Big Lies
5 Jantar
Notas iniciais
Como é possível alguém conseguir suportar o Dc? Aquele dia no hospital foi quase uma tortura, ele não parava com aquelas brincadeirinhas sem graça e cantadinhas de pedreiro, tudo bem que ele é o maior gato e isso eu não posso negar, mas se ele acha que pode falar qualquer besteira e vai conseguir ficar com qualquer garota ele está totalmente certo... QUER DIZER, ERRADO! ISSO MESMO, ERRADO! Acho bom eu parar de pensar nesse idiota, porque agora que ele já está bem a gente pode voltar aos velhos tempos nos ignorando e...
– Oi Mônica – na mesma hora meu sangue gelou, deixei a tigela que eu segurava cair e pude ver os cacos se espalharem pelo chão, droga!
– AAAAAI PORRA! QUE SUSTO!
– Desculpa, eu só vim...
– Por acaso você lê pensamentos agora? – eu e minha boca grande!
– Hã?
– Nada, nada não – eu podia não estar me vendo, mas tinha certeza que agora minhas bochechas pareciam dois tomates
– Calma... Acho que eu entendi – ele deu um sorriso malicioso, desgraçado – Você tava não estava pensando em mim, por isso esse susto?
– É, isso mesmo!! – esse garoto é louco
– Ok então
– Por que você tá acordado tão cedo?
– O meu professor disse que se eu chegar atrasado mais uma vez ele me reprova na sua cadeira, então...
– O riquinho tá com medo de levar bomba?
– Não, mas eu ainda pago a faculdade e não to afim de desperdiçar meu dinheiro
– Você quis dizer dinheiro do papai não? – pude notar sua expressão mudar, mas eu não tinha falado nenhuma mentira. Tinha? O Dc não trabalhava, só comparecia na faculdade por obrigação e só fazia dormir quando estava em casa.
– De onde vem meu dinheiro não te interessa – pela primeira vez desde o inicio da conversa ele tinha tirado o sorriso cínico do rosto – Só vim aqui te oferecer uma carona, vai querer? — grosso!
– Hmm, não obrigada, mas gosto de andar
– Então tudo bem, tchau
– Tchau
O que eu tinha falado demais? Esse menino só pode ser bipolar e eu é que não vou esquentar minha cabeça com isso. Limpei a bagunça que eu tinha feito no chão e fui para a faculdade. Graças ao senhor inconveniência eu não ia ter meu tempinho antes das aulas pra conversar, mas compensaria meus amigos na hora do intervalo.
Depois de ter que aguentar várias aulas da minha professora mal comida eu finalmente teria minha meia hora livre. Fui até o refeitório principal, mas não vi sinal de alguém lá... Provavelmente eles deviam estar na área principal do campus, o que era raro, mas acontecia quando os meninos queriam conversar com outras pessoas e quando a Maga queria ficar com o Quim, então fui pra lá. Logo que cheguei vi a Maga sozinha acenando pra mim, do jeito que ela tava devia ter algo muito importante pra me falar, mas algo chamou ainda mais a minha atenção e era o fato de que Dc também estava ali, conversando com um garoto de cabelos pretos e dentes salientes. Eu nunca tinha o visto na faculdade e aquilo era meio desconcertante, com certeza se eu não o conhecesse e visse ali com o moicano desgrenhado, tatuagens nos braços, as camisas de bandas de rock e o vans sujo eu iria fazer de tudo para conseguir que ele fosse meu, mas isso seria uma atitude da antiga Mônica, a atual apenas ia olhar, babar e seguir seu caminho, o que não seria fácil com ele acenando pra mim e sorrindo. Droga! Ele não podia simplesmente me ignorar, pude notar que além do olhar dele, agora eu tinha o olhar de todas as meninas que estavam naquele lugar. Ótimo Mônica, se sua ideia era passar despercebia o Dc não está ajudando muito. Ignorei todos os olhares e seu aceno e fui na direção da Magali
– Heeeey Mags!!
– Oooi Mônica, eu tenho uma super novidade pra te contar!
– Você acabou com o Quim? Me diz que é isso, por favor!
– Claro que não muito pelo contrário, olha só... – ela começou a balançar uma de suas mãos na minha frente, eu demorei a notar, mas quando notei tenho certeza que minha cara foi de nojo misturada com espanto. O ANEL DE CASTIDADE DELA NÃO ESTAVA LÁ, ELA TINHA...
– EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ DEU PRA ELE! – eu gritei e pude notar que todos que estavam perto nos olharam
– Mônica, não precisa colocar no jornal! E não eu AINDA não dei pra ele
– Como assim?
– Vem cá! Não quero que metade desse povo escute que eu quero dar hoje pro meu namorado
– Magali... Nem pense em fazer isso!
– Qual é Mônica? Você quer ou não quer saber a história?
– Conta né
– Ontem eu tava vendo um daqueles filmes de romance bem clichês e eu percebi que se você ama alguém de verdade não precisa ficar esperando. Esse negocio de castidade nem foi ideia nossa e sim de nossos pais, mas agora já somos crescidos o suficiente para sabermos o que queremos
– Onde entra a parte que você vai dar pra ele?
– Calma... Hoje eu resolvi que vou aparecer de surpresa na casa do Quim e... O resto você já sabe né?
– Magali...
– Olá meninas, interrompo alguma coisa? – virei-me só para me certificar quem era, apesar de ter escutado aquela voz poucas vezes na minha vida pra mim ela era totalmente reconhecível
– Na realidade...
– NÃO! – a Magali me interrompeu antes que eu pudesse dizer que sim e mandar ele ir pro inferno – Eu já tinha acabado de conversar com a Mônica e estava indo embora. Tchauzinho – antes de me dar as costas ela lançou um sorriso malicioso em nossa direção e deu uma piscadinha pra mim... O QUE ELA TAVA PENSANDO? EU E O DC? NUNCA!!
– Seja lá o que você quiser eu não quero saber o que é
– Olha... – ele olhou pra baixo como se tivesse tomando coragem pra falar – Eu sei que agi como um idiota hoje cedo...
– Eu imagino que você não esteja aqui pra pedir desculpas não é? – eu o interrompi antes que ele continuasse, pois notei que todo mundo que estava ali nos olhava.
– Na verdade, eu vim te convidar pra jantar...Te pego as dez no seu quarto e não aceito não como resposta, beijo e tchau – ele saiu dando um beijo na minha testa o que fez as pessoas me olharem ainda mais, ótimo agora eu devia estar parecendo um tomate
Xx
Já eram exatamente dez horas e meia da noite, o que quer dizer que o DC está atrasado meia hora. Eu já devia ter imaginado que aquilo era alguma pegadinha dele e eu até pensei em dizer que não ia quando ele chegasse pra vir me buscar, mas provavelmente ele iria me levar em um bom restaurante e fazia muito tempo que eu não comia uma boa comida em um bom lugar e isso foi o suficiente pra me dar água na boca e me motivar a botar o meu melhor vestido e salto, ou seja, eu sou uma idiota. Olhei meu relógio mais uma vez e vi que já haviam se passado mais cinco minutos, decidi que ia tirar aquela roupa e por meu pijama para dormir, mas foi ai que escutei batidas na porta. SÓ PODIA SER UMA PESSOA... E ELE VAI ME OUVIR, SE ELE ACHA QUE PODE ME FAZER DE PALHAÇA ELE TÁ MUITO ENGANADO. Levantei da cama e fui em direção a porta
– Oi – ele falou da maneira mais comum possível e quando eu fui abrir minha boca para reclamar eu notei o quanto ele estava bonito, usava uma calça jeans escura e uma camisa preta, o all star branco sujo só fazia dar um charme a mais nele – Mônica?
– Você está atrasado – foi a única coisa que minha maldita boca me permitiu pronunciar e mesmo assim meu tom de voz saiu bastante afetado
– Não, eu cheguei exatamente na hora que devia
– Se com isso você quer dizer que mesmo morando na mesma casa que eu chegou trinca e cinco minutos atrasado...
– Você podia me dar uma trégua pelo menos hoje não é? Vamos lá... Um voto de paz temporário?
– Ok – se eu abrir minha boca para mais alguma coisa a única palavra que vai sair de lá é GOSTOSO
Pegamos o elevador e vi que ele apertou o botão da garagem, tenho que admitir que estava curiosa para ir lá. Eu não tinha carro, o que fazia com que eu nunca tivesse ido até lá antes. Assim que as portas do elevador se abriram eu fiquei de boca aberta! Tudo bem que antes de me mudar para New Haven eu já estava acostumada ao mundo do luxo, eu cresci nele, mas ver todos aqueles carros luxuosos juntos me fez ficar surpresa, não tinha nenhum carro ali que fosse popular ou chegasse perto disso, na realidade até tinha, mas era um só e aquele com certeza não era o do Dc. Observei ele tirar a chave do carro do bolso e apertar o alarme, foi quando as luzes do carro popular também acenderam, devia ser só uma coincidência... Quer dizer, o fato do Dc estar indo até lá e ter aberto a porta devia ser outra
– Você não vai entrar? – o Dc falou segurando a porta do carro
– Esse é o seu carro? – eu perguntei sem conseguir acreditar
– Sim... Algum problema?
– Nenhum – sorri
Não trocamos uma palavra durante o trajeto, o que foi melhor pra mim, afinal não queria dizer nada sobre a minha vida, mas confesso que estava bastante curiosa sobre o garoto de cabelos desarrumados que estava ao meu lado
– Chegamos! – ele falou assim que estacionou o carro. Olhei pros lados e pude notar que de um lado tinha uma lanchonete e da outra um restaurante bem elegante. Desci do carro e já me preparava para atravessar a rua quando... – Aonde você vai? Vamos jantar aqui – ele apontou pra lanchonete
– TÁ BRINCANDO? Eu me arrumei toda pra você trazer numa lanchonete? Isso só pode ser alguma pegadinha! Onde estão as câmeras escondidas?
– Não é uma pegadinha. Você tem algum problema com o lugar que vamos jantar?
– Nenhum, adoro cachorro quente! – menina humilde Mônica, menina humilde!
– Ainda bem, aqui vende o melhor cachorro quente da cidade – ele falou entrando na lanchonete e logo uma garçonete veio nos atender
– O que vão querer?
– Pra minha amiga um cachorro quente e pra mim salsicha recheada com pão
– Ok – a garota saiu, mas antes deu uma piscadinha pra ele... Vadia
– Salsicha recheada com pão, sério? – eu resolvi falar para quebrar o silêncio
– Sim, você come o pão com a salsicha dentro, mas eu como o contrário
– Ah claro... Bem sua cara
Depois da nossa breve conversa sobre pães e salsichas o silêncio novamente tomou conta do lugar, nossos pedidos chegaram e começamos a comer sem nem olhar um para o outro até que ele resolveu falar
– Conta mais sobre você... – ele falou com a boca cheia de salsicha o que me deu vontade de rir
– Não gosto muito de falar sobre mim
– Ah ok – sorriu desapontado
– Mas eu ia adorar saber mais sobre você!
– Hum... Que tal uma brincadeira?
– Como assim?
– A cada mordida que você der você pode fazer uma pergunta, mas tem que ser uma mordida pra valer
– Lá se vai minha dieta, mas ok! Começamos agora – eu dei uma super mordida no meu cachorro quente – Por que Dc?
– Eu achei que eu já tivesse te falado que Dc é abrevitatura de Do Contra
– Mas por que Do Contra?
– Outra pergunta, outra mordida – ele sorriu e eu mordi minha comida – Do Contra, porque desde pequeno eu sempre agi ao contrário de todo mundo. Por exemplo se você come o pão recheado com a salsicha, eu como a salsicha recheada com o pão. Quando eu quero dizer sim eu digo não... Agora tá bem melhor, mas quando eu era pequeno as coisas eram mais difíceis
Depois de muitos cachorros quentes, perguntas e risadas eu já estava cheia e tinha decidido que aquele seria meu último, então resolvi fazer as duas perguntas que eu mais queria desde o começo da conversa.
– Por que aquele dia no hospital você ficou tão irritado quando eu falei em ligar pra sua família?
– Eu tenho problemas com meu pai... É difícil ele gostar de mim quando o meu irmão mais velho é o menino prodígio que conseguiu seu primeiro milhão aos 15 anos e que agora é um dos mágicos mais famosos do mundo. Então eu sempre fui o filho problema, o bad boy, o que causa encrenca. Mas eu adoro minha mãe, apesar de que com minhas últimas confusões ela acabou cortando minha verba. E meu irmão sempre foi meu heroi, você vai gostar dele quando o conhecer.
– Aposto que sim – eu sorri de uma forma carinhosa
– Preparada pra sua última pergunta?
– Sim... Por que você começou a agir assim? Tipo contra todo mundo...
– Eu podia dizer a você que eu já nasci assim, mas eu estaria mentindo... Quando eu era muito novo eu não tinha muitos amigos no colégio, um dia uns garotos chegaram pra mim e disseram que se eu desse um mortal na piscina eu podia ser amigo deles. Eu fui lá e fiz isso, mas eu não tinha notado que a piscina era rasa, então eu acabei batendo minhas costas e cortando a cabeça. Eu podia ter morrido Mônica e eles sabiam disso, mesmo assim me mandaram fazer aquilo. Depois que eu sai do hospital eu decidi que eu não queria ser daquele jeito, eu queria ser diferente e foi ai que eu virei o Do Contra e quer saber... Eu consegui alguns amigos apesar desse meu jeito diferente – quando ele acabou a história eu estava paralisada, suava frio e não conseguia dizer uma palavra. Meu corpo não me obedecia e meu cérebro parou. A história dele era tão parecida com a de... – Mônica? Você tá bem?
– C-c-c-asa – foi a única coisa que saiu da minha boca
– Ok, eu vou pagar e nós vamos certo? – mexi minha cabeça concordando
A volta foi igual a ida, silenciosa e torturante, mas mesmo assim eu agradeci mentalmente o fato do Dc não ficar tentando me animar ou querer saber o que tinha me deixado daquele jeito. O caminho pareceu bem maior, mas finalmente chegamos ao apartamento, ele me ajudou a sair do carro e nós fomos até o elevador, mas assim que chegamos na porta
– MAGALI? O QUE HOUVE? – a Magali estava sentada no chão, abraçando suas pernas, diversas lágrimas escapavam por seus olhos
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