Biólogos Marinhos Odeiam o Mar

1 Um capítulo longo só de enrolação pra encher você!


Notas iniciais
Comecei essa história no Spirit e depois abandonei. Depois de meses na gaveta, aqui esta ela! Revisadinha e alterada! Aproveite, enquanto pode rs....

Nada naquela manhã parecia abalar o Sr. Peter. Acomodado em seu escritório, que se encontrava em uma filial da Academia de Ciência, em Poole, na Inglaterra. Ele distraía-se, “feliz”, com uma papelada que estava no centro de sua mesa; Seu aposento era uma grande sala oval, um estilo bem barroco, onde a mesa era pelo menos uns 15 metros longe da porta. Uma distância bem exagerada, qualquer um diria, mas Sr. Peter não gostava de estar próximo das portas, pois tinha uma sensação de que delas sempre vinham algo de ruim, e manter-se afastado destas o daria tempo para escapar pelas dezenas de entradas secretas que ali havia, caso a "coisa ruim" realmente fosse dar as caras; pura fobia. Aliás, atrás de sua mesa, existiam três janelas.

Lentamente, a tal bendita porta abriu. Se não reconhecesse o extravagante paletó amarelado de seu secretário, Sr. Henry, já teria dado um salto mortal para uma passagem secreta mais próxima (sério, eu entendo esse cara; Também já tive esse medo)...
Sr. Henry parecia realmente preocupado; Enquanto percorria os longos 15 metros da sala, olhava firmemente o pequeno bilhete que levava em mãos; Logo que se aproximou da mesa de Sr. Peter, Henry não tardou a dar seu recado:

- Acabou de chegar um recado da diretoria para o senhor... Como sempre, a reunião da Academia começará às 3 horas; Nossos afiliados já estão a caminho...

- Ora, então por que a preocupação? Se vai ocorrer da mesma maneira de sempre, não a razão para fazer essa cara.

Sr. Henry exitou. Estava fazendo uma cara tão explícita assim? Era melhor jogar a bomba antes que esta estoura-se em suas mãos:

- ... I-ian... Whoodman... Senhor...

"CABOOM".

Era isso que Peter ouvira; Parecia uma ótima hora de abrir a passagem secreta... Sr. Peter se apoiou bruscamente sobre a mesa, com uma das mãos sobre seu rosto senil; Era dessas coisas que realmente tinha medo. Logo, levantou sua cabeça e fitou seu secretário; Henry estava apavorado.

- Então... — Disse Sr. Peter, tentando encontrar as palavras — Aquele..." Cientistazinho" de quinta ainda quer tirar sarro de nossa cara? Não podemos deixar isso acontecer de novo, caro Henry, ou isso acabará com nossa reputação com o governo de Londres...

- Mas, senhor... — interrompeu Sr. Henry, tremendo — Whoodman não participou tantas vezes assim...

- É a 42° vez...

- M-mas ele não pode ser expulso... O certificado do pai dele... Foi parte da herança!

- Mortos não podem reclamar nada, Sr. Henry...

O pobre Henry engoliu a seco. Não era desejo seu começar a discussão. Apenas queria dar o maldito recado e retornar ao seu local de trabalho o mais rápido o possível.

Então, Sr. Peter levantou-se lentamente de sua cadeira e olhou através da janela; De certa forma, olhar as pessoas comuns, " a ralé", como chamava, em seus ciclos viciosos de trabalho o relaxava. É muito bom sentir-se acima dos outros ( a não ser que passassem por sua porta ). Peter virou levemente o rosto para seu secretário e sorriu, de forma sombria. Já havia se preparado. Umas 41 vezes.

- Então... — Lentamente disse — Deixem-no mostrar a mais nova tralha. Prepararei uma ''surpresa'' para esse desocupado...

Sr.Henry tremeu. Disse um "sim, senhor" rapidamente e apertou o passo até sair daquele inferno. Henry odiava trabalhar naquele lugar, mas não tinha escolha: era isso ou a fome.

Sr. Peter retornou a mesa. Aparentemente o seu humor melhorara. Voltou a mexer na papelada. Trancou a passagem secreta.

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Ian Whoodman acordara realmente animado aquele dia. Mal esperava para, finalmente, mostrar seu mais novo relatório à Academia. Seu cabelos castanhos, tão longos quanto de uma mulher, estavam embaraçados, presos em um espalhafatoso laço vermelho; Usava um blusão branco todo amarrotado e uma calça marrom dentro das botas russas e negras. Estava tão ansioso, que nem se vestiu a rigor para a ocasião.

Estava a frente de casa ( uma casinha simples de madeira ), tentando carregar seu mais novo invento para a sua carroça; Ian é biólogo marinho, porém nunca teve muita afeição com o mar. Preferia usar seu tempo livre e sua força de um jovem de 21 anos para a robótica: especializava-se em criar instrumentos de observação e estudo, que segundo ele "revolucionariam a exploração marinha prática". Finalmente, conseguiu acomodar a máquina sobre a carroceria; Seu cavalo, Jean, não parecia se incomodar com o peso.

O jovem logo subiu na carroça e tocou o animal. Morava praticamente na saída da cidade, e a Academia encontravam-se no centro dela. Não era uma grande distância, mas demoraria um pouco. Eram exatamente 2 da tarde. Depois de meia hora de viajem, chegou ao centro da cidade.

Poole, cidade onde Ian Whoodman morava, era portuária, por isso, estava sempre movimentada. As casas eram em geral feitas de pedra e madeira e as ruas eram pavimentadas; O centro dela estava sempre cheia de comerciantes, trabalhadores braçais e aristocratas, fazendo desta uma feira diária. O porto da cidade, que se tratava de uma estrutura natural que se estendia por toda a costa, estava sempre cheio de caravelas comerciais, descarregando mercadorias diversas para serem distribuídas por todo o país. Ian raramente passava perto do porto, a não ser por certa pessoa...

- E aí, Whoodman!

- Dylan!

Dylan Otto, amigo de infância de Ian, acenara para ele próximo a carroça. Dylan era da marinha inglesa, por isso sempre se vestia como tal. Seus cabelos loiros e os belos olhos verdes de longe atraiam muitos olhares, destes alguns bons partidos, interessados no título de Dylan. Ian tinha um pouco de inveja do amigo, pois seu rosto delicado e seus longos cabelos faziam que fosse confundido com uma menina, diferente da masculinidade de Dylan.

O marinheiro aproximou da carroça e fitou curioso a máquina de Ian; Depois, retornou o olhar ao amigo balançando a cabeça;

- Vai tentar tirar a sorte de novo com aqueles almofadinhas da Academia? — Disse ele rindo — Se tiver sorte, vão pedir licença antes de te darem um pé na bunda!

- Não enche, Dylan! — Disse o jovem biólogo, rindo, pois já era acostumado a postura implicante do amigo; — Desta vez mostrarei a esses idiotas o poder de minha genialidade! Ou não sou filho de Renan Whoodman!!

- Inteligência não se herda, você sabe. — respondeu o amigo, porém não aprofundou o assunto, pois sabia o quanto era doloroso para Ian falar do pai.

- Pobre Ian... Mesmo pagando tanto mico ainda consegue dar risada...

Realmente, Ian sorria muito.

- Ora... — Disse Ian, enquanto procurava um novo assunto; — Aliás, melhorou a sua asma? Sempre que você se afasta do oceano passa mal dos pulmões, não é?

- É minha natureza. — Respondeu Dylan, desviando o olhar. Logo, deu as costas a Ian e retornou ao seu caminho; Olhando para trás, acenou e gritou:

- Até mais, Whood!! Encontro-te ás 6 no Velho Jaguar! Vou adorar ouvir como foi sua nova gafe!!

- Vai trabalhar!! — Respondeu o jovem biólogo, rindo, enquanto tocava o seu cavalo.

Ele não podia ouvir as implicâncias do amigo; Era sua chance. Finalmente deixaria de ser humilhado cruelmente por não ter a prática dos outros; Conseguiria o reconhecimento que sempre almejou; Deixaria de ser a sombra que seu pai fora. Tudo isso o correria em apenas meia hora...

No entanto, alguém o parou; Alguém bem excêntrico, diria; De uma forma bem irritante.

Uma garota, de mais ou menos 15 anos, estava parada na frente da carroça ( Jean pareceu não se incomodar, como sempre ). A jovem estava toda encharcada, parecia ter acabado de sair de um chuveiro e acabou colocando a roupa sem se secar. Usava um camisão enorme listrado, de manga longa, que a cobria até os joelhos. Seus cabelos eram muito curtos e castanhos escuros; Tinha os olhos um pouco puxados e o corpo franzino e moreno. Para aquela época, plenos 1898, aquela vestimenta era a última palavra em desleixo e ousadia. Antes que Ian pudesse pensar em pelo menos protestar, a garota começou a sacudir-se e gritar com sua voz fina:

- Ei, ei!!! Tia-que-usa-calças!!! Onde fica a marcenaria que ficava nas docas????

- Marce... o quê?? — Ian ainda esta tentando se recuperar do choque.

- A marcenaria que ficava nas docas!!!

- T-talvez... A-ainda esta nas docas...

- Humm... E onde ficam as docas??

Ian apontou o braço para a esquerda. Através de uma ruela escura, era possível ver a estrutura de madeira e o horizonte azul não muito longe. O som das gaivotas piando era gritante.

- Aaahh... Desculpe, Tia-que-usa-calças... Eu sou muito tonta e não percebi que acabei de sair de lá...

Se olhares matassem, a pobre garota já estaria dura no chão. Ian podia ter uma face gentil, porém sua face agressiva era muito mais explícita. Finalmente protestou:

- EU SOU UM HOMEM!!! DÁ LICENÇA, PIRRALHA!!

— Nossa!! — Disse a menina, rindo muito — As pessoas da terra firme são estranhas...

- VIU?! Dá pra ver que não passa de uma cadela do mar — Ian começou a tocar o cavalo — Você mora em um navio??

A garota saltitou alegremente, saindo da frente do cavalo e entrando na ruela, virando o rosto risonho para o biólogo e dando sua última resposta:

- Na verdade eu moro em um submarino, dentro do oceano.

- Dane-se!!

Ian não ouviu, estava muito nervoso. Faltavam 15 minutos para a reunião e não podia se distrair; Talvez, se tivesse ouvido, pararia ali, com a menina, e estudaria sua afirmação. Mas é melhor que não ouvisse, pois o que ocorreu depois, e não durante a ocasião, é o importante. Ninguém esperaria que este pequeno incomodo mudaria seu antigo título:" Ian Whoodman, o biólogo marinho com medo do mar”.

Notas finais
Dedicado as pessoas que aprendem certa coisa, mas nunca exercem a função.