Black Blade
13 Frustração
Notas iniciais
O barulho das pessoas andando naquela estação de trem fazia as paredes vibrarem.
Ali havia muito mais gente do que Seth havia imaginado quando entrou na estação. O Centro era realmente populoso.
Apesar disso, o trem para o Norte não seria tão cheio quanto os outros. Ali havia algumas poucas dezenas de pessoas — turistas, muito provavelmente — mas ainda era um tanto vazio.
Ou talvez apenas parecesse vazio pela falta de Amalie.
Seth suspirou, afundando no banco com seu relógio de bolso. Apesar de bonito, aquele lugar parecia a manifestação física do tédio. Ele apenas observava as pessoas.
Havia um casal se despedindo — o homem parecia estar à beira das lágrimas, mas a mulher parecia um tanto calma. Ou talvez ela quisesse chorar também. Não era possível ver, ela estava de costas.
Havia também uma enorme família que parecia um tanto ansiosa para viajar. Exceto por duas crianças pequenas que não pareciam parar de brigar. Eles gritavam, e sua mãe os pedia para calar a boca. Com razão.
Além de outras pessoas juntas — tristes ou felizes — havia algumas pessoas solitárias. Olhando em volta, havia um velho homem elegante que parecia tão entediado quanto Seth, mas tinha a compostura que o mesmo não possuía sentado. Havia pessoas caladas, apenas julgando os outros em volta. Muitos deles pareciam ricos. E em frente aos trilhos, havia uma última moça alta de cabelos escuros cuja arrogância a deixava só.
Seth estreitou o olhar.
Ilsa?
Várias pessoas levantaram-se rapidamente ao ouvir o barulho do veículo que se aproximava. Ele era grande — um tanto maior do que o necessário. Mas aquela passagem havia sido cara, então era melhor que fosse grande mesmo. Seth levantou-se por último, ficando atrás de quase todos.
Ele ainda estava um tanto intrigado.
_._
O dinheiro pago por aquela passagem havia sido bem mais justo do que ele havia imaginado. Amalie estava certa, pelo menos. Afinal, aquele trajeto realmente ia demorar um dia, no mínimo. Com sorte. Sem interrupções.
O sol já estava se pondo e o trem já estava bem longe da estação, já quase saindo do Centro completamente. Seth fechou as cortinas escuras de sua janela depois de um tempo com elas abertas. Ele ainda não havia feito praticamente nada além de pensar em coisas aleatórias para passar o tempo.
Parte dele pensava em sua noite perfeita-maravilhosa-alucinante de festas, apostas e dinheiro que passou com Amalie há algum tempo. Uma outra parte ria um pouco da diferença entre Ada sóbria, Ada bêbada e Ada de ressaca. E uma terceira parte estava extremamente intrigada com o fato de que Ilsa estava ali. Talvez. Possivelmente.
A uma porta de distância.
Seth levantou-se e abriu sua porta, quase batendo no portal devido à sua altura. Ele então virou-se para o corredor estreito. Ele estava calmo e vazio, diferente da estação onde estava há algumas horas.
Havia duas portas perto da sua. Era possível ouvir um casal rindo de uma delas, enquanto a outra era completamente silenciosa.
Era extremamente óbvio saber qual delas tinha Ilsa atrás.
Seth bateu na porta com certa timidez. Afinal, havia uma enorme chance de que Ilsa não estava ali. Mas ele morria de curiosidade.
Ele olhava para baixo, esperando uma resposta; bateu na porta novamente.
Desta vez, ele ouviu a pessoa se levantando e andando até a porta. Seth ouviu um barulho de correntes — correntes essas que ele nem ao menos havia posto em sua porta. A pessoa abriu a porta e apenas olhou para Seth descontraidamente.
– Em que posso ajudar?
– Ilsa... — Seth começou a falar, com o rosto tenso. — O que faz aqui?
– Mas que rude — Ilsa levantou as sobrancelhas como se estivesse ofendida. Ela deu apenas um sorriso e sua voz suave continuou. — Você não respondeu à minha pergunta.
– E nem você à minha — Seth respondeu com voz baixa e olhar estreito. O que ela fazia ali? Ela não tinha motivo nenhum para ir ao mesmo lugar que ele.
– Bem... — ela suspirou, encolhendo os ombros. Seu comportamento era completamente diferente do daquele dia. Mesmo que tenham se falado após aquilo, Ilsa estava distante. Mais ainda. Literalmente. — Você vai cair quando passarmos por uma curva fechada se continuar assim, no meio do corredor.
Ilsa tirou a última corrente da porta e abriu espaço para Seth. Ele hesitou.
– Se você não entrar, eu também vou cair. Em cima de você.
– Certo — Seth suspirou e entrou, quase batendo no portal novamente.
Ilsa rapidamente fechou a porta, entrando em sua frente e sentando ao lado de um livro vermelho no assento acolchoado em frente à janela. Ela disfarçadamente fechou um livro que possuía uma lâmina marcando suas páginas, olhando para baixo distraidamente. Seth continuou de pé, em frente a Ilsa. A mesma levantou a sobrancelha ceticamente.
– Eu não quero que você caia em cima de mim — ela disse, ajeitando a saia. — Sente-se.
Seth fez o pedido, sentando ao lado de Ilsa com certa distância.
– Então... — Ilsa começou, apoiando o rosto nas mãos. — Como vai a vida, Seth?
Ele mantinha o olhar estreito, dividindo o mesmo entre o pôr do sol e o rosto inexpressivo de Ilsa.
– Vou... bem, eu acho? — Ele respondeu, mexendo nos cabelos já bagunçados. — Melhor do que há algum tempo, com certeza — ele finalizou com um riso curto. Ilsa olhava para a porta.
– Ansioso pra voltar pro Norte?
– Um pouco.
– Mesmo? — Ilsa virou para Seth.
– Mais que um pouco.
– Muito?
– Sim.
– Por quê? — Ilsa sorriu novamente, mas era um sorriso gelado. Seth engoliu em seco. — Achei que gostasse do Centro.
– Eu gosto do Centro. Gostei, quer dizer. Pelo pouco tempo que fiquei, foi... bom.
– Você não tinha dito que não queria voltar tão cedo? — O rosto de Ilsa parecia uma geleira agora, mesmo com seu sorriso aumentado.
Seth franziu o cenho.
– Você tem algum tipo de pretensão com essa pergunta? — Ele perguntou, evitando o olhar de Ilsa ao máximo. Mas era possível ver que sua geleira facial havia derretido um pouco.
– Não, eu só... — Ilsa hesitou. Ela franziu a testa levemente, mas continuou com o mesmo tom de voz. — Só achei que suas ações pudessem fazer mais... como dizer...? Sentido.
– O que você quer dizer?
– O que te fez mudar de ideia, Seth? — O tom de voz de Ilsa era suave, mas agora mais gelado ainda. Era como um infeliz reencontro passivo-agressivo com uma ex.
– Isso vai ser bem estranho de contar e você vai dizer que eu sou escroto.
– Você se importa com a minha opinião?
Seth franziu o cenho.
– Sim...? — Ele encolheu os ombros. Ilsa manteve a mesma expressão. — Eu acho.
– Foi uma garota que você conheceu do nada que fez com que você mudasse de ideia, não foi?
Seth deu um riso curto e desconfortável e olhou para Ilsa.
– Por que você se importa?
Pela surpresa de Seth, Ilsa não mudou seu olhar passivo-agressivo como ele achou que ela fosse. Ela apenas suspirou.
– Isso vai ser bem estranho de contar e você vai achar que eu sou escrota. — Ilsa estreitou os olhos ao perceber sua escolha de palavras. — Talvez não escrota, mas... estranha. E que eu tomei alguma coisa.
Seth estreitou o olhar, dando um sorriso estranho.
– Mas...– Ilsa continuou, levantando a voz, que agora parecia bem diferente da voz gelada de pouco tempo atrás. — Isso vai salvar a sua vida.
Seth continuou com o olhar incrédulo, mas permaneceu calado.
– Eu acredito.
– Você nem ao menos sabe o que é.
– Mas eu acredito.
– Enfim — Ilsa descruzou as pernas, olhando para baixo. — Eu... — ela hesitou, como se fosse se arrepender do que estava prestes a falar em segundos. — Não, isso é ridículo.
– Fala — Seth estreitou o olhar. — Agora já é tarde, eu quero saber.
– Eu... de certa forma... — Ilsa sorriu desconfortavelmente. — Não sou, bem... humana.
O olhar estreito de Seth continuou, agora transbordando incredulidade.
– Na realidade eu sou, agora que ferraram com a minha vida — Ilsa encolheu os ombros, como se falasse de algo neutro. — Mas eu não fui sempre assim.
Seth continuava calado.
– E eu... acho que você pode morrer se não acreditar no que eu digo.
– Aham.
– Isso foi sincero? — Ilsa rapidamente virou para Seth, que não parecia muito crédulo.
– Foi — ele mentiu descaradamente. Mas ao menos ele tentou.
– O que eu vou falar é sério, e eu acreditaria nisso. Eu não falo sobre esse tipo de coisa com qualquer um.
– Entendi — Seth fez que sim com a cabeça, ainda com o olhar mais cético possível. Ele sentia que isso estava prestes a piorar.
– Quantos anos você acha que eu tenho?
Seth deu um riso curto, mas o abafou com a mão. Aquilo era literalmente ridículo. Mas ele prosseguiu.
– Vinte?
– Não.
Seth encolheu os ombros.
– Trinta?
– Não.
Ele franziu a sobrancelha.
– Quarenta e sete.
– Por que tão específico? — Ilsa estreitou o olhar.
– Geralmente quando eu falo quarenta e sete eu acerto.
– Não quero saber o tipo de coisa que você faz. Mas... não.
– Cinquenta.
– Você não está indo a lugar nenhum.
A credulidade quase que inexistente de Seth evaporava a cada "não" que saía da boca de Ilsa.
– Oitenta.
– Longe disso.
– Setenta.
– Eu não disse que era pra diminuir.
Seth suspirou. Ele raramente se sentia frustrado, mas essa era um dos momentos mais frustrantes de sua vida.
– É mais de duzentos?
– É.
– Deixa eu ver... — Seth procurava o número mais distante possível para acabar logo com aquilo. Infelizmente, sua frustração fez com que ele apenas conseguisse pensar no número...
– Seiscentos.
– Quase isso.
Seth riu pelo nariz, mas Ilsa continuava a mesma.
– É sério.
– Não — Seth tentava rir, mas apenas conseguia rir abobadamente. — Qual é o objetivo disso?
– Na realidade — Ilsa continuou, ignorando a pergunta de Seth — é 625. Mas você quase acertou.
Seth suspirou com força.
– Como que essa informação vai salvar a minha vida? — Ele perguntou, temendo a resposta.
– Ela não vai — Ilsa encolheu os ombros. — Só queria que se preparasse para o melhor.
Seth morreu por dentro.
– Ainda tem o melhor– ele murmurou, sentindo sua alma sair pela boca.
– Bom — a voz de Ilsa parecia quase que convidativa naquele momento, se não fosse por suas palavras. — Eu... apenas tenho um sentimento ruim sobre a garota que se chama... Ama... Ama alguma coisa...
– Amalie — Seth respondeu, tentando dizer seu nome firmemente.
– Isso. Eu não tenho memória muito boa.
– Como você sabe o nome dela? — Seth franziu o cenho.
– Você conta tudo pra Ada, e a Ada conta tudo pra mim.
– Mas você não conta nada pra ela contar pra mim? Isso parece um tanto... injusto.
– Não, eu conto pra você diretamente — Ilsa deu um sorriso convencido.
– Menos mal.
– Como eu estava dizendo, eu não confio nela.
– Você não precisa confiar nela. Ela não é sua namorada.
– Mas eu tenho certeza que conheço ela.
– Sim, você conhece. Do bar.
– Não, não do bar — Ilsa franziu o cenho. Ela procurava a certeza que Amalie era a pessoa que ela estava procurando, mas tal certeza não estava lá. — De algum lugar.
– Que lugar?
– Do passado.
Metade de Seth ria disfarçadamente — a outra metade morria, mesmo já estando morta.
– Como assim, do passado? Eu não quero que você morra tão jovem de alguma doença que te deixa delirante.
Ilsa revirou os olhos.
– Você se lembra daquela história recontada trezentas vezes do herói daquela guerra que...
Seth suspirou.
– Do cara que tinha a espada mágica que não deixava corpos?
– Sim.
– Lâmina Negra... como eu odeio essa história.
– Na realidade o codinome dele era Espada Negra, mas a história foi mutilada tantas vezes que agora o nome ficou assim.
– Como você sabe disso?
– 625 anos, Seth — Ilsa encolheu os ombros.
– Lâmina Negra, Espada Negra, dane-se. Ainda não gosto dessa história. Tudo parece muito... fantasioso. Parece o delírio de um autor.
– Você acredita nela? — Seth suspirou novamente.
– Não. Não muito. Quer dizer, eu... eu acredito que ele existiu. Mas não que ele fez tudo aquilo. — Seth voltava a ajeitar os cabelos negros. Ele olhou para a janela; já era quase de noite e as montanhas pareciam um pouco mais perto. Mas bem pouco.
– Então você não acredita nele. E nem em absolutamente nada que eu te falei. — Ilsa engoliu em seco. — Achei que fosse menos cético.
– Por que estamos falando dele mesmo?
– Porque estou tentando salvar a sua vida– ela virou-se e levantou o tom de voz, demonstrando um pouco de frustração. Seth se arrepiou. — Eu o conheci, eu participei daquela guerra, eu tive minha vida arruinada por causa da sua namorada que vai fazer você morrer de amores, literalmente.
Seth permaneceu calado, com o rosto pálido. Mais ainda. Certo, agora Ilsa tinha emoções que não eram raivas fúteis. Incrível.
– Ilsa, eu... — ele olhava para baixo e para o rosto frustrado de Ilsa. — Eu não estou morrendo de amores por ela...
– Seth, pelo amor de... você literalmente comprou uma passagem de luxo pras montanhas!
– Eu moro lá, Ilsa.
Aos poucos, um pensamento se formava na cabeça de Seth. Tal pensamento o faria rir em situações normais — mas aquela não era uma situação normal.
– É, mas você "não ia voltar tão cedo".
– Eu simplesmente mudei de ideia, é só isso.
– Por que mudou de ideia tão facilmente? Como que você não vê nada de errado com isso?!
Seth franziu o cenho.
– Ilsa, você está com ciúmes de mim?
Ilsa interrompeu sua própria fala — ela parecia incrédula. Deu um riso extremamente curto, mas voltou à sua expressão anterior — séria e fria.
– Eu só queria salvar a sua vida.
– Você não precisa — Seth suspirou. — Eu posso fazer isso sozinho. — Ele terminou com um sorriso quase sem-graça.
Ilsa engoliu em seco, com raiva — mas sua expressão continuava gélida.
– Você não tem razão pra precisar salvar minha vida.
– Verdade — Ilsa respondeu com a voz firme. — Você pode fazer isso sozinho.
– Por que quer tanto me salvar, Ilsa?
– Porque eu também quero me salvar. Não sou tão altruísta quanto pensa. — A voz de Ilsa voltou a seu estado normal, talvez até um pouco sarcástica.
Seth estava prestes a tentar compreender alguma coisa que Ilsa havia dito, mas foi interrompido por batidas na porta.
– Entre — Ilsa respondeu.
A porta foi aberta por uma moça com uniforme e expressão tímida.
– Ah — ela exclamou ao ver Seth. — O senhor deixou sua porta aberta.
– Deixei? — Seth perguntou, inclinando a cabeça.
– Sim — a moça respondeu. — Poderia fechá-la? Isso é perigoso e pode causar certos acidentes.
Seth se levantou do assento, acompanhando a moça até sua porta aberta.
Ele jurava que era sua imaginação, mas teve certeza de que havia ouvido Ilsa dizendo uma frase que o perturbou por um curto período de tempo — uma frase simples, porém com significado medonho.
"Espero que não se arrependa após a sua morte."
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