Bittersweet.

20 20. Eu não faria isso se fosse você.


Notas iniciais
Aproveitei que me veio uma onda de inspiração e adiantei esse capítulo que eu particularmente adorei escrever. Então sem mais delongas, boa leitura.

O sonho que se seguiu era de longe um dos mais comuns que ele já lembrou ter.

Não era porque estava em um espaço amplo desconhecido, como um palácio real que já viu em filmes e seriados de televisão quando estava entediado o bastante assistindo televisão junto de Tails quando ainda compartilhavam a mesma casa. Nem era porque estava trajado de roupas finas e caras.

Não era um detalhe ou outro que lhe intrigava, era todo o cenário em que estava, ela algo que certamente ele não sonharia em uma situação comum.

Estava sentado rente a uma grande e lotada mesa de jantar, forrada por uma toalha macia de seda, seus dedos as vezes tocavam o pano brilhante em nervosismo, o ar era fresco, porém o recinto era preenchido com o cheiro de assados e sopas em recipientes fumegantes.

Apesar da mesa farta, tinha um prato vazio diante de si. Olhou para a esquerda, vendo um par de ouriços que ele tinha certeza de que nunca os tinha visto antes em sua vida, nem ao menos ouvir falar sobre tais. A mulher tinha uma pose de soberana, sua cabeça erguida sustentando a coroa pesada de outro incrustrada de rubis, seus espinhos haviam sido moldados para se assemelharem com cabelos, caindo suavemente pelas costas. Usava um estilo leve de seda branca, a pele pêssego os braços à mostra enquanto seu busto era decorado com detalhes de bordados dourados, como vinhas de ouro.

Seus olhos verdes esmeraldas lhe encararam em resposta, a pele arroxeada se destacando pela cor clara do vestido, apesar das joias caras fazer a tarefa de desviar toda a atenção sobre sua forma.

O macho que estava ao seu lado, se sentava tranquila e relaxadamente em sua cadeira estofada e confortável. Sua postura parecia extremamente despreocupada. Tinha uma cor de azul royal que o deixava deslumbrado por brilhar quando era recebido pelas luzes, sua coloração era mais escura que o pêssego da mulher, porém não muito escura, como cor de castanha ou até mesmo de noz. Seus olhos eram castanhos, assim como um tufo de espinhos castanhos que se destacava em meio ao azul real, parecia sempre ter um sorriso em seu rosto, já que quando o encarou ele estava sorrido calorosamente para si, ao contrário da mulher que lhe lançava um olhar crítico e repreendedor.

Vestia uma espécie de roupa de general, foi a melhor comparação que sua mente conseguiu fazer para o que ele usava, já que ele mesmo desconhecia sobre nomes de peças de roupas. Parecia uma espécie de terno arcaico, como aqueles dos reis dos contos de fadas que às vezes pegava vislumbre quando ficava de babá de Cream quando sua mãe, Sra Vanilla não podia ficar com a garota e lhe pedia para olhá-la, era de uma cor acinzentada, como prata, onde tinha detalhes em dourados assim ao da mulher. Sua coroa era dourada, porém tinha um formato estranho comparado com a da mulher, tinha a semelhança de uma folha de bordo com desenhos feitos com pequenas pedras que ele tinha certeza que eram diamantes, se fixando entre as orelhas por um pequeno suporte tão fino que ele não conseguia notar vendo daquela distância.

Então ele olhou para si mesmo e quase deu um pulo.

Seus braços estavam cobertos por uma manga de um terno branco semelhante ao que o ouriço desconhecido, que cogitou ser uma espécie de rei, assim como a mulher, sua esposa ser uma rainha. Ele mesmo não estava diferente das figuras à sua frente, estava trajado com roupas finas e leves, feitas para serem usadas casualmente, podia sentir em sua cabeça o peso estranho de um adorno de metal.

Ouviu o som de aproximação, quando mais duas figuras desconhecidas se juntaram ao cenário, como se aquela fosse uma cena normal, tudo acontecia naturalmente, como se fosse mais um dia como qualquer outro.

A garota tinha um andar suave, quando o vestido rosa claro balançava com o seu andar, o som de seus passos denunciava claramente que usava saltos. Seus olhos eram de um verde que lembrava florestas, sua pelagem era purpura, embora seus espinhos da cabeça tivessem uma coloração mais clara, como se descoloridos, onde atrás eram semelhantes aos seus, enquanto se diferenciava por estarem moldados como uma franja cheia. Usava luvas de seda roxas e um pingente em formato de teclado que parecia deslocado levando em consideração todo o seu traje.

Já o seu acompanhante era um ouriço verde que tinha um ar de rebelde, que ele percebeu pela forma como ele se trajava, camisa de botão com uma jaqueta preta por cima, luvas prestas de dedos nus e braceletes de couro com espinhos de prata. Seus espinhos eram uma desordem embora atrás ele soubesse que também fosse no mesmo estilo que a da garota. Ele parecia como um integrante de bandas de rock que ele ouvia de vez enquanto, um pingente muito parecido com o da garota estava em seu pescoço, porém se assemelhava a uma miniatura de uma bateria.

Seus olhos castanhos cor de terra observava a mesa à sua frente com animação e ansiedade, como se estivesse com muita fome, logo ambos se sentaram.

Passou por sua cadeira, lhe cumprimentando com um tapa das costas enquanto a garota apenas lhe acenou educadamente.

Apesar do cheiro de comida e da mesa farta, não sentia fome, pelo contrário, sentia náusea ao ponto não suportar estar ali sentado em meio a tantos cheiros, sua cabeça estava um pouco dolorida e sentia sono.

Ninguém falou nada, apenas o observaram atentamente, como se esperassem que e ele dissesse ou fizesse alguma coisa.

— Erm... Olá? — Tentou dizer, na tentativa de amenizar o clima estranho, o silencio que era assustador quanto constrangedor.

Os olhares de todos se tornaram de asco, nojo. Até mesmo o ouriço que estava com a expressão relaxada, lhe olhava com reprovação.

Sua mão se mexeu em um movimento rápido e preciso, jogando algo na direção dele. Por reflexo pegou e curiosamente olhou, congelando ao perceber o que era.

Um teste de gravidez com resultado positivo branco.

— Que vergonha. — Balançou a cabeça com tamanha reprovação e tampando o rosto como se estivesse com extremamente decepcionado e envergonhado.

— Uma desonra! — Disse a ouriça de cabelo rosa, lhe jogando pela mesa outro teste, dessa vez rosa claro.

— Aberração! — Gritou o ouriço verde, lhe jogando com força o último teste.

Olhou desesperado para a mulher que até então não tinha se manifestado e nem falado nada, travou seus olhos nos dela, tão iguais aos seus.

— Me... Ajuda... — Implorou, seus olhos estavam ardendo, lágrimas se acumulavam ao redor de seus olhos, mas a mulher continuava com a mesma expressão, até que ela desaparecia lentamente

Os outros também seguiam seu exemplo, enquanto a atmosfera da sala se tornava fria, uma nevoa se arrastava como veneno e todo o ambiente parecia girar e mudar, não estava mais sentado em uma mesa rica, mas jogado de qualquer forma em cima de cacos de vidros que ele desconhecia de onde tinha, em uma sala fechada, com cheiro de mofo e poeira incomodando seu nariz, via vagamente a silhueta de tubos enormes, como os que já tinha visto antes quando estava à bordo da A.R.K.

Levantou com presa, sentindo a dor os cacos que tinham penetrado sua perna, rasgando a carne e lhe fazendo sentir dor a cada contração muscular.

Deu seu melhor para ignorar a dor e correu, pegando um corredor estreito e subindo uma escada de madeira tão velha que já estava toda devorada por cupins, não olhou para trás, não queria ver nada do que estava ali.

Secou suas lágrimas e andou, o sol parecia quente sobre sua pele, um vento fresco passeava entre as árvores e quando deu por si, estava diante de uma clareira, onde uma figura curiosamente estava.

— Shadow? — Chamou, sua voz embargada carregada de esperanças.

Entretanto o ouriço negro não reagiu, era como se não o estivesse escutando. Gritou mais alto, uma, duas vezes.

No final, ele também desaparecia, enquanto Sonic corria e gritava para ele não ir.

.

Ergueu-se da cama em um rompante, seus olhos estavam abertos amplamente, mas mesmo assim a iluminação era fraca o suficiente para que de início não conseguisse enxergar absolutamente nada.

Sabia que estava deitado em uma cama, coberto por um lençol fino e sentia calor. Suava e sua respiração vinha em arfares fortes, a sensação que tinha era que tinha recebido um susto grande, sentia em seus ouvidos a pulsação descompassada de seu coração.

Fechou os olhos, tentando se acalmar, quando em um movimento inconsciente sentiu um fisgão no braço, olhou para ele com confusão. Pela fraca luz que vinha de algum lugar que ainda não deu atenção, pode ver o vislumbre de um fio aparentemente mais grosso que o normal e parecia quase transparente, demorou algum tempo até que percebesse estava conectado a um IV, o cateter firmemente seguro enquanto a agulha prateada brilhava fracamente onde não era oculta por um pedaço de fita branca.

Olhava aquilo com a testa franzida, em confusão. Seu pesadelo momentaneamente esquecido enquanto se questionava o que diabos estava acontecendo, de forma que, levou seus dedos até a ponta, com a intenção de tirá-lo quando uma voz soou pelo recinto, tão dura e seca que fez seu sangue gelar.

— Eu não faria isso se fosse você. — A voz era baixa, porém o ambiente estava tão silencioso que aquelas palavras pareciam altas o bastante para lhe fazer dar um leve salto, lembrou-se então da morcega, toda informação que tinha ouvido antes da sua mente não conseguir mais aguentar.

Estremeceu. E então direcionou seu olhar para a direção da voz, onde só podia discernir a figura negra e o formato de asas. Estava iluminada pela luz fraca de algum dispositivo eletrônico, que ele suspeitava que pudesse ter algum computador portátil como os de Tails.

— Você aparentemente não comeu ou bebeu nada nesse espaço de tempo, tomei providencias para que não desidratasse. — Disse como se soubesse o que o ouriço estava se perguntando. — Não se preocupe, só tem soro, nada mais.

Assentiu, embora soubesse que ela não estava vendo o movimento, não tinha muito o que dizer.

Se encostou nos travesseiros meio a contragosto, não estava animado para ficar na cama, sem mencionar que a sensação de ainda ter o gosto de vômito em sua língua lhe deixava desconfortável, sua cabeça estava pesada, então o travesseiro parecia ser a melhor opção, mesmo que ele odiasse ficar parado por tanto tempo quanto estava.

— Se precisar, o banheiro é naquela porta. — Apontou com a mão direita para a porta que estava direcionada para o lado, então ele deduziu que a que estava localizada do lado onde a morcega estava era a que ela entrou. — Tem uma escova de dentes nova e toalhas limpas caso tenha vontade de tomar banho. — Concluiu com um sorriso que o ouriço não podia ver.

Sua cabeça dava voltas, mas de certa forma, mas se sentia tão confuso quando estava no início, algo como uma aceitação de sua situação atual. Mas não podia controlar seus pensamentos, que sempre retornavam para a mesma questão:

— Então... Não tem volta... — Murmurou consigo mesmo, sua voz soando fraca, enquanto estava cada vez mais consciente de que, por mais impossível que a possibilidade era irreal, estava mesmo acontecendo.

— Você pode optar por um aborto. — Sugeriu a morcega, sua voz soando baixa e sem emoção, embora ele esteja acostumado a situações assim por conviver muitas vezes na presença de Shadow, ainda assim aquilo lhe incomodava um pouco.

— Não... — Sua voz soou tranquila, levemente sonhadora. — Não posso fazer isso.

— Entenda-me ouriço, é mais válido que não chegue a nascer ao invés de ser abandonado pelos próprios pais. Lido com casos assim quase sempre. Casos de gravidez oriunda de estupro, muitas vezes a mãe não consegue nem olhar para o próprio filho, abandonando a criança de qualquer maneira. — Apesar do assunto sério, sua voz soava ainda sem nenhum tipo de entonação, apenas o som baixo de uma voz feminina. — Você não estaria sendo um monstro. E não me interprete mal por pensar assim. — Se adiantou para se explicar, mesmo sem nem tirar os olhos do monitor, Sonic apenas a encarava surpreso e boquiaberto. — Eu trabalho com vários assuntos, temas, vidas. Eu tenho que ser fria, imparcial. Senão não consigo fazer meu trabalho. Compreende?

— A-Acho que sim... — Respondeu quando pensou ter se recuperado do choque.

— Não é tão fácil quanto parece, às vezes tenho que ser contra meus próprios princípios. Eu sou a favor da vida sim, mas não posso obrigar alguém a algo que ela não é capaz de fazer. — Inesperadamente para ela, ouviu um soluço, ela não precisava olhar para saber de onde estava vindo. — Todos têm seus próprios limites, somente tenha em mente que não pode forçar os seus.

— Eu não posso... Porque... Porque mesmo que eu não tenha desejado e muito menos imaginado... — Sua voz era embargada, Mary não pareceu preocupada com a crise de choro, mas estava atenta caso algo mais chegasse a acontecer. — Eu não quero... Porque eu tenho um carinho... — Sua mão esquerda tocou sua barriga, acariciando lentamente, sentindo pela primeira vez como ela parecia estar dura, parecia que era só naquele momento que ele realmente perceber um pequeno detalhe. Uma leve inclinação, como se estivesse com a barriga estufada. O quanto ele poderia ser ignorante com seu próprio corpo para não ter notado algo assim? — Eu sinto que com o tempo, vou amar meu filho... Meu e dele... — Disse com um pequeno sorriso enfeitando sua face, enquanto as lágrimas escorriam por suas bochechas.

— Seu e de Shadow, não é? — Perguntou calmamente, mesmo que ela já soubesse a resposta.

— Como...? — Sua pergunta não foi concluída pela sua surpresa com a pergunta.

— Você estava gritando esse nome durante seu, uh, pesadelo. — Explicou calmamente. — Era só somar as pistas.

— Oh...

— Então, ouriço. Você tem certeza que deseja continuar com a gravidez e assumir os riscos? — Sua voz tomou um tom sério e profissional.

— Sim... — Sua voz pareceu levemente insegura, pigarreou tentando limpar a garganta e repetiu com a voz mais firme. — Sim, eu assumo os riscos pelo meu filho.

— Então nesse caso... — Se levantou da cadeira, andando lentamente em direção a cama, olhou para o ouriço com um mínimo sorriso no rosto, seus olhos castanhos eram acolhedores. Sua mão direta repousou sobre a mão que estava tocando sua barriga, em uma tentativa de passar segurança. — Permita-me ajuda-lo.

— Eu preciso avisar Rouge... Eu saí tão... Confuso, não sabia o que estava fazendo, ela deve estar preocupada. — Murmurou, levemente nervoso.

Pensar em Rouge que trouxe novamente o sentimento de culpa por ter agido tão precipitadamente, justamente com Rouge, que mesmo que tivesse a satisfação de provoca-lo a ponto dele perder a cabeça, ainda assim ele considerava como uma das pessoas que ele classificaria como uma boa amizade.

E admitia para si mesmo que gostava do jeito errado da morcega, como uma irmã mais velha que adora sacanear o mais novo.

— Isso não é um problema. — Afirmou calmamente. Tirou a mão da sua e voltou a mesa, voltando com um pequeno aparelho celular. Discou um número rapidamente que ele não podia saber qual pelo fato de estar deitado. — Sarah? — Ouviu a resposta do outro lado da linha. — É Mary, tenho um pedido a fazer.

A resposta não demorou muito, mas Sonic parecia estranhamente ansioso ao ouvir aquele nome.

— Não é muito difícil. Peça que Rouge the Bat venha ao meu apartamento, você sabe qual é, apenas anote. Até mais ver. — E desligou, não dando a chance de resposta para a garota da recepção.

Sonic nunca sentiu tanta tensão quanto naquele momento.

Notas finais
Caso houver erros gramaticais ou de digitação, peço que por gentileza me avisem. Comentem caso sintam vontade, gosto de saber sobre a reação de vocês. Até uma próxima. by: Shadow Shirami