Black Blade
12 Luz
Notas iniciais
Ao invés de agradável, a luz do sol do lado de fora era torturante.
Ada estava sentada em uma poltrona de sua sala de estar, corcunda. Ela segurava a própria cabeça, como se tivesse medo de que ela fosse cair de seu pescoço com a dor.
– Eu não quero mais saber de nada disso... — ela murmurou, olhando para a escuridão da pequena mesa de mogno. — Sai dessa vida, mulher...
De repente, ela ouviu um barulho na sua janela — e rapidamente cobriu os ouvidos para ignorar o barulho. Mas ele persistiu.
Ada tirou os olhos da mesa de mogno para olhar para a janela e viu... Seth. Quase pisando nas flores, mas ali ele estava — batendo na sua janela como se não houvesse amanhã e sorrindo abestadamente. Ela sentiu um pouco de raiva subir à cabeça, mas levantou-se do mesmo jeito e abriu a porta.
Seth estava bagunçado — usava um sobretudo preto em vez de seu casaco de pele e segurava uma pilha de coisas — mas ainda assim, estava melhor do que Ada.
– Olá — Ada disse, um pouco seca, abrindo caminho para Seth entrar enquanto mantinha seus olhos quase completamente fechados por causa da luz. Ele não entrou, porém, e olhou para Ada com um tanto de preocupação.
– Olá... o que foi? — Seth perguntou, ajeitando o peso que segurava. Uma das coisas na sua pilha de consumismo era um jornal que Ada tentava ler de cabeça para baixo sem sucesso. Ela estreitou os olhos.
– Eu não quero mais beber na vida, isso é horrível — ela murmurou e voltou a sentar na poltrona, segurando sua cabeça latejante.
Seth entrou, fechando a porta com o pé e nenhuma delicadeza. Ele sentou-se na poltrona em frente à de Ada, pondo a torre de itens no colo. Ada estreitou o olhar, agora olhando para Seth no lugar do nada.
– Eu tinha te pedido pra me levar pra casa quando eu fosse mais álcool do que sangue. Imagina se eu morresse... seria melhor do que enfrentar essa dor de cabeça horrível. — Ela murmurou com um pouco de irritação. Seth engoliu em seco.
– Ah, eu... — ele começou, procurando desculpas. — Eu não me lembro muito bem disso e... houve um imprevisto.
– Imprevisto...? — Ada perguntou, um pouco mais ríspida do que queria ser. Seu olhar era estreito, mas por causa da luz que vinha de fora e não por causa de Seth.
– É.
O cabelo de Seth estava bagunçado e jogado para frente, em vez de penteado para trás. Ele mexia nele com um sorriso abobado, distraído.
– Por favor, me distraia desse demônio que se instala na minha cabeça — Ada murmurou, com um riso que não parecia muito feliz. Ela trançava os cabelos bagunçados. Nem mesmo seu batom avermelhado ela estava usando, tirando o contraste que ele dava sobreposto a sua pele morena.
Seth entregou o jornal.
– Você poderia ler isso, achei interessante e... — ele hesitou, mexendo na pilha consumista. — Bem, ele tecnicamente é de ontem, mas me ajudou bastante.
Ada lia o jornal com um pouco de dificuldade, mas parecia um tanto interessada.
– Aparentemente, a neve que caiu nos caminhos para o Norte foi retirada — Seth começou. — O que significa que já dá pra voltar pra lá.
Ada parou de ler e olhou para Seth.
– Você vai voltar? — Ada perguntou franzindo o rosto. — Você tinha dito que não queria voltar tão cedo.
Seth desviou o olhar.
– Mudei de ideia.
– Mas... você não tinha dito que...
– É, eu disse isso, mas eu simplesmente mudei de ideia — ele encolheu os ombros como se não se importasse. Ada franziu o cenho mais ainda e deu um pequeno sorriso.
– Mas... por que exatamente você mudou de ideia?
Seth sorriu abobadamente.
– Por causa do imprevisto.
– Ah, o imprevisto... — Ada suspirou. — O que foi esse imprevisto?
– Uma garota.
– O quê?
– Amalie.
– Eu não conheço nenhuma Amalie...
– Provavelmente não — Seth afirmou, ainda sorrindo e encolhendo os ombros novamente. — Mas eu sim.
– Mas... você não conhecia ela até ontem, conhecia?
– Não.
– Então por que esse sorriso abestado no rosto?
– Porque foi por acaso e eu amei isso — ele respondeu com um tom derretido, mexendo no cabelo distraidamente. Ada voltou a ler o jornal.
– Mas que coisa — ela respondeu sem expressão em particular. — Encontraram corpos enquanto retiravam a neve do caminho.
– Ah — Seth murmurou, saindo de seu transe. — É. De... hipotermia.
Ada fez que sim e continuou, mas franziu o rosto enquanto lia o parágrafo abaixo.
– O que foi? — Ele perguntou, se inclinando para frente.
– São pessoas que estão desaparecidas há muito tempo, parece — Ada respondeu com o queixo um pouco caído. — Há mais de 500 anos.
Seth deu um riso curto e sem emoção.
– Jura? E como descobriram isso?
– Aparentemente, pelos rostos... — Ada interrompeu-se, deixando os pensamentos fluírem (mal e porcamente) pela sua cabeça latejante, até que chegou a uma (metade de uma) conclusão.
Seth levantou a sobrancelha.
– Nossa.
– Ah — Ada começou, mudando o assunto com pouca naturalidade após um minuto de silêncio. — A Ilsa está bem, hã... chateada, o que você fez?
Seth encolheu os ombros.
– Eu não fiz nada, ela que se deixou perder.
– Perder o quê?
– A luta.
Ada franziu o cenho.
– A... luta?
– Da Taverna.
– Ela perdeu?
– Não vejo como isso é culpa minha.
Ada estreitou o olhar e levantou a sobrancelha.
– Mas ela perdeu?
– Perdeu.
Ada arquejou silenciosamente mas se compôs, sua postura um pouco melhor do que antes.
– Jura?
– É — Seth encolheu os ombros. — Ela nunca tinha perdido, aparentemente.
– Eu sabia disso, mas não queria que ela se metesse nessas coisas de novo.
– Por quê?
– Porque se acontecer algo sério com ela ali... — Ada hesitou.
– O quê?
– Eu tenho medo de ela se ferir e...
– E?
– Nada, tenho medo de que ela se machuque sério. — Ela levantou a voz, dando ênfase às últimas palavras. — Porque isso é ruim.
Seth tinha centenas de pergunta para fazer ali, mas não queria irritar Ada mais ainda. Ele apenas se inclinou de volta na poltrona e observou a vista da janela atrás dela.
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