Notas iniciais
aventuras de personagens pseudoaleatórios parte 2 feat. mais gente bonita

O frio poderia estar ali fora, mas o coração de Erik havia congelado.

Enquanto resto da loja parecia completamente confuso, o menino sabia exatamente quem aquele homem era, e por que razão ele estava ali.

– Por que desse jeito...? — O garoto murmurou para si mesmo enquanto fingia procurar algum livro desesperadamente na estante.

– Eu não acredito que saí de casa nesse frio só para voltar de mãos vazias — o homem disse, cruzando os braços com falsa irritação. Tiburce franziu o cenho, assim como Ilsa. Havia algo familiar em sua voz, mas ela não conseguia decifrar exatamente de onde ele era.

O homem suspirou e retirou as vestimentas que cobriam seu rosto familiar para os refugiados de Tiburce. Era uma pessoa que chamava atenção — possuía olhos verdes, cabelos loiros e pele escura, muito diferente do que as pessoas esperariam de alguém que estivesse no Norte. Ele deveria ter cerca de quarenta anos, mas possivelmente provocava inveja e atração em pessoas com metade de sua idade. Tiburce parecia até mesmo ofendido, mesmo sendo essa uma das inúmeras vezes que o via.

– Pai!

O homem olhou para baixo e deu um pequeno sorriso; Liese agarrava sua cintura com força descomunal e olhos avermelhados, deixando suas flechas de lado.

– O que houve? Por que você está assim? — Ele perguntou com uma voz suave enquanto ajeitava os cabelos curtos e bagunçados da menina. Ela franziu o rosto.

– Eu achei que você não fosse nos procurar com toda essa neve... e que eu ia ter que morar aqui com o Erik e...

O pai de Liese a interrompeu com um riso baixo e acidental.

– Eu sempre vou procurar vocês. Uma nevasca não é nada pra mim, é?

– Eu... acho que não.

– Então não há com o que se preocupar — ele finalizou enquanto ajeitava os cabelos da menina mais uma vez, mas olhando para o fundo da loja. — Vamos lá, Erik, você não quer ficar aqui.

O garoto virou-se para o homem com má vontade — ele estava vermelho e tinha um livro grosso em suas mãos, mas era óbvio que ele não estava prestando a mínima atenção às palavras do objeto.

– Erik, você é um hipócrita.

– Por favor, não fale assim do seu irmão.

– Mas... mas ele é um hipócrita. Ele finge que não quer você aqui, mas ficou todo...

– Liese!– Erik gritou com a voz fina e desesperada, andando com pressa até os dois e segurando o livro de cabeça para baixo. Ele deu um sorriso amarelo para o pai, que tinha a expressão completamente calma. — Ela não sabe do que está falando.

– Sobre o que é este livro? — O homem apontou para o livro com capa de couro. Erik rapidamente virou o livro para si mesmo.

– Ah, ele é sobre... — o menino abriu o livro e o folheou rapidamente. — É sobre arte. Arte Antiga. — Ele se interrompeu para dar um riso sem graça. — Eu nem sei por que eu estava lendo esse livro, pra falar a verdade...

O riso forçado de Erik ecoou até que Tiburce o interrompeu, limpando a garganta. Os três viraram-se para o balcão onde estava o dono da loja e uma moça de vestido azul inexplicavelmente poento.

– Vai comprar alguma coisa? — O dono da loja perguntou com má vontade enquanto acendia mais um charuto, provavelmente o vigésimo do dia. O homem loiro franziu o cenho.

– Você não tem medo de que essa loja pegue fogo? — Ele perguntou, olhando para o teto feito de madeira com receio. Tiburce deu seu riso icônico.

– Não.

O cliente franziu o cenho mais uma vez, impressionado. Tiburce deu mais risada até tossir.

– Eu não sou burro, por incrível que pareça. Esta loja é um império, e impérios possuem sistema de ventilação.

– É, pai... — Liese olhou para cima, soltando a cintura de seu pai para pegar seus bens. — O Tio Escroto é tão inteligente que já pensa no futuro!

O loiro sentiu uma breve vontade de rir, mas logo baixou a cabeça ao pensar sobre o que estava rindo.

– É Tiburce! — O mesmo berrou, mordendo o charuto. Liese ria enquanto escondia o rosto, de costas. — E a minha pergunta ainda não foi respondida. Vai comprar alguma coisa, estrupício?

– Ah, eu... — Ele virou-se para Erik e pegou o livro de Arte Antiga com pouco jeito. O menino parecia frustrado.

Ilsa observava muito discretamente o rosto do homem que caminhava até o balcão, procurando a resposta para sua pergunta. Seus olhares se encontraram por um segundo, e ele a cumprimentou com um sorriso educado. Ilsa fez o mesmo.

– Sabe... — Tiburce tirou o charuto de sua boca e o jogou no cinzeiro com pouca cautela ao ver o livro sendo posto no balcão. — Você deveria controlar seus filhos, Klaus.

Ilsa franziu o cenho e olhou para baixo com o mesmo olhar reflexivo e até mesmo preocupante.

– Ah... — O homem chamado Klaus encolheu os ombros com um pouco de desleixo. — Eu... acho que não nasci pra isso, sabe? Acho que nem mesmo a minha esposa, mas ela era muito melhor do que eu.

– Eu já tive duas esposas e nenhuma delas se dava tão bem com a minha filha quanto eu. — Tiburce parou para pegar um belo embrulho de seda do outro lado do balcão. — Considere-se um homem de sorte.

Klaus deu um riso curto, mas logo se interrompeu.

– Espera, você não tinha outro...

– Não.

– Ah, me desculpe. Devo ter confundido você com outra pessoa.

Enquanto Tiburce embrulhava o livro de Arte de Erik, Klaus virou-se descontraidamente para a moça a seu lado, mas impressionou-se com seu rosto em mais de um aspecto. Ela mordia os lábios e fitava o nada, como se estivesse descontroladamente concentrada em alguma coisa, além de parecer um tanto nervosa.

– Moça, você está bem?

Sem resposta.

– Moça... — ele pôs a mão em seu ombro poento e ela tremeu de susto, virando-se para ele.

– Pois... pois não? — Ela perguntou com nervosismo, perturbada com o rosto do homem. Por incrível que pareça, ele parecia tão perturbado quanto ela.

– Eu achei que... — Ele pôs a mão no queixo, e logo percebeu que agora tinha um pó cinza em seu rosto. — Espera. Eu juro que não era isso que eu ia perguntar, mas... Eu conheço você.

– Me conhece?

– Conheço.

– Engraçado... Eu também juro que já te vi em algum lugar.

– Acho que temos um problema.

Klaus deu um riso mais aberto para Ilsa, que ainda tinha resquícios de sua concentração intensa. Aquele sorriso era o ponto chave de sua familiaridade, e era algo que havia em comum entre mais de duas pessoas.

– Você frequenta a loja do Tiburce?

– Não — o próprio interrompeu, ainda embrulhando o livro com a seda. Ele tinha um sorriso raro em seu rosto. Finalmente, Tiburce. — É a primeira vez dela aqui.

Ilsa havia voltado a refletir, mas rapidamente formulou uma pergunta que passou por sua cabeça por um milésimo de segundo.

– Você tem alguma irmã?

– Tenho várias... — ele respondeu, dando aquele mesmo riso previamente visto. — Eu tenho quatro irmãs.

Ilsa arregalou os olhos por um momento, mas logo percebeu que estava no caminho certo.

– Alguma delas é loira, muito mais baixa do que você, usa batom vermelho e tranças no cabelo, tem vinte anos e se chama Ada?

Klaus fitou Ilsa por um momento, impressionado, até que ele fez que sim lentamente.

– Ela é minha irmã mais nova.

– Eu sou a... única amiga dela. Ou era, pelo menos. Não sei. Sou apenas uma pessoa que sumiu do nada.

Klaus franziu o cenho e olhou para baixo, pensativo, mas rapidamente percebeu de quem se tratava.

– Espera, você é a... Ilsa? – A mesma fez que sim, e ele desviou o olhar subitamente. Ilsa focou no rosto pensativo de Klaus.

– O que houve?

– Ada te procurou por tanto tempo... — ele respondeu sem olhar diretamente para a moça, sem o mesmo tom moderadamente alegre que tinha em sua voz normal. — Ela precisa saber disso. Por onde você esteve?

Ilsa engoliu em seco.

– Eu... prefiro contar isso diretamente pra ela... — ela respondeu após alguns segundos, mas Klaus parecia paciente. — ...Se não se importa.

– Ah. Claro. — Ele fez que sim com um sorriso elegante e virou-se para o balcão, mas levou um pequeno susto. Tiburce estava de bruços em cima do balcão com mais um charuto, e parecia estar bastante interessado.

– Adorei a conversa de vocês, foi muito profunda — ele respondeu com um riso sem som. Ilsa torceu o nariz ao ver a sensualidade do dono da loja. O mesmo voltou para sua poltrona e pegou o livro embrulhado debaixo de seus cotovelos anteriormente no balcão, entregando o objeto nas mãos de Klaus. — Por favor, continuem.

O homem loiro virou-se para o menino adolescente. Ele mexia em pequenas flores rosadas com cuidado enquanto Liese observava o balcão com braços cruzados e cara de tédio. Tiburce levantou-se da sua cadeira quase que imediatamente ao ver suas flores sendo tocadas, e rapidamente caminhou até o menino com pegadas pesadas. Erik foi virado bruscamente pelo dono da loja, forçado a olhar nos olhos de Tiburce com desconforto.

– Nas minhas cinerárias não, moleque — ele resmungou, apontando para o rosto do garoto surpreso. — Você pode encostar em tudo dessa loja, menos nas minhas cinerárias e na minha filha.

– Mas... você cuida tão mal das suas flores — o garoto respondeu e apontou para o vaso. — Olha só pra elas, parecem que não recebem cuidado nenhum.

Tiburce tirou o charuto de sua boca e soprou a fumaça "acidentalmente" no rosto de Erik, que virou a cara.

– Você tem cinerárias em casa, garoto? — O homem perguntou com a voz grossa e firme. Erik fez que não, ainda com o rosto virado. — Então nunca... repito, nunca mais fale de como eu trato minhas flores, ou aquele cacto vai parar em um lugar seu que você vai odiar. Entendido?

– S... sim.

Tiburce sorriu e voltou para perto do balcão onde Ilsa estava. Klaus olhou para ele com confusão, mas permaneceu calado pelo bem de sua sanidade.

– Ah, Klaus... — Ele pôs a mão com o charuto no ombro do homem muito mais alto e atraente do que ele com mais um sorriso forçado. — Eu já disse pra você... Você tem que controlar seus filhos, ou eles começam a te julgar pelo jeito que você cuida de suas flores.

– Eu não tenho flores, Tiburce — ele respondeu distraidamente. O dono da loja simplesmente revirou os olhos e voltou para o balcão.

– Vai ser 630.

Klaus franziu o cenho e olhou para o embrulho do livro com ceticismo.

– Eu jurava que esse livro só custava cem.

– O livro custa, mas a flecha não. — Os olhos do loiro seguiram o dedo de Tiburce que apontava para uma pequena flecha dourada do lado do livro. Liese estava olhando fixamente para a mesma ao lado de Klaus com um sorriso obcecado.

– O que é isso?

– É uma flecha.

Klaus fitou o rosto entediado de Tiburce com um olhar muito menos amigável do que o habitual. A menina pegou a flecha do balcão e chamou sua atenção.

– É uma flecha de ouro que foi feita há mais de duzentos anos, feita pra ser atirada em cavalos, mas adoravam usá-la pra pessoas! Sem falar que ela é envenenada e provavelmente ainda funciona, quer ver? Eu posso atirar ela no Erik e...

– Não! — Após uma pausa silenciosa, Klaus corrigiu-se.– Digo... não. Eu prefiro que você não teste em ninguém, certo? Pelo menos... não aqui.

Liese fez bico, mas pôs a flecha de volta no balcão. Ilsa parecia interessada no objeto dourado, mas continuava calada, silenciosamente observando.

– Vai ser 630, lindas. — Tiburce repetiu enquanto assoprava a fumaça de seu interior. — É o preço que se paga por uma relíquia de Cornelius.

Enquanto as duas "lindas" pagavam o preço literal e Erik olhava para a janela circular com forçada distração, Ilsa fitava o objeto que era posto em uma bela caixa de madeira por Tiburce. Aquela flecha era familiar, mas apenas remotamente. Era algo que estava em suas memórias mais profundas, mais guardadas e talvez até mesmo mais esquecidas.

Ela franziu o rosto — sentia aversão àquele objeto, mas seu interesse era mais forte ainda.

– Você tem muita sorte, Klaus. — Tiburce entregou a caixa a Klaus, que entregou o mesmo à Liese. A menina abriu a caixa imediatamente, observando o objeto de ponta a ponta. — Queria eu ter filhos que tentassem se matar em minha loja.

– O quê?!

Tiburce deu um riso rouco e longo enquanto Klaus olhava para Liese com os olhos estreitos — ela apenas encolheu os ombros, enquanto Erik nem ao menos se metia na conversa.

– É só brincadeira de pirralhos, você sabe disso. Não precisa disso. — Tiburce parou por alguns segundos e olhou para a janela com um ar esperançoso. — Acho que agora está seguro.

– O que quer dizer?

O homem apontou para a janela — a nevasca agora era apenas um pouco de neve que caía suavemente, ao menos quando comparado ao que ocorria há algum tempo. Klaus se sentiu melhor ao saber que poderia respirar ar puro sem cinzas, Erik suspirou com alegria e Liese franziu o rosto.

– Está nos mandando embora, Tio Escroto?

– Estou. — A menina arquejou, e Tiburce sentiu vontade de fumar todo o seu estoque mensal de charutos.

– Hã, Liese... não é por mal. — Klaus pegou os ombros de Liese e a escoltou para perto da porta. Erik os seguiu com uma expressão maravilhada, pegando o embrulho do livro e colocando seu capuz na cabeça.

– Ah, é claro. — Tiburce sorriu para o loiro, que parecia um pouco menos contente do que o normal. — Voltem sempre, ou não.

– Tchau, Tio Escroto! — Liese acenou enquanto abria a porta e Tiburce apenas suspirou. Já estava acostumado. — Tchau, moça bonita que apareceu do nada!

Ilsa franziu o cenho. Estava se referindo a ela?

– Hã... tchau. — Ela acenou, e a porta se fechou com o vento. Não havia mais ninguém ali além de Tiburce, que parecia mais concentrado com o dinheiro. Surpreendentemente, ele ainda parecia prestar atenção a seu redor.

Seu cabelo ainda estava cheio de pó, e aquilo era vergonhoso. Apesar disso, ela havia conseguido se distrair com a companhia de pessoas vagamente conhecidas, gordos de meia-idade, adolescentes esnobes e crianças chatas. Era melhor do que nada.

– Ilsa.

A mesma virou-se com surpresa para a porta de madeira, que agora estava aberta. Klaus estava na entrada, segurando a porta que tentava se fechar com o vento. Ele tinha o mesmo olhar de quando havia entrado, diferente do olhar que havia dado a Tiburce há alguns minutos.

– O... O que houve? — Ela perguntou, caminhando até a entrada.

– Eu poderia falar com você por um minuto, se não se importa?

Ilsa franziu o cenho. Tinha a sensação de que queria retomar a conversa do balcão.

– Sobre o quê, exatamente?

– Bom, é que... — ele hesitou e se afastou da porta. — Eu percebi que você ficou ausente ou... sumida, digamos assim... por uma quantidade considerável de tempo.

Ilsa fechou a porta, ignorando a despedida de Tiburce. O ar de fora era muito mais agradável de se respirar, mesmo sendo tão gelado. Era diferente do ar da loja de Tiburce, que fazia qualquer um sair com seus pulmões queimados.

– Na realidade, nem eu mesma sei por quanto tempo eu sumi.

– Você disse que a Ada tinha vinte anos, não disse?

Ela franziu o rosto — tinha certeza de seu gosto musical, comida favorita, do que gostava e não gostava e, obviamente, sabia de sua idade. Não poderia estar errada.

– Disse, mas... eu estou certa, sei que estou. Não deve ter sido por mais de um ano.

Klaus ajeitou seu casaco grosso e pôs suas mãos nos bolsos, observando em volta. Erik estava em cima de seu cavalo marrom, enquanto Liese era puxada por ele.

– O problema é que ela tinha vinte anos há seis anos.

Até aquele momento, Ilsa não havia se importado com sua noção de tempo. Nem sabia quanto tempo havia se passado dentro da loja de Tiburce, mesmo com tantos relógios ali. Não havia razão para se importar com o tempo até aquele momento.

Até o breve momento no qual percebeu que o problema não era apenas dela.

Notas finais
SUSPENSE AÇÃO AVENTURA
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.