O barulho do ponteiro do relógio era torturante. Era um dos únicos ruídos naquela enorme biblioteca subterrânea, salvo por algumas vozes vindo de cima.

"Quem é ele?"

Às vezes, Ilsa se perguntava se a voz era apenas fruto de sua imaginação. Já era tarde, e o relógio parecia rir de sua cara, cada segundo parecendo um minuto.

"Ele não parece bem..." A voz dizia.

"Está melhor do que quando eu o trouxe aqui, mas ainda assim..."

Droga, era apenas mais um daqueles das montanhas. Por que ela deveria estar se importando com o bem-estar de um deles? O evento do dia já havia provado que eles não faziam diferença para a sociedade.

Ilsa soltou seus cabelos negros, exausta. As letras da página do livro que estava lendo pareciam mudar de posição a cada segundo, como se tudo naquela biblioteca a odiasse.Suspirou, levantou-se lentamente e devolveu o livro carmim à estante.

Abriu a grande porta de mogno e subiu as escadas, encontrando Ada a alguns metros dali. A mesma se levantou do sofá.

– Ei, Ilsa — Ada disse com seu sorriso usual, ajeitando sua longa saia verde. — Ele está...

– Eu não me importo — Ilsa interrompeu, friamente. — Estou apenas indo dormir. — Virou-se, olhou para a figura loira sentada em frente a Ada e fingiu sorrir. — Olá, Edith.

– Olá, Ilsa. — A mulher, Edith, sorriu. Não conhecia Ilsa o suficiente para saber de sua personalidade. O pouco que sabia vinha de sua irmã mais nova, Ada. — Sei que está indo dormir, mas sente-se aqui. Apenas pra conversar um pouco, descontrair.

Ilsa hesitou.

– Certo — sentou-se no sofá vermelho, ao lado de Ada. A mesma dava um olhar gélido para Ilsa. — O que foi?

– Sabe que se continuar assim, nunca vai atingir seu objetivo — Ada disse, massageando suas mechas loiras. Ilsa suspirou.

– Não é culpa minha.

– Tem algo que aconteceu aí que eu não fiquei sabendo? — Edith perguntou, curiosa.

– Não, ela só... — Ada reclinou-se no assento. — Ela apenas não se importa com o bem-estar das pessoas.

– O quê? — Ilsa rapidamente virou-se. O pior de tudo é que as palavras de Ada tinham um fundo de verdade.

– Shhhh, meninas... — Edith riu, nervosamente, pondo seu chá na mesa. Não briguem. Vocês parecem crianças.

– Crianças? — Ilsa virou-se para Edith. — Ela é uma criança! — E continuou, apontando para Ada. A mesma não protestou. Ilsa estava certa.

– Meninas, vocês são melhores amigas. Não briguem, por favor. Podem acordar a vizinhança.

– Certo. — Ada levantou-se. — Já está tarde, e estou com sono. Boa noite, Edith. Boa noite, Ilsa. — E subiu a espiral de escadas, indo embora.

O silêncio tomou a sala de estar. Afinal, Ilsa e Edith eram apenas conhecidas e tinham Ada como seu meio comum.

– Hm — Edith quebrou o gelo. — Achei que gostaria de saber como ele ia. — Sua voz parecia desapontada, talvez com a apatia de Ilsa.

– É apenas um estranho.

– Você chegou a vê-lo?

– Uma única vez.

– E como ele parecia?

– Mal.

– É uma pena que as pessoas fazem isso, não é? — Edith suspirou.

– O que quer dizer? — Ilsa perguntou, com um pouco mais de expressão.

– Tentam matar uma pessoa inocente, apenas porque ela é diferente. E o pior é que nem todos como ele sobreviveram. Talvez a maioria deles tenha morrido.

Ilsa mantinha sua expressão — ou melhor, a falta dela.

– É... realmente errado. — Ela ainda se perguntava o que diabos Edith fazia ali. Tinha a ver com a profissão dela, ela suspeitava.

– Sabe, Ilsa... quando você é médica... você acaba se importando muito com as coisas ruins que acontecem com as pessoas. — Seu olhar era vazio, como se estivesse em outra era enquanto falava com Ilsa. — Eu já vi de tudo.

– Sério? — Ilsa perguntou, inclinando a cabeça. Ela duvidava disso. Mas deixou a mulher continuar acreditando naquilo.

– É. É triste você saber que aquela pessoa não tem chance de sobreviver.

Ilsa franziu o cenho.

– E... suponho que essa pessoa que Ada salvou... vai morrer? — Ilsa perguntou, olhando para as paredes.

– Talvez. — Edith respondeu, como se já tivesse dito isso muitas vezes. — Há uma facada em seu lado esquerdo. Claro, há vários ferimentos além desse, um deles parecendo o de um forcado, mas... esse é o que me preocupa.

– Meus pêsames adiantados, então... — Ilsa respondeu, sem emoção em suas palavras.

– É. Apenas um milagre pode salvá-lo. — Edith olhou para o relógio ao lado de Ilsa e se levantou rapidamente, espantada.

– Já está indo embora?

– Sim. Está bem tarde. — Edith continuou, saindo da sala.

– Precisa de ajuda? — Ilsa perguntou, olhando para Edith.

– Não, obrigada. Já morei aqui, afinal! — Abriu a porta e olhou para Ilsa. — Até então.

– Até. — Ilsa acenou, dizendo as últimas palavras que diria naquele dia.

Apenas um milagre pode salvá-lo.

As palavras se repetiam na mente de Ilsa. Mas a mesma preferiu ignorá-las, subindo as mesmas escadas em espiral por onde Ada havia andado.

Notas finais
Esse capítulo ficou beeeeeem mais longo do que era pra ser. Mas enfim, espero que gostem. Eu gostei.