Black Blade
11 Brisa
Notas iniciais
O som da colher de Agnip vibrou no ambiente.
Várias pessoas estavam em choque, pois nunca haviam visto Ilsa ter sido derrotada tão facilmente. E também nunca haviam a visto parada no chão, olhando para baixo. Outras pessoas olhavam para a moça loira que parecia mais do que um pouco contente em ganhar tantas moedas das pessoas em volta.
Seth estendeu a mão para Ilsa. Os dois estavam inexpressivos, mas Ilsa estava muito longe de relaxada, ao contrário de Seth. Ela levantou-se sozinha, recusando a ajuda.
Agnip entrou no círculo, pulando as brasas (que Seth não parecia se importar de estar perigosamente perto). Ele parecia quase tão chocado quanto a plateia e Ilsa.
– Bem... — ele hesitou ao ver o olhar amargo de Ilsa. — Parece que, surpreendentemente, temos um vencedor inesperado... Parabéns, truta mole.
– Obrigado — Seth agradeceu, com menos timidez do que Ilsa esperava. — Eu queria dizer que eu...
Seth foi interrompido por um saco marrom de couro que foi jogado nele. Ele abaixou-se e pegou o item, que era surpreendentemente pesado.
– Eu queria dizer que eu esperava mais educação.
Agnip encolheu os ombros e continuou.
– O que você tem a dizer, senhorita Ilsa, veterana?
Ilsa soltou o coque e encolheu os ombros, como se não se importasse.
– Parabéns, Seth — ela começou, dando um sorriso falso e exagerado. — Não acho que você realmente mereceu, mas... – ela encolheu os ombros novamente. E apenas saiu, sendo seguida por Sasha (e Killen, que era puxado por sua companheira pelo braço).
Seth parecia um pouco ofendido com o complexo de má perdedora de Ilsa, mas deixou passar.
– Então... — ele virou-se para Agnip, que observava as pessoas que começavam a sair. — Isso é tudo?
Agnip fez o ruído com a colher e o copo novamente — o que significava que havia acabado oficialmente.
– Isso é tudo.
_._
O bar já havia voltado ao normal, mas várias pessoas ainda conversavam sobre o que havia ocorrido.
De certa forma, a surpresa de todos em relação a Seth o fazia um pouco feliz. Mas ao mesmo tempo, ele sentia um pouco de falta da falta de surpresa das pessoas do Norte. Talvez tenha sido porque eles já haviam visto o que ele era capaz de fazer inúmeras vezes. Mas a surpresa ainda era um tanto agradável.
Talvez porque pessoas agora estavam babando em seu corpo.
Ele andava até a porta, abotoando a blusa branca enquanto observava o movimento do bar. Parecia que várias pessoas estavam ali apenas pela luta e não pelos comes e bebes. Como Killen e Sasha, que saíram dali seguindo Ilsa após sua derrota.
Mas o motivo por trás disso não era o que o perturbava. Era outra coisa.
Seth saiu pela porta de vidro, sentindo uma brisa gelada e um pouco forte. Ele segurava seu casaco de pele, mas não era necessário, mesmo com aquele vento. Já estava acostumado.
Ele se sentia um tanto... errado fazendo o que estava prestes a fazer, mas não era nada comparado ao que tinha feito há menos de duas semanas. Certo, ele não estava errado, mas ainda se sentia como um criminoso correndo daquele jeito enquanto estava sendo perseguido. Mas isso não vinha ao foco naquele momento.
Seth andava atrás de uma silhueta delicada com um guarda-sol preto — que era inútil naquela hora do dia, mas ele não se importava muito. Ele acidentalmente chutou uma pedra, o que fez com que a pessoa parasse com um pequeno susto.
– Posso ajudar? — A moça virou-se defensivamente, até que viu Seth tão assustado quanto ela, que segurava o guarda-sol como se fosse uma espada. Ela tirou o guarda-sol de sua frente, abrindo-o de volta. Sua expressão relaxou um pouco. — Olá? — Ela perguntou, agora com um tom suave.
– O... oi. — Seth acenou timidamente, ainda um pouco assustado com o guarda-sol barra espada da moça. Ela sorriu.
– Em que posso ajudar? — Ela começou a andar lentamente, como se convidasse Seth a acompanhá-la. Ele fez o que parecia certo, mesmo que parecesse completamente estranho.
– Eu... — ele começou, passando a mão nos cabelos e procurando um jeito não-tão-estranho de perguntar isso. — Eu queria saber uma coisa.
– Pergunte o que quiser — ela respondeu sorrindo, ajeitando as luvas de renda. Era possível ouvir um som de moedas em sua bolsa de couro preta. Moedas da plateia.
– Foi você que me pôs na luta?
A moça desviou o olhar por um segundo, mas deu um sorriso envergonhado.
– Foi — ela respondeu, com a voz baixa.
Seth olhou em volta. Estavam a alguns metros de distância da Taverna do Cavaleiro.
– Por que fez isso? — Ele perguntou, um pouco mais firme do que ele queria. Era possível ver que o rosto pálido da moça agora estava um tanto vermelho, mesmo com pouca iluminação.
– Foi... foi porque... — ela franziu o rosto, como se estivesse envergonhada da resposta que ia dar. Ela pegava em seu guarda-sol com força. Seth suavizou seu olhar. — Eu... gostei de você.
Seth riu de nervosismo, quase engasgado. Seu rosto corou instantaneamente, e ele tirou o cabelo do rosto.
A moça parou de andar, pondo os cabelos loiros atrás da orelha. Ela parecia envergonhada, mais do que Seth.
– Me desculpe — a moça pôs a mão no rosto de Seth, onde havia um pequeno arranhão que ele não parecia perceber. Isso que fez com que ele ficasse ainda mais vermelho e, por instinto, tirasse a mão dela com rapidez. Ela se espantou por um segundo. — Acho que o que eu fiz te feriu.
– Não... não tem problema, eu acho — Seth respondeu, com a voz um pouco mais firme mas seu rosto ainda um pouco rosa. — Eu só queria saber por quê.
– E você ficou feliz com a resposta? — Seth se surpreendeu com a pergunta da mulher, que sorria com expressão relaxada. — Acho que eu te fiz bem. — Ela terminou, apontando para a bolsa de dinheiro que ele carregava. Ali havia no mínimo seis mil. Seth segurou a bolsa com um pouco mais de firmeza.
– Eu não sei o que fazer com isso, pra falar a verdade — ele confessou, dando um riso curto.
– Nem eu — a moça respondeu, sorrindo.
– Você também ganhou alguma coisa? — Seth perguntou, evitando olhar para a bolsa preta da mulher.
– Sim — ela respondeu, apontando para a dita cuja. — É uma aposta interna e informal entre as pessoas que frequentam o bar. Eu não frequento, mas já estive lá algumas vezes.
Seth processava a informação que aparecia no fundo de seus pensamentos.
– Espera... mas por que só você ganhou? — Ele perguntou, com o olhar estreito para o chão. Um tom de rosa apareceu no rosto da moça.
– Eu... apostei em você. — Seth espantou-se.
– E só você fez isso? — A moça fez que sim ao ouvir a pergunta.
– Eu gostei de você, já disse isso.
Seth mordia o lábio inferior, como se isso impedisse que seu rosto avermelhasse novamente. Não era possível que ele gostasse dela. Não mesmo, uma estranha. Que o amaldiçoou com a segunda azeitona.
Mas que torceu para ele. E acreditou nele. E trocou olhares com ele enquanto lutava.
– Você gostou de mim?
Seth se espantou um pouco mais do que ele queria com a pergunta dela. Ou ela lia seus pensamentos ou sua expressão não escondia nada. Era provavelmente o segundo.
– Eu... acabei de te conhecer — ele respondeu, com a voz afinada. Era tecnicamente o motivo, mas não era como se ele não tivesse certa... atração a ela. Porque ele tinha.
– Eu não — ela respondeu com um riso curto e baixo. Seth deu um riso por educação, mas o silêncio (como sempre) tomou conta.
O vento começou a diminuir, mas algumas folhas ainda caíam de árvores quase carecas.
– Eu já vou — a moça virou as costas lentamente. — Parabéns, truta mole. — Ela deu um riso curto e abafado, seus olhos cinzentos brilhando.
– Seth– ele corrigiu, ajeitando os cabelos. — Não gosto de truta mole, prefiro meu nome. — A moça sorriu.
– Amalie — ela se apresentou, estendendo a mão. Seth apertou sua mão coberta pela luva rendada com um pouco de força. — Gostei do seu nome... Seth.
Amalie pôs o guarda-sol nas costas e começou a andar na direção que estava indo.
– Se você quiser me encontrar, Seth — ela começou. — Vou estar gastando meu dinheiro em uma galeria. Não precisa ter pressa.
Ela andou, andou, e andou, até sumir.
Seth ficou ali, plantado perto do bar. Ele tinha um sorriso abobado e o rosto vermelho. Ele esperava alguma interação, mas não algo daquele jeito.
Ele não esperava que aquela moça loira que torcia para ele fosse alguém tão envergonhada, porém tão atraente e sedutora quanto ela era.
Ele não esperava gostar de Amalie.
Fale com o autor