Beyond the Sea
3 Why enemys are always the pretty ones
Notas iniciais
Annabeth se encolhia dentro da capa de couro, exatamente como Grover instruíra. Ela o seguia com a cabeça permanentemente abaixada, os fiapos loiros chamativos puxados para trás e escondidos sob o capuz. Seguiram de barco – que, aliás, era apenas um pequeno barco, sem truques – até o imponente navio sem pressa. A olhadela rápida antes que Grover a puxasse do convés fora exatamente como imaginou: homens fortes e tatuados, trabalhando e gargalhando alto, provavelmente embriagados. A única coisa que não imaginou foram jovens da idade dela e até mesmo mais novos contrastando entre os mal feitores.
– Poderia dizer para ficar aqui, mas já sabemos que não vai a lugar algum. – Grover a dissera no meio do corredor mal iluminado, com apenas duas velas mostrando as paredes de madeira vermelha e o caminho estreito. As sobrancelhas de Annabeth se juntaram, e antes que ela pudesse falar algo, Grover se apressara: — Sabe que não tem lugar a mais que pode ir, não estamos te mantendo como uma prisioneira. – ele inclinou a cabeça para o fim do corredor – Sinta-se a vontade.
O ruivo saíra pela porta de madeira de duas mãos enquanto a garota loira virava as costas e seguia o corredor até ele se abrir em uma sala iluminada pela luz do dia. A porta que dava para a sacada ocupava toda a parede, principalmente com as cortinas vermelhas aparentemente pesadas como moldura. As outras duas paredes estavam ocupadas com prateleiras cheias de livros empoeirados, pedaços de lança, espadas juntando poeira e capacetes antigos com ferrugem. Ambas tinha uma porta no meio, uma ao qual Annabeth se encontrava e outra logo a frente dela, trancada. Na frente da sacada, uma mesa de madeira escura entalhada igualmente grande estava com mapas, compassos e um astrolábio. A parede restante jazia um quadro de uma paisagem verdejante com chalés um diferente do outro, o mar cristalino se estendendo no horizonte, a moldura dourada e entalhada contrastando com a parede escura. Abaixo do quadro, um sofá que outrora tinha almofadas brancas se encontrava ao lado de uma porta, esta que ia direto a uma escada ao qual o destino se encontrava em escuridão.
Annabeth jogou a bolsa no sofá junto com a capa de couro que estava sobre os ombros. Pensava seriamente em pegar um dos livros e lê-lo se Grover não voltasse rápido, mas não foi necessário. A porta bateu na parede com um estrondo que poderia ter quebrado a vidraça colorida que possuía, o baque foi seguido por passos e uma voz masculina claramente aborrecida:
– A sua metade burro irá acabar me prejudicando Underwood!
– É bode! – Grover ainda fez um grunhido, algo como um berro de cabra, para dar ênfase — Quantas vezes tenho que falar que é bode! Além disso, mudará de ideia em ajudar a moça em poucos instantes.
A outra voz riu de escárnio, o tipo de risada que dizia claramente “até parece”.
– Vá contando com isso, meu caro sátir... – então finalmente se mostrou. Os olhos pararam bem na garota, um canto dos lábios se abriu em um sorriso torto. – Uh, olá – disse, demorando propositalmente no “a”. – A Casa de São Perseu Jackson para Semideuses Desobedientes está aberta.
Annabeth não gostou nadinha daquilo.
Ele exalava problema e perigo misturado com o cheiro quase reconfortante de maresia, como se tivesse acabado de voltar de um mergulho na praia. A pele era bronzeada, natural de alguém que vivia na água, fazendo um contraste com os brilhantes olhos verde-mar. O cabelo era negro, com mechas rebeldes como se tivesse acordado agora – só que, de um jeito sexy, acabado de acordar da cama de outra pessoa. As vestes eram os trapos que você esperaria de um pirata: colete e botas de couro, blusa de algodão e calça escura. Se não fosse pelo lenço vermelho na cintura junto à espada de 90 cm, mais os anéis de joias encobrindo os dedos, poderia dizer que seria um homem comum.
– Estou curioso – disse ele assim que se sentou na cadeira atrás da mesa, inclinando-se para trás e pondo os pés para cima. – O que uma garota como você fez para que os deuses te mandassem para cá?
Antes que ela respondesse que, teoricamente, não fizera nada, Grover se apressou:
– Sequer sabe do Acampamento.
– Uhuum, tá bom. – Grover o encarou até ele perceber que não estava brincando. – Quantos anos têm?
O ruivo a analizou dos pés a cabeça com indiferença:
– Dezessete creio eu. O creio é forte, deve ser poderosa.
– Meu... cheiro? Que? – Annabeth semicerrou os olhos, tentando desesperadamente entender o que se era dito.
– E como sobreviveu até agora? – o moreno se dirigiu a Grover novamente, como se Annabeth fosse invisível.
– Sabiam que estou bem aqui? – constatou como sendo óbvio.
– Thalia disse-me que um filho de Hermes cuidou dela até dois meses atrás. – Grover respondeu por ela. – Poderiam estar a protegendo, você sabe, quanto mais ignorante mais salvo.
Antes que os dois prolongassem a conversa, o sapato de Annabeth voou no meio deles, quase acertando Grover, até parar na sacada. Não a olharam espantados, como deveria ser, era mais como “o que pensa que está fazendo?”. Annabeth continuara com postura firme, as mãos nos quadris e visivelmente irritadiça.
– Se quiser perguntar algo sobre mim, dirija-se a minha pessoa. – os olhos cinza fuzilavam o moreno, que não apresentava dano. – Senhor capitão. – debochou.
– Certo, — ele inclinou a cabeça para o lado – qual seu nome, minha cara?
– Annabeth Chase.
– E quem são seus pais?
– Frederick James Chase, nunca conheci minha mãe.
– Grover quem é a mãe dessa garota?
O ruivo não precisou pensar muito.
– Considerando os olhos e a cor dos cabelos, duvido muito que não seja Atena.
O capitão do navio voltou a olhar para a loira vitorioso.
– E é por isso que pergunto as coisas ao meu imediato, amorzinho, não a você. Agora, de novo, quem são seus pais?
– Dr. Chase e Atena – ela fez uma careta – deusa da sabedoria e da estratégia em batalha.
Ela não debochou, e isso despertou curiosidade no moreno, encarando-a enquanto passeava o polegar pelo maxilar definido. Além da curiosidade, a garota era bonita aos seus olhos, do tipo de beleza que as pessoas olhariam para ela duas vezes.
As curvas dariam inveja em mulheres e fariam homens quebrarem o pescoço para olhar; essas cobertas por um corpete azul com os cordões virados para trás, as botas tinham as fitas escuras até as coxas, como se as calças e os sapatos fossem um só. O cabelo dourado tinha quatro tranças finas do lado da cabeça, puxados para trás em uma única trança com o restante do cabelo loiro. Tinha poucos centímetros a menos que ele, mas a postura esguia e orgulhosa de guerreira a faziam parecer ser da mesma altura. Os olhos de tempestade, o nariz empinado e a atitude petulante – como se ela fosse a melhor – a faziam ser extremamente parecida com a mãe.
– Conheceu sua mãe. – Perseu observou. A garota assentiu com uma expressão de que deixava claro que a experiência não foi boa. Nunca é. – Soube que quer ir a Roma. Uma pessoa provavelmente poderosa e forte como você não deveria pisar naquelas terras.
Por um momento, Annabeth pensou em não contar. Porém suas alternativas não eram opcionais. Ela tirou a moeda que Atena lhe dera com a promessa de vingança do bolso e a colocou na frente dele, em cima da mesa. Enquanto ele examinava a moeda de prata ela explicava omitindo o possível:
– Não estava dentro de si, pelo que percebi, dera-me essa moeda pedindo-me que acabe com os romanos.
– E é por isso que precisa chegar a Roma? – uma sobrancelha negra se arqueou.
– É o mais óbvio. – Annabeth deu de ombros. – Mas... parece-me que... – ela limpou a garganta – Sabem mais do que eu sobre esse mundo.
Grover não ficara com uma expressão de deboche, mas o tal Jackson, obviamente, parou de girar a moeda para encará-la com um sorriso de ironia.
– Então a filha de Atena precisa do filho de Poseidon? Que adorável.
– Talvez eu precise da sua ajuda. – a garota trincou os dentes, já imaginando que os próximos dias não serão fáceis. – Sequer era o plano Z, mas era a opção mais rápida. Agora é o plano A, mas não acha mesmo que entraria nisso sem um alfabeto de planos, não é?
Aquilo pareceu afetar o ego dele, que rebateu:
– E porque, exatamente, eu te ajudaria?
Annabeth já estava preparada para isso:
– Primeiro, seria muito gentil da sua parte... – ela tirou o embrulho do cinto que continha trezentas moedas em ouro e o jogou na mesa, deixando que o ouro saísse — ...Deixar-me como... Convida... em seu magnifico navio.
Seus olhos verdes pairaram sobre as moedas. Uma parte dele gostaria muito de não ter a porcaria do defeito de querer sempre ser o herói, e a outra parte preferiu mostrar o que a garota já sabia: antes de qualquer coisa, ele ainda é um pirata. E piratas amam coisas brilhantes.
– Bem... Como aparenta ser uma pessoa educada e uma dama de honra – ele ironizou exatamente como ela – creio que não será problema mantê-la aqui.
Annabeth se inclinou sobre a mesa, empinando o corpo em provocação:
– Responderá todas as minhas perguntas, Sr. Jackson?
– Depende do que perguntar – o moreno também inclinou o corpo para frente, ficando a centímetros da garota – srta. Chase. – ele apontou a entrada do lado do sofá. – Aproveite, é um quarto só seu.
A loira aceitou a resposta, sabendo que não valia teimar. Ela se endireitou e fez uma debochada reverencia, pegando a bolsa e a capa e descendo as escadas como se estivesse em uma passarela.
– Ora vejam só – Grover comentou, muito interessado nas unhas. – Encontramos sua alma gêmea.
– Engraçadinho. – Perseu rebateu – Ela exala problema.
– Como se você não.
Em um revirar de olhos e um “cale a boca, Homem-Bode” a conversa parou ali.
***
O suor estava acumulado na testa de Annabeth, fiapos de cabelo loiro colados à nuca e nas bochechas.
Foi ideia de Grover, responder as perguntas da garota e ao mesmo tempo ensiná-la como sobreviver nesse mundo à noite, quando todos estarão dormindo e nem que o mundo caísse a tripulação acordaria. O ruivo apareceu na porta do pequeno quarto dela – algo simples, com uma cama e um banco com uma vela, até muito mais do que Annabeth podia esperar – e a levou de volta ao convés.
– Boa noite, Cinderela – Jackson debochou rodando o sapato que a garota deixou na sacada entre os dedos. – Como está?
– Estava indo muito bem até agora – ela arrancou a sapato das suas mãos – e quanto a você Perseu?
– Percy, — corrigiu — pelo amor dos deuses, nada de Perseu.
– Certo. Essa é a parte que me responde tudo?
– Basicamente. E ainda vou te ensinar a lutar...
– Eu sei lutar.
– Contra humanos talvez, com os asquerosos que nos perseguem creio que não. – ele olhou para faca da menina – Tem uma faca de bronze celestial, já é um começo.
– O que é bronze celestial?
– A nossa única arma que é capaz de manda-los de volta ao Tártaro – Percy puxou a própria espada, com cabo de couro e de um metal reluzente que Annabeth só vira uma vez, na própria faca. – Infelizmente para nós, semideuses, é que podemos ser atingidos tanto por isso e tanto pelo aço mortal.
– Maravilhoso.
O que se seguiu foi quase uma palestra. Que a dislexia era porque a mente de semideuses estava programada ao grego, não a língua atual. Os devaneios eram insisto de batalha, algo que Annabeth já tinha experimentado. Da Névoa e de como os tripulantes mortais nem suspeitavam que o navio também podia voar – como estava fazendo no momento, sobrevoando o país tendo destino ao oeste logo de manhã. Sobre como os deuses do Olimpo ainda são reais, que sempre que o “fogo da civilização ocidental” muda, eles também mudam. Agora, estão no topo da torre de Londres. O Acampamento Meio-Sangue, o único lugar que semideuses gregos poderiam sobreviver, ficava à meia hora dali.
– Grego? Quer dizer que tem outros?
– Na verdade, só tem outro. O Acampamento Júpiter fica em Liverpool, e é lá que provavelmente encontraremos respostas para a sua missão. – ele hesitou um pouco – Só que... Não vamos ao Acampamento em si, tenho uma amiga fora dele que pode ajudar.
– Uma amiga... Igual a você?
– Pirata, quer dizer? – ela assentiu em resposta. – É, é sim. Acontece que tanto eu tanto ela fizemos coisas que os deuses não gostaram. Expulsaram-nos de tudo e, bem, você é uma ladra sabe o que se é preciso fazer para conseguir algo.
– Ambos criaram uma tripulação e um navio e assim seguem?
– Quem dera. Acontece que os nossos queridos deuses viram isso como uma forma de castigo para meio-sangues que fizeram o mesmo. Se for romano, mande para Reyna. Se for grego, para aqui. Se for muito ruim, você morre.
– Pessoas gentis. – comentou – E quanto a seu pai?
– Foi o único que ficou do meu lado no conselho olimpiano. – Percy ergueu os ombros e os soltou, dando fim ao assunto. – Agora, vamos a melhor parte. Ao qual pode descontar todas sua raiva em mim – ele girou a espada no punho – se conseguir me acertar.
Ela poderia rebater, que só tinha uma adaga de 20cm e ele uma espada de 90cm. Mas ela era rápida, só os mais rápidos guerreiros conseguem manejar uma dessas. Depois de pelo menos duas horas de cortes e muitos “morta” “mortinha” “morta mesmo” “sabe você? Então, morta” depois, ambos estavam suados, mas não cansados. A adrenalina corria na veia dos dois, isso tirando o fato de que um queria vencer o outro.
Finalmente, Percy cessou a luta quando o laranja do sol despontou.
– Cansado já, Jackson?
Ele sorriu, um sorriso sincero, que poderia curar câncer. balançou a cabeça e secou o suor da testa com as costas da mão antes de dizer:
– Vai dormir, Chase.
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