Beyond the Sea
1 I could be in Paris, but noo
Notas iniciais
Annabeth Chase estava encrencada.
Digo, isso não era exatamente uma novidade para ela. Até antes de fugir de casa aos sete anos sempre foi a inconsequente impulsiva, a ovelha negra que nem sequer conseguia ler uma frase direito. Seu pai, Frederick Chase, um renomado doutor em história, tentara de tudo: professores particulares – um atrás do outro, ensinando o que a garota já sabia, deixando-a entediada e tendo que aprender por ela mesma.
Annabeth era muito inteligente, disso o pai sabia, o problema era a dificuldade na leitura, a impulsividade e a incrível facilidade de se desligar do mundo em segundos.
Além disso, mentia. Muito.
Na versão de Annabeth, era tudo verdade, mas como acreditar em uma criança que tinha pesadelos com aranhas saindo do armário e dizia que um homem com um único olho e um cão de guarda com olhos vermelhos e do tamanho de um rinoceronte a perseguia?
Impossível.
Para piorar, Annabeth era uma menina bastarda.
Cria de seu pai com uma mulher da qual a deixara em um berço na porta de casa com um bilhete “Cuide dela. A.”. Não é necessário dizer que Frederick não a recebeu de bom grado. Sempre ocupado com o trabalho, não lhe havia tempo para cuidar de uma criança hiperativa.
Então, surgiu-lhe a brilhante ideia de se casar e dar uma mãe à menina.
Para Annabeth, a ideia foi maravilhosa nos primeiros trinta segundos que conheceu a escolhida, uma oriental aparentemente simpática, que logo depois se mostrou uma tirana. Annabeth sempre quis uma mãe, mas aquilo foi como querer um cachorrinho e ganhar o cão de guarda do inferno.
Quando a garota fez cinco anos, as coisas só pioraram: sua madrasta teve gêmeos, duas crianças fofas que eram normais. Não tinham nenhum problema, eram filhos perfeitos. E para piorar a situação, a madrasta fazia questão de falar com todas as palavras que não queria alguém “sujo” perto dos filhos dela. Que Annabeth deveria dormir no chiqueiro ou conviver com empregados, não perto da família.
– Essa bastarda nem sequer entende inglês! – Annabeth se lembrava da conversa entre o pai e a madrasta que havia escutado escondida – Fantasia coisas, grita no meio da noite alegando aranhas saindo dos lugares mais inusitados, não consegue ficar quieta ou saber se comportar como uma moça deveria! Meu conselho é ajuda-la, mandando a para um lugar que lhe é apropriado, onde eles saberão o que fazer.
E Frederick fez o que os pais fazem: piorou as coisas.
Psicólogos, remédios fortes, tratamentos com choque e um quarto com paredes estofas e grades na janela. Resumindo: sanatório. Claro, até porque um hospital psiquiátrico era uma colônia de férias para uma criança de sete anos.
Demorou, mas Annabeth conseguiu fugir.
Ela não tinha um plano elaborado para o que iria fazer, não queria voltar para casa e muito menos para aquele inferno de hospital. Sozinha e só com um pijama fino de flanela, a criança só tinha sua inteligência aguçada demais para alguém de sua idade, um martelo enferrujado que achou e coragem para se esconder entre as vielas de Londres em um frio rigoroso do inverno de 1844. Pelo menos, até achar uma luz.
A garota teve sorte, suas preces foram atendidas, foi encontrada por dois jovens como ela: fugidos de casa, com mais experiência em sobreviver nas ruas, encontraram-na e adotaram a garota sem hesitar.
Luke Isaac Castellan e Thalia Amanda Grace eram seus anjos da guarda.
Luke, um garoto com seus 14, com cabelos loiro-areia e vibrantes olhos azuis cativou Annabeth desde quando lhe entregara uma adaga de um bronze mais brilhante que ouro e disse:
– O que acha de ter uma verdadeira arma para matar todos esses monstros que lhe aflige? – ele foi o primeiro a acreditar em tudo que a garota argumentava, e isso significou muito – Isso é bronze c... Um tipo de bronze muito especial. Funciona muito melhor do que um martelo. Apenas os guerreiros mais corajosos e rápidos possuem adagas. Não têm o alcance ou o poder de uma espada, mas são fáceis de esconder e encontram pontos fracos na armadura do inimigo. Só um guerreiro esperto sabe usar uma faca como esta, e tenho a sensação de que você é muito esperta.
Annabeth sorriu com aquilo.
– Eu sou esperta!
Thalia, a garota com doze anos e que já havia aprendido tantas duras lições, transbordadas nos olhos azul brilhantes, fizera algo que não fazia há muito: ela riu e se deixou cativar pela menininha de cabelos dourados e grandes olhos lindos e cinzentos.
– Precisamos ir agora, temos um abrigo seguro em Lake District, mas até lá iremos providenciar roupas e comida para você.
O sorriso de Annabeth perdeu parte do brilho. Sua expressão tornando-se dura e zangada.
– Vocês não... Não vão me levar de volta para minha família vão?
Luke e Thalia se entreolharam em um meio sorriso.
– Nós somos a sua família agora.
E assim se cumpriu.
Durante longos nove anos as únicas pessoas aos quais Annabeth confiara fora Luke e Thalia, essa que se tornou “independente” quando a loira tinha 14. Certo, gostaria de dizer-lhes que eles viviam de forma digna, mas era a Europa do século XIX. Crianças perdidas e pobres – que, no caso, era grande parte da população – ou eram foras da lei ou morriam de fome.
Annabeth era a melhor: usurpava, pilhava, tinha seu lindo rosto em cada poste de luz ou árvore da Grã-Bretanha e se arriscava sem hesitar. Tudo que podia lhe causar a condenação a deixava mais viva. Quase foi pega tantas vezes e de tantas maneiras que isso era piada para ela. Ainda deixava algo de lembrança, como deixar seus perseguidores em situações constrangedoras – como da vez em que fez um guarda de bandeira, o pendurando no mastro pelas roupas de baixo. E que Deus salve a Rainha!
Mas então, isso mudou.
Ela e Luke formavam uma dupla imbatível... Só que juntos.
Ainda doía se lembrar disso. Annabeth só virou as costas e seu amigo, irmão, confidente falecia em uma poça de sangue com um tiro no peito. A garota ficou inconsolável, mas sabia que ele a mataria se tivesse ficado e chorado como uma criança a morte do seu herói em vez de ter fugido e se salvado.
Dois meses após sua morte, as coisas começaram a desandar quando ela se encontrava no fundo de um bar esperando sua amiga Thalia, ouvindo as brigas e falação embolada dos bêbados ao longe e observando as duas velas que iluminavam o local onde estava.
Conseguia ver turvamente a rua se transformando em lama, comerciantes desesperados salvando suas mercadorias da chuva e uma mulher em um vestido vermelho e capa vagando cegamente pelo lamaçal.
Annabeth balançou a cabeça e revirou os olhos, estava em uma parte londrina onde lei e fiscalização sanitária não existiam, uma mulher assim era um alvo fácil. A garota aprendera muito rápido que quando se é mulher, principalmente se anda sozinha, pode-se esperar tudo: desde ladrões magricelas de doze anos, até coisas piores como estupro ou a morte.
Porém algo assustou Annabeth quando olhou de volta pela janela: a mulher parecia encará-la, ignorando o vidro embaçado e sujo, fixando-se diretamente nela. Ninguém parecia nota-la, passavam por ela apressados, como se fosse invisível. E mais: não estava molhada. Nem a capa, o vestido, os cabelos negros, nada. Aliás, sequer suja de lama.
Impecável como uma deusa.
Annabeth sentiu um forte impulso, como se o olhar que a mulher a lançava foi como uma corda a entrelaçando e estivesse a puxando de encontro a ela. Tentou desviar o olhar, lembrando-se das palavras de Luke Entre impulso e curiosidade, escolha se salvar e ignorar.
Levantou-se bruscamente, quase deixando a cadeira tombar com o impulso. Lançou uma moeda ao funcionário no balcão para que sua mesa continuasse vazia quando voltasse e saiu para a chuva.
O que está pensando? Ela se perguntou, não obtendo resposta plausível. Chegar perto de alguém com a face de uma maníaca e perguntar o quê? Falar o quê?
No fim, não lhe foi necessário.
– Preciso voltar para casa – disse a mulher de cabelos escuros cascateando pelo corpo, murmurando como uma sonambula – O caminho é difícil. Queria que Odisseu estivesse aqui. Ele compreenderia.
Annabeth se segurava para não se bater, estava no meio da chuva, só com uma capa marrom para protegê-la, conversando com uma louca que murmurava coisas sem sentido.
– Quem é você? – genial Annabeth, realmente genial.
A mulher a olhou como se pudesse atravessa-la. Mudou a mala de couro que segurava de mão e sorriu sonhadora.
– Eu costumava me chamar Atena... Antes de saquearem minha cidade, tirarem minha identidade, me transformarem nisto – ele olhou as próprias roupas com desgosto. Quem quer que a olhasse presumiria que estava pronta para uma longa jornada – Preciso voltar para casa.
A garota juntou as sobrancelhas, as aulas de história e as varias horas na biblioteca do pai surtiu efeito e ela relembrou Atena, deusa da sabedoria e da estratégia em batalha. Isso era loucura, a mulher não podia ser uma deusa. Mas o jeito que falava... E ainda não se molhava...
Não. Se concentre mulher!
– Certo – Annabeth cruzou os braços – Pelo que está dizendo, costumava se chamar Atena. Agora é o quê? Minerva?
– Não me chame assim! – esbravejou, os olhos cinza faiscando de raiva.
Olhos. Cinza.
Por um breve momento, a aparência da mulher mudou, um leve feixe de luz e Annabeth viu com clareza uma armadura dourada, um elmo entalhado protegendo a cabeça com os cachos caindo livremente pelas costas, uma lança em uma mão e um escudo circular gigantesco no lugar da mala. Sua expressão era orgulhosa, orgulho de si mesmo, a face de uma guerreira. A garota parecia se ver daqui há alguns anos, como um espelho que a envelhecia.
Depois ela piscou, e a mulher voltou ao que era.
– Eu costumava carregar uma lança e escudo – ela continuou – Tinha a vitória na palma da mão! Era muito mais do que isso.
– Entendi parceira – esnobou a loira, tentando esconder o nervosismo da voz – Então como quer que te chame?
– Mãe é apropriado.
Annabeth riu de nervoso e respondera a versão que gostava de contar: sua mãe tinha morrido. Era mais simples e a poupava de falsa piedade do que falar: “fui deixada na porta de meu pai com um bilhete ‘cuide disso, beijo não me liga’, assinado com um A e um coração. Own, lindo não?”. Ela tinha seu orgulho, afinal.
Então, entendeu.
A.
Atena.
Só podia ser brincadeira.
De qualquer forma, Annabeth resolveu seguir conforme a dança, escondendo o nervosismo e fingir que sabia exatamente o que aquela Atena era:
– Certo. Sou eu, Annabeth. Sua filha.
– Minha filha... – repetiu – Sim, meus filhos me vingarão. Eles precisam destruir os romanos. Aqueles horríveis, desonrados, imitadores romanos desgraçados! Se és minha filha, uma verdadeira filha da sabedoria, honre teu sangue. Mate-os!
Annabeth tinha certeza que teria rido, se o nervoso não percorresse em um arrepio seu corpo. Tudo aquilo que a mulher dizia, parecia lhe atingir como verdade, como se fosse tudo parte da vida dela que até então não descobrira.
– Por quê? – ela perguntou – Romanos criaram a lasanha e sistema de esgoto, porque quereria mata-los? O que aconteceu?
– Roma aconteceu! – exclamou – Substituída. Saqueada. Pilhada como um troféu e levada para longe da minha amada pátria! Perdi tanto... Jurei que jamais perdoaria – ela olhou Annabeth com mais atenção – Você é minha filha?
– Se é o que dizes.
A mulher pescou algo da mala de couro e a colocou nas mãos de Annabeth.
– Siga a Marca de Atena. Vingue-me.
Os olhos da garota piscaram, afastando a chuva e observando o que a morena lhe dera: uma moeda grande como um biscoito, de prata, obviamente antiga. Gravadas nela havia uma coruja, e disso Annabeth sabia: era o animal sagrado da deusa Atena, com um ramo de oliveira, que era outro símbolo da patrona de Atenas, e uma inscrição grega do outro.
AΘE
Dos atenienses.
Os filhos de Atena.
Annabeth quase dera um pulo ao entender a inscrição em grego.
– O que...?
Ela levantou o olhar, mas a mulher desaparecera.
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