Black Blade
9 Surpresa
Notas iniciais
– Luta?!
Não era possível. Uma luta, do nada?
"Você é campeão de luta, não é?"
"O que isso tem a ver?"
"Tem a ver com o fato de que você não vai precisar se preocupar, só isso."
– Espera, por que eu tenho que lutar?! — Seth perguntou, indignado. Claro, não é como se fosse algo extraordinário ou horrível. Mas por que do nada?
– Porque tem uma coisa no meio que é muito, muito boa — Killen desceu da mesa, respondendo com um tom de voz intencionalmente sedutor. Seth desviou o olhar. — Grana.
Sasha saiu de seu esconderijo, segurando uma caneca quebrada que havia ali.
– Killen, não...
– Muita, muita grana.
Seth engoliu em seco, olhando para o ruivo com tensão.
– Quanto... quanto dinheiro? — Killen riu ao ouvir a pergunta de Seth.
– Você não faz ideia — ele lambeu os lábios, com os olhos apertados. Seth não parecia satisfeito com a resposta.
– Basicamente — Sasha interrompeu para responder — tudo o que o bar acumulou nas últimas vinte e quatro horas vai pro vencedor da luta do dia.
– E... isso é muito?
Killen bateu as mãos na mesa, — uma delas ainda segurando sua caneca de vidro — fazendo um ruído vibrante.
– Se isso é muito?! Olha só pra esse lugar!– Ele sentou-se, compondo-se com má postura. — E além disso, os preços são exo... ext...
– Exorbitantes — Sasha finalizou a frase, bufando e revirando os olhos.
– Isso.
– Olha, e se você fizer as contas... — Ela continuou, contando em seus dedos — pode variar de três a... oito, nove mil.
Seth arquejou, pondo as duas mãos no coração dramaticamente.
– Tudo isso?!– Ele perguntou, ainda espantado. — Por uma mera briga de bar?!
Killen arquejou e apontou sua caneca meio cheia no rosto de Seth, quase derrubando o líquido em seu rosto sardento.
– Escuta aqui, truta mole. Isso não é uma "mera briga de bar" como você falou. Isso aqui é uma tradição sagrada de anos da Taverna do Cavaleiro, onde o lendário especial da casa com azeitona dupla é entregue a um cidadão qualquer por uma alma divina que escolheu tal cidadão qualquer para ir à arena de brasas flamejantes e lutar até a morte – ele levantou a voz, apontando para o nada — contra outra alma divina que teria sido o campeão da luta passada, cuja habilidade o trouxe a esse mundo, a esse império, a esse bar que por razões tradicionais faz lutas todas as noites às oito horas em ponto. — Ele continuou, sacudindo a caneca a cada pausa. — Então. Não tente me dizer. Que as lutas do bar. São apenas. Meras brigas de bar. Fui claro?
Seth empurrou a caneca em seu rosto de volta para Killen, com olhar estreito.
– Por que às oito?
– Porque foi às oito horas que o herói de codinome Lâmina Negra trouxe ao Centro sua primeira vitória, caso você não saiba — Killen respondeu, com tom ameaçador. Ele deu um gole demorado de sua bebida, olhando para Seth com brilho voraz. Ele terminou seu gole e continuou, com voz arrastada. — E é por isso que devemos honrá-lo.
– Mas... — Seth ajeitou o cabelo, olhando para as duas com olhar estreito. Surpreendentemente, Sasha não parecia discordar de nada do que Killen havia dito. — Isso é só uma história que criaram pra incentivar soldados e...
Killen praticamente jogou sua caneca na mesa.
– Você duvida que ele existiu, truta mole?
Seth encolheu os ombros, disfarçadamente tentando pedir apoio moral a Sasha. A mesma não parecia prestar atenção em seu olhar.
– Não é que eu duvide — ele começou, desviando o olhar ardente de Killen. — Mas eu acho que o que dizem que ele fez é meio... meio muito exagerado.
– Então você duvida das habilidades dele — Sasha levantou a sobrancelha, dando um pequeno sorriso desafiador.
– Pode ser.
– Como você explica então os "desaparecidos" — ela simulou aspas com os dedos — cujos corpos nunca apareceram em campos de batalha por onde ele passou? Corpos não evaporam, você sabe disso.
Seth olhou para baixo, em busca de uma resposta.
– Como você explica sua morte "inexplicável"?
– Eu, hã...
– Magia.
– Eu ia dizer "substâncias alucinógenas", mas acho que serve. — Sasha deu um riso curto ao ouvir a resposta de Seth, que não entendeu o motivo da graça. Mas em vez de apenas dizer que magia não era real, ele calou-se e começou a observar o ambiente com mais detalhes.
No balcão de mogno havia seis pessoas sentadas: um homem de meia-idade bebendo um especial da casa, uma moça bêbada rindo de algo que tal homem dizia, dois homens altos e fortes com canecas de cerveja rindo e outras duas mulheres conversando. Uma delas — uma alta e morena — conversava com várias pessoas ao mesmo tempo; a outra — uma moça de pele e cabelos claros — contava o dinheiro e parecia analisar Seth de longe com olhares de curta duração. O mesmo percebeu e olhou de volta, fazendo com que ela sorrisse mas desviasse o olhar rapidamente. Ele deu um riso curto, voltando sua atenção parcialmente à mesa, onde Killen e Sasha ainda conversavam.
– Você acha que a Ilsa vem?
Seth virou-se para a mesa um pouco menos discretamente do que ele queria, mas continuava fingindo não prestar atenção.
– Ela é fominha, não perde uma oportunidade — Killen riu, girando a azeitona solitária em sua caneca já vazia.
– É — Sasha concordou, amaciando seus cabelos brancos. — Seria fora do comum ela faltar assim.
– Além disso, — Killen estalou os dedos e chamou um garçom qualquer ali perto — o truta mole aqui tem que ir contra alguém digno.
– O que você quer dizer? — Seth perguntou, estreitando os olhos e se metendo na conversa. Sasha se espantou, ao contrário de Killen.
– Que você vai levar umas — o ruivo riu, apontando o dedo indicador em sua direção. — Talvez duas. Três, quatro, cin...
– Sua oponente é tranquila, ela pega leve — Sasha respondeu.
– Só que não. — Killen continuou a rir da cara quase entediada e sem-graça de Seth, que não reagia mais aos risos espontâneos do ruivo.
– Ilsa, não é? — Seth perguntou vagamente, como se não se importasse.
– É — Sasha mexeu em sua franja, assoprando os fios bagunçados. — É uma amiga nossa.
– Por acaso ela seria uma moça alta, de cabelo quase preto, pele pálida, olhos cinzas, voz firme...
– Sim.
– ...Cara de enjoada?
– Na mosca.
Killen arquejou, pondo as mãos no rosto.
– Você vai pagar por isso, truta mole — ele lançou um olhar venenoso a Seth, que não se importava.
– Você conhece? — Sasha perguntou.
– É por aí sim — Seth respondeu, encolhendo os ombros. — Ela só não fala muito.
– Então é exatamente essa Ilsa.
– Então... ela é minha oponente. — Sasha fez que sim. — Ela frequenta?
– Eu não diria que ela frequenta, mas quando ela vem, é pra bater em alguém.
– Espera... você tinha dito que pra ser escolhido, você teria que ser premiado com duas azeitonas no especial da casa, certo? — Sasha fez que sim novamente.
– Na realidade foi o Killen, mas...
– Então ela é premiada toda vez que ela vem aqui?
– Não, ela apenas ganha todas as lutas em que ela participa.
Seth engoliu em seco. Todas elas?! Nem mesmo ele, que era campeão de luta lendário do Norte, conseguia fazer algo desse tipo.
E além disso, ela ficava com toda a grana.
Do nada, Killen sorriu para o alto e um arrastar de cadeira súbito ocorreu ao lado de sua mesa. Uma cadeira de mogno foi posta no espaço vazio entre Sasha e Seth, e uma criatura sentou nela. As outras duas não pareciam se importar.
Quem havia sentado nela?
Uma moça alta, de cabelos quase pretos, pele pálida, olhos cinzas e cara de enjoada.
– Olá, gente. — Ilsa ajeitou sua longa saia preta e brilhante. — Desculpa a demora.
– E aí, maravilha — Killen riu, olhando para o nada em vez de Ilsa, que apenas levantou a sobrancelha. — Já sabe quem é sua vítima de hoje?
Seth engoliu em seco.
Ilsa olhou em volta, mordendo o lábio inferior.
– Eu não me surpreenderia se fosse algum de vocês. — Ela respondeu com pouca emoção.
Sasha apontou para Seth.
– Ah — Ilsa deu um riso curto, como se zombasse de suas habilidades. Ela ainda queria bloquear um certo pensamento de sua cabeça. — E aí, Seth? Já pensou nas suas últimas palavras?
Killen riu loucamente, apontando para a cara inexpressiva de Seth. Sasha continuava a mesma.
– Não — ele respondeu. — Sabe por quê?
– Diga.
– Porque eu vou vencer.
Ilsa deu um pequeno sorriso sarcástico.
– Você é fofo — ela disse, dando um riso curto e abafado. — Dá vontade de perder só pra ver você continuar com essa determinação.
– O que isso quer dizer? — Seth perguntou, levantando a sobrancelha. O sorriso de Ilsa expandiu-se.
– Você é tão diferente quando tem que impressionar alguém.
Seth engoliu em seco. De novo. Para disfarçar (e, com sorte, mudar o foco) o nervosismo que se instalava, ele tirou o pingente vermelho de dentro da blusa. Ilsa se espantou por meio segundo, quebrando sua aura de arrogância.
– Isso aqui é o que prova que eu posso vencer — ele mostrou a pedra vermelha, que brilhava mesmo com a luz fraca do bar.
– E isso significa...?
– Sou campeão lendário de lutas do Norte.
Killen arquejou pela trigésima vez ao ouvir essas palavras. Ilsa continuava a mesma, apenas um pouco perturbada pela pedra. Ela procurava palavras.
– Bem. Parabéns então, Seth. — Ilsa sorria, porém não genuinamente. — Parece que você é mais digno do que eu pensava.
Seth sorriu, seu ego inflando lentamente. Mesmo com um pouco de medo do que Ilsa poderia fazer com ele — ela tinha algo medonho em seu olhar, e Ada havia dito que ela não era totalmente confiável.
– Então o truta mole não é tão mole, não é? — Killen perguntou, dando um riso arrastado e mais curto do que o normal. Ilsa riu ao ouvir o apelido.
– Truta mole? — Ilsa questionou sarcasticamente, e Seth desviou o olhar. — Por incrível que pareça, esse é o apelido mais normal que ele já deu a alguém.
– Senhorita Ilsa?
Ilsa virou-se para trás, procurando a origem da voz. Era Agnip, claro.
– Sim?
– O que vai querer? Saiba que qualquer especial da casa que a senhorita pedir estará inválido às promoções, já que os dois oponentes da luta de hoje, você e o truta mole que foi escolhido por uma pessoa, estão aqui.
– Ah, sim. Vou querer algo que me deixe com sede de vingança. — Killen riu do pedido de Ilsa, recebendo um olhar gélido de Sasha.
– Um especial da casa, então.
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