Notas iniciais
filler óbvio

Ao invés de agradável, a luz do sol do lado de fora era torturante.

Ada estava sentada em uma poltrona de sua sala de estar, corcunda. Ela segurava a própria cabeça, como se tivesse medo de que ela fosse cair de seu pescoço com a dor.

– Eu não quero mais saber de nada disso... — ela murmurou, olhando para a escuridão da pequena mesa de mogno. — Sai dessa vida, mulher...

De repente, ela ouviu um barulho na sua janela — e rapidamente cobriu os ouvidos para ignorar o barulho. Mas ele persistiu.

Ada tirou os olhos da mesa de mogno para olhar para a janela e viu... Seth. Quase pisando nas flores, mas ali ele estava — batendo na sua janela como se não houvesse amanhã e sorrindo abestadamente. Ela sentiu um pouco de raiva subir à cabeça, mas levantou-se do mesmo jeito e abriu a porta.

Seth estava bagunçado — usava um sobretudo preto em vez de seu casaco de pele e segurava uma pilha de coisas — mas ainda assim, estava melhor do que Ada.

– Olá — Ada disse, um pouco seca, abrindo caminho para Seth entrar enquanto mantinha seus olhos quase completamente fechados por causa da luz. Ele não entrou, porém, e olhou para Ada com um tanto de preocupação.

– Olá... o que foi? — Seth perguntou, ajeitando o peso que segurava. Uma das coisas na sua pilha de consumismo era um jornal que Ada tentava ler de cabeça para baixo sem sucesso. Ela estreitou os olhos.

– Eu não quero mais beber na vida, isso é horrível — ela murmurou e voltou a sentar na poltrona, segurando sua cabeça latejante.

Seth entrou, fechando a porta com o pé e nenhuma delicadeza. Ele sentou-se na poltrona em frente à de Ada, pondo a torre de itens no colo. Ada estreitou o olhar, agora olhando para Seth no lugar do nada.

– Eu tinha te pedido pra me levar pra casa quando eu fosse mais álcool do que sangue. Imagina se eu morresse... seria melhor do que enfrentar essa dor de cabeça horrível. — Ela murmurou com um pouco de irritação. Seth engoliu em seco.

– Ah, eu... — ele começou, procurando desculpas. — Eu não me lembro muito bem disso e... houve um imprevisto.

– Imprevisto...? — Ada perguntou, um pouco mais ríspida do que queria ser. Seu olhar era estreito, mas por causa da luz que vinha de fora e não por causa de Seth.

– É.

O cabelo de Seth estava bagunçado e jogado para frente, em vez de penteado para trás. Ele mexia nele com um sorriso abobado, distraído.

– Por favor, me distraia desse demônio que se instala na minha cabeça — Ada murmurou, com um riso que não parecia muito feliz. Ela trançava os cabelos bagunçados. Nem mesmo seu batom avermelhado ela estava usando, tirando o contraste que ele dava sobreposto a sua pele morena.

Seth entregou o jornal.

– Você poderia ler isso, achei interessante e... — ele hesitou, mexendo na pilha consumista. — Bem, ele tecnicamente é de ontem, mas me ajudou bastante.

Ada lia o jornal com um pouco de dificuldade, mas parecia um tanto interessada.

– Aparentemente, a neve que caiu nos caminhos para o Norte foi retirada — Seth começou. — O que significa que já dá pra voltar pra lá.

Ada parou de ler e olhou para Seth.

– Você vai voltar? — Ada perguntou franzindo o rosto. — Você tinha dito que não queria voltar tão cedo.

Seth desviou o olhar.

– Mudei de ideia.

– Mas... você não tinha dito que...

– É, eu disse isso, mas eu simplesmente mudei de ideia — ele encolheu os ombros como se não se importasse. Ada franziu o cenho mais ainda e deu um pequeno sorriso.

– Mas... por que exatamente você mudou de ideia?

Seth sorriu abobadamente.

– Por causa do imprevisto.

– Ah, o imprevisto... — Ada suspirou. — O que foi esse imprevisto?

– Uma garota.

– O quê?

– Amalie.

– Eu não conheço nenhuma Amalie...

– Provavelmente não — Seth afirmou, ainda sorrindo e encolhendo os ombros novamente. — Mas eu sim.

– Mas... você não conhecia ela até ontem, conhecia?

– Não.

– Então por que esse sorriso abestado no rosto?

– Porque foi por acaso e eu amei isso — ele respondeu com um tom derretido, mexendo no cabelo distraidamente. Ada voltou a ler o jornal.

– Mas que coisa — ela respondeu sem expressão em particular. — Encontraram corpos enquanto retiravam a neve do caminho.

– Ah — Seth murmurou, saindo de seu transe. — É. De... hipotermia.

Ada fez que sim e continuou, mas franziu o rosto enquanto lia o parágrafo abaixo.

– O que foi? — Ele perguntou, se inclinando para frente.

– São pessoas que estão desaparecidas há muito tempo, parece — Ada respondeu com o queixo um pouco caído. — Há mais de 500 anos.

Seth deu um riso curto e sem emoção.

– Jura? E como descobriram isso?

– Aparentemente, pelos rostos... — Ada interrompeu-se, deixando os pensamentos fluírem (mal e porcamente) pela sua cabeça latejante, até que chegou a uma (metade de uma) conclusão.

Seth levantou a sobrancelha.

– Nossa.

– Ah — Ada começou, mudando o assunto com pouca naturalidade após um minuto de silêncio. — A Ilsa está bem, hã... chateada, o que você fez?

Seth encolheu os ombros.

– Eu não fiz nada, ela que se deixou perder.

– Perder o quê?

– A luta.

Ada franziu o cenho.

– A... luta?

– Da Taverna.

– Ela perdeu?

– Não vejo como isso é culpa minha.

Ada estreitou o olhar e levantou a sobrancelha.

– Mas ela perdeu?

– Perdeu.

Ada arquejou silenciosamente mas se compôs, sua postura um pouco melhor do que antes.

– Jura?

– É — Seth encolheu os ombros. — Ela nunca tinha perdido, aparentemente.

– Eu sabia disso, mas não queria que ela se metesse nessas coisas de novo.

– Por quê?

– Porque se acontecer algo sério com ela ali... — Ada hesitou.

– O quê?

– Eu tenho medo de ela se ferir e...

– E?

– Nada, tenho medo de que ela se machuque sério. — Ela levantou a voz, dando ênfase às últimas palavras. — Porque isso é ruim.

Seth tinha centenas de pergunta para fazer ali, mas não queria irritar Ada mais ainda. Ele apenas se inclinou de volta na poltrona e observou a vista da janela atrás dela.

Notas finais
fillers são necessários ok