Notas iniciais
aventuras de personagens pseudoaleatórios parte 1 feat. tio escroto

– Tio Escroto!

O homem gordo de meia-idade virou-se para a porta com suas sobrancelhas grossas franzidas. Entrava ali um simples casal de irmãos — um menino loiro, moreno e afeminado de mais ou menos quinze anos e uma menina bem mais jovem, masculina e sardenta. Já haviam aparecido ali algumas poucas vezes. Tinham bastante dinheiro, mas nada do que compraram foi caro ou acima de cem. Mesmo assim, o homem não conseguia sentir ódio daqueles dois. Ou pelo menos do menino.

– Você sabe que é Tiburce — o homem de cabelos claros e grisalhos murmurou. O mais velho simplesmente o ignorou, enquanto a menina apenas encolheu os ombros.

– O senhor vai ser sempre o Tio Escroto do meu coração! — A menina sorriu com inocência forçada. Tiburce revirou seus olhos verdes e voltou a ler seu livro atrás do balcão de mogno.

– Liese... — Ao ouvir essas palavras vindas do irmão, a menina de cabelos castanhos virou-se para ele. — O que você quer fazer aqui?

– Quero comprar uma coisa. — Ela encolheu os ombros, começando a vasculhar a loja com seus olhos. — Que pergunta tosca. Isso aqui é uma loja, pra sua informação.

Tiburce tentou ignorar os dois, mas a voz agressiva da garota era apenas um balde repleto de más recordações caindo em sua cabeça.

– Erik... — A menina puxou a blusa verde do irmão, mas ele não se virou. Estava muito ocupado observando as pequenas plantas estrangeiras que de alguma forma sobreviviam naquele frio intenso.

Liese parou de insistir e pegou algo que estava em uma bolsa em suas costas — era um arco frágil, seguido por curtas flechas de madeira que não pareciam lá tão frágeis. Ela pôs os itens em posição de ataque e mirou na cabeça do irmão.

Tiburce estava prestes a pegar um charuto em sua mesa, mas interrompeu a si mesmo e aos dois.

– Ei, nada de fratricídio aqui — ele disse, não muito impressionado e pegando seu charuto sagrado. Liese virou a cabeça para o homem e abaixou o arco. — Se quiserem se matar, façam isso ali fora, eu não me importo.

– O que você ia fazer? — Erik perguntou com pouco interesse, ainda escolhendo a planta que preferia. Liese já havia ido para um canto distante da loja repleto de bugigangas brilhantes que haviam lhe interessado há alguns minutos.

– Ah, ela só queria uma briguinha amigável com você. — Tiburce encostou a ponta do charuto na pequena pira acesa a seu lado e o pôs na boca. Erik franziu o cenho. — O que foi?

– Isso faz mal, senhor.

O homem expirou a fumaça cinzenta e deu um riso rouco.

– A vida faz mal, garoto.

Erik virou-se para Liese, que parecia interessada em alguns itens dourados, mas não disse nada. E então, o único barulho naquele estabelecimento era o das páginas grossas do livro de Tiburce.

De repente, a porta de madeira abriu-se com pouca delicadeza, o que fez com que alguns quadros se balançassem e um deles chegar a cair. Felizmente, era feito de mogno e, portanto, não se quebrou.

Do lado de fora entrava uma mulher estranha — alta, pálida e com expressão tão confusa quanto cansada. Não usava nem mesmo um casaco — apenas um vestido de seda azul e um par de botas marrons. A imensidão de pó em seu cabelo e corpo provavelmente a aquecia.

– Por favor, não suje o chão — Tiburce afirmou, levantando os olhos de seu livro por alguns segundos. — Ele foi limpo alguns dias atrás.

Ilsa virou a cabeça discretamente e olhou para o chão por onde havia pisado — o chão estava molhado com suas pegadas que, há agora pouco, estavam na neve. Ela fingiu não perceber e apenas andou até o balcão.

– Boa noite — o dono da loja disse, sem cerimônia. — Em que posso ajudar?

– Hã... — Ilsa passou a mão nos cabelos poentos, não reparando nas partículas que iam ao chão. — Onde fica a estação de trem?

Tiburce deu um riso curto e irritante, expirando ainda mais fumaça no rosto de Ilsa, que virou a cara.

– Não tem trem nessa nevasca, minha querida. Se quiser sair daqui, vai ter que esperar ela passar.

Ilsa franziu o cenho e Tiburce parecia ter mais vontade ainda de rir.

– É uma pena mesmo... — Ele continuou, jogando o charuto fora. Seu sarcasmo era tanto que parecia estar sendo sincero. — Vai comprar alguma coisa? Posso te dar uma informação extra e você se distrai.

Ilsa encolheu os ombros e começou a olhar em volta, procurando algo menos desinteressante para comprar. Tudo ali parecia um tanto tosco, tirando duas crianças que estavam ali discutindo.

– Erik, eu não tenho dinheiro!

– Azar o seu. Quem mandou não trazer o suficiente?

A menina de cabelos curtos ficou vermelha de raiva, e o garoto loiro não pareceu se importar muito.

– Eu não vou voltar pra casa sem essa flecha brilhante!

– Nós não vamos voltar pra casa, Liese. — O garoto apontou para uma janela circular de vidro, e a menina olhou para a mesma. — Olha pra essa nevasca. Como se alguém conseguisse ao menos andar nesse frio...

Ilsa virou-se para Tiburce novamente — ele parecia ser um pouco menos chato do que aquelas crianças. Só era fumante.

– Eu... vou procurar algo de interessante — ela finalmente respondeu, distanciando-se do balcão e caminhando até uma parede escura com vários quadros diferentes. Tiburce acendeu mais um charuto.

Os ombros de Liese despencaram.

– Eu nem tinha reparado na tempestade... Papai vai nos matar...

– Meu pai vai me matar — Erik corrigiu a frase, e a menina revirou os olhos claros.

– Seu pai é meu pai também, bestão — ela continuou, bufando. — Não seja um acéfalo.

Ilsa virou-se para a garota por alguns segundos com as sobrancelhas franzidas. Ela deveria ter, no máximo, dez anos de idade.

– Ele queria que a gente voltasse antes das oito... e também que ia procurar a gente se não voltássemos — a menina continuou, olhando com tristeza para a flecha ornamentada. Erik sentiu a vergonha possuir seu corpo ao pensar em seu pai o procurando pelos campos.

– Não fiquem tristes — Tiburce interrompeu, quebrando o curto silêncio. — Vocês ainda podem voltar às oito. Da manhã!

Seu riso escroto e rouco fez a loja vibrar com a altura. Os clientes apenas se entreolharam.

– Riam de vocês mesmos, pirralhos. Vocês se parecem com o filho da minha ex — ele continuou, acendendo mais um charuto. Seu nojo ao mencionar o garoto foi tão óbvio que até Liese sentiu.

– Ele poderia vir com os cavalos dele! — Liese sorriu, mas Erik permaneceu o mesmo. — Não?

– Liese, será que você não entende que está nevando lá fora?

– Bom, mas se aquela moça ali conseguiu andar na neve, então por que papai não conseguiria? — Ela andou até Ilsa, que fingia estar interessada nos quadros na parede. — Ei, moça!

Ilsa virou-se para a menina que segurava a flecha.

– O que foi? — Ela perguntou, se abaixando para olhar para a menina nos olhos.

– Eu tenho uma pergunta... como que você veio pra cá?

Ilsa estreitou o olhar por alguns segundos.

– Acho que foi a força de vontade — ela respondeu. — E também o fato de que não estava nevando tanto quando cheguei aqui. Foi algo repentino e...

A menina não parecia mais tão interessada assim — olhava apenas para a flecha e seu preço. Ela trocou olhares com seu irmão e Ilsa, e então perguntou à mesma:

– Você tem dinheiro?

– Liese! – Erik berrou com raiva, mas a garota não parecia se importar. Assim, ele andou com pressa até as duas e virou a irmã pelos ombros.

– O que foi, Erik?

– Liese, o que está fazendo? — Ele murmurou, olhando para as duas ao mesmo tempo. — Você nem conhece ela!

– Mas eu não tenho dinheiro pra comprar essa flecha...

Erik pôs as mãos nos bolsos da calça de tecido grosso, procurando dinheiro com má vontade.

– Quanto ela custa?

– Quinhentos e trinta.

Tiburce rapidamente tirou os olhos do livro que estava lendo, enquanto Erik sentiu seu queixo cair.

– Tudo isso?!

– Mas aqui diz que ela é de ouro maciço e foi feita há mais de duzentos an...

– É verdade — o homem interrompeu, quase se levantando do balcão aquecido pela lareira. — É uma peça autêntica, uma das últimas que existem nesse maldito império.

– Não deveria estar em um museu em vez de uma loja de itens duvidosos?

Tiburce sentiu o sangue subir à cabeça — a menina poderia ser chata e similar a um pesadelo que havia superado, mas o garoto era muito mais cruel do que ela. Ofender a irmã era uma coisa; ofender seu estabelecimento impecável era outra.

– Essa loja não é uma "loja de itens duvidosos", pirralho. — Ele tirou o charuto da boca com raiva e continuou, seu tom de voz grosso e agressivo. — Essa loja é meu império. É a minha loja. — Ele socou seu próprio peito gordo coberto por um casaco de pêlos claros, e então pôs a droga novamente em sua boca. — A minha loja vale mais do que um museu. Em um museu, você tem objetos cercados e intocáveis. Na minha loja... você toca em relíquias.

Erik levantou a sobrancelha com desdém. Ignorou o velho e pegou a flecha de sua irmã, analisando-a ponta a ponta. Era uma flecha bonita e feita de ouro, detalhada em baixo-relevo. Afiada e longa, era talvez até demais para o arco de Liese, que era pequeno e frágil.

– Por que você quer uma dessas?

– Quero atingir a cara de um garoto que eu não gosto.

O queixo de Erik caiu, assim como o de Ilsa.

– Me desculpe, mas não vou ajudar você a matar um garoto — a mulher respondeu após um tempo. — Não que eu me importe, mas é que não faz parte do meu repertório.

– Obrigado, moça — Erik agradeceu, fazendo um gesto de gratidão. — Eu acho. Liese, deixa isso aí. Você não precisa disso.

A menina bufou, pondo o objeto de volta em seu lugar. Ela saiu de perto de Erik e sentou-se no chão, olhando para suas próprias flechas com um pouco de raiva. As lembranças negativas continuavam a aparecer em sua mente.

– Todas essas crianças são as mesmas... — ele resmungou, abrindo seu livro novamente. Ilsa virou-se para o balcão segurando apenas um simples colar de cobre, pegando uma pequena bolsa vermelha sem nenhum pó. — Vai querer só isso, madame?

– Vou — ela respondeu com descaso, distraída e olhando em volta. Tentava ocupar sua mente e esquecer do que havia acontecido, mas suas memórias voltavam tão rápido que era incrivelmente complicado conseguir focar em outra coisa. — Só quero uma informação.

– Ah, a informação... — Tiburce expeliu a fumaça no rosto pálido de Ilsa com uma expressão de prazer, bem diferente da expressão da mesma.

– É, a informação.

– A informação...

Ilsa pôs o dinheiro no balcão com força, fitando o dono da loja com seus olhos da cor do pó em sua pele.

– Eu quero a informação.

– Qual é a informação que você quer mesmo? — O homem perguntou, dando um riso nasal. — Eu me distraí com a pirralha chorando ali. Parece um garoto que eu conheci quando ele era vivo.

A moça virou-se para a garota. Ela chorava em silêncio, olhando para suas flechas frágeis. Seu irmão mal se importava — estava no fundo da loja, procurando um livro qualquer. Muito provavelmente não procurava nada, apenas queria distância da menina.

– Um garoto que eu infelizmente já conheci. — Tiburce deu uma tragada longa, pegando o dinheiro do balcão.

– Todos nós conhecemos uma pessoa assim. Agora me dá a informação.

– O que é que você queria?

Ilsa revirou os olhos.

– Quero achar um jeito de sair daqui.

– Bom, a estação de trem fica a alguns quilômetros daqui. Nove, talvez dez... — Tiburce começou a explicar enquanto embrulhava o colar marrom em um pequeno pano de seda branca. — Mas... como eu já disse, nenhum trem sai em uma tempestade dessa por causa de obstruções no...

– Nós vamos morrer aqui... — a garota murmurava mais alto, ainda em seu canto. Tiburce rangeu os dentes.

– Você não vai morrer aqui — ele resmungou pela milésima vez naquela noite. — E se você morrer, pelo menos vai morrer em um lugar digno em vez do inferno gelado lá fora! — Ele finalizou com uma risada de fumante, e o brilho voltou ao rosto sardento da menina.

– Você acha, Tio Escroto? Você acha que papai vai achar a gente aqui?

– É Tiburce! - Ele deu um soco no balcão e quase amassou o embrulho de seda, mas acalmou-se logo em seguida. — E, ah... sei lá.

A garota sorriu com seus olhos vermelhos.

– Obrigada, Tio Escroto... — Ela fungou, pondo o arco de lado. — Adoro a sua loja...! — O homem revirou os olhos.

– Se você acha que vai conseguir um desconto aqui da próxima vez, engano seu.

Liese simplesmente encolheu os ombros e continuou reclinada em seu canto da parede, que parecia ser um tanto quente.

– Como eu ia dizendo... — Tiburce continuou após o silêncio, e Ilsa virou-se para ele novamente. — Quando passasse a nevasca, você poderia ir até lá montada em um cavalo, ou até mesmo na própria nevasca.

Ilsa estreitou os olhos.

– Quanto tempo isso demoraria? — Tiburce encolheu os ombros como resposta.

– Ah, eu não sei... algumas horas, no mínimo. Menos horas se você parasse no caminho, lógico.

Ilsa olhou para a janela circular — a neve continuava a cair, mas com um pouco menos de intensidade. Ainda assim, não conseguiria ir a pé até lá — ir do santuário até a loja de Tiburce era uma coisa, mas ir dali até a estação de trem? Loucura.

O homem entregou o embrulho de seda a ela — era muito mais caprichado do que alguém esperaria de um homem gordo de meia-idade que só pensava em fumar e ler livros. Ou não.

– Mas pra falar a verdade... — ele continuou, segurando um charuto apagado na mão. — Eu não me importo que fiquem em minha loja, contanto que comprem alguma coisa. É como se fossem seguranças que pagassem para trabalhar na madrugada. — Ele riu nasalmente e tentou acender a droga, mas a pira já estava apagada e ele bufou.

Conversar com pessoas estranhas sobre assuntos superficiais não era uma coisa que Ilsa gostava de fazer, mas percebera que aquilo fazia com que ela parecesse um pouco mais amigável. Era o que Ada dizia, pelo menos.

– Só por curiosidade... — ela começou. Sua pergunta seria ridícula, mas pelo menos parecia interessada em não ficar calada. — Todos esses charutos realmente aquecem as pessoas?

Tiburce deu um sorriso estranho e digno de seu aparente apelido.

– Olha, se aquece, eu não sei. Mas que ele me faz esquecer da chatice dos outros, ele faz. — E finalizou com seu riso icônico. — Vocês jovens não tem ideia do que é a frustração de um velho...

– Não fazem mesmo — ela respondeu, dando um riso meio educado.

Após alguns minutos de silêncio, a porta de madeira foi aberta com lentidão macabra. Do lado de fora vinha uma sombra enorme, que logo ganhou nitidez — era um homem alto, de casaco bem grosso e rosto completamente coberto a não ser por seus olhos verde claros.

Tiburce enrijeceu-se, assim como Ilsa e Liese, que ainda estava em seu canto. A menina parecia um tanto assustada, e seus olhos e rosto vermelhos não a ajudavam.

– Boa noite... — o homem pronunciou-se com poucos movimentos, fechando a porta com o cotovelo. Ele olhou em volta, e sorriu com os olhos ao fitar Erik se virando no canto da loja, a alguns vários metros de distância.

E então, pela primeira vez naquela noite, o garoto sentiu a vergonha alheia correr por suas veias junto a seu sangue. Exatamente como ele esperava.

Notas finais
MÚSICA DE SUSPENSE não se preocupe porque a situação da ilsa será explicada logo em breve