Bittersweet.
26 26. Você não vai poder esconder isso para sempre, você sabe.
Notas iniciais
Ele precisava disso, ele sabia.
Um tempo. Um momento para digerir tudo o que acabou por saber.
Sua vida não seria mais a mesma depois desse dia, tinha plena consciência disso. Talvez tenha sido um golpe de sorte ter encontrado talvez uma das poucas pessoas que poderia lhe ajudar, porque agora ele não sabia em quem poderia confiar seu segredo imundo.
O que pensaria Tails? Certamente pensaria errado ou até passaria a lhe enojar.
Somente a menção desse pensamento fazia seu coração se apertar.
Se sentiu extremamente agradecido quando a estranha morcega, Mary, lhe deu a oportunidade de ficar sozinho com seus próprios medos e pensamentos conflitantes. Era como se tudo que ele sabia, conhecia, afirmava não fizesse mais sentido, seu mundo perdeu a lógica.
Deveria ele se sentir culpado por desconhecer sobre seu próprio corpo? Deveria ele temer o que o futuro lhe reserva?
Eram perguntas que lhe atormentavam a mente, não conseguia não pensar que talvez a culpa de tudo isso ter começado fosse somente sua e de mais ninguém.
Ele quem procurou Rouge em primeiro lugar, ele quem fez a sugestão e foi ele quem decidiu iniciar tudo. Ele poderia ter simplesmente ignorado, esquecido todo o conteúdo da conversa, seguido em frente. Não ter aceitado os ‘presentes’ de Rouge e principalmente, ter perturbado Shadow.
Ele se sentia culpado por toda essa confusão ter chegado nesse nível, ele um hermafrodita gravido daquele que deveria ser seu rival e nada, talvez um amigo distante, mas companheiros de cama, não.
Parecia que tudo havia acontecido ontem e, agora ele não era mais o ouriço que ele costumava ser, parecia como se uma sombra pairasse sobre si, fazendo-o se sentir perdido, quase abandonado.
Apertou os lençóis enquanto sua mente corria em um mar de possibilidades, medos, inseguranças. Ele sabia que não poderia esconder a gestação por muito tempo, logo a barriga apareceria, porém ele não sabia quando seria. Sua vontade era de correr e fugir, mas pela primeira essa não era a solução para os seus problemas.
Fechou os olhos, tentando reprimir as lágrimas que começavam a surgir nas bordas de seus olhos, como ele faria para que ninguém soubesse? Fugiria? Se esconderia? Também tinha outro fator, Shadow.
“Shadow... Como vou te olhar agora?” Perguntou a si mesmo, a culpa e a vergonha em sua mente.
“Você sabe, ele é o pai, você vai ter que contar a ele em algum momento.” Um pensamento veio, como se estivesse debatendo consigo mesmo.
“Eu não quero...” Sua voz saiu melancólica, embora mais se assemelhasse a uma birra de criança pequena.
“Você não vai poder esconder isso para sempre, você sabe.” Respondeu sua consciência.
“Eu não quero atrapalhar a vida dele...” Pensou tristemente.
“Sua barriga vai crescer, é só questão de tempo.” Rebateu a si mesmo.
“Odeio minha consciência.” Suspirou, enquanto se acomodava melhor na cama.
Virou seus olhos para a janela, observando as poucas estrelas que não estavam ocultas pelos arranha-céus, olhar para elas de alguma forma lhe trazia conforto, mesmo que não pudesse ter a visão completa do céu, ainda assim ele sabia que ainda estão lá, brilhantes.
Suspirou.
O que seria de sua vida depois daquele dia?
Como poderia ele lidar com todo o peso e toda a pressão que teria? Como levaria sua gravidez sozinho? Ele sabia que Mary tinha se oferecido para ajudar, talvez ela tivesse mais experiência do que aparentava ter, mas conseguiria ele aceitar a ajuda dela sabendo que poderia estar atrapalhando-a em sua rotina?
Ele não queria envolver mais pessoas em seus problemas, já tinha muito para lidar e o pensamento de envolver mais pessoas em algo que ele nem fazia ideia de como lidar lhe incomodava. Não sabia o que faria, como faria, não tinha ideia se conseguiria cuidar sozinho de uma criança tão pequena, inocente e frágil.
Recorrer a seus amigos? Essa era possibilidade que ele não queria cogitar, lhe dava um enorme aperto no peito imaginar os olhares estranhos, o medo de receber algo como uma expressão de nojo fazia com que estremecesse.
Fechou os olhos com força, as imagens dos rostos desconhecidos de seu pesadelo recente ainda frescas em sua mente.
Foi quando seu nariz pegou um cheiro, era forte e fácil de distinguir.
Carne.
Seu estômago grunhiu, tanto tempo sem ingerir nenhum alimento fazia com que a fome fosse gritante, fazendo com que soltasse um gemido de dor.
Se levantou da cama meio hesitante, seu braço ainda doía levemente, mas não era o bastante para o incomodar, seus passos eram lentos e hesitantes, estava descalço e não tinha vontade alguma de calçar seus sapatos, o que era incomum para ele que sempre estava calçado não importasse o quê.
Seus passos eram lentos, suaves e calmos, como se não tivesse presa, mas embora assim parecesse, o receio de que poderia ceder a uma onda de tontura fazia com que tomasse cuidado redobrado com seus passos.
Passou pela porta, sendo recebido por um corredor estreito, onde mais 3 portas estavam fechadas, mas ele não tinha interesse nelas, seguia seu nariz como se dependesse disso.
Foi recebido com a visão da sala de estar, não era pequena, tampouco grande, era de um tamanho mediano. Dois sofás de cor azul marinho com uma poltrona de mesma cor, uma televisão de LED que ele não sabia qual tamanho era, mas era grande o suficiente para que pudesse ser assistida de longe. A estante em que a televisão estava era praticamente nua de decorações, exceto por um ou dois livros e um aparelho de DVD. A mesa de centro era de mogno, contrastando com o tapete bege e as paredes de um tom claro de azul.
Havia uma cortina da mesma cor dos sofás, que ele suspeitava que talvez fosse uma varada ou apenas uma janela envidraçada.
Desviou os olhos da decoração, ele não estava ali para admirar, seu estomago grunhiu novamente, lembrando-o do que o levou ali em primeiro lugar, sentiu vergonha de seus modos, seu rosto adquirindo uma coloração rósea.
O cheiro parecia mais forte, seguiu-o timidamente, ele não sabia como agir em uma situação como essa, se fosse na casa de Tails, ele simplesmente se serviria, embora ouvisse algumas reclamações da raposa sobre modos, que ele apenas sorriria para ele em um pedido de desculpas.
Porém, aquela não era a casa de seu irmão mais novo, ele não conhecia a anfitriã direito, não saberia como agir.
Passou pela porta, enquanto ainda sentia seu rosto quente, seus olhos verdes encontraram outros três de cores diferentes.
Rouge já tinha chegado? Talvez Mary tivesse cogitado em lhe dar um tempo de descanso antes que encarar a morcega albina, ele poderia conversar com ela depois, agora tinha outros pensamentos em mente.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, seu estomago grunhiu alto. Encolheu-se ao som, olhando como se estivesse pedindo desculpas.
— Deixa eu adivinhar, sentiu o cheio, não é? — Ouviu a voz de Mary, um tom suave, olhou para ela recebendo um olhar acolhedor e confortador. — Sente-se, vou dividir essa que estou fazendo e frito mais, tudo bem para vocês dois? — Ela olhou para si e a raposa, Nyazu, observou pelo canto de olho que a raposa apenas deu de ombros, como se não tivesse objeção alguma em ter a comida dividida.
— Obrigado... — Murmurou agradecido, sua voz soando baixa, porém a emoção era bastante reconhecível.
— Não precisa, você não comeu nada o dia todo, precisa comer, sabia? — Ouviu a voz da morcega negra enquanto virava sua atenção a carne, tomando cuidado para não a queimar. — Nyazu, pode servir a mesa, por favor? — Ela pediu de forma tranquila, pelo canto dos olhos notou Rouge franzir a testar para algo que ele não entendia o que era.
— Claro! — Observou a raposa se levantando animadamente, indo para os armários e pegando pratos e talheres, colocando-os na mesa em um padrão que ele suspeitava que fosse ensinado. Observada de onde estava, encostado na parede. Logo após pegou copos, viu quando Rouge com suspiro pegou um dos copos e um saca-rolhas, puxando uma garrafa escura e abrindo-a, despejando no copo, o cheiro de uvas e álcool chegando em seu nariz estranhamente sensível.
Rouge levou o copo aos lábios, bebericando o vinho enquanto lhe dirigia um olhar reprovativo, como se estivesse prestes a lhe repreender por algo errado.
— Sonic! Por que você não comeu? — A vez dela era carregada de preocupação e talvez incredulidade. — Não tomou nem café da manhã? — O tom chegou a lhe irritar. Ele não estaria ali se ela não tivesse aparecido em sua casa em primeiro lugar!
— Talvez se alguém não tivesse aparecido na minha casa me obrigando a fazer a porcaria do teste de gravidez por razão alguma, eu teria comido alguma coisa! — Manifestou seus pensamentos, olhando para Rouge de forma acusatória enquanto seu tom saia seco. Sua expressão fechada.
— Sente-se ouriço, já vou servir. — Mary cortou qualquer início de discussão que poderiam ter, sendo direta em sua ordem, interiormente gemeu em protesto, porém não fez nada para contrariar a ordem.
Seus ombros caíram em cansaço, não físico, mas emocional. Olhou para seu lado enquanto aquela raposa vermelha aparecia ao seu lado, passando os braços pelos seus, como um abraço de lado, ao mesmo tempo em que lhe empurrava para uma cadeira diante dos pratos e talheres que ela organizou há poucos minutos atrás.
— Hey! — Não pode deixar de reclamar, mas embora fosse pego de surpresa pela ação inesperada da raposa, não estava chateado por isso, até achava divertido, não pode deixar sorrir minimamente para isso.
— Nyazu, não é assim que você convida alguém a se sentar. — Ouviu Mary repreender, embora pudesse ouvir um tom de diversão também em sua voz. Era a primeira vez desde que conversou com a morcega que a viu dizer algo com um tom mais leve e descontraído, isso lhe ajudou a se sentir mais calmo, apesar de toda confusão mental que ainda se encontrava, se deparar com um ambiente que lhe lembrava sua relação com seu irmão mais novo fazia lhe sentir confortável de uma forma desconhecida.
— Desculpe. — Ela virou em sua direção, sua expressão culpada enquanto seus olhos vermelhos pareciam preocupados.
— Tudo bem! — Não conseguiu não sorrir para a raposa, piscando um olho quando segurava o impulso de dar o polegar, como seu hábito de sempre quando alguém lhe agradece ou conversa consigo.
Olhou para Mary em expectativa quando a viu pegar a frigideira, o cheiro de carne recém frita forte em suas narinas fazendo sua boca salivar. Certamente não era bons modos para alguém que estava como convidado, mas não podia negar que estava com fome, sentia não só a fome, mas era como uma necessidade. Ele precisava daquela carne.
Viu quando Mary pegou uma bandeja com salada que ele não tinha percebido até o momento, enquanto com a outra mão mantinha segura a frigideira, ele não viu quando ela tinha cortado a carne em metades iguais, mas não estava preocupado com isso no momento.
— Eu espero realmente que vocês comam essa salada também, só a carne não vai suprir a necessidade de vocês dois de vitaminas. — Ela suspirou depositando a bandeja calmamente na mesa, enquanto pegava uma espátula e colocava os pedaços em ambos os pratos.
Sonic franziu a testa para a salada, nenhum pouco animado em comer qualquer vegetal, no entanto olhar para aquele amontoado de folhas verdes, tomates cortados e frutas, veio a imagem da noite passada, quando Shadow tinha cozinhado para si, de forma a se redimir pela noite que ambos desfrutaram e não se arrependiam pelo que tinham experimentado juntos.
Mas a imagem da salada que ele fizera não saia de sua mente, assim como a imagem dos morangos que enfeitavam as folhas verdes e os mirtilos azuis, franziu a testa pensativo, enquanto sentia o gosto da fruta vermelha em sua língua, fazendo-o salivar sem que percebesse.
— Mary... — Começou hesitante, vergonha tingindo sua face, sua voz era baixa, envergonhado de estar desejando, não, necessitando tanto de algo tão simples quando uma fruta, não só uma comum, mas a que ele sempre detestou por achar agridoce, uma mistura de azeda e doce.
— Pode falar ouriço. — Ouviu a voz dela, levantou a cabeça timidamente para lhe encarar, seu prato ainda intocado.
— Você tem morango? — Soltou de uma vez, ainda desconcertado com tudo o que estava acontecendo consigo, com seu corpo agindo dessa forma estranha.
Sentiu o olhar de Rouge sobre si, virou para ela para ser recebido com um olhar incredulidade e diversão, enquanto Nyazu estava entretida comendo silenciosamente.
Voltou seu olhar Mary que estava pensativa, sua expressão torcida em concentração. Foi quando seus olhos se viraram para Rouge, um brilho maligno neles.
— O que está esperando, agente? — Disse de forma séria, enquanto Rouge voltava o olhar com incredulidade.
— Não pode estar falando sério... — Começou, sua expressão de indignação quase fez Sonic rir.
— Tenho cara de quem está brincando? — Retrucou, mas mãos na cintura, como uma mãe que estivesse repreendendo o filho por algo que deixou de fazer.
— Por que eu? — Reclamou enquanto seus ombros de cansaço.
— Eu estou cozinhando. — Apontou para si mesma com o indicador. — Nyazu está jantando. — Aponto para a raposa que olhou para ela ao ouvir o som de seu nome. — E Sonic está de pijama. — Concluiu apontando para o ouriço que levantou o olhar para ela nessa observação.
Rouge bufou, colocando o copo vazio na mesa enquanto se levantava.
Andou a passos duros para porta, antes de sair Mary ainda pôde a ouvir resmungando mau humorada.
— Isso foi muito cruel, sabia? Vai ter volta! — Foi a última coisa que ouviu antes de todos os presentes ouvirem a porta da frente bater.
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