Black Blade
16 Reflexo
Notas iniciais
O interior estava em completo breu até Seth entrar com a luz, que iluminava apenas o suficiente para ver aonde pisava — um tapete velho e decorado.
– Você consegue ver alguma coisa? — Amalie perguntou, se segurando na porta como referência. Seth pôs a luz em seu rosto e fez que não.
– Acha mesmo que isso é uma boa ideia? — Ele pôs a luz próxima à porta. Amalie franziu o cenho.
– Eu tenho certeza que é — ela respondeu, pondo o lampião para longe da porta. — Eu não quero morrer congelada lá fora.
Seth franziu o cenho.
– Você não vai morrer congelada, vai só...
– Me dá isso aqui. — Amalie tirou o lampião das mãos dele, pondo-o próximo à parede até ver alguma coisa.
– O que você está fazendo?
– Procurando iluminação — ela respondeu com naturalidade, como isso fosse óbvio.
Seth observou sem expressão. O que diabos ela...
De repente, uma enorme fileira de fogo acendeu-se pelas laterais, iluminando metade do local.
– O que... o que você fez? — Seth perguntou boquiaberto. Amalie parecia pouco mais que contente com o resultado, e respondeu encolhendo os ombros.
– Havia carvão ali, então eu taquei fogo nele.
– Como? — Ela respondeu balançando o lampião. Seth levantou a sobrancelha.
– Agora podemos achar nosso caminho, não é? — Amalie encolheu os ombros mais uma vez, entregando o lampião a Seth, que ainda parecia surpreso.
Agora era possível observar o local, que parecia bem conservado, porém antigo. As paredes eram feitas de pedra polida e clara, contrastando com o teto escuro que possuía até mesmo um enorme lustre de cristal.
– Isso não se parece com um santuário, só pra constar — Seth afirmou, ainda observando o lustre gigantesco.
– Dizem que era aqui que ficavam alguns guardiões, o que você espera?
Seth sentiu o sangue subir pela terceira ou quarta vez naquela noite. Ah, sim. Era por esse motivo que eles estavam ali. A ignorância era uma bênção.
– Bom, eu esperava que um santuário fosse algo menos... luxuoso? E com mais raízes de plantas entrando?
– Quanta ingenuidade — ela riu enquanto procurava algo na parede oposta, no lado escuro. — Pode trazer a luz pra cá?
– O que foi agora? — Seth perguntou, trazendo o lampião para perto de Amalie.
– Tem uma entrada por aqui.
– Entrada pra onde?
– Pro subsolo, claro. — Ela encolheu os ombros. — Você não espera que os restos mortais de um herói estejam aqui em cima, espera?
– Eu não quero ver restos mortais de ninguém — ele respondeu, franzindo o rosto. — E como você sabe disso?
– Você não faz ideia do que eu aprendi.
Seth pôs o lampião perto da parede no escuro. Esta era feita de pedras ásperas que pareciam ser móveis. Amalie andou até a parte iluminada.
– Acho que é aqui. — Ela encostou em uma das pedras que parecia solta. — Você vê como ela e essas outras parecem que vão cair?
Seth fez que sim.
– Atrás delas há um corredor estreito — ela continuou. — Essas pedras estão só disfarçando uma caminho, por isso são meio soltas.
– Achei que fosse porque esse lugar é velho.
Amalie tirou as duas pedras que ela havia movido. Seth pôs o lampião no chão e tirou mais algumas. Em pouco tempo, já havia uma entrada oval que dava em um corredor com escadas íngremes.
– É aí mesmo? — Seth perguntou com um pouco de receio, olhando para as escadas de pedra escura que davam no nada.
– Claro que é.
– Se eu morrer nessas escadas...
– Você não vai morrer nessas escadas — Amalie afirmou com certeza e começou a descer com o lampião de Seth, que a seguiu.
Eles desceram as escadas, e o corredor estreito ficava cada vez mais escuro à medida que eles se distanciavam do primeiro andar do santuário — o que fazia com que Seth ficasse receoso.
– Quando que essas escadas terminam? — Ele perguntou, olhando para trás com rapidez. Não havia nada além de escuridão.
– Não sei... — Amalie respondeu com incerteza. — Acho que talvez...
Ela foi interrompida por um ruído distante que vinha do primeiro andar.
– O que foi isso? — Seth parou no mesmo momento. Amalie estreitou os olhos.
– Acho que... — ela respondeu com voz baixa. — O vento. Talvez.
– O vento não faz barulho de alguém andando — ele respondeu com cinismo. Amalie voltou a olhar para frente.
– Continue andando, Seth.
Os dois terminaram de descer as escadas e seguiram por um corredor mais largo, que aumentava de altura e largura até se depararem com um paredão.
– Ah, excelente – Seth bufou, encostando as costas na parede do corredor. — Agora não apenas há alguém no andar de cima, estamos também presos fisicamente por causa... disso.
– Calma — Amalie respondeu, observando a altura do objeto. Era feito de pedra sólida, escura e decorada. Havia algumas palavras e desenhos nela, e ela parecia mais velha do que realmente era.
– Isso já deve ter sido arrombado trezentas vezes — Seth disse, observando as partes destruídas dos pilares horizontais que constituíam o paredão.
– Eu não duvido — Amalie fez que sim. — Ninguém mais teria a chave para esse lugar.
– Tem uma chave pra isso?
– Tem — ela respondeu, apontando para um pequeno círculo no segundo pilar do paredão. — É um mecanismo antigo que só funciona com um objeto circular que... — Ela interrompeu-se. — Seth.
– O que eu fiz?
– Eu preciso do seu colar.
– Por quê? — Ele estreitou os olhos.
– Porque ele é um objeto circular que pode ser removido rapidamente, já que é... bem, um colar.
– Mas...
– Seth, esse colar é da época da guerra... pelo menos a pedra é. Só pode ser ele.
– Mas e se ele quebrar? — Ele franziu o cenho. Amalie fez bico.
– Seth, você quer morrer aqui, em frente a um paredão? Como um perdedor?
Ele suspirou.
– Não. — Ele entregou o lampião a Amalie e removeu o colar com a pedra avermelhada.
Amalie sorriu e pegou o colar.
– Você é um amor, Seth.
– Eu sei — ele disse, dando um riso curto e um pouco orgulhoso.
Amalie pôs a pedra avermelhada no buraco da pedra, e rapidamente a retirou. Seth continuava fitando atentamente seu item valioso.
O pilar permaneceu completamente parado por alguns segundos, e então se moveu um pouco para o lado. Amalie sorriu.
– Funcionou?
– Sim — ela respondeu, ainda segurando o colar.
– Então podemos prosseguir? — Seth perguntou, andando com a luz até o paredão. Amalie fez que sim e empurrou o pilar do meio, que se moveu sozinho para o lado junto com os outros, abrindo caminho.
À frente deles não havia nada além de escuridão, mas era possível ouvir um barulho de água além do baixo ruído que surgia novamente .
– Por que tem água aqui? — Seth perguntou, seguindo Amalie com mais calma.
– Isso aqui é mais fundo do que se parece — ela afirmou.
À sua frente havia mais alguns degraus de pedra polida, porém menos íngremes do que os primeiros. Já era possível ver o final do corredor pelo piso diferente, que agora era de uma pedra escura e opaca. Amalie pegou o lampião das mãos de Seth.
Esta sala também estava completamente escura, até Amalie pôr o lampião em um pequeno recipiente que fez com que o interior se iluminasse por completo, acendendo fileiras e fileiras de brasas como um dominó circular.
– Por que você tem que fazer isso? — Seth perguntou, olhando em volta com espanto.
As paredes eram feitas de pedra clara, contrastando com o piso escuro. O teto era baixo e feito de pedra cinzenta Havia decorações em cristal em vários cantos do cômodo, e uma pequena cascata dava em um lago artificial e raso que parecia quente e cristalino.
Os olhos de Amalie brilharam ao olhar para o meio do lago. Havia um pequeno pedestal preto e brilhante. Em cima dele havia um objeto que, de longe, parecia uma espada. Mas de perto, parecia...
Não, aquilo realmente era uma espada.
Amalie praticamente correu até o lago, sorrindo.
– Por que diabos tem uma espada aqui? — Seth perguntou de braços cruzados, seguindo a moça com calma. Ela não parecia se conter, e observou o objeto com mãos no rosto, escondendo o sorriso.
– Eu não acredito nisso... — ela dizia repetidamente, como um mantra.
– Amalie.
– Ela está realmente aqui, depois de anos...
– Amalie.
– Finalmente...
Seth engrossou a voz.
– Amalie! — Ela deu um pulo ao se libertar do transe da espada pela voz de Seth. — Que eu saiba, não estamos procurando uma espada, e sim os, hã... restos mortais.
– Dane-se os restos mortais — ela disse com certa euforia. — Seth, eu preciso que você tire essa espada do pedestal. — Ele franziu a testa.
– Por quê? Ela está perfeitamente normal aí.
– Seth, eu preciso dela — ela continuou, sua voz falhando.
– Mas... armas existem pra isso. — Ele se aproximou do objeto brilhante. — Pra que você precisa de uma espada? Você quer... vender algo assim?
Amalie suspirou.
– Eu apenas preciso dela.
Seth franziu o cenho, e observou o objeto. Sua superfície era preta e completamente polida; era possível usá-la como um espelho de um pouco mais de um metro de comprimento. Sua empunhadura era preta e fosca, tão larga quanto a ponta assimétrica da espada, que ficava cada vez mais longa. Além disso, suas lâminas eram decoradas com alguns símbolos em baixo relevo nas laterais, que correspondiam aos símbolos no pedestal de pedra polida.
Era possível ver por que alguém gostaria de obter algo daquele jeito.
– Ela é tão linda... — Amalie continuou, fitando as lâminas pretas como se estivesse hipnotizada.
– Eu concordo. — Seth rapidamente andou até o pedestal e pôs a mão na empunhadura fria, retirando a espada com calma. Amalie continuava observando atentamente a lâmina.
– Como você se sente com algo desse tipo...? — Ela perguntou ofegante.
Seth olhava atentamente para as lâminas da espada que agora possuíam um brilho azulado em seus símbolos. Um deles significava... morte, talvez?
– Eu quero uma dessas. — Ele riu, cortando o ar à sua volta. Ela era surpreendentemente leve e confortável, e cortava o ar com um brilho sombrio. Ela era tão, tão linda... — Por que você quer ela mesmo?
– Ah — ela começou, encolhendo os ombros. — Só... por ter, mesmo. Talvez vender ela pra alguém.
Seth entregou a espada à Amalie, ainda surpreso com a arma. A moça parecia satisfeita ao pegar na empunhadura fosca, e observava o item assim como ele.
Ela cortou o ar com a espada repetidamente, impressionada com seu rastro.
– Você disse que não tinha tanta força pra fazer as coisas, não era? — Seth perguntou com um meio sorriso.
– Ah, eu... não estava falando sério — ela respondeu, ignorando-o completamente.
– Entendi — ele deu um riso curto, se distanciando um pouco do lago do pedestal e observando o resto do cômodo.
Era um lugar um tanto luxuoso, mais rico do que parecia ser antes. Mas havia algo naquele lugar que era um tanto... estranho. Mesmo com tudo aquilo, havia algo que perturbava Seth se ele tentasse conectar tudo que havia ocorrido.
– Você parece estar se divertindo bastante, não é?
Amalie prendeu a respiração e segurou a espada com firmeza. Seth virou-se para a entrada com rapidez.
Das sombras rapidamente aparecia uma pessoa com passos pesados — a origem da voz grave e firme que havia sido ouvida ali. Seth estreitou o olhar.
Ah, não.
– O que raios você está fazendo aqui, Ilsa? — Ele perguntou, sua voz falhando com frustração.
Ilsa não respondeu.
– O que você quer? — Ele perguntou novamente com a voz mais alta. Ilsa, porém, olhava atentamente para Amalie, que estava atrás dele.
– Eu quero que você largue a espada — ela respondeu com olhar autoritário.
Seth virou-se para a loira, que segurava a espada com força, quase tremendo e com a cara assustada. Ele virou-se novamente para Ilsa, com expressão confusa e brava. A mesma manteve a expressão gelada, olhando para ele.
– Você quer morrer? — Sua voz destoava de sua face. Parecia estar tão frustrada quanto Seth. Amalie continuava segurando a espada, agora se aproximando dele.
– Do que ela está falando? — Ela sussurrou para ele, sua voz mostrando o medo que possuía. Ilsa rapidamente pegou uma faca prateada de seu cinto, e Seth assustou-se.
– Então você... quer me matar? — Sua voz tinha confusão e um pouco de orgulho disfarçado. Ele cruzou os braços e deu um passo para frente. — Isso não vai me matar, você vai apenas gastar seu...
– Ela não é pra você — Ilsa respondeu com frieza, e rapidamente Seth entendeu o que ela queria dizer.
Ela era para Amalie.
Ele rapidamente pôs se à frente dela.
– Por que você quer me matar?! — Amalie perguntou com indignação, segurando a espada perto de seu peito como proteção. — O que eu te fiz?!
Ilsa a encarou com desgosto, enquanto Seth encarou os olhos cinzentos à sua frente com raiva.
– Se você encostar um dedo sequer nela...
– O que vai fazer? — Ela perguntou com arrogância, se aproximando lentamente e segurando a faca com mais força. — Você nunca teria coragem de me matar, Seth. Você tem orgulho demais de ser alguém "limpo", mesmo tendo instinto matador e raiva no coração.
Ele sentiu os olhos ferverem com aquelas palavras.
– Você quer me comparar a você mesma.
– Você não faz ideia do que é, faz? Você nunca se questionou?
– Por favor, parem! – Amalie gritou com a voz falha.
– Você tem ciúmes de mim, Ilsa — ele respondeu com um riso nervoso, ignorando Amalie. — Isso é incrível.
– Você acha mesmo que tudo isso foi coincidência? — Ilsa perguntou, quase rosnando. Seu olhar fitava não apenas ele, mas também Amalie. — Você acha que tudo que há de estranho com você é mera coincidência?!
– Eu gosto de você, Ilsa. Mas você tem problemas. E eu não quero ser parte deles.
Antes que Seth terminasse, os olhos de Ilsa se arregalaram e ela correu para ele com a faca pronta para ser enterrada... até que ela parou subitamente no lugar. Seth engoliu em seco, sentindo uma sensação queimante que nunca havia sentido antes na vida.
– Eu acho que já é tarde demais para dizer isso... não é? — Amalie sussurrou com a voz gelada, uma mão no ombro de Seth e outra na espada.
Ilsa permaneceu no lugar, seus olhos assustados fitando os azuis de Seth — que pareciam tão perturbados quanto os de Ilsa. Sua respiração parecia ter parado.
Amalie enfiou mais profundamente a espada e empurrou Seth, que foi ao chão do lago. O mesmo gemia de dor e tinha uma expressão de frustração e desgosto.
– Por que... — ele começou a pergunta, ofegante. Seu casaco de pele já começava a ficar vermelho. — Por que você...
– Você é tão fofo — Amalie respondeu com serenidade, segurando a empunhadura com força. Seth tinha o rosto na água rasa e sangue saía de sua boca rapidamente.
Ilsa dividia seu olhar entre os dois. Acima, a mulher que antes parecia doce e serena agora tinha um brilho perturbador nos olhos e uma arma na mão; embaixo, o homem que tinha um rosto rosado e voz alta agora tinha o rosto pálido, uma espada enfiada no meio das costas e voz reduzida a gemidos frustrados.
– Eu... — Seth tentou falar, mas sua voz o falhava terrivelmente. — Eu fui... idiota...
Ilsa continuava a olhar os dois ao mesmo tempo.
– Você não foi idiota, você sabe disso — Amalie respondeu com a voz doce. — Você apenas agiu de acordo com o plano. — Ela observava a ferida em torno da espada. Além de sangue, havia um tipo de fumaça preta que saía da espada e começava a tomar o rosto de Seth em segundos.
– Eu vou te matar — Ilsa rosnou, fitando Amalie. — Vou te matar tão lentamente que você vai pedir que eu corte a sua cabeça o mais rápido possível. — Ela pôs sua faca em posição de ataque e avançou para Amalie.
A loira fitou Ilsa e retirou a espada sangrenta e brilhante do corpo de Seth com um sorriso sarcástico, bloqueando a faca de Ilsa e fazendo com que ela caísse no chão com um som metálico.
– Você... você não tem escrúpulos, tem? — Ilsa se aproximou da faca caída com cautela e um olhar assustado enquanto Amalie caminhava com calma e sua espada refletindo o rosto da moça de cabelos escuros à sua frente até que Ilsa ficou encurralada em um canto da sala. Amalie sorriu.
– E você não tem coragem, Ilsa. — Ela enfiou a espada na lateral do corpo de Ilsa, fazendo com que ela gritasse com raiva e caísse no chão gelado. A espada foi retirada calmamente. — Nem um pouco.
Ilsa segurava seu corpo com os cotovelos mas agora eles já haviam começado a se petrificar junto com suas pernas, e ela foi ao chão. Literalmente petrificar.
– Engraçado... — Amalie deu um riso curto. — Faz muito tempo que não vejo a morte de um guardião. Tipo... alguns séculos.
Ilsa começou a sentir seu pescoço se petrificar e tinha respiração ofegante, diferente da respiração calma da loira.
Amalie virou as costas, segurando a espada e um objeto vermelho que se parecia com o colar de Seth. Ela observava a fumaça negra do corpo do mesmo, que já havia se desintegrado. Ilsa rapidamente pegou uma chave — pequena e prateada — que estava em um colar e a jogou no chão próximo a ela com sua mão que ainda não estava imóvel.
– Você é exatamente como eu lembrava que você era, Ilsa — Amalie começou, com a voz serena. Ela olhava para a espada como se fosse uma pessoa de verdade. — Imatura, ingênua e covarde.
Ilsa fitou a silhueta elegante e murmurou com sua boca dura.
– Você também... Mirjam.
Ela andou até o recipiente do lampião de Seth, o retirou dali e começou a subir as escadas na escuridão, enquanto Ilsa se petrificava até a morte.
Mesmo com uma nevasca, o frio que estava ali fora ainda era mais convidativo do que o clima mórbido que estava naquele santuário maldito.
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