Beyond the Sea
5 The Wisdom Daughter Walks Alone?
Notas iniciais
As duas garotas passeavam lado a lado pelo cais, sem perceber o quão distante ficavam do ponto de partida, comentando sobre detalhes de imponentes navios que viam pelo mar escuro. Era começo de outono, a madeira estava molhada tanto pelo respingo da água tanto pelas chuvas, o céu estava cinza como a cor dos olhos da garota e o clima estava agradável.
– Antes de tudo, a senhorita e Percy... – Reyna começou, aliás, começou mal. Annabeth fechou a cara mais do que pretendia, tanto que Reyna riu. – É uma guerreira, de fato. Tem fogo nos olhos.
– Lamento. – ela tentou suavizar sua expressão.
– Não lamente. Sou filha de Belona, sei exatamente como isso funciona.
– Deusa romana da guerra...? – Annabeth pensou alto e acabou saindo como um pergunta.
Reyna assentiu. Ela se virou e assoviou, um momento depois, dois cães de metal correram até elas: galgos autômatos, um prata e outro de ouro. Eles se esfregaram nas pernas de Reyna e fitaram Annabeth com olhos de rubi reluzentes.
– Meus bichinhos de estimação. – explicou Reyna. – Aurum e Argentum. – Ouro e Prata. Annabeth ficou tentada em perguntar qual era qual, mas isso era óbvio. – Detectam mentiras, além de serem uma graça. Não se importa que eles nos acompanhem, não é? – aquilo não era um pedido. – Diga-me, o que o Jackson quer que eu fale com você.
– Para inicio, eu não sabia que era uma semideusa há três dias. – as sobrancelhas de Reyna se juntaram assim que Annabeth pronunciou tais palavras. – Tive a explicação básica com Percy ontem à noite. Mas infelizmente – ela odiava dizer aquelas palavras em voz alta – ainda sei pouco. Basicamente o que Percy e Grover me disseram e as aulas sobre mitologia que tive quando criança. Até agora, minha única certeza é que sou filha de Atena.
– Entendo. – disse Reyna por fim. – Em nosso acampamento, Atena é Minerva. Sabe a diferença da forma romana?
Uma é uma guerreira e a outra uma lunática mochileira que quer te ver e todos os romanos queimando, ela pensou, mas, obviamente, não disse isso. Pelo tom cauteloso de Reyna, aquilo era um assunto delicado. Annabeth imaginou que os romanos não apreciem tanto Atena como os gregos, afinal, a capital da Grécia é uma homenagem à deusa.
– Suponho que At... Minerva não seja... hã... muito respeitada por vocês.
– Pelo contrário, nós respeitamos, sim, Minerva. Ela é a deusa das artes e da sabedoria, mas não é de fato uma deusa da guerra. Não para os romanos – já tinham muitas vagas na guerra preenchidas pelo visto Annabeth não entendeu bem esse pensamento, porque estava com uma pontada de irritação. Porém, mesmo que nunca realmente tenha visto Atena, ela ainda era sua mãe. – Minerva também é uma deusa donzela, assim como Diana, Ártemis para vocês. Não vai encontrar nenhum filho de Minerva aqui ou sequer no Acampamento Júpiter. A ideia de que ela tivesse filhos... – Reyna balançou a cabeça – Francamente, até mesmo para mim, que sei sobre o outro acampamento, ainda é chocante.
– Ah.
– Entendo que vocês, gregos, não enxerguem as coisas da mesma maneira. – Continuou Reyna. – Porém para os romanos votos de castidade são levados muito a sério. As Virgens Vestais, por exemplo... se quebrassem os votos e se deitassem com alguém, seriam enterradas vivas. Portanto, a ideia de que uma deusa donzela tivesse filhos...
– Entendo. – a voz de Annabeth saiu quase amargurada. – Eu não deveria existir.
– Não exatamente. – Reyna tentou lhe acalmar – Na verdade, uma coisa que sei sobre... Os nascimentos de filhos de Atena, é que continuam puros. Os outros romanos é que não sabem, e consideram sua existência uma blasfêmia. – as sobrancelhas de Annabeth se juntaram, e antes que pudesse perguntar, Reyna continuou – Sua mãe nasceu da cabeça de Zeus, assim como seus filhos. Quando algum mortal cai em suas graças, ela dá uma bênção. A bênção é um filho totalmente de... – a morena procurou a palavra certa – Cérebro. A junção de duas mentes brilhantes.
Annabeth ficou tentada a perguntar uma coisa bem idiota, como “então o que fica com o inchaço é a cabeça e não a barriga?”, mas ela tinha outros assuntos a tratar.
– E mesmo que em seu acampamento existissem filhos de Minerva...
– Eles não seriam como você. – completou – Seriam artesãos provavelmente, artistas, talvez conselheiros. Não guerreiros. Não líderes de missões perigosas.
– Quem disse que estou em uma missão perigosa e que sou líder dela?
Reyna estalou os dedos, e o cão dourado, Aurum, aproximou-se. A garota coçou-lhe as orelhas de metal.
– Vamos em frente.
– Reyna...
– Em frente. – e com isso ela ganhou. Annabeth a seguiu até o fim do caís, onde não havia nada além de canoas simples de pescadores e todo o mar azul-escuro à frente. – Então, fale-me sobre você.
A vontade de Annabeth era de gritar com ela, que não tinham tempo para isso, mas ela percebeu o que Reyna queria. E não era apenas fazer amizade. Então, ela contou a sua história. Falou sobre seu pai, sobre sua madrasta, seus dois meios-irmãos e que moravam em um bairro rico de Londres. Contou que havia fugido aos sete anos, quando encontrou seus inseparáveis amigos Luke e Thalia. De como vinham fugido do que só agora Annabeth soube o quê: do mundo dos mitos. Falou sobre a morte de Luke e de como isso a machucava ainda, falou de várias situações constrangedoras que vivera com Thalia desde que ela se tornara uma prostituta.
Reyna era uma boa ouvinte, e falar tudo aquilo em voz alta fez com que um peso saísse dos ombros de Annabeth. Por fim, ela falou sobre a moeda de prata, o verdadeiro motivo de porque estava falando com Reyna.
– Minha mãe é Belona, e ela é totalmente romana. Totalmente e verdadeiramente romana. É a deusa da proteção da pátria. Lembro-me do tempo em que era Pretora, antes de... Você sabe. O templo dela era vermelho, e antes de irmos para guerra, o visitamos. O interior é um pedaço de terra que representa o solo inimigo. Cravamos uma lança nesse solo, indicando que estamos em guerra. Sabe, os romanos sempre acreditavam que o ataque é a melhor defesa. Nos tempos antigos, sempre que nossos antepassados se sentiam ameaçados, eles invadiam para se proteger.
– Sim, sempre foi um povo muito amigável, o tipo de vizinho que todos queriam. – Reyna a encarou e ela tratou de limpar a garganta. – Conquistaram todos ao redor, pelo que me lembro, Cartago, Gália...
– Grécia. – ela deixou o comentário no ar. – A questão é que não é da natureza de Roma cooperar com outras potências. Os acampamentos grego e romano são separados, sem que um saiba sobre o outro, por segurança. Sempre que nos encontramos guerras civis acontecem. Então tome cuidado em Roma.
– Então é esse o meu destino.
Reyna assentiu.
– Além disso, antes de ir, precisa saber algo sobre sua mãe.
Os ombros de Annabeth ficaram tensos.
– Que seria...?
– Há um tempo, talvez dois anos contando agora, minha tripulação pegou na rede mais do que peixe para o jantar. Um rapaz loiro, ainda consciente, com olhos cinza como os seus. O coitado estava ensandecido por conta da sede e do calor depois de dias à deriva. Ele não falava coisa com coisa, como deve imaginar, mas disse que era filho de Atena. Afirmava que tinha ido a Roma, atrás de uma tal de Marca de Atena.
Annabeth engoliu a bile garganta a baixo.
– Ficava falando coisas sobre filho da sabedoria, Marca de Atena e a ruína dos gigantes se apresentando dourada e pálida. Ele também falava sobre a próxima o tempo todo, recitando “a filha da sabedoria caminha solitária, a Marca de Atena por toda Roma é incendiária. A ruína ou a amizade de nações se apresenta dourada e pálida, conquistada por meio da dor de uma prisão tecida.” Tem ideia do que poderia significar?
– N-não – Annabeth sentiu-se tonta e fraca, balançando a cabeça. Nunca ouvira algo assim, mas sua mãe a incumbira de seguir a Marca de Atena. Um medo primitivo renascia em Annabeth, preso dentro dela havia anos. – Esse semideus... Ele ao menos explicou a missão?
Reyna balançou a cabeça, incapaz de dar algum ânimo à garota.
– Na ocasião, eu fiquei completamente atônita. Mais tarde, quando o garoto sucumbiu a loucura e pulou no mar no meio da noite, lembrei dos tempos de minha pretoria no Acampamento Júpiter, comecei a desconfiar e a procurar mais.
– Desconfiar... de quê?
– Há uma lenda antiga que os pretores do Acampamento Júpiter transmitem através de séculos. Eu não acreditava na época, mas depois de ver o rapaz, comecei a acreditar e ter certa piedade dos próximos depois dele. Isso pode explicar por que nossos grupos nunca foram capazes de trabalhar juntos. Pode ser a causa da nossa animosidade. Até que a questão antiga seja finalmente resolvida, assim diz a lenda, romanos e gregos nunca viverão em paz. E a lenda está centrada em Atena...
– Pensei que não havia lendas por aqui.
– Tem coisas que nem sonhamos em saber – Reyna concluiu. – Meu palpite é que a Marca leva a uma estátua. Nem que uma tripulação inteira de piratas sonhassem quarenta noites com um tesouro não daria a riqueza que aquela estátua possui.
– E é essa estátua que poderia juntar gregos e romanos – Annabeth deduziu – mas que artefato magnifico seria esse?
– A Atena Partenos. – Reyna chegava a ficar emocionada – A estátua grega mais importante de todos os tempos. Ficava no templo mais importante de sua mãe, com doze metros de altura, feita de ouro e marfim.
– Pálida e dourada – sussurrou a loira – E o que aconteceu com ela?
– Desaparecida.
Annabeth a encarou com uma sobrancelha levantada.
– Uma estátua de doze metros sumiu do templo mais importante da Grécia e ninguém sabe o que raios aconteceu com ela?
Reyna deu de ombros.
– Algumas pessoas acreditam que foi derretida por conta do ouro. Outras pelo incêndio em Constantinopla. Atenas foi saqueada várias vezes. Já outros, acreditam que ela foi levada...
– Deixe-me adivinhar: pelos romanos.
– Ao menos, essa é a teoria. Para aprisionar o espirito dos gregos, os romanos tomaram a Atena Partenos quando invadiram a cidade de Atenas. O que se acredita é que eles esconderam em um santuário no subterrâneo de Roma. Os semideuses romanos juraram que ela jamais veria a luz do dia. Eles literalmente roubaram Atena, para que ela não pudesse ser mais um símbolo militar grego. Acabou tornando-se Minerva, uma deusa muito mais fofa e inofensiva.
– Entendo a raiva dela pelo seu povo. – murmurou a loira – E agora os filhos de Atena são chamados pela deusa, recebem uma moeda, seguem a Marca de Atena... até achar o descanso da estátua. É essa a missão.
– Creio que sim. – Reyna assentiu. – Realmente espero que o ódio se resolva com isso, mas pode-se esperar tudo. Atena era a mais grega das deusas. Padroeira de Atena, afinal. Os romanos quase a esqueceram, mas pelo visto os gregos não. E muito menos a deusa da sabedoria.
– Sabe como isso funciona? É uma série de pistas deixadas por Atena ou um rastro da deusa...
– Não sei dizer. Mas conheço as histórias de Atena muito bem pra saber que ela não fez isso em seu melhor estado. Quero dizer, se ela soubesse onde realmente estaria a estátua, ela simplesmente iria pegar. Creio que a Marca é uma trilha espiritual, afinal, a Atena Partenos recebeu orações de fiéis por séculos a fio. É a estátua que quer ser encontrada.
– Isso tudo foi a lenda quem disse? – Annabeth desconfiou.
– Na verdade, desde que achei o filho de Atena, fui descobrindo as coisas sobre a Marca. Além da lenda, também sei que os filhos de Atena esconderam um mapa em algum lugar no continente. Uma lembrança que indicaria aos próximos o caminho certo por Roma até ao inicio da trilha. – Reyna suspirou – Infelizmente, a única pista que sei é que o mapa está de baixo da rosa francesa, em algum lugar de Paris, desde 1446.
Annabeth se sentiu frustrada. Rosa francesa. Não podia parar, nem que para isso retirasse todos os jardins parisienses.
– Darei meu jeito de descobrir. Afinal, quem carrega a Marca sou eu.
***
– Uma rosa? – Percy perguntou pela décima vez – O mapa está de baixo de uma rosa?
– Foi isso que ela disse. – Annabeth suspirou, encarando o mapa da França a sua frente, no lugar do quadro que, agora ela sabia, representava o Acampamento Meio-Sangue.
– E o que vai fazer? – Leo perguntou, distraído com um cata-vento que estava fazendo com peças soltas – Arrancar os jardins de rosas de Paris até achar?
– Não, idiota. A rosa de Paris é o Meridiano de Paris, o primeiro meridiano do mundo – Annabeth explicou, ainda encarando o mapa. – Quanto ao 1446, provavelmente se refere à Capela de Rosslyn. William Sinclair a fundou nesse ano, porém existem histórias de que ela foi construída especialmente para guardar um artefato valioso. Alguns acreditam que seja o Santo Graal, mas, como presumo, o artefato na verdade é o mapa para Marca. – ela varreu a sala com o olhar. – De novo, porque estão aqui?
Assim que escureceu, o navio zarpou rumo ao continente, França especificamente. Todos os semideuses da tripulação estavam na sala das estantes, ouvindo atentamente a versão resumida que Annabeth dizia. Ela ainda não confiava totalmente nessas pessoas, Silena disse algo assim quando entraram na sala, é algo da natureza dos filhos de Atena ser desconfiado, não mostrarem confiança de primeira. Agora ela queria saber por que estavam fazendo isso.
Olhando novamente um a um. Leo concentrado em seu cata-vento; Silena no sofá atrás dela cuidando das unhas; Beckendorf em pé ao lado dela; Will perto da entrada do corredor, Grover apoiado na porta da sacada. Ainda tinham os que a garota conhecera depois, como o filho de Hades – Nicholas DiAngelo, um homem de 22, alto e bonito, com um sorriso torto e sotaque italiano que faria qualquer garota ficar molhada na hora. Mais a filha de Ares, Clarisse La Rue, com seus 25 anos, cabelos cortados à navalha e frieza no olhar o suficiente para fazer qualquer um tremer na base.
E, é claro, Percy Jackson. Com seu pequeno sorriso e olhar penetrante, sentado em sua cadeira como se fosse um poderoso chefão.
– E mais precisamente porque você está me ajudando. – a loira soltou.
– Não pense que é por que eu gosto de você, Cachinhos Dourados – ele respondeu – até porque quanto mais cedo me ver livre, melhor. E, obviamente, suas moedas valeram algo...
– Em primeiro lugar: aquilo foi para passagem. Em segundo, da próxima vez que me chamar de Cachinhos Dourados eu arranco sua língua – ela pensou por um segundo em um apelido apropriado sem conter palavras de baixo calão – Cabeça de Alga. – ele piscou atônito e juntou as sobrancelhas – Posso até entender e aceitar os outros, e Grover é uma pess... Sátiro que merece a confiança de qualquer um. Mas você...
Antes que Percy falasse qualquer besteira, Grover o interrompeu:
– Semideuses são treinados para serem heróis, e isso conta em ajudar a quem precisa. – o ruivo hesitou – Até mesmo o Percy. E por mais que seu instinto curioso de filha de Atena queira achar uma resposta, por ora só aceite a ajuda.
Annabeth o encarou longamente até suspirar.
– França, então? – ela perguntou retoricamente.
– Sim, senhora. – Percy debochou – Sabidinha.
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