Black Blade
7 Embriaguez
Notas iniciais
O caminho até a mesa era mais longo do que se parecia de longe. Seth teve de passar por no mínimo onze mesas, cujos usuários estavam extremamente embriagados ao ponto de nem perceber sua presença e solicitação para passar nos corredores entre as mesas.
Ao menos as pessoas na sua mesa de destino — um homem e uma mulher conversando — não pareciam tão bêbados.
Seth aproximou-se com cautela da mesa, interrompendo a conversa dos dois.
– Olá, eu... posso sentar aqui? É que não tem nenhum outro lugar vazio...
Os dois se entreolharam, até que o homem encolheu os ombros e disse, com tom descontraído:
– Claro.
Ele sentou-se na cadeira de mogno, fingindo não prestar atenção nas duas pessoas sentadas na mesma mesa que ele. Eles pareciam não se importar com a presença de um estranho na sua mesa, e continuavam com sua conversa feliz e alegre (e possivelmente embebida em álcool).
Os dois tinham aparências incomuns: a mulher tinha pele bem escura, mas cabelos ondulados literalmente brancos; o homem tinha pele clara e sardenta, cercada por cabelos ruivos. A moça bebia whiskey, o homem bebia... algo verde. Com uma azeitona dentro.
Sua conversa era definitivamente embebida em álcool.
– Então, cara — a moça de cabelos brancos começou — aí eu estava perdida naquela floresta que tem um rio esquisito — ela fez um gesto que simulava a corrente de um rio — e parecia que eu ia morrer.
– Você não ia morrer, Sasha — o ruivo respondeu, dando um gole de sua bebida verde — você ia apenas virar pedra.
– Deixa eu continuar.
– Aí veio um orc — o ruivo revirou os olhos, falando com tom sarcástico. A moça com o nome de Sasha suspirou e não parecia feliz com a resposta.
– Você está me cansando, Killen. — O ruivo apenas riu como resposta. — Aí veio tipo um troço brilhando na minha frente, e eu nunca mais voltei lá.
Seth, que olhava em outra direção e procurava um garçom para servi-lo, acidentalmente deu um meio olhar espantado aos dois.
Certo, talvez sua conversa não fosse embebida em álcool — mas com certeza em alguma coisa era.
– Ei — Killen apontou para Seth, ainda segurando sua caneca de vidro. Sua voz tinha um tom embriagado. Ele virou-se para o ruivo. — Você já foi pra floresta de Braun?
– Não, eu acho — ele respondeu, encolhendo os ombros e mergulhando na ignorância.
– E na floresta de Orcs, já?
– Não? — Seth franziu o cenho. Do que raios ele estava falando?
– Bom, elas são a mesma coisa, só que orcs estão extintos há séculos — ele riu sem som, quase jogando a caneca na mesa enquanto ria.
– Isso foi uma piada? – Sasha perguntou retoricamente e bufou, escondendo o rosto com as mãos. Seth deu um riso curto e baixo, mas apenas por causa da reação de Sasha. Era possível ouvir uns risinhos vindo das outras mesas.
– Mas... então por que "floresta de Braun"? — Seth perguntou com pouca curiosidade, apenas tentando diminuir a vergonha alheia de Sasha. Pena que não funcionou.
Antes que Sasha pudesse responder, Killen levantou a cabeça da mesa e parou de rir, respondendo com uma pergunta:
– Você é novato, não é? Tipo... novo aqui e tal. Não é do gueto, não é da quebrada, do rolê, do...
– Sim, eu sou — Seth respondeu, interrompendo as gírias de Killen. Sasha escondia a cara em sua caneca de whiskey.
– Desconfiava — Killen olhava para sua azeitona no recipiente vazio, como se sentisse pena. — Qual é seu nome, truta mole?
Sasha urrou dentro de sua caneca, como se sua dor fosse física.
– Seth — ele respondeu, com um sorriso quase que completamente falso, destoando de seu sorriso genuíno de quando ele se apresentava para alguém.
– Então, Seth truta mole novato da quebrada, de onde você vem?
– Do Norte, das montanhas.
– Então — Sasha interrompeu qualquer gíria que Killen fosse dizer no momento — "floresta de Braun" é por causa de uns caras que descobriram que ali havia ossos de orcs após séculos sem quase ninguém entrar naquele lugar, e o sobrenome de um deles era Braun. Pelo menos o que sobreviveu, já que lá ocorrem umas coisas estranhas.
Seth franziu o cenho.
– Mas... orcs?
– É. Orcs. — Sasha deu um sorriso pequeno, fazendo que sim com a cabeça. Seth olhou para o lado, onde havia um garçom indo para sua mesa.
– Tá certo então.
A atmosfera do bar parecia mais agradável agora, mesmo com a conversa não completamente sóbria com Sasha e Killen e com uma pequena briga entre duas pessoas. Por algum motivo, a caneca estava na cabeça de um dos homens envolvidos na briga. Havia também uma moça loira e elegante entrando no bar, olhando em volta.
E a vários metros dali, parecia que Ada estava... dançando loucamente com alguém. E cantando. Que vergonha.
– Você conhece ela? — Sasha perguntou, dando um gole de seu whiskey enquanto apontava para a loira bêbada dançante perto do balcão.
– Ah! Eu... eu não, eu só... — Seth respondeu mentindo, assustado e ainda vidrado na dança de Ada. No mau sentido. — Eu só estou sentindo muita vergonha alheia dessa pessoa, quem quer que seja. Eu não me relaciono com pessoas desse tipo.
Era possível ouví-la cantando uma música em outra língua enquanto falava alguma coisa sobre status. A pessoa dançando com ela dizia que champanhe era mais chique do que o que quer que ela estivesse bebendo no momento — o que não era champanhe.
A caveira acesa no teto acima deles também não parecia algo tão seguro assim.
– Vai querer o que, moleque?
Seth virou-se bruscamente para a origem da voz grossa e medonha que vinha do lado dele, assustado. Era um sujeito musculoso de dois metros de altura, avental sujo, bandeja debaixo do braço e bloquinho rosa choque na mão. Provavelmente o garçom, se todo garçom típico tivesse uma cicatriz verde na testa.
– E aí? Vai querer o quê?
– Agnip, dá um desconto pra ele — Killen disse, piscando o olho e deslizando a caneca vazia para o garçom chamado Agnip, que pegou e pôs na bandeja prateada. — Ele é novato.
– Ah, o moleque é novato — o garçom deu um tapinha camarada nas costas de Seth, quase derrubando-o. — Ele já manja das coisas?
– Acho que não — a ruiva respondeu. — O truta mole aqui não manja de nada. — E começou a rir, assim como Agnip. Sasha revirou os olhos.
– Vai querer o especial da casa, menino?
– Acho que sim — Seth respondeu, encolhendo os ombros. O que quer que fosse, teria que ser barato porque ele não tinha muito dinheiro para exibir.
– Eu vou querer o mesmo — Killen apontou para o alto, balançando os cabelos ruivos. Agnip andou até o balcão, derrubando quem estivesse na sua frente e pegando dois copos vazios por segundo. Era possível ouvir sua voz grave em frente ao balcão.
– Dois especiais da casa pra mesa dezessete, três cervejas e uma bandeja de bolinho de queijo pra mesa oito e uma cerveja pra mesa... — ele interrompeu a si mesmo para ouvir a voz de alguém que não era visível da mesa de Seth. — Ah, e uma champanhe para a moça aqui.
– Eu quero uma champanhe também, garçom... — Ada gritou para Agnip com sua voz arrastada, ainda dançando com várias pessoas embaixo da caveira acesa.
Seth suspirou.
Mesmo com tanta gente estranha, mesmo conversando com gente bêbada, mesmo com pouca gente sã naquele lugar e o cheiro de álcool nas paredes, aquele lugar não parecia tão ruim quanto ele esperava — e poderia ficar ainda melhor.
A não ser que o especial da casa fosse algo decepcionante.
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