Black Blade
19 Frio
Notas iniciais
Foi num dia ensolarado que o Centro teve o dia mais deprimente do ano.
– Eu ainda não consigo acreditar nisso.
– Foi tão repentino!
– Como pode algo assim acontecer do nada...?
O funeral do falecido rei, Cornelius IV, parecia menos deprimente do que se esperava de um funeral. Não apenas pelo clima meteorológico, mas também pelo clima de apatia que muitos ali tinham.
Mirjam não era uma exceção.
– Ah, minha cara... — um homem jovem e arrumado suspirou para a moça o acompanhando. Ele deu uma tragada em seu charuto antes de continuar, fazendo a moça virar a cara. — Apenas me pergunto o que será deste lugar depois de mais uma dessas...
– Certeza que essa pocilga não sobrevive a virada do século — a moça disse, ajeitando os cabelos e dando um riso nasal antes de continuar. — Melhor assim.
O homem deu um riso seco e arrogante.
– Exatamente.
Mirjam percebeu que estava desfazendo sua trança platinada e elaborada enquanto observava discretamente as pessoas. Ela não demonstrava nenhum tipo de emoção, e ao mesmo tempo não parecia apática. Estava apenas ali, pensativa, sozinha e desmanchando a trança que demorara algum tempo para modelar.
Tudo aquilo estava acontecendo por sua culpa; era por sua causa que aquele reino destroçado queimaria. Tudo isso porque não fora suficientemente útil. Tudo isso porque não havia previsto que quase seria uma das inúmeras vítimas daquele rei maldito, se não fosse por aquele desgraçado sardento.
Aquele desgraçado do Norte, que mal a conhecia e já mostrava tanta empatia enquanto matava outro ser que lhe fizera mal. Aquele desgraçado que se opunha aos ideais que ela parecia ter até certo ponto.
Já fazia algum tempo desde o incidente.
Me encontre se você não morrer, Aidan dissera enquanto Mirjam descia de seu cavalo preto na madrugada fria. Ele tinha o mesmo sorriso enigmático que havia mostrado na noite anterior, como se continuasse acreditando que Mirjam não seria pega.
– Você poderia parar de fumar, sabe? — A moça arrumada disse com irritação ao homem do charuto, que continuava a rir.
Mirjam olhou para seus cabelos já soltos após sair do mundo de seus pensamentos, e depois olhou em volta. As pessoas continuavam as mesmas, e nenhuma alma sequer parecia desconfiada dela. Era uma boa atriz, afinal.
– Mirjam?
A loira virou-se para trás, e então para baixo. Era uma mulher de meia-idade e meia-estatura que trabalhava no palácio, mas não no mesmo ramo de Mirjam.
– Ah... pois não?
– Como você está depois de tudo isso, minha filha? — A moça perguntou com sua voz meiga. — Você está bem?
– Ah, eu... — Mirjam desviou o olhar para simular certa tristeza. — Eu... não sei... não sei o que haverá com todos nós. Digo, nós do Centro como um todo.
A moça suspirou.
– Bem, parece que tem um menino que irá governar agora, sabe... — Mirjam franziu o cenho.
– Menino?
A moça fez que sim.
– Cornelius não tinha filhos... nem mesmo tinha esposa, você sabe disso. Mas havia um jovem que recebeu destaque nos meios militares e... depois de um tempo, se envolveu com política.
– E esse garoto é o novo rei?
– É.
Mirjam deu um riso curto e cético enquanto olhava em volta para localizar o indivíduo, mas não o viu.
– É uma política um tanto parecida com a do Norte, não acha? — A moça perguntou com um pouco de curiosidade. Mirjam virou-se para a moça com uma cara diferente da anterior.
– Como sabe disso? É um detalhe um tanto interno.
– Nós temos que saber o maior número de detalhes possível sobre nossos inimigos — a moça respondeu com firmeza e uma voz ainda meiga. Mirjam mordeu os lábios. — Ainda mais depois daqueles incidentes. Você...
– Eu sei — Mirjam fez que sim. — Vi um de perto.
– Ainda não descobriram a identidade do sujeito, já que apenas o rei sabia dela... — A moça disse com um tom triste. — Ele e qualquer um que interferisse nas relações entre o Norte e o Centro.
Mirjam captou a indireta, mas apenas deu um sorriso fechado.
– Olha. Se eu soubesse, eu já teria tomado algumas medidas. Não deixaria isso passar mesmo. — Mirjam franziu o cenho e suspirou. — Mas, infelizmente, não fui rápida ou inteligente o bastante. Poderia ter prevenido algum ataque.
A moça franziu sua testa enrugada.
– E a morte do rei?
Mirjam cruzou os braços, e tentou não desviar o olhar.
– Eu posso garantir que a morte do rei não tem a ver com o Norte, ou com as ações desse cidadão anônimo.
– Pode?
A moça tinha um sorriso pequeno e curioso em seu rosto. Mirjam continuou séria, porém. Tinha que ao menos parecer séria enquanto inventava algo em frações de segundos. Algo que parecesse provável, plausível e inegável.
_._
– E o que você disse?
O vento frio agora batia um pouco mais forte naquela montanha baixa. Mesmo no final do verão o frio continuava, talvez pelo ano inteiro — e essa era uma das coisas mais únicas daquele lugar.
Mirjam folheava um livro distraidamente, sentada em um banco enquanto conversava. O vento fazia as folhas finas irem contra seus dedos.
– Disse que ele tinha problemas de saúde.
Aidan não tinha nenhum livro, mas tinha um casaco de pele preta que o protegia do vento gelado, ao contrário do vestido fino de Mirjam. Ele deu um riso curto e repentino.
– Só isso?
– Eu dei uma explicação inventada na hora. Disse que o rei havia me informado muito pouco antes de morrer que... tinha uma doença hereditária e terminal, eu acho.
– E ela acreditou?
– Acho que sim — Mirjam deu um sorriso presunçoso. — Ela também o conhecia, mas não tinha uma relação tão íntima com o rei quanto a minha.
Aidan pressionou os lábios e olhou para Mirjam com seriedade. Ela continuou sorrindo.
– Mas você acreditaria?
– Acho que sim — ele respondeu, encolhendo os ombros. — Se eu fosse uma pessoa normal com pouco conhecimento de uma figura importante e ouvisse algo assim vindo de alguém próximo a ele, por que não?
– Ela poderia não saber tanto assim do rei, mas sabia de quem estava prestes a ficar no lugar dele. E também de que o Norte permite que alguém com destaque militar governe a região no lugar de outra pessoa.
Aidan franziu o cenho e virou-se para Mirjam com rapidez.
– Como? Os líderes sempre são mantidos secretos e...
– Disse que "precisam saber quantos detalhes de inimigos for possível descobrir" ou algo do tipo. O que você acha?
– Que o Centro e o Norte se odeiam, isso todo mundo sabe já faz tempo — ele respondeu sem muito ânimo. — Mas a parte dos detalhes não me soa bem.
– Bom, talvez se aqueles certos ataques não tivessem ocorrido... — Mirjam estreitou os olhos. Aidan levantou a sobrancelha e deu um riso curto e um tanto nervoso.
– Então você já descobriu?
– Uma armadura diferente a cada aparição não muda sua identidade quando você já a conhece, Aidan — ela sorriu e virou-se para o livro que continuava a folhear. — E a sua confiança instantânea em mim não pareceu muito natural, não acha...?
O homem suspirou e levantou as mãos sorrindo, derrotado.
– Eu não queria meter ninguém nisso.
– Mas você já meteu, e eu vou continuar. Talvez eu tenha confiado em um estranho com tanta rapidez por medo das consequências que eu enfrentaria se eu não o fizesse, mas você?
Aidan calou-se, olhando para frente, mas Mirjam continuou.
– Eu achei estranho que alguém como você, que tinha uma espada na mão e o corpo de um rei na outra... fosse simplesmente confiar em alguém que nem ao menos tinha uma faca.
– Olha, Mirjam... você tinha matado três ou quatro pessoas naquela noite. Sem falar que você poderia muito bem contar que eu...
– Você poderia ter me matado – Mirjam interrompeu, ainda olhando para o livro. — Poderia simplesmente quebrar o meu pescoço e me jogar no rio, assim como você fez com o rei. Sem testemunhas, sem "se você calar a sua boca eu calo a minha", sem problemas. A pergunta é... por que não me matou?
Aidan permaneceu calado, mexendo em suas mechas pretas como se pensasse em algo para dizer. Mirjam parou em uma página aleatória e olhou para ela com um olhar fixo, esperando uma resposta. Até mesmo o vento parou, e Mirjam sentiu-se menos pior.
– ...Achei que seria injusto.
– Injusto?
– Você parecia inteligente demais — ele respondeu com frieza forçada, e Mirjam virou-se para ele com as sobrancelhas franzidas.
– Se você não me conhecia, não poderia saber disso.
Aidan bufou e Mirjam sorriu, vitoriosa.
– Por que tudo que você fala faz sentido?
– Porque eu "pareço ser inteligente demais". Nem tudo o que eu falo faz sentido, mas vamos fingir que sim — ela respondeu. Aidan parecia ainda mais frustrado. — Agora me responda, como que você chegou a essa conclusão em tão pouco tempo?
– Eu... conheço todos naquele palácio.
– Você não conhece todos. Se conhecesse, saberia por que aquela moça sabia tanto.
Aidan suspirou mais uma vez, e nem ao menos olhava nos olhos de Mirjam. Mesmo assim, não sentia raiva dela mas sim, do fato de que ela derrubava qualquer uma de suas omissões como se fossem um castelo de cartas.
– Bom, eu conheço você. E o rei, se ele estivesse vivo.
– O rei, todos conhecem. Mas e eu? — A loira virou o corpo na direção de Aidan, e parecia trilhões de vezes mais triunfante do que ele. — Não sou famosa, não sou especial. Sou uma mera assistente do rei. Não tenho o mínimo destaque, e quase fui morta por causa disso. Por que me conhece? Você esteve me observando?
– Estive.
Mirjam foi pega de surpresa pela firmeza da resposta, e suavizou a voz.
– Por quê?
– Não deixe isso subir à cabeça. — Mirjam deu um riso que contrastava com a seriedade de Aidan, que continuava de braços cruzados olhando para o nada. Ele respirou fundo. — Foi por mera coincidência.
Mirjam endireitou-se no banco, interessada.
– Todos aqueles empregados "traidores" que atacavam o resto estavam do meu lado — Aidan continuou. — Mas havia um grupo seleto e especial, um grupo de assistentes do rei. Eram sete deles, mas havia um que sempre conseguia fugir. — Mirjam deu um riso curto e desviou o olhar.
– E então?
– E esse assistente, essa pessoa que conseguia escapar com êxito... sempre acabava tendo uma estratégia que conseguia salvar vários que não tinham sido atacados. Então eu pensei que ela talvez tivesse uma estratégia melhor do que a minha. Aquela moça loira platinada talvez pudesse me ajudar, em vez de ser uma inimiga.
Mirjam olhou para a própria trança, observando-a de ponta a ponta.
– Então pedi para que um dos meus ajudantes observasse você, e ele apenas confirmou o que eu tinha previsto.
– E aí você rastreou o rei e o seguiu pra me achar?
Aidan fez que sim.
– Mas o meu motivo principal era saber o porquê daquela "viagem" e os planos do rei. Você estar ali foi só sorte. Ou azar, já que... você sabe.
– Foi só isso?
Aidan encolheu os ombros, e Mirjam virou-se para frente com seu livro fechado. O tecido das mangas de seu vestido era fino, fazendo com que ela cruzasse os braços quando o vento voltou mais forte. O homem a observava com o canto dos olhos, mas não disse uma palavra e voltou a olhar para frente. Se sentia um tanto mal, algo que não sentia desde o dia que tirou a vida do rei.
– Por que não quis contar? — A loira perguntou após um tempo, inclinando-se para trás no banco de madeira escura.
– Não queria que achasse que salvei você por interesse.
Mirjam sorriu.
– Bom, mas você matou o rei... não acho que foi algo tão surpreendente assim — ela respondeu com um riso e pôs suas mãos sobre o livro.
Aidan olhou para ela por um segundo ou dois. Ela parecia pensativa e calma, enquanto ele se sentia frio e estúpido, acreditando que deveria ter ficado calado. Ao menos a luz fraca do sol poente não deixava que ela visse a óbvia frustração em seu rosto.
Por fim, Mirjam se levantou. Aidan continuava impressionado com as mangas pretas e transparentes de seu vestido longo — o que ela queria, morrer de frio?
– Aonde você vai? — Ele perguntou, jogando os cabelos pretos para trás.
– Por mais que eu quisesse, não posso ficar aqui o dia todo. Não moro aqui — Mirjam respondeu com firmeza. Não planejava sair com pressa, porém; queria apenas a impressão de que sumiria. Além de saber se sua companhia a seguiria ou não.
– Você não sabe voltar sozinha.
– Já cheguei aqui, posso muito bem voltar.
Mirjam virou-se de costas e deu alguns passos lentos, até que sentiu algo bater em suas costas e cair no chão. Virou-se novamente, e pegou o objeto — era um casaco de pele preta e brilhante.
Olhou para o banco e viu Aidan de braços cruzados e um sorriso presunçoso no rosto. Ele vestia uma blusa perfeitamente branca e decorada por baixo daquele casaco, o que era... bem perto do esperado.
– Não vou sair com um corpo congelado.
Mirjam sorriu com a estupidez daquela frase, revirando os olhos e vestindo o casaco mais por educação do que por necessidade.
– Você não está saindo com ninguém.
Aidan encolheu os ombros e levantou-se, caminhando até Mirjam.
– Bom, agora eu estou, não? Não estou saindo com ninguém, estou saindo com você.
Mirjam olhou fixamente para os olhos contornados de Aidan com um pouco de intriga, mas foi interrompida quando ele pôs a mão em seus ombros e a virou, forçando-a a continuar a andar. Ela não questionou, mas sentiu-se estranha. Não estava acostumada a esse tipo de tratamento — estava acostumada à pressão que aquele palácio impunha em suas ações, e à pessoas julgando uns aos outros como "perfeitos" até que errassem alguma vez. Não estava acostumada a pessoas que riam de coisas estúpidas, que pudessem olhar umas nas outras e dizer algo prazeroso sem que fosse por educação ou alguma recompensa.
– Você vai ficar aí pensando no nada?
Mirjam olhou para frente — Aidan estava à alguns metros de distância, bem longe do banco onde estava sentado há pouco tempo.
– Eu já estou indo — ela respondeu, correndo até ele para tirar a diferença.
Talvez o Centro realmente fosse muito mais frio do que o Norte, por mais incrível que aquilo parecesse.
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