Black Blade
5 Seth
Notas iniciais
Após um momento de espera, ouvia-se passos vindo do andar de baixo, subindo as escadas de mármore. Era Ada e mais uma pessoa atrás, seguindo-lhe com passos pesados — provavelmente Seth. Edith fingia não perceber.
– Edith — Ada disse, abrindo caminho para a pessoa atrás dela. Edith virou-se na direção dos dois. — Este é Seth, o cara que eu mencionei anteriormente. — Ela virou-se para ele, já andando em direção à biblioteca. — Ela quer falar umas coisas com você — e se foi, descendo os degraus altos e escorregadios.
– Está bem — ele disse, sentando-se na poltrona onde Ada estava anteriormente. Edith sorriu com formalidade. Seth fez o mesmo.
– Olá — ela começou a se apresentar, olhando em sua direção com um olhar forte e distante. Seth não se amedrontava. — Meu nome é Edith. Eu sou irmã da Ada, tenho vinte e cinco anos, sou médica e...
– Isso se parece com uma ficha de emprego — Seth brincou, dando um sorriso tosco. Edith riu, talvez forçadamente. — Ou fichas de namoro. É um dos modos mais eficientes de formar casais no lugar de onde eu vim.
Mas que convencido.
– Acredite, não é uma ficha de emprego — Edith respondeu, com um riso curto. — E definitivamente não é uma ficha de namoro. Eu sou casada.
– Ah.
– Com uma mulher.
– Ah.
– Então — Edith continuou, encolhendo os ombros descontraidamente — eu diria que isso foi uma ficha de apresentação. Eu costumo me apresentar assim.
– Hã... certo — Seth respondeu, passando a mão nos cabelos penteados para trás. — Meu nome é Seth, como você já sabe — ele esperava não ter que continuar com sua "ficha de apresentação", mas Edith parecia querer com que ele continuasse. — Eu tenho... vinte e quatro anos e... nada muito interessante. Mas sou campeão de luta das montanhas.
Ele deu um sorriso maior do que o normal, tirando uma enorme pedra preciosa oval que estava em seu colar de várias correntes pretas, mas escondido dentro de sua camisa branca. Parecia uma opala vermelha, só que muito maior do que a maioria das pedras que Edith já havia visto. Ela levantou as sobrancelhas, surpresa.
– Então você veio do Norte? — Edith perguntou, ainda olhando para o enorme pingente.
– Sim — Seth respondeu, pondo sua pedra vermelha para dentro novamente.
– Não foi no Norte que houve uma perseguição de várias pessoas por dias?
– Foi — Seth respondeu, com um pouco de hesitação. — Eu estava lá.
Edith engoliu em seco, tentando desculpar-se por entrar nesse assunto.
– Ah, me desculpe, eu...
– Não, não tem problema — Seth respondeu, passando a mão no seu cabelo mais rapidamente. — Eu mesmo não sei o que foi aquilo. Eu só me lembro de correr e correr e correr e correr... e de ser atacado por várias pessoas. — Ele deu uma risada quase que imperceptível. Edith não fez o mesmo.
– Espera, então é por isso que você apareceu na cidade daquele jeito?
Seth deu um meio sorriso.
– É — ele encolheu os ombros, como se não se importasse. Edith olhou para a mesa, pensativa. — Eu nunca corri perigo nenhum.
Edith olhou para Seth, com o olhar estreito.
– Eu o vi quase morto. Eu... eu ainda nem digeri o fato de que você está vivo. — Seth deu um riso curto. — Com todo o respeito, claro.
O silêncio tomou conta por um momento.
– Ah — Edith exclamou, quebrando o silêncio. — Eu me esqueci de perguntar...
– Diga?
– A sua habilidade de regeneração te ajudou a ser campeão de luta?
– Eu acho que ela me ajudou bas... — Seth interrompeu a si mesmo, estreitando o olhar. — Espera, como você sabe disso?
– A Ada me contou — Edith sorriu, ajeitando uma mecha de cabelo. — Eu não acreditei muito, achei que ela estivesse exagerando no começo. Só que você estava andando bem demais pra alguém que estava sangrando quase que dos pés à cabeça e tinha furos de um forcado no ombro. — Seth riu, olhando para baixo.
– Eu não sei porque eu tenho isso, pra falar a verdade.
– Talvez seja um gene raro. Bem raro, porque eu nunca vi ninguém se recuperar tão rápido quanto você.
– Talvez, mas eu também nunca ouvi falar de outra pessoa com isso. Mas...
– Mas...? — Edith estreitou o olhar.
– Não, deixa pra lá. Me lembrei de uma história falsa que viviam me contando. Não é importante.
– Ah — Edith desviou o olhar, suspirando. — Certo. Bem...
Ela tirou um pequeno relógio de bolso dourado, olhando para ele com espanto. Seth desviou os olhos azuis para o relógio.
– Então, eu... tenho que ir. — Edith deu um riso curto e formal novamente, levantando-se da poltrona. Seth fez o mesmo. — Está meio tarde. Talvez alguém precise da minha ajuda e não tenha algo como sua habilidade incrível.
Seth riu, olhando para a saia longa de Edith.
– O que houve com sua saia? — Ele perguntou, apontando para o tecido úmido.
– Ah — ela olhou para baixo. — A Ada não sabe dar notícias. Especialmente notícias inusitadas. Aí eu derrubei uma xícara de chá em mim.
– Melhoras pra sua saia. — Seth disse, fazendo Edith dar um riso curto.
– Espero que você consiga voltar para casa.
– Eu até gosto daqui, admito. Não arriscaria voltar para as montanhas tão cedo.
– Mas você disse que não corria perigo nen...
– É verdade, mas é bem desagradável correr feito um doido por dias. — Seth respondeu, com naturalidade perturbadora. — E mesmo que eu quisesse, é impossível passar por lá de trem por causa da neve bloqueando o caminho.
– Ah. Eu tinha me esquecido desse detalhe. — Edith respondeu, pegando sua bolsa da poltrona. — Eu ouvi dizer que o caminho pode voltar ao normal em pouco tempo, então... boa sorte! Eu acho.
– Obrigado. — Ele disse, estendendo a mão. — A Ada fala bem de você com razão.
Edith sorriu com menos formalidade, apertando as mãos com Seth.
– Obrigada.
– Edith... — disse uma voz vindo da escada que dava à biblioteca.
– O que houve? — Edith perguntou, virando-se para Ada vindo do andar de baixo.
– Ah, achei que já tivesse ido embora.
– Então por que me chamou? — Edith perguntou sarcasticamente. Ada pôs as mãos na cintura.
– Porque é assim que o mundo funciona. — Ada sorriu, fazendo Edith revirar os olhos. — Você já vai?
– Sim — Edith respondeu, caminhando para a porta. — Pode haver pessoas me esperando. E nem todas são tão sortudas quanto esse cara aqui. — Ela apontou para Seth com a cabeça enquanto caminhava para a porta que Ada abria. — Até então.
– Até — os outros dois disseram enquanto observavam Edith sair da mansão.
Enquanto Ada se perguntava como Seth havia convencido Edith de que sua habilidade era real, Seth se perguntava onde raios Ilsa estava.
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