Notas iniciais
tretas are coming parte 1 quem tá cansado do seth levanta o fêmur

A luz do lampião decorado era pouco mais que suficiente para iluminar alguns poucos metros de sua fonte. A noite estava completamente azul escura — sem estrelas, sem lua, apenas nuvens — e isso fazia com que tudo abaixo daquele manto escuro tivesse uma visibilidade horrível.

Mas ainda assim, o frio gélido daquela noite não fazia dela algo desagradável.

A água da pequena cachoeira ao lado de Seth brilhava um pouco com a luz. Era um lugar extremamente sossegado, não era possível ouvir uma alma sequer daquele ponto. O único ruído era o dos galhos da árvore seca acima dele, que eram frágeis e se movimentavam com a brisa. Um deles caiu na água do riacho e por ali foi-se embora.

Amalie estava atrasada.

Essa era uma das únicas razões para fazer com que Seth notasse com detalhes os seus arredores: tédio.

Ela estava atrasada, mas por quê? Naquele breu? Naquele frio? Em um lugar um tanto desconhecido?

Ele olhou em volta com um pouco de rapidez, sacudindo o lampião. Nada. Nada em pouquíssimos metros de distância. Nada de interessante. Nada que...

– Seth!

O mesmo deu um pulinho ao ouvir a voz e sentir algo em seu ombro. Ele virou-se de costas com o lampião com bastante rapidez. Viu o rosto de uma pessoa familiar e esperada.

– Eu não demorei, demorei? — Amalie perguntou, ajeitando os cabelos loiros. Seth levantou-se da pedra onde sentava, ainda assustado.

– Poderia não fazer isso da próxima vez, por favor? — Seth perguntou com a voz arrastada, passando a mão em seus cabelos. Amalie inclinou a cabeça para o lado.

– O quê? Me atrasar?

– Não — ele respondeu. — Aparecer... desse jeito.

Amalie deu um sorriso de lábio mordido.

– Ah. Mas essa escuridão não é culpa minha.

– Eu sei — ele respondeu com suavidade, pondo o lampião para o alto.

Amalie começou a caminhar, seus sapatos fazendo pegadas delicadas na neve que também atingia seu vestido de cor escura. Carmim, talvez. Ou roxo.

– Aonde vamos? — Seth perguntou com cinismo acidental em sua voz. Amalie parecia despreocupada com isso. — Você só disse pra eu esperar aqui, e isso foi há... alguns dias, eu acho?

– Me desculpa — ela respondeu com um pouco de mágua em sua voz suave.

– Por quê?

– Achei que pudesse me levar àquele lugar que eu te falei.

Seth franziu o cenho, pensativo. Aquele lugar... aquele lugar... aquele lugar.

– Por que o santuário? — Ele perguntou.

– Você já se esqueceu?

– Já.

Amalie deu um sorriso.

– Eu já disse que eu estudo arqueologia. Não disse? — Ela perguntou após uma pausa.

– Sim, eu acho...?

– Eu te falei que há rumores de que o esqueleto do Espada Negra está lá?

Seth rapidamente sentiu o sangue subir à cabeça. Que maldita fixação escrota com uma lenda. Até ela?

– Não me recordo — ele respondeu, tentando disfarçar o desgosto pela fixação de todos com aquilo. Ele era atraído por Amalie até o momento que ela mencionasse aquilo. Então ele ficava... menos atraído.

– Eu acredito nesses rumores.

– E por que quer que eu vá com você? — Ele perguntou, se aproximando de seu rosto com a luz. Ela manteve a serenidade sensual presente por toda a sua face iluminada.

– Porque eu não sou forte o suficiente pra enfrentar o que vier por ali. — Ela deu um sorriso que não foi espelhado por Seth. Surpreendentemente.

– Foi por causa disso que você tentou chamar à minha atenção no bar?

Os olhos azulados de Amalie abriram-se como se ela tivesse sido flechada no peito. Seth se assustou um pouco.

– Desculpa.

– Você... acha mesmo que eu não gosto de você? — Ela perguntou olhando para frente, com um sorriso um pouco triste. — Acha que eu fiz aquilo por atenção ou interesse próprio?

– Eu... Me desculpa.

Amalie virou-se para o lado e pegou o rosto rosado de Seth com força, fazendo com que ele olhasse para ela nos olhos. Ele franziu o cenho, e ela fez o mesmo.

– Sério? — Ela perguntou com a voz grave e baixa, como se fosse um sussurro.

– Sim — ele respondeu sem expressão na voz, ainda perturbado com a atitude de Amalie. Ela sorriu com os olhos fechados e levou sua boca à dele. Ela o separou dela com um pouco de violência e voltou a andar na frente de Seth. Ele nem ao menos sentiu alguma coisa.

Ele se sentia lesado. E estranho. Talvez até mesmo um pouco idiota. Mas ele continuou andando com seu lampião decorado de cerâmica.

Como ele poderia se sentir tão...

Ilsa.

Outra lesada. E estranha. E talvez até mesmo um pouco idiota, tanto quanto Seth. Arruinando relacionamentos, arruinando euforia. Ele sentiu o sangue subir à cabeça mais uma vez.

– Seth? — Amalie perguntou com preocupação em sua voz, inclinando a cabeça.

– Que ódio – Seth murmurou com raiva, esfregando a mão em seu rosto sardento com força.

– O que disse?

– Nada — ele respondeu, ainda murmurando. — Não é com você.

– Ah. — Ela olhou para a mão direita de Seth e apontou para ela. — O que houve?

– Isso? — Ele olhou para sua mão queimada e mostrou para Amalie com naturalidade. — Foi uma vela.

– Ai. — Ela estremeceu. — Deve ter doído.

– Eu não senti, pra falar a verdade — Seth respondeu encolhendo os ombros. — Já estou acostumado a me machucar quase que... sempre? — Ele deu um sorriso, seguido por um riso curto de Amalie.

– Entendi.

A brisa agora se transformava em um vento gelado, e a neve começava a cair. À medida que eles andavam, mais parecia que eles estavam distantes de tudo. Apesar disso, a luz do lampião agora refletia em alguma coisa em vez do breu onipresente. Parecia um tipo de pilastra.

– É aqui? — Amalie perguntou a Seth, que movia o lampião e tinha os olhos estreitos, procurando algo. Ela tinha os braços abraçados sobre si mesma para se aquecer, já que seu vestido era fino.

– Eu acho que sim. — Ele apontou para o piso de mármore da entrada, que levava a duas portas enormes e pesadas.

O vento agora havia ficado mais forte e ainda mais gelado. Amalie fechou os olhos com força.

– Você quer entrar agora? — Seth perguntou, pondo o lampião próximo ao mármore velho. Amalie fez que sim com força, andando até as portas do santuário. Seth a seguiu. — Como se abre essa porcaria?

Amalie observou as portas. Pareciam ter duas vezes a altura de Seth. O mesmo andou até a lateral da construção.

– Parece que tem uma outra entrada aqui — ele afirmou, sua voz um pouco mais rouca do que o normal. — Mas ela parece tão fechada quanto essa.

– Então volta aqui, Seth — ela gritou, olhando em volta na neblina até ele voltar. — Vamos abrir isso com força bruta.

– Ah, é mesmo? — Seth perguntou com um riso sarcástico, observando a altura das portas. Elas deveriam ter quase quatro metros. — Como se isso fosse possível.

– Eu vi o que você pôde fazer no bar — Amalie respondeu, se preparando para arrombar a porta com o ombro. — Acha que pode me ajudar?

– Acho que posso fazer isso sozinho – ele respondeu, entregando o lampião para Amalie, que não parecia impressionada com a rápida mudança de opinião de Seth.

Ele tentou uma vez; a porta mal se mexeu. Na segunda vez, a mesma coisa. Na terceira, o mesmo resultado. Na quarta...

Amalie pôs o lampião no piso de mármore e tentou arrombar a porta junto com Seth. Para a surpresa dele, a porta realmente abriu — e fez um ruído ensurdecedor.

– Pronto, agora só falta abrir a outra — ela sorriu, olhando para o interior escuro do santuário. Seth ainda parecia surpreso.

– Acho que é melhor deixar essa aberta. — Ele abriu um pouco mais a enorme porta escura e pegou seu lampião para se adentrar no breu que estava à sua frente.

Notas finais
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