Beyond the Sea

2 More than your eyes can see


Notas iniciais
hey

Sua consciência foi recuperada com esforço e lentidão, mas assim que voltou ao mundo real Annabeth se dirigiu novamente ao bar, se esquivando de flertes com hálito de bebida e descobrindo que sua amiga Thalia já estava sentada na mesa reservada.

A loira se sentiu aliviada, fez um sinal para Dakota, um velho conhecido que era dono daquilo ali, pedindo duas bebidas e sentando-se a mesa.

Nada aconteceu, foi um sonho. Uma alucinação esquisita ou uma loucura inconsciente. Sorriu, retribuindo o largo que a amiga lhe dera.

Então sentiu algo gelado na mão. E constatou que a moeda continuava ali, que aquilo era real. Ao menos, louca não estava.

– Como vai você? – a morena perguntou, muito embora já soubesse a resposta. A expressão de Annabeth era um sorriso tão amarelo que chagava a cor dos cabelos dourados da garota. – Porque está toda molhada?

Annabeth inclinou a cabeça.

– Acho que não percebeu o ensolarado dia que está lá fora.

Thalia suspirou.

– Chamou-me aqui para demonstrar sua adorável simpatia ou precisa de ajuda?

Annabeth se sentiu agradecida, mesmo que secretamente.

Thalia resolveu se estabilizar, ficar em um lugar só, mas não cortou laços com a loira. Ela resolveu... Ganhar o próprio dinheiro – mesmo que seja vendendo o corpo em um bordel sujo perto de onde estavam – do que roubar o que não era seu. Porém, quando Annabeth chamava, ela dispensaria até o mais rico dos clientes para ajuda-la.

– Quando te chamei aqui, não. Mas agora preciso – a loira respirou profundamente, Thalia sempre acreditava nela, mas isso? – Vai parecer loucura...

– Com a gente nada é louco de mais.

– Mas isso é. Preciso chegar a Roma.

Thalia pareceu ser atingida por uma faca, mas no instante seguinte se recompôs.

– Não pode ir às Terras Antigas... – sussurrou e antes de Annabeth perguntar o que ela queria dizer balançou a cabeça e falou mais alto – Por que precisa ir a Roma? O que aprontou dessa vez?

– Não fiz nada que me comprometesse a ponto de ter que sair da Inglaterra – respondeu – Na verdade, uma mulher ao qual alegava ser minha mãe entregara-me isto – ela jogou a moeda de prata para o alto, girando no ar antes de pegá-la e entregando à Thalia – e disse para eu ir até Roma, ou ao menos foi isso que entendi, e destruir os romanos. Não sei como farei isso, talvez colocar fogo na cidade como já fizeram ou algo do gênero. Ah, o que estou dizendo? Ponha-me em uma camisa de força e me entregue para o sanatório do qual saí.

Thalia estudou a moeda e suspirou.

– Espere – Annabeth exclamou surpresa – Você... Você acredita mesmo no que eu disse?

– E quando não acredito? – questionou – Sei de alguém que pode sim te ajudar, mas creio que terá um preço...

– Não diga.

Thalia olhou para trás, indicando com a cabeça um rapaz no balcão. Não devia ter mais de trinta, na casa dos 25, no máximo. Tinha a barba rala e cachos ruivos, uma pele alva com um sério problema de acne; e do jeito que se apoiava, Annabeth apostava que era manco. Também estava bem na ponta no balcão, olhando para os lados temeroso, era obvio que se algo acontecesse seria o primeiro a sair pela janela. A loira se perguntava por que estaria assim, era um alvo fácil: magrela e seu lábio inferior tremia ligeiramente, como alguém assim poderia estar em situação de risco ou ainda como aquilo poderia lhe ajudar?

Então ela focou nas roupas esfarrapadas, nos olhos pintados de preto e nas várias cicatrizes nas mãos e nos braços. Só um tipo único de mandrião seria assim.

– Não. De jeito nenhum.

– Annabeth – Thalia interveio – É um plano muito bom, além disso, é o único jeito de uma fugitiva da policia sair do país.

– O plano em que eu peço ajuda a um pirata? O plano ao qual eu esteja em um navio pirata até a Itália? Ao qual eu negocio uma passagem só de ida para o Inferno? Esse plano?

– Esse.

– Não. – respondeu – Não é um ótimo plano. Não é.

Thalia se recostou.

– Não pode simplesmente dizer não.

– Esse plano, que, aliás, é péssimo, envolve-me totalmente! Posso dizer não! E advinha o que irei dizer agora: Não.

– Annabeth.

Annabeth afagou a cadeira ao lado dela, como se houvesse alguém ali.

– Deixe-me apresenta-la a meu grande amigo Não.

– Talvez possamos chegar a um acordo – sugeriu ela – Talvez você não precise ficar no mesmo maldito lugar onde aqueles porcos sujos sedentos de carne feminina dormem, comem, enfim, respiram.

– Não.

– ANNABETH. Estou tentando te ajudar aqui.

– “Não” é uma palavra mágica, como “obrigada” ou “cale a boca e faça o que eu digo” – relatou – É assim que funciona. Você diz: “Annabeth, tenho um solução para seu problema. Envolve um plano louco e suicida, só que quem vai morrer é você. Gostaria de executá-lo?” E eu respondo: “Ora, não”.

– Anna-a-beth.

– Não mesmo. – teimou – Não, não e não!

***

– Preciso da sua ajuda para chegar até Roma. – Annabeth trincou o maxilar, a sétima vez só naquela noite – Há como entrar em seu navio?

O garoto ruivo pareceu divertir-se com a situação da loira, mas logo engoliu o riso;

– Certo, pode recolher o que lhe resta de orgulho – comentou – Não sou eu quem comanda o navio, mas sou o imediato, portanto não terei muito trabalho em fazer meu capitão ouvir.

Antes que Annabeth pudesse perguntar o quanto custaria para fazer o capitão ouvir, Thalia intrometeu-se:

– E quem és teu capitão agora?

O garoto sorriu, limpando a espuma da cerveja na boca com o dorso da mão.

– Ah, você o conhece. Afinal, é seu primo...

Thalia pareceu animada com a menção de tal primo, os olhos brilhando e os dedos enrolando as pontas do cabelo negro. Depois fingiu desinteresse e, como Annabeth sabia o que aquilo significava, sentiu ânsia de nojo;

– Dormiu com o seu primo? – ela perguntou e com a expressão no rosto de Thalia, algo entre a veemência e a incapacidade de que no momento ela não poderia ter feito nada, isso já foi respondido – Não creio que dormiu com o seu primo! E mais: dormiu com um ente familiar que é pirata! Um capitão pirata! – depois inclinou a cabeça para o que estava na sua frente – Sem ofensas.

– Sabia que quando se diz “sem ofensas”, você já ofendeu? – ele balançou a cabeça – Ah, não importa...

Thalia bebeu um gole e depois limpou a garganta:

– Para sua informação, Sabidinha, nunca tive a felicidade de dormir com ele – aquilo fez Annabeth arregalar os olhos em um pedido para que a amiga parasse e os revirar em incredulidade – Mas, caso ele souber dessa conversa – Thalia piscou para o ruivo – vai saber que para ele faço até de graça.

– Primeiro: — Annabeth levantou o indicador – nunca mais na sua vida me chame de Sabidinha. Segundo – ela levantou outro dedo – eu realmente não vejo necessidade em saber o que a sua família faz...

–... Tipo meu pai ter se casado com a irmã dele? – ela comentou.

Annabeth manteve a boca aberta, as palavras escapulindo da boca.

– É. Isso é um ótimo exemplo – continuou – E último, mas não menos importante: Você me enoja, Thalia Grace.

A garota deu de ombros em despeito ao que a loira acabou de falar.

– De qualquer forma – o pirata falou, se levantando e jogando duas moedas sobre a mesa – Saímos em dois dias de Canvey Island, onde o Holehaven encontra o Thames, tempo o suficiente para se chegar lá a tempo do alvorecer, entendeu? – aquilo parecia mais uma pergunta do que uma ordem arrogante, e Annabeth percebeu que nele ela podia contar – Vejo-te em breve, então. Ah, aliás, meu nome é Grover Underwood.

***

Annabeth não acreditava no que estava fazendo. Sequer sabia.

Talvez seja o intuito idiota causado pela moeda de prata ou apenas o universo sendo um canalha com ela, não seria a primeira vez. De qualquer forma, ela tentou a primeira teoria e jogou a moeda o mais longe que conseguira, vendo-a cair no fundo do rio Thames, sentindo-se aliviada e dando um chute no traseiro do Universo.

Universo Estupido 0 X 10 Annabeth divástica, engula essa!

Foi feliz e saltitante para uma hospedaria no número seis em uma rua mal iluminada de North London, uma espelunca na verdade, mas era útil para uma só noite e o colchão era macio. Jogou-se na cama de molas e dormiu como uma pedra, acordando cintilante.

Até virar-se para o lado e constatar que a moeda de prata estava em sua cabeceira.

Universo não tão estupido assim e que está rindo da sua cara agora 350 X 10 Você. Rá!

Annabeth ainda tentou queimar, amassar, esquecer “acidentalmente”, deixar caído em algum lugar, cozinhar, corroer... Não importava. A moeda achava um jeito de volta para o bolso dela, regenerada e novinha em folha.

Portanto, a garota se conformou e arrumou seus poucos pertences em uma bolsa de couro: algumas roupas; um livro de arquitetura, ao qual era apaixonada; algumas capas de couro; e a maldita moeda, ao qual ela deixou no bolso de fora, sendo mais suscetível a se perder, só para ver qual seria o limite da maldição que aquela moeda tinha. Pôs ainda sua faca no cinto e a adaga de bronze, sua única recordação palpável de Luke, dentro da sua bota.

O que quer que Roma lhe proporcione, estava pronta.

Era uma viagem de minutos, quase uma hora, de Londres até Canvey Island, no Essex.

Mas se escolher o cavalo certo leva menos tempo, principalmente com a chuva de Outubro molhando a estrada, de sua maioria de terra quando se saí da cidade e vai para o litoral sudeste. Além disso, Annabeth escolheu ir à noite, onde teria menos movimento nas estradas e sabia os atalhos para fugir de impostos e não ser parada em guaritas.

As estrelas começavam a desaparecer e o sol despontava timidamente no horizonte quando a garota desmontou do cavalo, amarrando-o em um lugar onde ele podia comer e massageando as pernas cansadas da viagem.

O Holehaven Creek encontrava o rio Thames em três lugares, mas Annabeth presumiu que (1) não seria difícil ver um navio do porte de uma caravela, não importava em quais das saídas se estava e (2) quem consegue esconder um navio em um rio como o Thames? Onde se consegue ver a outra margem? Assim que chegasse perto do porto ela veria até uma canoa.

Mas não era exatamente isso que esperava.

Não via nem um navio ou uma esquadra, apenas, com certa ironia, uma canoa com uma caveira desbotada que outrora fora branca, agora só conseguirá ver algo se estreitar os olhos.

Primeiramente pensou se tivesse chegado cedo, porém isso seria algo ingênuo de mais.

Ela começou pensar em um plano B, deveria ter feito isso antes de sair de Londres, mas não imaginava que isso acontecesse. Ainda teria que ter o plano C e o plano D, e se eles não funcionarem ainda tem o restante do alfabeto para completar. Tinha que chegar a Roma, não sabia como, mas tinha.

– Ora, senhorita Chase – uma voz levemente conhecida a chamou – Não imaginei que chegaria tão cedo.

Era Grover, o jovem baixinho e tremulo de um dia atrás.

Annabeth engoliu a raiva que sentia e respondeu:

– Peguei um atalho. Mas agora, onde está seu navio?

Ele a olhou como se acabasse de dizer que dois mais dois é cinco.

– Não consegue olhar através da Névoa... – comentou, quase maliciosamente – Tens muito que aprender senhorita Chase. Agora, olhe para a canoa – inclinou a cabeça para a canoa com a caveira desbotada – Olhe bem para ela. Ignore o efeito. Nem tudo é o que parece.

Annabeth juntos as sobrancelhas e imaginou se ficaria insana assim dentro de um navio por meses, mas fez o que lhe foi dito e olhou diretamente para a canoa.

Enquanto observava, ela pareceu se expandir em uma névoa branca. Piscou algumas vezes, averiguando se seus olhos estavam lhe pregando uma peça. Assim que olhou para a frágil canoa, era um imponente navio de madeira forte e velas negras. Homens trabalhando no convés, limpando e puxando cordas, as prendendo na amurada logo depois. Com até cinco andares, a bandeira negra com a caveira não tão desbotada assim dançando com o vento.

Annabeth tinha certeza que seus olhos estavam arregalados e a boca aberta.

– A-ah-h... – gaguejou, limpando a garganta e depois tentando assimilar o que acabou de ver – É, isso vai ser divertido.

Notas finais
então, o que acham?