu a cor diante daquele xingamento.

— O que você disse? Caça dotes? — berrou.

— Não fique assim, ofendida. Ser viúva é tão respeitoso quanto ser casada. E parabéns, conseguiu ser a Srta “Me dei bem com um casamento”.

— Eu te odeio com todas as minhas forças seu desgraçado, desprezível! — o desejo de gravar suas mãos nele e machuca-lo estava crescendo no coração de Hermione.

— Que bom! — Ele riu. — Tome, aqui está o mapa e o número do cofre lá no banco, para colocar a minha parte nessa droga de viagem que custou meu primeiro tiro de verdade! Só estando perto de você mesmo para ganhar tanta coisa ruim em tão pouco tempo.

Foi como provocar uma fera. Ronald estendendo o mapa, sorrindo cinicamente, dizendo tanta coisa horrível e com tanta clareza. A morena perdeu a razão. Jogou-se em cima dele e num ataque de fúria estapeou-o nos braços, no rosto e no peito.

— Enfia isso goela abaixo!

— Além de tudo é maluca! — deixou que ela aplicasse os tapas, apenas desviando dos mais doloridos.

Hermione resolveu jogar mais pesado, fechou a mão e acertou um soco com toda a força que detinha, contra o rosto dele. Rony recebeu o primeiro golpe despreparado, cambaleou para o lado, mas não vacilou quando ela tentou uma segunda investida; Segurou seu pulso com firmeza.

Ela tentou golpeá-lo com a mão livre, mas ele também cravou os dedos no outro pulso. Usou o joelho então, mirando no meio de suas pernas, quase o acertou.

***

Impaciente, ele torceu o braço dela para trás e empurrou-a contra um amontoado de palha. Seu desarme não machucou-a, não era necessário um quinto de sua força masculina para driblar os ataques de Hermione, porém ela levantou ainda mais possessa.

Empurrou-a outra vez, mas teve uma ideia muito estúpida de cair em cima dela também.

Aquela ação redefiniria novamente a relação entre eles, após quinze anos.

Por alguma razão, o ódio começou a dissipar-se. Prendendo os pulsos dela no alto da cabeça, teve mais facilidade para enganchar suas pernas contra seu quadril, travando-a.

— Todos esses anos sem olhar para sua cara foram os melhores da minha vida! — ela vociferava — Graças a Deus encontrei um homem de verdade, e te tirei da minha história, Weasley!

Já estava desestabilizado sentimentalmente quando sentiu que a tinha dominado. Linda e muito irritada, era assim que ele gostava de lembrar-se dela por todos esses anos. Seus melhores beijos quando namorados, vieram depois de discussões ferrenhas.

— É? — aquela palavra saiu meio amortecida por um conta de um carinho traiçoeiro, nebulado em suas ideias.

— É! É! É.. é...

A voz de Hermione foi perdendo força. E também seus músculos arredios que queriam se livrar dele.

— Vitor foi homem para você todas as noites?

— Vitor foi homem pra mim, todas as horas de todos os dias.

Aproximou o rosto do dela e murmurou.

— E eu? — pressionou o corpo, roçando seu abdômen no dela.

Ela remexeu-se debaixo dele. Estava o vencendo com aquele ódio todo, aquela acusação.

— Saí de cima de mim!

— Responde. — sacudiu-a de leve, depositando mais de seu peso sobre o dela — Pensou em mim? Sentiu falta de mim?

— Não...! É claro que não.

Um pouco da raiva voltou, embora o desejo tivesse conseguido, depois de muitas semanas numa luta árdua, acender suas pequenas fagulhas e aquecer os instintos primais que Rony sentia pela antiga namorada.

Ao tentar erguer o quadril, ela deparou-se com um volume implacável brotando do meio das calças dele. Recuou instantaneamente, fitando-o um pouco confusa.

— Não senti falta de você. Já disse...

Frase mais incerta, o ruivo nunca escutara. Aplacou o rosto contra a nuca dela, esfregou a barba rala na pele fina e alva, e sugou-a avidamente em seguida.

— Eu também não. — resmungou, perdido, embriagado, no doce cheiro que somente sua eterna paixão exalava.

***

Descobrir que Rony estava excitado deixou-a sem ação. Não conseguiu recuar, não conseguiu avançar, estatelou, confusa, sentido aquela boca quente violando um pedaço da sua pele. Ele soltou seus pulsos, deu-lhe a chance de interromper seus avanços, contudo Hermione não se esquivou.

Voltou quinze anos no tempo, deixou de ser a esposa de Vitor de Krum naquele momento, e viu-se nos braços protetores do seu namorado charmoso, Rony Weasley. A moral pessoal e a culpa não existiam, porque a Hermione de uma década e meia pertencia somente a aquele homem ruivo, e ninguém mais.

Rony, sim, seu Rony, ergueu a cabeça e tocou os cabelos dela com as duas mãos. Eles se fitaram brevemente, pareciam temerosos por fazer isso, porque finalmente se encaravam despidos daquelas armaduras reforçadas que haviam criado para não fraquejarem um na frente do outro. Aquele olhar, curioso e leal, ficara um longo tempo congelado em outro ano.

Ela preferiu encarar o teto do que ter de confrontar a realidade triste que os separou, e ele obviamente entendendo as razões dela, possivelmente sentindo as mesmas, concentrou-se em outra parte de seu corpo. Desabotoou a camisa leve que vestia, deixando-a com o busto nu diante de si. Passou os dedos com carinho pelo contorno dos seus seios, esfregou um dos mamilos com o polegar, friccionou-os levemente e quando ficaram empinados, mergulhou a boca por todo eles.

Hermione nunca sentiu tanta dificuldade de respirar. Nem Krum tocara seu corpo com tanta intimidade e de forma tão explicitamente excitante. Entreabriu a boca para respirar e acabou gemendo com suave agonia.

Agora precisava vê-lo nu também, abraçar a quentura arrepiada de sua pele sardenta. Num jogo rápido de pernas e braços, rolou para o lado e dominou-o em cima dele, prendendo as coxas no quadril do ruivo.

Rony acariciou seus seios ousadamente enquanto ela retirava-lhe a camisa. Não tomou nenhum cuidado com o braço machucado do rapaz, e até sentiu um leve formigamento nas partes íntimas quando ele protestou num gemidinho de dor.

— Você não é forte? — ela provocou-o, apoiando as duas mãos nele e dançando os lábios por todo o tórax desnudo.

— É claro que sou... — arfou, agarrando-a pelas coxas e erguendo-a no ar.

Hermione prendeu-se ao seu pescoço e deixou ser levada tão fácil quanto uma boneca de pano, até a parede. Uma vez lá, enlaçou as pernas ao redor do quadril dele, que a prensou com seu maciço corpo e selaram de vez a intimidade, voltando a se beijarem com paixão.

A mesma dança de línguas, a incrível profundidade comedida, o sugar instigante no lábio inferior... Era o mesmo beijo de quinze anos, tudo igual e mesmo assim ainda melhor.

Junto com o beijo, um roçar apressado começou a surgir entre suas partes íntimas. A morena fisgou-lhe no lábio superior enquanto ele retirava a fivela e o cinto de suas calças. Seu desejo continuava a crescer a cada gesto dele. Ela abriu mais as pernas, acomodadas num saiote longo, e deixou que o ruivo entrasse com seu quadril entre elas. Esperou que ele terminasse de tirar a calça, e experimentou, com muita expectativa e nenhum pudor, que seu membro começasse a penetra-la lentamente.

Latente dentro dela, avançou e recuou diversas vezes, tornando a sensação sempre e sempre mais irrefreável.

Sua mãe diria e pensaria horrores se visse Hermione se entregando e gemendo feito uma mulher da vida, nos braços de Rony. Ela não se importava mais com nada. A cada nova estocada dele, e sussurro luxurioso dela, via uma aura azul lavar-lhe a alma. Seu coração não sentia culpa alguma, estava leve como quando da vez que se apaixonara por aquele rapaz.

De todas as certezas do mundo, apenas uma era a mais real: Não estava fazendo nada de errado.

— Mione... — ouviu-o gemer. Toda a ardência necessária concentrou-se e estimulou seu íntimo ao escutar aquilo.

Saudade, Paixão, Tesão.

— Mione... — clamou por ela com mais intensidade nas estocadas.

Hermione enroscou o rosto no pescoço dele, prestes a explodir de prazer.

— Mione... — e esvaziou-se por completo dentro dela.

Um segundo depois, foi a morena que teve seu primeiro choque de deleite na vida.