Big Lies
4 Overdose
Notas iniciais
Levantei da minha cama ainda um pouco zonza por ter dormido tão pouco na noite de ontem para hoje. Além de ter pego turno extra no pub eu tive que fechar, limpar e fazer a contagem dos lucros, ou seja, eu estava acabada. Antes de me levantar de vez eu dei uma olha no cômodo médio onde o Dc tinha me enfiado, eu não dormia em um dos quartos normais da casa e sim em um maldito quarto de empregada, mas pelo menos ali era o meu pedaço do paraíso, onde eu podia fazer o que eu quisesse, deixar tudo com a minha cara e o melhor de tudo ninguém ia me julgar ou se meter na minha vida. O meu celular tocou avisando que eu tinha que começar a me arrumar no exato momento, então eu recolhi toda a coragem de dentro do meu pequeno corpo, fui em direção ao banheiro fazer minha higiene matinal e me vestir com meus comuns jeans folgados e casaco velho com os quais já estava acostumada, afinal já faziam exatos três meses que essas eram minhas vestimentas diárias. Assim que terminei de me arrumar fui para a cozinha preparar o meu café da manhã e a gororoba vegetariana que o Dc gostava de comer. Como de costume o Dc ainda não tinha acordado quando eu acabei de fazer tudo e eu nem sei se ele iria para a faculdade hoje, já que na noite passada como quase em todas as outras ele tinha chegado caindo de bêbado e se jogado na sua suíte real. Sai deixando um bilhete onde tinha escrito onde se encontrava o seu café da manhã e o horário que eu voltava para fazer o jantar.
Cheguei na faculdade cedo como sempre, eu gostava disso, porque aquele tempo antes das aulas era o pouco tempo que eu tinha pra ficar só ou com meus amigos. Fui para a cafeteria principal com a esperança de encontrar com a Magali que graças a Deus estava lá comendo como sempre
– Heeey Mags! Como foi ontem com o Quim?
– Oi Mô – falou desanimada – Foi ruim sabe... Ele anda tão estranho
– Eu não sei como você continua com esse cara – sei que fui dura com ela, mas eu não sei como a Magali que é super legal e parece uma modelo está com um cara como esse. Ele é chato, além disso ele pode enganar qualquer pessoa, mas pra mim ele já tinha quebrado aquele pacto de castidade há muito tempo.
– Não fala assim, você sabe que não é tão simples do jeito que você fala. Eu gosto dele — falou com a voz chorosa
– Olá meninas! – o Cebola chegou antes que eu pudesse – Vocês sabem quem é aquela loira gata que está tomando um copo de café? – como sempre tentando transar com qualquer pessoa que NÃO tem um pinto, não é Cebolinha?
– É a Carmem, ela faz moda... Muito areia pro seu caminhãozinho
– Nisso eu tenho que concordar – o Cascão chegou deixando o local impregnado com seu cheiro de suor. Ele tinha acabado de chegar do treino
– Ainda não sei como você consegue acordar tão cedo pra vir treinar!
– Eu faço o que eu amo, mas já to ficando muito puto com o fato do futebol americano ter uma renda quatro vezes maior que a nossa
– Não fica assim Cas, tenho certeza que daqui a pouco a faculdade nota o quanto vocês são talentosos – falei passando a mão em seus cabelos molhados pelo suor
– Assim eu espero – soltou um de seus sorrisos brincalhões e levantou da mesa – Vou indo galera, só passei aqui pra dar um oi, ainda tenho que tomar banho
– Me espera Cas! Eu vou indo também, ainda tenho que falar com o Quim. Tchau pra vocês dois – a Magali pegou sua bolsa e nos deu as costas
– Finalmente a sós, tem uns dias que eu to querendo falar com você – o Cebola sussurrou
– Aproveita que estamos só nós dois
– Você não acha que já pode contar as coisas pra eles? Eu acho que eles entenderiam...
– Você sabe que não posso Cê, eu não quero! O que eu fiz foi meio pesado e aposto que a Maga não ia nem querer olhar na minha cara, muito menos o Cas! Então isso está fora de cogitação ok? A gente já falou sobre isso antes... Se você não falar e eu também não, eles nunca vão descobrir
– Você quem sabe, mas depois não vem dizer que eu não avisei. Vou nessa, tenho uma aula extra e já estou atraso. Se cuida dentucinha, você sabe que pode contar comigo pra tudo – ele me olhou com afeto e tocou a ponta do meu nariz
Fui pra minha sala totalmente desanimada, mas isso não era novidade... Eu nunca prestava atenção nas aulas, dormia e vegetava, mas por um grande milagre minhas notas são altas e é isso que importa. Depois de perder preciosas horas do meu dia fingindo prestar atenção no que um professor de oitenta anos explicava no quadro eu fui para o pub trabalhar e de brinde receber cantadas ridículas de gordos bêbados que se achavam o Brad Pitt. Eu nem ligava, pois sabia que assim que meu turno acabasse eu ia chegar em casa, fazer o jantar e ir para o meu quarto.
Finalmente em casa, foi o que pensei assim que cheguei a cobertura onde eu alugava um quarto. Dei uma rápida checada no lugar só pra saber se o Dc estava. Não que ele estando ou não fizesse grande diferença já que não trocávamos mais do que dez palavras por dia, mas sem ele eu podia ficar mais a vontade e ver televisão na sala. Em pensar que eu, uma das pessoas mais ricas e influentes dos EUA agora tinha que me esconder pra assistir TV se não fosse eu mesma vivendo isso não acreditaria.
P.O.V DC
A música tocava alto e eu já não sabia quantos litros de vodka eu tinha bebido e nem quantos comprimidos de LSD eu tinha tomado, mas com certeza não tinham sido poucos. Eu começava a tremer e ver coisas assustadoras, olhei para o lado procurando algum dos caras com quem eu tinha vindo, mas tudo o que eu via estava borrado, então eu apaguei.
– Tem certeza que é aqui que ele mora? – escutei uma voz masculina, mas eu ainda não tinha certeza do que via ou escutava.
– Tenho cara, ele é lá da faculdade... Deixa ele na calçada e ele que se vire! A gente já tirou ele da boate não foi? Nossa boa ação já tá feita
– Ok – senti duas pessoas me agarrarem e me colocarem na calçada, ou pelo menos eu acho que era uma calçada
Tentei me levantar, mas minhas pernas não seguiam meus comandos, parecia que eu era uma criança com um ano aprendendo a andar. Engatinhei até a entrada do que eu achava ser o prédio, mas antes que eu chegasse lá senti como se tudo que eu comi o dia todo estivesse entalado na minha garganta e vomitei. Depois de vomitar umas duas vezes eu continuei meu caminho, dessa vez conseguindo ficar de pé com um milagre e fui em direção ao elevador, apertei meu andar que era o último, sentei em posição fetal esperando eu perder a consciência a qualquer segundo. Finalmente pude escutar as portas se abrirem, sem conseguir me levantar eu fui engatinhando até a entrada e para minha sorte a porta estava aberta. Tentei me arrastar até o meu quarto, mas o máximo que consegui fazer foi derrubar algumas coisas no caminho e então eu deitei no chão da sala ainda acordado, mas sem conseguir me mexer e vendo coisas estranhas.
P.O.V MÔNICA
Acordei no meio da noite assustada com algum barulho que vinha da sala, mas não dei muita importância, devia ser só o Dc chegando bêbado de outra farra sem conseguir se equilibrar nas próximas pernas. Voltei a dormir, mas o barulho continuou. Me levantei da cama com um ódio fora do comum... Eu nunca me importava com o que o Dc fazia, mas chegar no meio da noite fazendo barulho e sem deixar alguém dormir é abusar da minha paciência e não queiram ver uma Mônica com sono e sem paciência, porque provavelmente você não vai sair vivo dessa experiência. Cheguei a sala
– PORR... – não pude continuar o que eu falava, a imagem que eu vi era deplorável.
O Dc engasgava em seu próprio vômito, se eu tivesse demorado um minuto a mais ele teria morrido sufocado. A primeira coisa que eu fiz foi virá-lo de lado para que ele parasse de se engasgar com o que saia de sua boca. Eu não sabia o que ele estava acontecendo com ele, mas tudo indicava que era uma overdose. Suas pupilas estavam dilatadas, ele apontava pro teto insistentemente como se estivesse vendo algo lá, o que era sinal de alucinação, sua pele transpirava demais e o vômito que saia da sua boca só me fazia ter mais certeza da minha teoria.
– DC! O QUE VOCÊ INGERIU, EU PRECISO SABER! – gritei com ele pra ver se o despertava, mas apesar de consciente ele parecia não me escutar
Eu não sabia nada sobre primeiro socorros, mas lembro que uma vez na aula de biologia do primeiro ano a professora falou o que fazer caso alguém sofresse de overdose, dei graças a deus que tinha prestado atenção no que ela explicou aquele dia. Pelo que eu me lembro a primeira coisa a fazer era chamar o socorro, então eu liguei pro hospital mais próximo e pedi uma ambulância. Depois disso o certo era virar a vítima de lado para que não engasgasse com o vômito (isso eu já tinha feito), além dessas coisas eu tinha que perguntar o que a pessoa tinha ingerido e coletar uma amostra do vômito. Como não ia adiantar falar com ele, porque eu duvido muito que ele lembrasse até mesmo do próprio nome, eu simplesmente peguei uma pequena vasilha na cozinha e recolhi o vômito (é, eu sei... nojento). Em menos de dez minutos a ambulância chegou e os paramédicos subiram, depois que eu disse ao porteiro pelo interfone que eles podiam. Olhei eles colocarem o Dc na maca enquanto ele me fitava sem expressão depois disso os olhos dele se fecharam e eu fui com ele para o hospital.
P.O.V DC
Acordei atordoado, olhei pros lados e vi que me encontrava em um quarto branco, senti uma dor no meu pulso e quando o levantei vi o soro entrando em minha pele. Merda! O que eu tinha feito noite passada? A última coisa que eu me lembrava era de ter perdido os sentidos na boate, depois disso o que aconteceu pra mim era uma folha em branco.
– Olá, finalmente você acordou – um cara que aparentava ter uns cinquenta anos veio falar comigo
– Onde estou? – perguntei só pra ter certeza que me encontrava em um hospital
– Você teve uma overdose ocasionada por ingerir dez comprimidos para dor de cabeça com vodka – ele piscou pra mim. Gay?
– Como?
– Pelo menos foi isso que sua namorada disse
– NAMORADA? – será que eu tinha me casado na noite anterior e não me lembrava?
– Sim, ela passou a noite toda aqui e se recusou a ir embora mesmo quando eu disse que podia. Você deve estar ansioso para vê-la, vou lá chamar
– Estou sim, obrigado – esperei longos dez minutos até que alguém entrou no quarto
– AMOOOOOOOOOOOOOOOOOOR! – MÔNICA? QUE MERDA A MÔNICA TÁ FAZENDO AQUI? – Você quase me matou sabia? Quantas vezes eu disse pra você não ficar misturando remédios com álcool? Você quer se matar antes do nosso casamento?
– Meu bem, me desculpa! Eu não sei o que deu em mim – seja lá o que ela esteja fazendo eu vou entrar no jogo dela – Vem cá me dar um beijinho vem!
– Calma amor, você ainda tá mal, precisa descansar — ela me lançou um olhar assassino e eu me encolhi na cama
– Vocês devem estar querendo conversar não é? Mauricio, você recebe alta ainda hoje, só precisa ficar um tempo em observação – o doutor saiu fechando a porta
– Agora você pode me explicar que história é essa de fingir ser minha namorada?
– E você pode me explicar que história é essa de beijinho?
– Foi mal... Me envolvi demais com o papel – sorri e ela revirou os olhos – Então, vai me dizer ou não?
– Você apareceu ontem no apartamento de madruga tento uma overdose, eu fiz os primeiros socorros e chamei a ambulância...
– Aonde a história da namorada entra nisso?
– Os paramédicos me disseram que eu só podia ir com você na ambulância se fosse parente, então eu tive que inventar que era sua namorada e eles me deixaram seguir com você. A mesma coisa pro médico, ele veio me perguntar se eu sabia o que você tinha ingerido...
– Ai você inventou a história dos analgésicos com vodka?
– Isso...
– E ele não fez nenhum exame?
– N-n-n-ão – resolvi ignorar o fato dela ter gaguejado e aceitar a história – Quanto a sua família, eu não sabia se era pra avisar, então...
– MINHA FAMÍLIA? VOCÊ NÃO ABRIU A SUA MALDITA BOCA PRA AVISAR NADA A NINGUÉM NÃO É?
– HEEEEY CALMA! Você pode me deixar terminar? Eu não sabia se era pra avisar, então eu acabei não ligando pra ninguém. Só quem sabe que você tá aqui sou eu. Mesmo se eu quisesse avisar eu nem te conheço direito. Nem sei o número de algum parente seu
– Ok, mas essa história de namorada ainda não me desceu... Ainda acho que você só expôs um desejo do seu interior – falei lançando um sorriso malicioso
– Vai se ferrar! – levantou seu dedo do meio pra mim – Acho que você já está muito bem
– AI AI AI AI TÁ DOENDO! – usei todo meu talento como ator para fingir que estava com dor, não me perguntem o porquê, mas eu queria ela perto de mim
– O QUE? AONDE? VOU CHAMAR O MÉDICO!!
– Não precisa... É só você ficar aqui
– Ok Mauricio, eu fico! Agora para de drama – sorri em agradecimento
– Já disse que odeio que me chamem de Mauricio! Me chama de Do Contra ou Dc
– Mas eu não tenho intimidade pra te chamar assim!
– Você divide o apartamento comigo e passou a noite abusando de mim nesse hospital, então você tem mais intimidade comigo do que muito gente
– ABUSANDO DE VOCÊ? ME POUPE!
– Não te poupo de nada, comigo é trabalho completo!
– Dc para! Ou você vai ter que ficar mais alguns dias nesse hospital
– Uuuui, ela é raivosa! Tô só brincando ok? Não se esqueça que eu mesmo combinei que não vou te levar pra cama
– Esse foi o maior favor que você me fez, bonitinho!
– Posso te fazer outros favores se vocês quiser
– Dc, pode ficar ai falando sozinho... Vou lá pra fora, qualquer coisa é só gritar que nem uma garotinha que eu venho correndo — piscou para mim com um olho só e saiu pela porta. Qual era o problema dessa garota... Ou melhor, qual era o meu quando eu conversava com ela?
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