Beyond the Sea
16 My Blood
Notas iniciais
Em outras circunstancias, andar por Roma seria uma maravilhosa experiência. Era outono e as praças e ruas estavam quase vazias, com o belíssimo cenário de monumentos históricos com flocos de neve. O mármore cinza com a neve trazia um clima mágico – mais mágico do que estar em uma cidade de 2.000 anos.
Annabeth andou até o Coliseu que era, obviamente, o maior ponto referencial que poderia encontrar. Caminhar até lá foi fácil. No verão, o calor chamava os turistas de toda Europa, mas agora a neve espantava até mesmo historiadores apaixonados pelo lugar. Assim que deixara as ruas principais e, por acaso, esbarrado em um ou outro monumento imenso da Antiga Roma; o cheiro de uma cidade grande foi deixado para trás e o aroma de pão assado e massa no forno tomou o ar.
Annabeth fazia anotações mentais sobre arquitetura, uma tentativa de ignorar os fantasmas roxos – Lares romanos, como ela leu em livros – em janelas acompanhando-a com o olhar. Uma mulher com uma túnica branca, alheia ao clima frio, carregando uma adaga de aparência assustadora. Nada a atacou, mas Annabeth manteve o passo rápido com um formigamento na nuca, como se até as casas a vigiassem.
Não imaginava que seria diferente. Sangue grego corria por suas veias e estava no centro do império romano, e estava ali para achar o único objeto capaz de acabar com essa rivalidade.
Pelo que Annabeth procurou e conversou com Reyna, a lógica é que um representante romano devolvesse a estátua para um representante grego.
Ah, sim. A estátua. Annabeth, ao menos, tinha certeza de algo: era a Athena Parthenos que procurava. A maior escultura de Atena já feita, antes se encontrava no Parthenon, principal templo de sua mãe, e, por um milagre, os romanos a roubaram e a trouxeram-na para Roma. Diz-se que um dos comandantes romanos prometeu guardá-la tão bem que nenhum grego jamais a veria de novo. Annabeth esperava não só vê-la, mas levá-la de volta para casa.
Até encontrar o rio, Annabeth demorou algumas horas, rodando a cidade e pedindo informação, arranhando o italiano gasto. Os romanos olhavam para ela em um olhar confuso, até ela perguntar se eles falavam inglês. A grande maioria falava, então, pedindo informação, encontrou a margem do Tibre. O rio corria entre calçadas pavimentadas, com uma grande aglomeração de armazéns, cafés, lojas e prédios espalhados ao longo do seu curso.
O Tibre era largo, calmo e lamacento. Ali perto erguia-se uma ponte nova, de ferro. Porém, próxima a essa se elevava uma série de arcos de pedra que cessava no meio do rio – ruínas deixadas pelo tempo dos imperadores. Annabeth reconheceu o lugar no mapa. Era aqui.
Ela olhou para o rio. Como chamaria o deus do Tibre? Jogando uma pedra? Fazendo uma dança da enchente? Não iria mergulhar ali de jeito nenhum. Parecia que os dejetos de dois milênios nadavam na água. Annabeth também não estava disposta a esperar em pé na neve, seu casaco azul escuro já estava branco pelos flocos de neve e seus pés congelavam mesmo com as botas. Ela cogitou em sentar em um dos cafés e almoçar, afinal, já era 12h. Os italianos geralmente almoçavam mais tarde, mas ela tinha um estomago de inglesa que almoça meio-dia em ponto.
No entanto, quando Annabeth estava meio caminho da porta do café mais perto, o ruído das rodas de uma carruagem a fez parar. O veiculo estacionou bem na frente dela e um casal saiu de dentro dela.
– Ah, olá minha querida. – cumprimentou a mulher, uma jovem com seus vinte anos talvez, com olhos claros e brincalhões, um sorriso amigável e com cabelos negros até a cintura. Annabeth já vira lera contos de fadas ao qual a princesa era menos bonita do que a mulher a sua frente. – Perdão pelo atraso, sabemos o quanto ingleses apreciam a pontualidade. Mas tivemos uma manhã maravilhosa, não é querido?
Ela olhou para o – Annabeth supôs – marido. Ela teve dificuldade de calcular sua idade, mas ele tinha aquela face atemporal que dizia sou um deus, lide com isso. Tinha uma face carrancuda, mas ao mesmo tempo elegante, o cabelo curto estava puxado para trás pelo chapéu deixando a mostra o rosto forte.
– É um prazer conhecê-la, Annabeth Chase – quando a mulher acertou seu nome sem ela ter se apresentado, automaticamente dera um passo para trás. – Não precisa ter receio! Sou Reia Sílvia. Fui a mãe de Rômulo e Remo, milhares de anos atrás. E este é meu marido...
– Deixe-me adivinhar. – interrompeu Annabeth, encarando os olhos escuros do deus. – Tiberino. O deus do rio Tibre.
– Exatamente. – concordou Tiberino.
Annabeth apertou a mão dele. Ele cheirava a perfume e algo com hortelã, claro, se Annabeth fosse a deusa do rio Tibre também gostaria de mascarar o cheiro de esgoto com colônia.
– Minhas náiades me disseram que você já estava aqui. – disse Tiberino, encarando-a atentamente. – Você tem o mapa, querida? E uma carta de apresentação?
– Ah, claro. – Annabeth entregou o disco de bronze e a carta dada por Reyna. — Então, sempre ajudou outros filhos de Atenas nessa busca?
– Oh, querida! – a bela Reia pôs a mão no ombro de Annabeth – Tiberino é sempre muito prestativo. Ele salvou meus filhos e os levou até a deusa Lupa. Mais tarde, quando aquele velho repugnante Numitor quis me matar, Tiberino me tomou como esposa. Desde então, governamos o reino do Tibre juntos.
– Obrigado, minha querida. – disse Tiberino com um meio-sorriso. – E, sim, Annabeth, ajudei muitos dos seus irmãos. Pelo menos, no começo da jornada. Depois disso...
– A filha da Sabedoria caminha solitária. – relembrou Annabeth com amargura.
– Basicamente. – falou Tiberino. – Uma pena todos terem morrido de uma forma dolorosa. Bem! Parece que seus documentos estão em ordem. É melhor irmos quanto é tempo. A Marca de Atena, assim como você, não gosta de esperar!
Annabeth engoliu em seco. Tremia e certamente não era só pelo frio. Estava apavorada, não restavam dúvidas. Mas prometera a Percy que voltaria. Ela conseguiria resgatar a maldita estátua e entregaria ao Acampamento Meio-Sangue.
Ela então aceitou a mão de Reia, entrando na carruagem com o sentimento de que uma dessas promessas não conseguiria cumprir.
***
Os dedos de Percy já estavam em carne viva de tanto que ele cutucava com as unhas sua pele, encarando o relógio do porto de cinco em cinco segundos. Voltando o olhar para Roma rezando internamente para que Annabeth voltasse.
Odeio vocês e tudo que já me fizeram, mas Annabeth não merece que vocês sejam uns canalhas com ela. Os deuses não recebiam elogios assim todos os dias.
– Sua ansiedade só vai piorar a situação. – aconselhou Nico, ao lado dele limpando a espada de ferro estigio. – Sério, Perseu, nenhuma manicure do mundo vai conseguir consertar isso.
– Que se danem minhas unhas. – respondeu.
Nico soltou um suspiro.
– Ainda é meio-dia. Ela ainda tem três horas. Depois, felizes para sempre. – Nico parou de alisar a lâmina e o encarou – Você contou a ela sobre Rachel, não?
As unhas de Percy pararam de arrancar a pele dos próprios dedos.
– Mais ou menos. – admitiu ele.
– Me diga, qual o problema de falar logo a verdade para a garota? Ela é uma filha de Atena, Perseu, não se pode esconder por um longo espaço de tempo a verdade de uma cria da deusa da sabedoria.
– Falou muito bem. Ela é filha da deusa da sabedoria, não do interrogatório.
Nico soltou uma risadinha.
– Mas eles também são muito bons nisso.
– Bem e o que você esperava que eu dissesse? – Percy se virou para ele. – Annabeth Chase, eu amo você. Mas da ultima vez que cheguei perto de amar alguém tanto assim, enlouqueci e acabei matando a garota. – ele inclinou a cabeça para o lado, uma expressão de questionamento. – Acho que não. Ela já estava aterrorizada o suficiente.
– Na verdade, quem fez você ficar louco foram os deuses. – soltou Nico, voltando a limpar a lâmina negra.
Percy voltou o olhar para a cidade.
– Não importa.
Um silêncio se seguiu até Nico já se dar por satisfeito e recolocar a espada na bainha.
– Infelizmente, temo que não tenha uma futura oportunidade para contar a ela a verdade.
***
Enquanto os cavalos andavam pela cidade sem cocheiro – obviamente parte de magia – Reia não parava de tagarelar como a cidade mudou com o passar dos séculos
– A Ponte Sublícia ficava ali. – apontou a deusa para uma curva no Tibre. – Foi onde Horácio e seus dois amigos defenderam Roma de um exército invasor. Aquilo que era um romano de coragem.
– Ali, olhe querida – acrescentou Tiberino, apontando para um ponto na margem do rio com neve suja. – Foi ali que Rômulo e Remo chegaram à margem.
– Ah sim. – suspirou Reia. – Você foi muito generoso em transportar meus bebês até a margem para que os lobos os encontrassem.
Tiberino deu de ombros.
– Não foi nada.
Ah sim claro, pensou Annabeth. Tiberino salvou os dois bebês de Reia, um dos quais construiu um dos maiores impérios já vistos em um lugar que não havia nada além de pântanos e talvez umas cabanas. Não foi nada.
Reia apontou para um edifício em construção, aparente grande quando chegar ao seu término.
– Ali costumava ser um templo dedicado à Vênus. Depois foi uma igreja. Em seguida um palácio. Este último pegou fogo três vezes. Agora estão construindo um prédio, como pode ver. E logo adiante...
– Por favor. – pediu Annabeth, meio nauseada. Reia falava milhares de anos como se não fossem nada. Talvez, para um imortal, o tempo realmente não importava, mas o estômago mortal de Annabeth rolava pela viagem histórica. – Vocês dois estão me deixando tonta.
Reia riu da situação de Annabeth.
– Desculpe doce menina. – Annabeth juntou as sobrancelhas, doce?! – Há camadas e mais camadas de história aqui, nada comparada à Grécia. Na época neo pré-histórica, os micênicos já construíam palácios enormes, principalmente na região de Creta. Quando Roma ainda era um pântano, Atenas era um império. Você verá se conseguir sobreviver.
– Não está ajudando. – murmurou Annabeth.
– Aqui estamos. – anunciou Tiberino.
Annabeth puxou mais a cortininha da janela e olhou para a construção logo a sua frente. Mármore branco, um pouco sujo, entalhavam deuses romanos em seu friso. A imensa entrada estava obstruída por portões de ferro com milhares de cadeados. Annabeth lamentou não ter trazido Leo, ou ao menos ter pegado emprestados alguns alicates de seu cinto de ferramentas.
– Vou entrar ai?
– Ah, não minha querida. – respondeu Reia. – Aí, não. Debaixo.
Tiberino apontou para uma série de degraus na lateral da construção – o equivalente a uma entrada para escoamento da chuva, só que maior.
– Roma é caótica na superfície, mas nada se compara com seu subterrâneo. Vai saber o que pode estar escondido ai embaixo. O que tem que fazer é descer a cidade soterrada, Annabeth Chase. Encontre o altar do deus estrangeiro. O fracasso de seus predecessores vai guiá-la. Depois disso... – Tiberino olhou para o nada. – Bem, não sei. Quase ninguém sabe. Todos morreram na parte do deus estrangeiro.
A respiração de Annabeth pareceu ficar presa na garganta.
– Meus irmãos... Nenhum deles chegou ao santuário?
Tiberino balançou a cabeça.
– Infelizmente não. Mas você sabe qual o prêmio que aguarda caso conseguir libertá-lo.
– Sei sim. – respondeu Annabeth, se sentindo pequena.
– Pode promover a paz entre os filhos de Roma e da Grécia. – emocionou-se Reia. – Pode mudar o curso de guerras.
– Se eu sobreviver. – observou a filha de Atena.
Tiberino a olhou com um olhar triste. Annabeth imaginou que, nessas situações, ele se via como um carrasco que não concorda com a condenação da vitima.
– Vejo que também sabe quem está guardando o prêmio.
Annabeth se lembrou das aranhas em Rosely e dos seus sonhos – a voz sibilante no escuro e as aranhas que atormentavam pela infância.
– Sim.
Reia Sílvia sorriu para o marido.
– Corajosa. Sinto que talvez seja mais forte que os outros.
– Espero que sim. – disse o deus-rio, com sinceras esperanças na voz. – Até logo, Annabeth. Desejo-lhe boa sorte.
Annabeth não sentia que aquilo poderia ajudar, mas agradeceu com um sorriso, saindo da carruagem. Ela ouviu um adeus triste de Reia e a carruagem tomou seu rumo. Então ela se virou e desceu as escadas sozinha.
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