Notas iniciais
Trigger warning: mogno

Seth continuou olhando em volta por alguns segundos, distraído. Havia um armário de mogno encostado na parede, recheado de louça cara e algumas estatuetas de mogno. Havia também um quadro na parede ao lado, com uma moldura decorada que parecia mogno. E também havia...

– Ei, sente-se — Ada disse suavemente enquanto pegava uma faca prateada que havia caído no chão.

– Ah — Seth saiu de seus pensamentos e fez como pedido, sentando em uma cadeira de estofado vermelho e suporte de mogno, ao lado de Ada. Seu lado esquerdo falhou um pouco, mas não fez com que perdesse completamente o equilíbrio.

Sobre a mesa (de mogno) não havia muita comida, exceto por um prato com pães e uma deliciosa torta de chocolate que dava não só para Ada, mas também para Ilsa e Seth. Fazia tempos que não comia torta — em sua casa na montanha, era difícil achar alguém que trouxesse os materiais adequados. E quando conseguia, a torta nunca saía do jeito que ele gostava.

Ada parecia gostar bastante da sobremesa, como se não tivesse comido algo tão bom em muito tempo. Ilsa, porém, parecia não se importar muito com a torta — aliás, ela não parecia se importar com nada, pois estava pensativa e distante dali. Ou talvez ela tivesse uma completa apatia à torta.

Seth rapidamente descartou a possibilidade — afinal, quem não gosta de torta?

– Come — Ada disse, com a boca cheia de torta e menos da metade da classe que apresentava anteriormente. — É bom.

– Eu... eu sei que é bom, mas eu...

– Achou que fosse só pra mim? — Ada sorriu, dando um curto riso.

– Exatamente — Seth riu, sem graça.

– Pois você estava errado. — Ada pegou uma fatia da torta, colocou em um prato e o deslizou até o lado de Seth, onde o prato se encaixava perfeitamente entre os talheres de prata.

Seth levou um pequeno pedaço da torta à boca, e rapidamente percebeu a razão por trás da disfarçada euforia de Ada.

– Gostou? — Ada perguntou, pegando um copo de água que estava a seu lado. Seth engoliu o pedaço da torta.

– Claro — Ele tinha um pequeno sorriso no rosto, como se estivesse feliz e envergonhado ao mesmo tempo. Não era sempre que ele tinha esse tipo de mordomia; muito menos torta de chocolate. Claro, seu motivo por estar ali era completamente ruim, mas já parecia esquecer que só estava ali porque tinha sido quase perfurado até a morte por diversos objetos. Mas ele não se importava muito com isso, e com razão. — Você tem talento.

– Eu?

Ada riu, como se o que Seth tivesse dito fosse completamente ridículo. Talvez seus movimentos exagerados fossem realmente ridículos e ela só estivesse percebendo isso agora. Ilsa continuou pensativa.

– Qual foi a... O que eu disse de errado? — Envergonhado, Seth olhou para os lados, e apenas viu mogno em todas as formas. Relógio de mogno, armário de mogno, quadro com moldura de mogno, escultura de mogno.

Seth queria suspirar. Já se sentia enjoado — não com a torta, mas com o mar de mogno a seu redor. Ada parecia ter uma obsessão com aquele tipo de madeira que — aos olhos de Seth — era na realidade horrível.

– Eu não fiz a torta, bobo.

– ...Não? Então quem...

Ada virou a cabeça para Ilsa, que ainda estava distante e viajando — bolando um plano de dominação mundial, talvez. Tinha um pequeno pedaço de pão em seu prato, mas ela já parecia ter esquecido. Ilsa finalmente percebeu que Ada e seu convidado de honra com expressões exageradas estavam olhando para ela.

– O que foi? — Ilsa perguntou, estreitando os olhos na direção de Ada.

– Ele disse que você tem talento — Ada respondeu, balançando a cabeça para Seth.

– Eu disse o quê? — Seth perguntou, virando para Ada com exagero, como era de costume há minutos.

– Ilsa fez a torta, você elogiou a torta, e a criadora da torta está ali.

Seth virou mais uma vez para Ilsa, que olhava para ele sem expressão — contrastando com o rosto impressionado do homem que olhava para ela.

– Não sabia que você gostava de torta. — Seth limpou a garganta, se corrigindo quando percebeu que Ilsa parecia um pouco confusa. — Digo, er... Você nem ligava pra torta que estava no meio da mesa e...

– Eu já como muita torta — Ilsa respondeu, encolhendo os ombros.

– Sério? Porque na minha casa na montanha, ninguém compra chocolate pra mim, então eu nunca consigo fazer torta, o que não significa muita coisa já que eu não sei cozinhar e...

– Espera — Ilsa, com expressão meio séria, tentava prender o riso a qualquer custo. — Você realmente espera que alguém vai pra sua casinha na montanha trazer ovos, farinha, chocolate e o que for pra você fazer sua tortinha?

O silêncio tomaria conta da sala mais uma vez, se não fosse pela curta resposta de Seth.

– É.

Ilsa escondeu o riso com o pedaço restante de pão, enquanto Ada dava um riso suave. Seth sorriu abobadamente para as duas, sem saber o que dizer ou fazer.

– Ai, Ilsa — Ada disse, entre risos. — Você é um amor.

– Eu apenas digo a verdade. — Ilsa engoliu o pão e pegou a xícara de chá a seu lado, seu riso dissipado.

– Mas é sério — Seth começou, ainda sorrindo envergonhadamente. — Eu não vou pra cidade porque é longe, então eu nunca tenho ingredientes pra fazer essas coisas, o que significa que eu não sei fazer tortas. Mas você sabe. — Seth olhou novamente para a mesa, franzindo. — Eu acho. Como que você as faz tão bem?

– A Ilsa sabe fazer tortas porque ela ama tortas — Ada disse, com um pouco de orgulho. Enquanto se levantava para levar os pratos à cozinha, ela parou perto de Seth e pôs a mão perto da boca, como se criasse magicamente uma barreira à prova de som que faria com que Ilsa não ouvisse seu comentário. — Ah, e não se deixe levar por primeiras impressões. Ela é um amor.

– Sério? Não parece. — Seth comentou, encolhendo os ombros.

Ada riu enquanto abria a porta de mogno — com pouca dificuldade, até; considerando que segurava várias coisas ao mesmo tempo.

– Ai, ai. Você é um amor. — Disse, e foi embora.

Seth continuou sentado, perguntando-se pra quem aquele comentário foi.

Notas finais
Pobre Seth e suas tortinhas imaginárias )': (seth x torta otp 5eva)