Black Blade
10 Vitória
Notas iniciais
Tudo é mais intenso quando há brasas ao redor.
Ou tochas que não iluminavam a área suficientemente. Ou pessoas sentadas e de pé que não paravam de falar.
Praticamente todos no bar os observavam, muitos deles olhando para Ilsa. Ela tinha um brilho intenso no olhar, mesmo enquanto olhava para o nada e prendia seus cabelos em um coque. Ela parecia tensa, e se recusava a olhar para algo além do chão.
Seth desabotoou a camisa branca, revelando mais uma vez o pingente raro. As poucas pessoas que o observavam passaram a ser bem mais do que poucas, se apenas por seu acessório raro.
Ilsa tirava o vestido azul — que na realidade era uma blusa de cor idêntica a da sua saia — revelando um corpete preto que era mais bonito do que a blusa que ela havia tirado. Algumas pessoas pareciam babar em seu corpo, apesar de que alguns também babavam no corpo de seu oponente. Havia uma moça em particular que parecia observar tudo que Seth fazia com admiração, e ela não escapou de sua visão periférica. Era a mesma moça loira que havia olhado para ele de longe há pouco tempo atrás.
Agnip entrou no raio do ringue — que era cercado por brasas flamejantes que deixavam a área ainda mais quente.
– Quero a atenção de todos — ele começou, batendo em uma caneca de vidro com uma colher de aço para fazer um ruído que parasse o falatório. As pessoas rapidamente se calaram, talvez por causa de sua voz grave. — Quero dizer que hoje...
– Ilsa, bate nele! — Killen gritou do fundo, com a voz mais arrastada do que antes e quase nenhum equilíbrio. Agnip rapidamente virou a cabeça, dando um olhar tão gélido que todos ali sentiram. Killen não parecia se importar muito, mas Sasha puxou seu braço e deu um olhar similar, que o atingiu.
– Quero dizer que hoje, temos aqui — Agnip continuou, pegando o braço de Ilsa e o levantando para o alto — a veterana e campeã Ilsa...
Killen gritou algo ininteligível mais alto do que o burburinho da plateia, recebendo outro puxão de braço de Sasha.
– E o novato truta mole que veio de longe — Agnip apontou para Seth, que não recebeu tanto, mas ainda recebeu algum burburinho. Ah, e a moça loira que não parecia ter coragem de falar com Seth, claro.
Ele sorriu para ela, que em troca, desviou o olhar sorrindo.
– Pois bem, veterana e truta mole — Agnip continuou seu discurso, mais para Seth do que para a plateia e Ilsa. — O objetivo é não deixar o oponente se levantar por dez segundos. As regras são as seguintes: não vale chutar na pélvis de ninguém, dar soco nos seios de mulheres, pegar acessórios como colares, enforcar, puxar cabelo, jogar itens à vista, queimar de propósito ou jogar brasas no oponente. — Ilsa revirou os olhos.
– Todos nós sabemos que tacar fogo é proibido depois daquele incidente com um novato — ela disse, massageando o pescoço.
Agnip saiu do círculo, abrindo caminho entre a plateia. Os dois participantes continuavam no mesmo lugar. Ele recriou o ruído feito anteriormente, o que significava que a luta havia começado.
Ilsa e Seth continuavam na mesma distância, apenas andando em sentido anti-horário. Os dois apenas se enfrentavam com o olhar.
– Você não vai bater em mim? — Ilsa deu um sorriso malicioso, provocando seu oponente. Seth continuava sério. Sua adversária levantou a sobrancelha e parou onde estava.
Ela tirou a saia longa como se fosse uma capa, jogando-a para um ruivo bêbado na plateia — Killen — e se aproximou de Seth com um soco no meio do tórax. Ele perdeu um pouco do equilíbrio, mas pela surpresa e não pela dor, que era quase inexistente para ele.
– Não, eu não vou bater em você — ele respondeu, dando um pontapé que fez com que ela caísse de cara no chão, batendo os dentes na superfície com força. — Eu tenho outros métodos. — Ele sorriu, mas não para Ilsa e sim para a moça que parecia ser sua fã. Ilsa levantou-se rapidamente.
Ela respirou fundo e fechou os olhos por um momento, deixando os pensamentos fluírem com mais clareza. Ela sentia dor e sangue na boca, mesmo com tão pouco tempo. Seth não era um oponente comum — talvez por ser do Norte e não do Centro, ou talvez porque ele fosse...
Ilsa foi jogada para o outro lado do círculo com o impacto, saindo de seu transe. Aquilo foi um soco ou um chute? Ela caiu sentada, diminuindo o atrito no chão com as mãos para não ser queimada. Seth olhava para ela sem expressão. Ele estava parado, assim como ela — talvez ele já soubesse que a vitória era dele. Como que ela havia se rendido tão facilmente? Ela já fazia isso há tanto tempo, mas aquele oponente era algo que ela não esperava. Ilsa olhou para o nada, sentindo o gosto de ferro na boca novamente.
– Ilsa!
Ela virou o olhar para onde Sasha e Killen estavam — ela segurava o punho de Killen, que continuava gritando seu nome com pouca clareza.
Ilsa levantou-se, ainda distraída e ouvindo a voz do ruivo bêbado que a motivava. Seth continuava a encarando, mexendo nos cabelos pouco bagunçados.
Ela respirou fundo, tentando lembrar-se do método que mais...
– Ilsa! — Ela virou-se para Killen, que continuava gritando com voz arrastada. — Bate nele, ele te chamou de enjoada!
Ilsa sentiu o sangue subir à cabeça e deu um soco forte na clavícula com as juntas dos dedos, o que fez com que Seth desse um pequeno gemido de dor e perdesse totalmente o equilíbrio, caindo sentado.
O falatório da plateia voltou.
– É bom você me respeitar — ela rosnou entre dentes, torcendo um dos braços de seu adversário com força. Porém, ele soltou o braço antes que ela pudesse realmente torcê-lo e deu um soco cego em Ilsa, que cambaleou sem graça e quase caiu. O soco tinha atingido o mesmo lugar que o soco inicial de Ilsa.
Seth levantou-se, completamente equilibrado enquanto Ilsa ainda cambaleava. Ele trocava olhares com a moça loira da plateia, e o fato de que Seth estava ganhando distraído enfureceu Ilsa. Ela respirou fundo, ignorou a dor e correu para Seth com toda a força que havia em suas mãos.
Ela estava prestes a fazer exatamente o que ela fazia todas as noites — um falso ataque, que teria como alvo uma região qualquer; mas o verdadeiro alvo seria uma região completamente diferente. Isso geralmente era o que garantia sua vitória.
Mas no último momento, Ilsa distraiu-se.
Ela olhou para o mesmo lado que Seth — a moça loira — e lembrou-se de algo que ela não poderia dizer com certeza, algo que estava no fundo de sua memória.
Seth viu os alvos no último segundo e os bloqueou com as mãos com pouca dificuldade, pondo o falso ataque de Ilsa por água abaixo. Ilsa olhou para Seth com espanto e assim ficou por um segundo, até que ele deu mais um de seus malditos pontapés e ela caiu a dois metros de distância de cara no chão mais uma vez.
Ilsa sentia não apenas mais gosto de sangue na boca, mas também sentia o amargo gosto da derrota — algo que ela odiava mais do que tudo, algo que ela não havia sentido há muito, muito tempo.
E o fato de que Seth havia feito tudo aquilo com facilidade era a gota d'água.
Ilsa alternou o olhar entre o chão e seu oponente, que quase sentia dó. E ali ela ficou.
Por mais de dez segundos.
Fale com o autor