Black Blade
4 Edith
Notas iniciais
Tudo era perfeitamente limpo naquela mansão — os pisos, as paredes, as escadas, as lâmpadas, até mesmo o mogno omnipresente. Edith sempre se deslumbrava com o brilho daquele lugar, mesmo tendo vivido ali por anos e anos. Era como se estivesse mais limpo do que antigamente — e provavelmente estava, já que seus irmãos não viviam mais ali; apenas Ada e Ilsa.
Isto levava a outra pergunta: onde estaria o resto de sua família? Espalhados pelas cidades, talvez? Ela ouvira dizer que Klaus, o mais velho, estaria voltando para a capital daqui a alguns anos. Dizia que no Oeste não havia muitas universidades para seu filho, e que talvez Altmitte fosse um lugar melhor para se viver. Mas talvez ele mudasse de ideia, já que a capital era muito movimentada.
– Então... — Edith reclinou-se na poltrona vermelha em frente a Ada. — Alguma razão especial pra eu ter vindo aqui?
A mais nova olhou em volta, procurando uma resposta. A verdade era que havia uma razão, mas era algo um pouco... estranho. Não era algo muito...
– Aquele menino morreu?
Ada quase derrubou seu chá na mesa de mogno.
– O quê?Edith, mas que...que mórbido!
Edith se inclinou para a frente, com expressão séria; apesar de que em qualquer outra ocasião, ela teria revirado os olhos. Estavam falando da vida de alguém — obviamente, como médica, seria algo muito insensível da parte dela.
– Então, ele... você... — Ada gaguejava, procurando uma forma de dizer aquilo sem parecer com que seu chá fosse de cogumelo, em vez de camomila. — Por acaso, você já viu algo como...
– Como...? – Edith apertou os olhos, mas havia algo em seu olhar que Ada reconhecera: o olhar de que esperava aquilo. O seu pior medo havia se tornado realidade: o corte havia se expandido, fazendo com que um inseto mutante tivesse entrado em seu corpo, achando um caminho até seu encéfalo, onde tomaria controle do pobre coitado e o transformaria em um monstro sem vida e sem alma. No exato momento em que aquilo se tornasse realidade, Edith se mudaria para as montanhas imediatamente, sem se importar com esposa ou pertences ou...
– Você não está pensando na história que o Klaus inventou pra te assustar, certo? — Ada perguntou, rindo e revirando os olhos.
– Não. Claro que não. — Edith riu, nervosa, pegando sua xícara de chá frio que estava sobre a mesa. — Então, o que...
– O cara que eu salvei se recuperou completamente em pouco mais de uma semana.
Ao ouvir as palavras de sua irmã, Edith derrubou a xícara de chá em sua saia vermelha, boquiaberta e sem outra reação.
– Eu juro que é de camomila.
– Mas... mas... Ada... como que... – Edith gaguejava enquanto procurava algum tecido a seu lado para limpar sua saia. Ada mordia o lábio inferior e fugia do olhar assustado de Edith. – Isso não é algo possível! A... a... a medicina atual diz que...
– Eu sei, eu sei, você já me contou várias histórias, mas... mas é que... é verdade. Não é uma alucinação, um sonho, um...
– Eu vou buscar uma toalha, isso é demais pro meu coração. – Edith disse, levantando-se da poltrona e indo até a cozinha com passos curtos e rápidos. Ada ajeitou a xícara vazia de Edith, pondo-a no centro da pequena mesa.
Era possível ouvir barulhos de coisas caindo vindo da cozinha. Ada não se importava muito, desde que não estragasse o mogno.
– Como que... como? — Edith disse, voltando da cozinha segurando uma toalha vermelha. Sentou-se na poltrona e pegou a xícara de chá vazia, na esperança de que tivesse algo ali. Fez uma cara de decepção ao ver que não havia nada além de ar ali dentro. — Imagine... um supersoldado com esse poder. Seria incrível.
Ada franziu o cenho, como se isso a lembrasse vagamente de alguma coisa.
– E também pavoroso, admito — A mais velha continuou, com expressão de falso pavor ao ter imagens mentais perturbadoras. Ada continuava com expressão pensativa. — Qual é o nome dele?
– Seth — Ada respondeu, voltando à sua expresão normal. — Ele é legal, não dá muito problema e também não briga com a Ilsa. — Edith levantou as sobrancelhas, espantada.
– Não briga com a Ilsa? — Perguntou, com tom de curiosidade. — Mas ela não é do tipo de quem se dá bem com estranhos. Pelo menos não parece ser.
– Pois é, eu também achei estranho. Mas vai saber. Podem estar acontecendo coisas das quais eu desconheço — Ada levou sua xícara de chá à boca, sorrindo. Edith fez o mesmo com sua xícara vazia.
– Eu quero vê-lo.
– E vai fazer o quê? Pedir pra ele tirar a blusa?
– É — Edith respondeu com naturalidade, o que fez Ada rir suavemente. — Eu sou médica, não tem problema.
– Eu vou chamá-lo, agora que passou o choque inicial. — Ainda rindo, Ada levantou-se de sua poltrona, levando as xícaras de chá sem chá.
– Eu estou apenas me controlando — Edith disse, entre risos silenciosos. — Ainda bem que sou jovem.
– Você pareceu ter cinquenta anos agora — depois de seu comentário, Ada desceu ao andar de baixo: a biblioteca.
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