Beyond the Sea

11 Gods, monsters and snakes


Notas iniciais
Vocês querem me matar, provavelmente. EU DEMOREI UM MÊS CARA EU TO QUERENDO ME ESTAPEAR mas, como sou muito fofa, eu aproveitei e fiz dois capítulos de uma vez. Agora a parte das desculpas: sabe o ENEM? Pois então. Sabem o que é Escola Militar? Pois é, passei por uma MAS TODAVIA CONTUDO PORÉM não sei se vou conseguir me adaptar porque tenho 1) hiperatividade 2) uma rebeldia quase percystica. Enfim, provavelmente não vai dar certo, mas ainda estou revendo isso. ANYWAY viquetória ninguém quer saber da sua vida criatura divina bora por capítulo.

Os olhos cinzentos da filha de Atena pareciam frustrados ao olhar para a lista de palavras riscadas. Palavras ridículas e obvias como Atena, Marca, Lenda e até mesmo Tecer. O críptex veio sendo teimoso em todas e nem dera sinal de abrir. Sempre que Annabeth puxava as extremidades o vinagre ameaçava destruir o que ali continha.

Ela se lembrou de quando, em seus aniversários, seu pai a fazia entrar em uma caçada ao tesouro. Com códigos e anagramas mais complicados que o outro, a garotinha loira corria pela propriedade da família caçando as pistas até achar seus presentes. Annabeth sentiu o lábio inferior tremer e fechou bem os olhos até a memória desaparecer.

Pegou o pequeno cofre nas mãos antes de afundar nos travesseiros novos. Seu quarto temporário mudara de austero para um com decoração em cores. Uma cortina azul escuro circundava a cabeceira da cama, impedindo qualquer luz de chegar ao rosto de manhã. Quatro travesseiros com o mesmo tom de azul e detalhes com fio dourado cobriam boa parte da cama e, para completar, um cobertor extra verde. A mudança aconteceu enquanto estava fora, mas o laço rosa que prendia uma parte da cortina dava uma boa ideia de quem fora.

Mas, Annabeth pensara, com os dedos brincando com a moeda transformada em pingente, Silena não faria isso por pura e espontânea vontade.

Os livros foram arrumados por ela mesma, pois não aguentava ficar em um espaço com distração. Não conseguia pensar direito. Impulsionando-se para uma das pilhas ao lado da cama, Annabeth quase foi lançada para frente por alguma coisa que fez o casco do navio subir e descer violentamente. Ela sabia como era o efeito de uma onda e aquilo não era nada parecido com uma.

Acionando um alarde interno, Annabeth pulara da cama, fazendo uma barreira de travesseiros às pressas para o delicado cofre de mármore. Agarrou a adaga e subiu pulando degraus, ela atravessou correndo a sala e o corredor e só parou porque, quando sua mão agarrou a maçaneta, ela nem sequer se mexeu.

Xingando, Annabeth pôs todo o peso na porta, mas ela continuou irritantemente parada. O rugido inumano fez sua adrenalina disparar até mais, então nem se importara com as feridas que o vidro fez em sua mão quando ela socou o vidro ilustrado. Enfiando a mão pelo buraco que se fez na porta, Annabeth alcançou a maçaneta do outro lado. Trancada.

– Você só pode estar de brincadeira. – ralhou. Felizmente, a maçaneta não respondeu.

Agora Annabeth também podia ouvir os gritos e aquele rugido melhor. Agachando-se, ela olhou pelo vidro quebrado o caos. O que quer que fosse, fez com que homens deserdassem, se jogando na amurada. Os que ficavam lutavam bravamente ou eram pegos pela criatura que, pelo que Annabeth pôde ver, era grande, asquerosa e provavelmente muito nojenta.

Com mais uma tentativa falha de abrir a porta, Annabeth suspirou exasperada. Pense, Annabeth, pense! Ela voltou para a sala envolta de estantes e olhou para todos os lugares, procurando uma chave ou qualquer coisa que pudesse deixa-la sair. Acabou encontrando um arco e uma aljava com flechas empoeiradas. O arco parecia forte o suficiente, colocou a aljava no ombro e se direcionou para a sacada.

Suas pernas estancaram assim que viu a criatura por inteiro.

Era enorme, com o formato de uma serpente marinha. Escamosa e de coloração esverdeada, ela parecia mais incomodada do que machucada com as investidas e, mesmo com as bolas de canhão feitas de bronze, a criatura se esquivava. As únicas coisas que realmente a machucavam eram as rajadas de fogo. Mesmo assim, a besta continuava implacável.

Com as mãos trêmulas, Annabeth pegou duas flechas e as disparou ao mesmo tempo. A notícia boa é que as flechas acertaram o alvo. A criatura gritou e afundou na imensidão azul. Os marujos olharam para o mar incrédulos, encarando uns aos outros como se perguntasse “só isso?”. A própria Annabeth estava se perguntando o que tinha feito...

Sem nem perceber, a serpente voltou com tudo, abocanhando a sacada e quase levando Annabeth junto. Ela soltou o arco e se prendeu a própria criatura. As unhas de Annabeth não conseguiam se prender a pele escamosa e ela viu a água chegar rápido de mais. Seu plano seria se desprender, pois não conseguia alcançar a adaga com as mãos presas.

No convés, Silena semicerrou os olhos azuis para a conhecida cabeleira loira que estava grudada à serpente marinha:

– Aquela é...

– O que...? – Percy então viu Annabeth empoleirada na criatura. – Ah, porra... – resmungou, já correndo para sua cabine, com a espada em punho. – Se ela não morrer eu vou esganá-la.

Enquanto isso, Annabeth inspirava ar suficiente antes de se desprender para as ondas revoltas com os movimentos da serpente. Suas mãos deslizaram e ela sentiu uma falta de peso antes de cair com tudo no Mediterrâneo. A única ruptura no plano de Annabeth era que, da sacada despedaçada, Percy pulou e traçou um corte pela garganta do monstro. A serpente caiu, dessa vez morta, na água, bem em cima de Annabeth. Ainda submersa, a garota se controlou muito para não arfar quando o imenso corpo se opôs entre ela e a superfície.

No convés, os mortais procuravam seu capitão e logo se aliviaram quando Percy submergiu. Eles comemoraram e se afastaram na amurada, deixando apenas os descendentes dos deuses encarando a água. A serpente já tinha de despedaçado em poeira dourada, mas nenhum sinal de Annabeth. Percy sentia que ela ainda estava lá e, puxado por essa sensação, ele mergulhou novamente.

– Ela não está morta. – Nico observou, a voz mostrando um divertimento beirando o cruel. – Ainda.

– Levaremos isso em conta. – disse Grover. Mesmo sendo um sátiro deserdado, ainda era um sátiro e, mais que seus instintos de encontrar seu deus perdido, ele também tinha o instinto protetor quando se tratava de semideuses. – Leo, venha, pegue uma corda ou faça qualquer coisa para içá-los.

Leo assentiu, seguindo Grover já com a corda pedida em mãos. Will se fora para cuidar dos feridos e Beckendorf retomou sua guarda, aguardando as ordens de seu capitão que, como ele sabia, não tinha problemas com fôlego. Nico, Silena e Clarisse permaneceram encarando a água.

– Aquilo nos olhos de Percy era medo ou, por favor, me digam, estou enganada? – perguntou Silena. – Temo por ele, sabem, se o seu medo for o que estou pensando. – ela aguardou, como ninguém comentou nada, continuou: — Medo de perde-la.

– Faço de seus temores reais, Beauregard. – Clarisse suspirou, encarando o mar.

De baixo d’água, o aperto na garganta de Percy se aliviou quando enxergou o brilho dourado. O alivio diminuiu quando ele a pegou nos braços e ela não demonstrou nenhuma reação, a palidez em sua pele como a de um fantasma. Retirando tais pensamentos da cabeça, ele se impulsionou para a superfície. Annabeth ainda tinha batimentos, mas se não pudesse respirar isso mudaria rápido.

Percy voltou o olhar para seu navio, tentando em vão não demonstrar desespero, quando uma corda voou da sacada. Ele diria graças aos deuses se eles realmente se importassem. Pegou a corda e enrolou-a em um braço, o outro ainda segurando firmemente Annabeth. Percy se sentiu por um momento sem peso até cair de novo no chão de madeira, desenrolando a corda do braço com destreza e pressionando o peito da garota desacordada, fazendo-a cuspir praticamente uma piscina inteira.

Annabeth arfou, sua mente até então desacordada mandando-lhe imagens dos últimos acontecimentos. Na sua frente, a sacada destruída dava-lhe a visão do Mar Mediterrâneo calmo depois de se estabilizar dos últimos acontecimentos. Conseguia ver a madeira quebrada, restos do impacto do monstro contra o navio, também pode ver a água manchada... Aquilo seria sangue? Seu sangue?

Foi então que percebera o quanto estava fraca – claro, depois de tudo qualquer um estaria – e seu estomago revirou quando olhou pra baixo e viu a perna praticamente dilacerada, com um rasgo na coxa ainda saindo sangue. Sua visão se turvou e ela caiu para trás, não trombando com o chão porque Percy a segurou antes. Ela o ouviu gritar “o que estão olhando? Chamem o William, AGORA!”.

– Percy...? – ela tentou dizer, mas saiu como um grunhido entrecortado.

– Fique quieta, sua grande idiota. – ele devolveu. Fofo como sempre.

Will ajoelhou-se do lado de Annabeth, sacando uma pequena faca e rasgando a calça da garota no local ferido. De alguma forma, os dentes da serpente fizera um corte na perna, era profundo, mas felizmente para Annabeth a artéria ficava do lado esquerdo. Mesmo assim, o ferimento era feio. Sangrava e a pele entorno estava avermelhada, no entanto, aquilo era uma boca notícia afinal. A serpente não era venenosa.

Will limpou o ferimento com néctar, fazendo Annabeth arquear as costas, mas ela não gemera nem gritara. Apenas fechou os olhos bem firmes e procurou manter-se imóvel. O filho de Apolo franziu as sobrancelhas pra a ferida.

– Funciona melhor com você seca. – pensou alto. – Percy, você é mais eficaz que uma toalha, então...

– Poderia pôr isso na minha lápide. – sugeriu, pausando a ponta dos dedos no interior das coxas de Annabeth, deixando o corpo e roupas totalmente secos. – “Mais eficaz que toalha, descanse em paz”.

O poder secou Annabeth inteira, mas Will só esperou até a coxa estar seca. Colocou uma pasta verde no local, enfaixando-o firmemente enquanto cantarolava baixinho em grego antigo.

– Não continha veneno, portanto não deve demorar pra curar. – anunciou Solace em tom de rotina, perdera as contas de quantos ferimentos graves assim curou. Desde semideus, mortais até aos espíritos da natureza como sátiros e ninfas. – Ah, e fique em repouso. Total. – ele trocou olhares com Percy. – Não no chão, obvio.

Percy lançou um olhar pra a Annabeth, tomando-a nos braços firmemente. Ela soltou o ar, arfando, e segurou no pescoço de Percy o mais forte que pôde. Ele focalizou os olhos na escada enquanto descia os degraus de lado, Annabeth respirando fracamente, ainda extremamente pálida, porém ainda com vida.

– Está irritado. – ela observou, conseguindo finalmente proferir alguma palavra entendível. – Ou está com falta de ar. Consigo sentir pela sua respiração que algo está errado.

– Algo está errado? – ele exclamou, controlando o tom de voz. – Achei que porta trancada fosse um aviso obvio para você! Mas, nããão, tinha que intervir e quase morreu no processo.

– Achou mesmo que eu faria o papel de princesa em apuros em cima de uma torre, esperando seu príncipe em um cavalo branco? – zombou ela. – Não precisa se preocupar comigo, sei muito bem me virar sozinha.

Percy respirou profundamente, se controlando o máximo para não jogar a garota a esmo na cama e estrangulá-la. Estava com raiva dela por ser tão teimosa, mas, no fundo, ele sabia exatamente porque Annabeth agia com certa inconsequência. Afinal, todos os semideuses tem um desejo quase secreto de morrer com um ato heroico.

– É quase arrogância sua pensar que fico preocupado com você, Chase. – falou Percy, quase aliviado por ter suas mãos longe de Annabeth.

– Eu não sou cega, Jackson. Qualquer um com olhos sabe. – ela parou, ajeitando-se do jeito que conseguiu nos travesseiros, lançando um sorriso fraco para ele. – A questão agora é por quê?

Percy hesitou, procurando palavras certas para encerrar o assunto. Se fosse rude, Annabeth daria um jeito de ter a resposta certa na ponta da língua – ela sempre tem – e essa conversa nunca acabaria. No fim, acabou optando para a verdade:

– Creio que já sabe o porquê. – respondeu simplesmente.

Annabeth o observou subindo as escadas, o pequeno sorrindo aparecendo em seus lábios involuntariamente.

***

Pela janelinha localizada quase no teto da cabine, Annabeth viu as estrelas aparecerem e a Lua tomar o lugar do Sol. Ou Ártemis tomar o lugar do irmão, como preferirem. A filha de Atena estava cansada de fazer nada, infelizmente, era tudo que podia fazer. O criptex continua em sua teimosia e ela não obtinha nenhuma pista da senha.

Teria se cansado de procurar nesse dia se não estivesse exausta de dormir e ficar deitada impossibilitada de se mexer. Felizmente, um brilho dourado captou sua atenção, e seria aquele mesmo brilho dourado que a faria avançar em sua busca. O brilho vinha da caixa de pau rosa ao qual tinha mantido o criptex seguro, a espera por um filho de Atena que recuperaria a estátua.

Totalmente desajeitada, Annabeth fez esforço para conseguir pegar a caixa caída no meio do quarto sem desabar da cama. Examinando-a melhor, ela percebera que o brilho vinha de uma fenda aberta quando o movimento da serpente marinha fizera a caixa cair no chão. Com a unha, Annabeth abriu ainda mais, até uma placa dourada cair dentro da caixa. Madeira de um lado e, bem, Annabeth era uma ladra, sabia reconhecer ouro puro de longe.

Descartando o restante de caixa e pegando a vela, examinou a placa até achar o ângulo certo e descobrir uma frase em grego antigo.

– A... pa... palavra... – sussurrava, encarando fixamente a inscrição e forçando seu cérebro a trabalhar. – Sofi... Sábia, certo. A palavra sábia... É o que... procuras. A palavra sábia é o que procuras. – ela maravilhou-se, abrindo um sorriso. – A palavra sábia é o que procuras.

A alegria encolheu quando ela pegou o criptex. Cinco letras, merda! Procurou em sua mente todas as formas em que “sabedoria” poderia existir: wisdom, inglês seis letras; saggezza, italiano oito letras; weisheit, alemão oito letras; sagesse, francês sete letras; sabiduría, espanhol nove letras. Tentara até o khmer (rie braphp nei brachnha) mas nenhum chegara perto. Nem mesmo o latim – sapientia – se encaixava.

Ela então pensou no obvio: grego, é claro. Teoricamente, sofia, mas colocando em letras arábicas se torna “sofia”. Maravilhosamente com cinco letras.

Annabeth encaixou as letras com as mãos tremendo. Calma Annabeth, é um mapa não plutônio. E puxou as extremidades. As duas tampas de ouro se libertaram do mapa e o cilindro de vinagre com outra placa, de alguma forma flexível, enrolado no cilindro. Ela juntou as sobrancelhas, pois, se o que o criptex protegia era de ouro, porque então o vinagre?

Só então ela entendeu. Com o mapa vinha uma carta em papiro, como uma carta de apresentação destinada ao... Tibre? Annabeth encarou o mapa. Sob a luz da vela, o ponto que o mapa marcava era na margem do rio Tibre.

Querendo ou não, pronta ou não, seu próximo destino era a cidade de Roma.