Black Blade
14 Tensão
Notas iniciais
Costumava-se dizer que as montanhas eram lindas quando nevava — mas essas pessoas certamente nunca viram aquele lugar ao anoitecer.
O Norte era conhecido por ser um dos lugares mais bonitos do Império. Atraía turistas não só do Centro e do Oeste, mas também de outros reinos e impérios — muitos deles distantes. A região também era conhecida pela hospitalidade, costumes simples e seu envolvimento com o Centro, que fazia dele um enorme centro histórico.
Mas é claro que a maioria dos turistas apenas gostava do Norte pela neve que caía por meses.
Seth localizava-se em frente à sua casa, que era um lugar menos simples do que muita gente esperava. As paredes externas eram feitas de pedras crespas, o telhado de enormes toras de madeira escura — mas não mogno — e as janelas eram quadradas e decoradas. Era uma casa bonita, mas um pilar de madeira estava quase que totalmente queimado por causa da perseguição há algum tempo. Era um milagre o fato de que havia nevado naquele bendito dia — se não fosse por isso, sua casa estaria completamente queimada.
Seth suspirou. Aquele lugar parecia tão estranho.
Ele se sentia estranho.
Ele abriu a estreita porta de madeira com muito menos euforia do que ele achava que teria. Sua sala de estar não era nada agradável com o frio que entrava pelo lado de fora e a escuridão completa. A madeira da lareira provavelmente estaria molhada. Ele abriu as cortinas, deixou seus pertences em sua poltrona e se dirigiu à cozinha para procurar uma vela.
"Espero que não se arrependa após a sua morte."
Seth engoliu em seco. Aquela frase o perturbava desde que elas saíram da boca de Ilsa. Talvez fosse verdade, talvez fosse um delírio, talvez fosse até mesmo algo proposital, para assustá-lo por motivo nenhum. Mas o jeito que aquelas palavras haviam sido ditas, a certeza que Ilsa parecia ter... aquilo era medonho. Era como se ela estivesse rogando uma praga, uma maldição.
Mesmo assim, o que o aliviava era o fato de que nada do que Ilsa havia dito naquela noite tinha qualquer sentido. Mas ainda assim...
– Droga — Seth murmurou ao deixar cair o prato da vela que segurava. O pobre prato havia caído no piso gelado, se dividindo em grandes pedaços. Ele segurava agora apenas uma vela pequena e um palito de fósforo enorme, que se parecia com um charuto. Ele deu um riso curto ao se perguntar se ele poderia sentir alguma coisa fumando um palito de fósforo. — Eu sou muito perfeito pra isso. Sou um exemplo.
Ele acendeu a vela na mão, não se preocupando com a cera que começava a esquentar e cair em sua pele. Ele não sentiria a dor mesmo.
Sua casa parecia um pouco menos deprimente com a luz da pequena vela e o sol que já quase não aparecia mais. Ele olhava em volta, comparando a sua própria casa com as casas que havia invadido.
Sua casa era, claro, muito mais bonita.
Não porque as outras pessoas não tinham bom gosto para decoração, mas porque tais casas eram casas abandonadas — muitas delas cobertas pela neve e molhando os pisos enquanto derretiam com o calor. Não eram lá tão agradáveis, mas eram melhores do que ser esfaqueado na neve. Ou ter um forcado preso no ombro.
Seth sentou-se na poltrona macia. Ele tentava se lembrar do ocorrido, e alguns fatos apenas surgiam naquele momento, fazendo com que a história se encaixasse de forma melhor.
Tudo havia começado em sua casa, em uma noite extremamente fria. Não havia uma alma sequer ali fora. Mesmo que sua casa fosse em um local reservado, era possível ver as pessoas passando — mas não naquele dia. Apareceu uma moça em sua porta, perguntando seu nome. Ele se apresentou e ela praticamente o forçou a pegar seus pertences e fugir dali. Ele relutantemente a seguiu, ouvindo a história no caminho.
Ela dizia que queriam matá-lo. Seth não havia acreditado no primeiro momento, mas a seriedade que ela possuía em sua voz e a quantidade de pessoas que confirmavam aquilo e se juntavam a eles deram-lhe um choque de realidade. Em pouco tempo, ele já estava fazendo o que os outros faziam — fugindo como um marginal, óbvio. Escondendo-se em casas, brigando com pessoas na neve. Ele mal sabia se aqueles que haviam cruzado seu caminho ainda estavam vivos ou se haviam se rendido ao frio ou ferimentos.
Mas ele não poderia ter matado alguém daquele jeito, poderia? E se tivesse, teria sido um favor. O frio os mataria muito mais lentamente.
Seth sentiu um calafrio ao perceber que esse tipo de pensamento havia passado pela sua cabeça. Ele era diferente quando estava lutando ou fazendo algo similar, mas não era como se isso justificasse alguma coisa. Ele deixou o pensamento de lado e continuou a conectar as memórias.
Ele correu por uns dias, se abrigando em casas aleatórias até chegar ao Centro. E então sua mente ignora o resto e pula para a casa de Ada. E o incidente da torta, claro.
Mas havia um vazio em sua memória. Ele apenas lembrava-se de ser esfaqueado em um tipo de beco, mas não de quem havia feito o dano. Era uma... pessoa alta, talvez? Ele tinha a impressão de que ela estava coberta por alguma coisa, provavelmente escondendo sua identidade de propósito. Mas nada além...
Seth se assustou ao sentir algo em sua mão direita. Olhou para ela e percebeu que a cera havia queimado a palma de sua mão, que agora estava sangrando. Pelo menos não precisaria da sua mão direita. E pelo menos a vela ainda estava acesa. Ele se levantou, mandou gente ir para o inferno e pôs a vela em cima de um enfeite de vidro.
Era comum que ele tivesse vários machucados pelo corpo a qualquer momento, mas não no nível queimadura de segundo grau e definitivamente não no nível forcado no ombro, tétano opcional.
Seth suspirou. Andou até o espelho da sala e observou seu reflexo. Ele parecia assustado e tenso. Talvez porque sua mão tivesse sido queimada há alguns segundos, talvez porque estivesse se lembrando de algo que o deixasse tenso. Ele estreitou o olhar, focando em um ponto específico do espelho.
– Eu não vou morrer enrugado — ele afirmou para si mesmo, pondo o dedo médio no meio da glabela franzida com força. Ela parecia um pouco marcada, diferente de como estava há algum tempo.
Ele ajeitou os cabelos pretos bagunçados, mas agora pondo suas mechas para baixo. Seu cabelo parecia mais longo quando fazia isso. Gostaria de deixá-lo assim mais vezes, mas sempre diziam que este era o corte do herói-lendário-superestimado-quase-inventado. E também que deveria deixá-lo crescer. Incrível como as pessoas não conseguiam apreciar sua beleza — definitivamente inegável — do jeito que ela era.
Ele encarou seu reflexo mais uma vez, agora com o olhar tenso e cabelo bagunçado, dando um riso de desgosto. Diriam que estava igual ao tal imbecil, especialmente com o olhar desgostoso. Ele se perguntava como sabiam do rosto do dito cujo.
"625 anos, Seth."
A voz de Ilsa o fez bufar de frustração. Ele se sentia burro e ingênuo por deixar que uma simples conversa se entranhasse em sua mente com tanta facilidade.
Com rapidez, ele pôs os cabelos de seu jeito normal, ainda mantendo seu olhar focado e tenso, mas não por opção.
Era por medo de que aquela conversa retratasse a realidade.
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