BitterSweet
6 Capítulo 6: I Don't Know Why
Notas iniciais
— Você não está nu, não é mesmo? – Perguntou Stiles, observando os olhos azul-acinzentados de Derek. Agora humano, o antes lobo deu um sorriso de lado, curto e sincero, era o como dizia ao outro que apreciava seu sarcasmo.
Era obvio que o lobo estava completamente nu. O corpo forte e pesado esmagava contra o chão de terra úmida o humano. Stiles resmungou baixo, sentindo-se muito estranho por ter um homem em cima de si, um homem pelado. Não o conhecia, só sabia que ele invadira sua casa, roubara seu amigo e que destruíra a moto dele. Mas apesar de tudo isso, Derek não lhe fizera mal.
Podia ser efeito de alguma droga, ou provavelmente estava morto e vivia já em uma realidade paralela – preferia não acreditar em nenhuma dessas opções – talvez bastasse acreditar que aquela era a realidade e que tudo estava realmente acontecendo. Havia um homem metamorfo à sua frente.
— Que coisa estranha... – Disse baixinho, enquanto sentia o outro se levantar. Os olhos fitaram rapidamente a nudez dele, a luz estava fraca, mas conseguira-o ver.
Era completamente estranho. Já vira outros caras pelados, mas por intervalos tão curtos e pessoas tão conhecidas que jamais se importara. Mas Derek era completamente diferente, era um completo estranho, um completo estranho que era um lobo! Um lobo negro e gigante. Stiles ficou observando o céu enquanto esquecia-se de como era Derek Hale nu. Reconheceu algumas constelações típicas do Norte, mas logo sua mente voltou ao membro do outro, ao formato peculiar da nudez humana. Não estava excitado. Mas apenas, intrigado do porquê de tudo.
— O que é estranho? – Perguntou a voz profunda de Derek, que novamente puxou o olhar do humano.
O olhar voltou-se para a imagem do lobo, que com as nádegas de fora vestia a calça rapidamente. O tronco ainda nu revelava fortes músculos. Músculos de homem feito, ou de quem corria de quatro pela floresta.
— Parece que estou num romance adolescente – Disse Stiles – Só falta você dizer que teve um imprint ou algo do tipo. Vou correndo escrever uma fanfic sobre nós – Brincou o rapaz, se levantando e deixando-se enaltecer pela lua minguante.
Aquela visão de Stiles... Derek o observava de forma quase aflita. A luz da lua lhe caía como uma manta, se fosse lua cheia não se aguentaria... Piscou algumas vezes e perguntou:
— O que é um imprint?
O lobo se recostou na moto, apoiando-se de lado no infeliz banco dela, quase estremeceu com o peso de Derek, mas renitente, aguentou. Stiles começou a rir.
— Sério que nunca viu crepúsculo? Sabe, o filme com vampiros, e lobos...
— Vampiros não existem – Disse Derek, abanando a cabeça.
— Meu deus, você precisa ser mais pop – Falou Stiles, se aproximando de Derek e recostando-se na moto ao lado dele. O calor do corpo de Derek não era tão grande como pensava ser, mas fingia que era, e fingia encostar-se nele, para finalmente se encostar.
Derek entreabriu os lábios, fechou-os. Pele com pele. Sentia o roçar daquela pele alva e cheia de pequenas pintinhas. Engoliu em seco, tinha que se distrair.
— Mas o que diabos é esse negócio de imprint?
— Besteira.
— Fala.
— É um negócio, em que um lobo, no caso do filme, tem um amor a primeira vista por uma pessoa.
— Nós temos algo assim – Contou Derek – Mas é diferente. É mais do que amor. É um elo eterno e descomunal entre um Alpha e um Beta. É quando duas pessoas vão ficar para sempre juntas, e lutar juntas, vão caçar juntas...
— Bem parecido com um amor... – Murmurou Stiles, olhando a paisagem distante. Sentiu o olhar de Derek sobre si e o olhou.
— Mas não é. – Disse Derek. Seco.
Stiles suspirou e virou o olhar para a paisagem.
— Fiquei com medo. Na hora que caí com sua moto. Foi burrice a minha...
— É, foi.
— Você realmente só sabe fazer sentenças curtas? – Indagou Stiles.
— É.
Stiles voltou a olhar para Derek, que lhe olhou, e trocaram olhares intensos em uma comunicação não verbal intensa. Stiles voltou a fitar a paisagem.
— Mas não entendo por quê você não me bateu ou algo do tipo – Deu de ombros, suspirando – Tudo bem que eu tinha um canivete, bem perigoso por sinal mas...
— Aquilo era um brinquedo, e você ia se cortar.
— Eu não ia me cortar...
Arregalou os olhos. Algo quente lhe tocava. A boca de Derek assustava a sua boca. Sua expressão de choque era simplesmente demais. A língua do lobo lhe invadia sem pudor e sem permissão. Pensou em mordê-lo, pensou em empurrá-lo. Pensou em pular para trás e cair ele, a moto e o lobo. Mas o pensamento apenas voltou-se à boca e ao outro e deixou-se.
Era um beijo de língua e apenas a movia lentamente na boca do lobo, incerto e desconfiado. Era estranho. Estranho demais. Nunca beijara em sua vida outro homem, nunca. Estava acostumado a ver os pais selando lábios, a assistir filmes em que beijos gay era comum. Mas, Beijar? Nunca. Sentiu Derek lhe tocar o rosto, sentiu ele finalizando o beijo e o seu olhar profundo e estranho.
— Você me beijou – Disse Stiles.
— Parece meio obvio – Respondeu Derek, olhando-o firmemente. Não estava sendo grosso, era apenas como era.
— E por que diabos você me beijou?!
— Você não calava a boca – Respondeu Derek, começando a ver a lua e se levantou do banco da moto. Foi apanhar sua camiseta.
‘Eu não calava a boca’. Pensou Stiles. Parecia um bom motivo, mas ele era inteligente o suficiente para saber que não era a verdade.
Voltou a observar a paisagem, que agora tinha Derek como protagonista e o mesmo se curvara para pegar a camiseta. Em suas costas tinha uma enorme tatuagem, ficou se perguntando o que era. Não perguntou ao outro, talvez o mistério de descobrir por si próprio fosse mais interessante.
— O que é essa tatuagem? – Ok, não se aguentou – Espero que não seja de alguma seita ou algo do tipo.
— É o símbolo da minha família.
— Mas tem algum significado?
— Têm – Respondeu Derek, nervoso de tantas perguntas.
Na cabeça de Derek não sabia o que estava fazendo. Tinha um enorme problema agora, por que diabos tinha que beijar ele? É certo que fora algo mais forte que si, era certo que fora como dar o primeiro beijo em alguém, fora uma sensação inexplicável. Ter aqueles lábios, macios e cálidos, do seu humano. Existia enfim mais coisas entre o céu e a terra do que sua vã filosofia poderia compreender algum dia. E aquele garoto era uma delas.
Derek voltou a se aproximar, Stiles se afastou quando o lobo pediu, subiu na moto e tentou dar partida. A mesma apenas fez um zumbido e... Morreu. Novamente, outra partida e algumas batidas depois. Uma leve esperança de funcionar e... Morreu.
Stiles mordeu os lábios.
— Eu acabei com ela demais, não é?
— Algo assim – Respondeu Derek, meio encabulado, apesar da queda, era para estar funcionando – Droga.
— Desculpe... – Falou Stiles, baixinho, sentindo-se estranhamente culpado.
A medida que a noite ia ficando mais intensa, o corpo ia se esfriando ainda mais.
— Você não pode virar um lobo e me carregar? – Perguntou o menor, com um sorriso divertido de imaginar.
— Se eu virar lobo de novo essa noite, vai ser para matar alguém – Derek falava sempre tão sério que Stiles não sabia se estava brincando, ou se estava nervoso.
— Eu posso te dar um beijo, ou algo assim – Stiles deu de ombros quando Derek parou de mexer em uma coisa da moto e fitou o humano longamente para em seguida voltar a mexer. – Posso te ajudar aí... eu arrumo minha moto quando quebra de vez em quando.
— Você não tem uma moto, você tem uma bicicleta com motor.
— Ei! – Stiles empurrou Derek com força, que se desequilibrou e derrubou a moto novamente – Ninguém fala mal da minha vespa!
E com a moto caída, viu o que tinha acontecido.
— Merda, amaçou o bloco do motor... – Falou, tocando a parte com um grande amassado, e por terem ‘fugido’ aquela hora, provavelmente havia forçado demais os pistões, estava acabada. – Vamos ter que ir a pé mesmo.
Stiles abanou a cabeça e ambos começaram a andar floresta a dentro, no meio da noite. O humano se aproximou do outro, tão perto que Derek sorria em um silêncio mudo e contemplativo. Pegou a mão dele e o levava lentamente pelo caminho cheio de raízes saltadas de árvores e pedras que poderia o fazer tropeçar.
— Mas... você falou desse negócio, de Alphas e Betas... O que é isso? – Questionou Stiles, enquanto andava lentamente – Eu seria tipo... Um Alpha ou algo assim?
Derek começou a rir, enquanto parou alguns segundos.
— O quê? Eu tenho certeza de que se eu fosse um lobo eu seria um Alpha! – Disse Stiles, nervoso por como o outro lhe zombava.
— Não, você não seria. Nem mesmo um Beta. Seria um ômega.
— Ótimo, vocês têm todas as letras do alfabeto grego. Pois eu vou ser o Pi.
— Combina com você, irracional – Disse Derek. E Stiles ficou ainda mais vermelho.
— Ótimo, ele sabe matemática, ao menos não é só músculos – Falou, voltando a andar enquanto sentiu o outro andar ao seu lado. Derek lhe fitava, com um sorriso a muito esquecido no rosto. Lambeu os lábios que haviam ficado secos rapidamente. Queria beijar seu humano, irracionalmente.
— Você seria meu beta – Confessou Derek, enquanto andavam mais.
— Eu seria seu Alpha – Retrucou Stiles. Obstinado em ganhar qualquer jogo mental do outro. Não que estivesse em posição de lutar, ou algo do tipo. Mas vira que algo de especial entre eles havia. Derek não lhe matara, lhe beijara. O maior rosnara baixinho. – Mas se é tão importante, eu deixo você ser o Alpha.
— Não é assim... Deixar ser o Alpha... Eu Sou. – Resmungou Derek, baixo, mas aliviado pelo outro ‘Tê-lo deixado ser o Alpha’. Seu orgulho agradecia.
Caminharam mais, o caminho parecia distante e Derek parecia querer que durasse a noite toda, mesmo sabendo que, pouco a pouco ele estaria em sua casa e teria que deixá-lo.
— Eu tive esse negócio... – Confessou o lobo, sentindo-se irresponsável por contar algo assim à ele.
— Que negócio?
— Esse negócio, desse filme que você falou.
— O quê?
Derek parou novamente. Stiles parou também e quase iria falar ‘ok, não vamos chegar nunca’, mas apenas parou.
— Eu tive meu Elo com você. Você tinha que ser o Beta que me foi prometido por nossa raça, você deveria ser um lobo, um lobo como eu, para andarmos em quatro patas juntos. Eu não sei, nunca soube disso acontecer... Alguém como eu e, alguém como você.
Falou rapidamente, queria chorar, queria gritar de raiva e perguntar o que Stiles lhe fizera, como fizera. Mas sabia que o rapaz não tinha culpa, tal como não tinha culpa também. A natureza fizera isso.
Stiles ficou em silêncio. Pensativo.
— Sabe que...
Derek colocou o indicador em seus lábios e virou o rosto, observando de um lado para o outro.
— É minha matilha – Disse Derek, começando a apressar o passo – Eles acharam minha moto, não podem nos achar!
— Mas se é sua matilha, por que simplesmente não os manda embora? – Questionou o humano, enquanto Derek apenas puxava o outro, tomando o cuidado de leva-lo pelo caminho mais seguro, e ao mesmo tempo concentrando toda a energia de seu medalhão para disfarçar seus cheiros.
— É complicado – Apenas disse Derek. – Eles não podem saber sobre você. Não ainda... eles não vão entender, confia em mim. Temos que correr, ok?
— Eu não sou o melhor corredor do mundo... – Avisou Stiles, mas logo então começou a correr ao lado de Derek.
O coração do lobo pulsava veemente. Era uma adrenalina completamente diferente de qualquer sensação que já tivera. Muito melhor do que seu primeiro contato com a natureza em forma animal, muito melhor do que qualquer sensação da carne que já tivera como humano. Estar ali, correndo com o seu humano era muito mais especial do que qualquer coisa que já sentira.
Stiles podia não ser o lobo que pedira, mas o garoto corria ao seu lado. Mesmo que de forma bípede, ele corria. E correr era libertador.
— Cuidado com as raízes... – Indagou Derek, tirando do peito o medalhão que brilhou, iluminando o caminho a frente deles. Stiles iria perguntar o que era aquilo.
Mas tinham que correr.
O único medo que Derek tinha era que sua família descobrisse, descobrisse o que estava acontecendo com o Alpha do clã. Que o Alpha do clã tinha consigo um humano como elo eterno, que o beijara, que provara da sensação única e libertadora... E provara com alguém tão errado para si.
Tinha medo não da vergonha agora, não da vergonha que lhe seria imposta, mas medo de que alguém o machucasse. Alguém fizesse mal aquele garoto que ao seu lado corria.
Corria tão freneticamente. Tão belamente.
No peito de Derek o cristal pulsava mais do que tudo, era como se toda a energia do mundo fosse explodir em seu corpo. Iria se transformar caso deixasse isso se aflorar mais ainda, iria se transformar e chamar a atenção para sua localização. Pois como lobo, não tinha como guardar o cheiro para si, como lobo, toda sua matilha lhe acharia. Não os culpava, primeiro Yan, quase fora atropelado por Stiles e depois encontraram a moto de seu Alpha daquele jeito.
Sabia que não teria outra forma, uma hora ou outra eles o encontraria.
— Stiles, Stiles, espera. – Disse Derek, parando de correr. – Eles vão me achar, vão nos achar.
— Eu... – E Derek arfava tremendamente – Nunca mais reclamo das... das aulas de Lacrosse – Respirava com tanta dificuldade que provavelmente todos lhe escutariam.
O lobo tirou do pescoço aquele objeto estranho para Stiles. Era seu primeiro cristal, ele mesmo retirara da mina da família, ele mesmo lapidara e esculpira. Acompanhara desde seus pequenos passos como um filhote até então, como um grande Alpha que era. Tinha nele toda a energia acumulada da lua e as transformações do seu portador.
— Fique com isso e não perca – Disse de forma séria, olhando para Stiles. Agora a única luz que iluminava seus rostos era a daquele objeto. Uma luz azul-esbranquiçada.
— O que diabos é isso? – Perguntou Stiles, enquanto via que Derek queria lhe colocar através da cabeça aquilo. Acabou desviando da investida do outro.
— Isso vai lhe disfarçar na floresta, nenhum outro lobo irá lhe achar... – Ignorou a pergunta de Stiles e lhe devolveu o celular. Derek o olhava profundamente e, em uma segunda investida conseguiu colocar no pescoço de seu humano.
Era estranho, nunca ficara sem aquilo e, embora conseguisse se transformar por um período sem um aquilo, era completamente estranho estar sem. Observou por alguns segundos o rosto do outro, Stiles tocava o objeto e o analisava entre os dedos.
O silêncio ia sendo interrompido por grunhidos distantes, que pareciam se aproximar. Derek sentia-se compelido a beijá-lo mais uma vez. Queria fazê-lo. E fez-lo. Beijou Stiles de forma profunda e gostosa, mas quase inocentemente. O corpo do homem-lobo encostado ao daquele humano tão peculiar. Sentia-se um filhote perto daquele humano que lhe deixava completamente sem fôlego. Sentia-se fraco, mesmo que fosse um dos lobos mais fortes. Terminaram o beijo. Stiles sentia-se cada vez mais confuso. Precisava dormir, ou acordar, não sabia se o que sentia para estar tão confuso era sono ou se estivera sonhando esse tempo todo.
— O que... Diabos é isso? – Perguntou novamente Stiles, dessa vez em um tom mais baixo e ressonante, distante, enquanto apalpava o fragmento de rocha em seus dedos, tentando obliterar o beijo de sua cabeça, mas conseguindo apenas pensar nele – Eu nunca vi isso...
— É meu coração – Respondeu Derek, poderia ter uma expressão romântica no rosto, mas a única expressão que tinha eram as sobrancelhas aduncas e o olhar penetrante, sério. – Vê se não quebra.
— Eu não tenho boa fama por ser atencioso às coisas. Vou tentar não partir seu coração.
Derek desenhou um meio sorriso nos lábios e a luz se apagou quando Stiles colocou o objeto por debaixo da camiseta. Apesar da escuridão era quase como se conseguisse vê-lo completa e perfeitamente bem. Sua presença era de tirar o fôlego.
— Vai. Pi.
Stiles foi. Levou o coração do lobo.
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