Bittersweet.
21 21. Não tem a necessidade de se envolver com algo que ainda não lhe envolve.
Notas iniciais
— Tem certeza? — Ouviu a voz soar em dúvida pelo comunicador da morcega.
Ele admitia que levaria algum tempo para se acostumar com uma voz que não a do velho comandante ranzinza que sempre lhe provocar chamando-o de incapaz indiretamente várias vezes.
Mas por mais que a sua primeira impressão para o novo líder tivesse sido no mínimo considerada horrível, ainda tinha muito o que mostrar para quem é que estivesse agora no comando.
— Não há dúvidas. — Disse a voz da morcega de uma forma totalmente segura. — Eu já tinha estudado todos os documentos, descrições, pinturas, porém há detalhes que não constavam nos escritos.
— Explique-se. — Foi o pedido direto e curto do mais novo comandante que Shadow desconhecia o rosto e suas intenções, não sabia se poderia confiar naquele homem, muito menos nos que ali estavam lhe rodeando.
— É uma longa e demorada história, Comandante. — Lhe respondeu, embora Shadow tivesse notado um tom de provocação naquelas palavras. — Em resumo, de alguma maneira a rainha e seus filhos estavam no subsolo o tempo todo, me questiono até onde os boatos eram apenas boatos. — Começou a divagar em seus próprios pensamentos, enquanto algo em sua sentença, parece ter atraído a atenção do comandante.
— Filhos? — Perguntou com tom de surpresa.
— Ah, como lhe disse, é uma história demorada e ainda incompleta. — Respondeu calmamente. — Mas de alguma forma é intrigante...
— Algum sinal dele? — Perguntou com curiosidade.
Shadow viu a morcega franzir o rosto.
— Apesar de parecer ser algo vindo dele, não tenho nenhumas provas concretas de que ele é o responsável. Parece que seus rastros simplesmente desapareceram... — Disse com a expressão beirando frustração.
— Mantenha-me informado caso aconteça algo. — Desligou antes que desse a chance da morcega responder, ela apenas suspirou, não dando muita importância ao que aconteceu.
Olhou ao redor com olhos analíticos, como se pudesse perder inúmeros detalhes se não permanecesse a esquadrinhar a sala.
Aos olhos de Shadow, a postura da morcega mudou drasticamente para uma tensa. Seus olhos castanhos inquietos olhavam para todos os locais como se esperasse que alguém de repente surgisse de supetão em sua frente. Era como se ela desconfiasse de tudo e todos, como se fosse uma predadora em busca de uma presa.
De alguma forma, aquela ação lhe incentivou a fazer o mesmo.
Depois que o choque inicial tinha enfim passado, ele pode finalmente prestar atenção ao que estava ao seu redor com mais detalhes.
Era uma sala bem escura, forrada com metal em sua maior parte, tinha duas mesas de metal grandes o suficiente para conter um corpo mobian como o seu, em alguns pontos o piso estava sujo com uma grossa crosta marrom, algo que ele julgava ser a mistura de sangue e poeira sedimentada depois de tantos anos em um lugar fechado e abandonado como aquele laboratório. Algo como uma intuição lhe dizia que aquele lugar não deveria estar ali e realmente duvidava que os responsáveis pelo castelo conheciam a existência daquele lugar, parecia algo perigoso, como os dejetos químicos que escorriam pelos escombros de Prision Island depois da explosão feita por Dr. Eggman.
De alguma forma aquele lugar lhe lembrava vagamente algum dos laboratórios antigos da A.R.K, mesmo que esse lugar não fosse tão higienizado como os de seu antigo lar, uma onda de nostalgia estranha percorreu seu corpo, como se aquele ambiente não fosse tão estranho quanto poderia ser.
Viu de relance a morcega rodeando os tubos transparentes de vidro, murmurando palavras tão baixas que chegavam a ser inaudíveis, os dedos com unhas grandes tocavam a superfície transparente, como se tocasse nos corpos inertes.
— Ainda estão vivos. — Murmurou baixo consigo mesmo, vendo que minimamente os peitos de ambos os três desciam e subiam, evitou manter seu olhar sobre o busto das fêmeas, como se desconfortável com a situação em que estava e se fixou no ouriço que estava no meio, de alguma forma, o modo como os espinhos das costas se postavam lhe parecia familiar de uma forma que acabou o incomodando.
— Sim. — Respondeu a morcega distraída. — Mas a questão não é se estão vivos, mas como estão vivos e o porquê. — Disse de forma direta, olhando ainda para os ouriços.
Seus olhos castanhos esquadrinhavam a sala, olhando para os fios que desprendiam e corriam como serpentes pelo piso, ignorou o tubo quebrado, como se não tivesse importância, pelo menos não ainda para nenhum dos presentes.
— Espalhem-se, caso encontrarem algo relevante me informem antes de qualquer decisão. Não toquem em nada. Eu disse em absolutamente nada. — Ordenou altiva, olhando com seus olhos sérios os overlanders que os acompanhavam, como se há pouco tivesse dado conta que de tinha companhia e não estava feliz com isso.
— Agente Shadow, acompanha-me? — Foi um pedido educado, porém parecia que ela realmente não estava se importando se seria acompanhada ou não, como se não esperasse condescendência nenhuma vinda do ouriço.
Virou as costas para os homens presentes, andando com cautela e seguindo os cabos que alimentavam os tubos, Shadow entendeu a proposta, mesmo que ela não fosse de muitas palavras ou nem mesmo nenhum pouco explicativa, percebia que ela era apenas focada em seu trabalho e fazia o possível para completa-lo, assim como ele mesmo fazia.
De uma forma estranha, via na morcega algo que lhe intrigava, como de alguma forma muito estranha, conseguisse entender o que ela pensava, como se já se conhecessem ou compartilhavam de mesma situação. Era no mínimo estranho para dizer a verdade.
Suspirou e a seguiu, não tinha nenhuma intenção de se ver envolto de uma espécie que detestava, sabendo muito bem que os sentimentos eram mútuos. O corredor para onde ambos se dirigiam era bem semelhante ao aquele da entrada que os trouxe ali, porém tinha cabos enormes isolados amontoados em um canto, presos fortemente entre a parede e o chão, apesar de claramente denunciarem sinais de bastante uso e desgaste, eram cabos de cor unicamente cinzas, amarrados com cabos de aço fortemente reforçados, como se o dono tivesse receio que acabassem quebrados ou soltos.
Olhava para aquilo com a testa franzida, lembrando vagamente de um ouriço mais jovem em companhia de uma garotinha overlander loira de vestido azul e olhos tão azuis quanto brincando entre cabos de aparência semelhante, sendo logo repreendidos por um dos cientistas do laboratório, era overlander de expressão carrancuda, de nariz enorme e pontudo com uma cabeça careca, exceto claro, pelos poucos cabelos negros ralos que ainda tinha, que eram cuidados com extremo zelo.
Teve uma sensação estranha, como se ainda fosse aquele mesmo ouriço e esperasse ser repreendido por aquele mesmo homem. Balançou a cabeça bruscamente, talvez o tempo de isolação, cansaço e fome o havia deixado paranoico.
Olhava para a morcega com a mesma cautela que ela usava para andar pelo lugar desconhecido, mesmo sendo uma funcionária da mesma organização que a sua, mesmo que ainda tivessem muitas semelhanças, sentia que de alguma forma não deveria confiar nela.
— Estás certo. — Disse ela tão calmamente que ele se sobressaltou, seus olhos se estreitaram, era como se... — Não, eu não leio mentes, ouriço.
Shadow ouviu seu grunhido irritado antes mesmo que pudesse controlar.
— Estás certo em não confiar em mim. Assim como não se deve confiar em muitos aqui. Esses overlanders que me acompanham não confiam em mim assim como eu não os confio. A única razão para me respeitarem e não desobedecerem meus comandos é unicamente o medo, medo do que pode lhes acontecer acaso desacatassem uma ordem direta de um superior. — Completou no mesmo tom baixo.
— Quem é “ele"? — Jogou a pergunta sem rodeios, simplesmente porque sentiu vontade de perguntar.
— Ah, ouriço... — Suspirou a morcega dramaticamente. — Essa não é uma pergunta para ser respondida por agora, não tem a necessidade de se envolver em algo que ainda não lhe envolve.
— O que quer dizer com “ainda não me envolve”? — Perguntou com irritação, todo aquele tempo isolado aquele lugar hostil com um arsenal móvel estava tomando pedágio sobre seu corpo e fazendo-o parecer irritadiço e cada vez mais impaciente.
— Aqui estamos. — Disse calmamente a morcega ignorando a pergunta de Shadow e parando defronte a uma porta enorme de metal, que ela suspeitava de que fosse também reforçada, podia já ouvir o zumbido de máquinas atualmente consideradas como velhas e ultrapassadas, mas que por alguma razão desconhecida a ela, ainda estavam em pleno funcionamento.
— Consegues sentir algum tipo de energia? — Perguntou ignorando a pergunta do ouriço como se não se importasse ou simplesmente fosse desnecessário responder.
Shadow torceu a expressão com a mudança brusca de assunto, porém não questionou nada, ela ainda era uma estranha e por mais incrível que lhe parecesse, ela era uma estranha que parecia saber demais. Essa sensação de encontrar alguém tão meticulosamente analítico com a si mesmo lhe deixava de forma às vezes sem reação rápida.
Fechou os olhos com força, usando toda sua concentração e ignorando qualquer som ou ruído, felizmente para ele, Mary permaneceu quieta, não fazendo qualquer som que poderia lhe tirar o foco, foi quando sentiu.
Era como um brilho fraco em meio a escuridão, oculto e selado, porém ele podia sentir a energia lhe chamando, como se lhe implorasse para ser tocada, um poder grandioso que estava preso e desejava libertação.
Era como o poder de uma Chaos Emerald.
— O que? — Sua voz saiu surpresa, como se recebesse um ataque direto que não esperava, seus olhos se abriram em surpresa e choque.
— Qual o problema, ouriço? — Perguntou alarmada, seus olhos automaticamente girando para todos os lugares.
— Esse poder... É fraco, mas é inconfundível... — Murmurou com um misto de surpresa e saudação.
— Você quer dizer— fora interrompida pela voz de Shadow.
— Uma Chaos Emerald? Sim. — Sua voz detinha um tom sonhador, como se aquele poder o chamasse e implorasse para ser usado.
— Isso não é possível, esse laboratório foi abandonado tem anos... — Ela se interrompeu em meio a sua frase quando algo passou por sua mente, fazendo seus olhos castanhos se ampliarem. — Não pode ser...
— O que é? — Perguntou distraído, apesar de aparentemente não estar se importando com a resposta vinda dela, foi como uma reação inconsciente ocasionada de seu costume das missões com Rouge como acompanhante.
— A pista que eu precisava. — Respondeu vagamente, seus dedos roçaram seu comunicador com urgência, embora aparentassem estarem trêmulos.
A resposta demorou pouco tempo, enquanto ouvira novamente a voz do comandante soar pelo comunicador.
— Presumo que seja uma atualização. — O tom de sua voz aparentava estar curioso, já que não havia muito tempo em que haviam trocado informações.
— É muito mais do que isso... — A voz dela era baixa e levemente rouca. — Pedi para que o agente Shadow tentasse sentir qualquer tipo de energia e ele encontrou. A joia negra, Tower... — Ela parecia tão chocada que até mesmo não se deu conta que não lhe direcionou a palavra como comandante.
— Quer dizer que... Quem sequestrou a família real tinha alguma ligação com o roubo? — Perguntou mais sério. Shadow o imaginava arrumando a postura para uma mais ereta quanto descansava o queixo sobre uma das mãos, embora seu rosto fosse de um total desconhecido, a imagem indesejável de Abrahan veio a sua mente.
Shadow franziu a testa para aquela conversa, sentia como se fosse um garoto bisbilhando a conversa dos adultos e pegando apenas fragmentos que não se interligavam, pelo menos não para si, não estava entendendo nada do que estavam falando e de alguma forma a exclusão estava lhe incomodando de uma forma que lhe irritava. O que diabos era 'essa joia negra'? De que roubo eles estavam falando? Isso relacionado com o poder semelhante a uma Chaos Emerald que sentia vindo do outro lado aquelas portas que lhe parecia tão atraente?
Balançou a cabeça tentando manter a concentração e dar atenção para a conversa.
— ...bor, estava certa em partes, mas ainda não entendo o que poderia ter tramado em um lugar como esse. — Quando resolveu dar atenção a conversa, apenas pegou parte dela, apesar de sua tentativa de ignorar a atração de energia caótica, aquele poder parecia cada vez mais atraente agora que ele se deu conta de sua existência, como uma ferida que só incomoda se ficasse a encarando.
— Entende sim, muito melhor que até mesmo a mim. — Ouviu a voz soar de uma engraçada, como se estivesse sendo proferida com frustração.
— Talvez... Não tenho uma opinião formada ainda, cada vez que penso sobre isso parece não fazer sentido. — Comentou, sua postura mudando de tensa para uma levemente relaxada, embora mantivesse um olhar de aviso sobre o ouriço para que não fizesse nada. — Não sei o que aguardar vindo dessa porta, porém creio que nada bom virá se tiver relação com a joia negra.
— Estarei mandando reforços e transporte para a família real. — Disse a voz do comandante enquanto a morcega apenas assentia para si mesma. — Tome as devidas precauções. — Avisou antes de desligar.
Abaixou o pulso com a expressão de cansaço, soltando um suspiro logo em seguida, seus ombros caindo.
— Vamos voltar. — Disse simplesmente, olhando para o ouriço por cima do ombro enquanto virava as costas e recomeçava a andar de volta para a entrada do laboratório.
Shadow não se moveu com a ordem, tampouco estava dando atenção ao que a morcega falava, seus olhos que antes estavam concentrados pareciam vagos, olhando fixamente para a porta, como se pudesse ver além dela, enxergar o poder que estava por trás daquele reforço que parecia tão insignificante para ele.
Bastava apenas um Chaos Spears...
— Agente Shadow? Estás me ouvindo? — Disse mais alto e autoritária, seus olhos se estreitando em fendas. — Eu. Disse. Para. Voltarmos. — Disse lentamente se aproximando do ouriço.
Chegou ao seu lado exatamente, olhando desconfiada para a sua expressão. Pegou seu braço com força, o puxando para a direção contrária.
A reação foi imediata e absolutamente rápida, quando ela deu por si, seu pescoço estava sendo apertado por mãos enluvadas e olhos negros lhe encaravam com ódio. A parede comprimia suas asas, deixando-as em uma posição muito desconfortável e principalmente doloridas.
Viu o punho do ouriço se levantar, pouco acima de sua cabeça, preparado para desferir um soco.
— General, nós...
A voz parou enquanto seu interlocutor se interrompia, pegava sua arma e apontava para o ouriço.
A situação havia saído do controle.
Fale com o autor