Black Blade
2 Desconhecido
O gosto de sangue na boca.
"Seth!"
Dor.
Eu não vou aguentar.
Cansaço.
"Seth!"
"Onde ele está?!"
"Ele... ele..."
A sensação horrível de ser perseguido infinitamente.
Eu vou morrer. Em vão.
Eu não quero morrer assim. Eu não quero...
O jovem abriu seus olhos azuis bruscamente, vendo apenas manchas coloridas no lugar de cenários vivos. Largou os lençóis que até então estava segurando como se sua vida dependesse deles. Eram impecavelmente brancos, porém a enorme mancha de sangue já seco no lado esquerdo era impossível de ignorar.
Esperou sua vista clarear, e por fim olhou em volta enquanto as manchas saíam do seu campo de visão. Era um lugar completamente desconhecido. Não reconhecia as paredes, verdes e detalhadas, ou as enormes placas de mármore que compunham o piso do cômodo luxuoso. Pela quantidade de luz, poderia dizer que eram... nove da manhã? Dez, talvez?
Sentou-se na beira da cama, pondo os pés no chão gelado. Ele se sentia extremamente cansado, mesmo após ter descansado por um longo período de tempo. As memórias da noite anterior eram vagas, e apenas se lembrava de correr por horas e sentindo dores imensuráveis, de um forcado preso em seu ombro e uma mulher de cabelos loiros o encontrando em um beco desconhecido. Ela era linda por fora, e parecia linda por dentro. Não literalmente, claro.
Levantou-se, um tanto bruscamente, fazendo o profundo corte em seu lado esquerdo latejar de dor e levando-lhe a andar com dificuldade. Nunca havia sentido tanta dor em sua vida.
Abriu a enorme porta e se deparou com um enorme espelho no corredor. Seu reflexo era... patético. Não havia vestes superiores exceto por várias camadas de ataduras, já manchadas, e alguns hematomas. Sua pele estava pálida, mais do que o normal. Seu rosto era bonito, mas o cansaço dominava suas expressões. Observava seu reflexo com um olhar intrigado.
Posso não estar nas melhores condições, mas pelo menos ainda estou vivo, pensou com um sorriso que rapidamente sumiu de seu rosto ao perceber que talvez seus companheiros não tenham tido tanta sorte quanto ele.
O jovem passou pela enorme sala de estar, até que ouviu vozes. Vinha de uma porta no fim de outro corredor, onde conseguia reconhecer uma voz familiar. Era a voz da mulher que o encontrou. Sorriu, tendo um surto de coragem e se aproximou da porta — mas rapidamente parou.
Mas e se a outra pessoa ali tiver algo contra mim?
Porém, quase que sem pensar, sua mão se dirigiu à maçaneta dourada e quando deu por si, percebeu que já era tarde demais para voltar atrás.
O cômodo era uma sala de jantar. As paredes eram escuras e convidativas, e o piso — impecavelmente limpo — refletia tudo que havia ali. Havia uma janela que dava para um jardim bem-cuidado e colorido, e o sol iluminava o lugar. Também havia uma longa mesa de mogno no meio da sala, mas o que realmente chamou sua atenção não foi a mesa — foram as pessoas que ali estavam.
Havia uma mulher de cabelos longos, escuros e lisos, que parecia indiferente quanto à sua presença. Seus olhos eram frios, assim como sua atitude. Mas a seu lado, ali ela estava. A pessoa que salvou sua vida sem pensar na própria, que não o julgou por sua situação nem o ignorou. A pessoa que...
– É... — a mulher de cabelos escuros disse à loira, levando sua xícara de chá à boca. Ela tinha um sorriso distante e discreto, mas que parecia ser verdadeiro. — Parece que o milagre que ele precisava aconteceu.
– Hã? — A mulher loira perguntou, sem tirar o olhar de seu "convidado de honra". — O que quer dizer, Ilsa?
– Edith — a mulher que se chamava Ilsa respondeu, com certa indiferença. — Ela me disse que apenas um milagre poderia salvá-lo. Parabéns.
– Hã... — O jovem franziu o cenho, olhando para os lados timidamente como uma forma de ignorar a mulher que o estudava. — Obrigado... eu acho. Mas...
– Você parece tão melhor do que como você estava ontem! — A mulher de cabelos claros sorriu, olhando para seus machucados. Sua voz era doce, assim como sua expressão. Ele se lembrava do jeito que ela o encontrou. Sua aparência parecia angelical, como se ela fosse uma divindade que havia se aproximado dele no momento certo. E ela tinha. Combinado com o fato de que suas dores o causavam delírios, a ocasião realmente parecia algo divino.
– Ah, eu...
– Meu nome é Ada — a loira se introduziu, estendendo sua mão. Havia chocolate nela, mas ele não se importou e a cumprimentou do mesmo jeito. Ela possuía um sorriso convidativo e sincero que contrastava com a expressão neutra, talvez até fria, de sua colega.
– Meu nome é...
– Ilsa. — A mulher de cabelos negros o interrompeu para se apresentar, com um pouco mais de emoção em sua voz. Ilsa não tinha uma voz tão formal e aguda quanto a de Ada, mas sua expressão passava mais seriedade e calma, como se ela estivesse em total controle de suas emoções constantemente.
– Muito prazer, Ada. Muito prazer, Ilsa. — Ele já se sentia mais confortável no ambiente, que por um segundo pareceu frio, talvez pelo olhar frio de Ilsa.
– Ah, mas que falta de educação a minha — Ada interrompeu seus pensamentos, exclamando com uma voz mais aguda que a normal. — Temos um convidado e nem sequer perguntamos seu nome... qual o seu nome?
O convidado sorriu, como se agora fosse sua hora de brilhar na sala de jantar. Colocou sua mão direita em seu peito e respirou fundo, com um sorriso ainda maior. Para ele mesmo, sua atitude era completamente normal. Para Ilsa e Ada? Ele parecia desnecessariamente dramático.
– Seth. Meu nome é Seth.
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