Beyond the Sea
8 Bubblegum Bitch
Notas iniciais
Como primeira missão de Annabeth, as coisas não poderiam ser piores. Ao menos, agora ela tinha deuses para poder culpar quando algo vai de mal a pior.
Não muito tempo depois de Rosslyn, cães negros do tamanho de rinocerontes, com dentes como facas, pularam das sombras. Percy deu graças por Annabeth não ter paralisado de medo, aliás, a garota parecia um demônio e não parou nem quando as garras de um quase arrancou o braço dela fora. Os cães infernais de olhos negros não duraram muito, explodindo como fogos de artificio dourado.
Annabeth fez uma careta para o feio machucado no braço, cortando uma das tiras de couro da bota e fazendo-a de curativo. No meio do processo, Percy pegou o braço com uma gentileza irreconhecível, pingando três gotas de um líquido dourado nas feridas. Annabeth não se opôs, observando os arranhões passarem de machucados profundos a simples cicatrizes brancas. Ela se relembrou do néctar e ambrosia, e não se surpreendeu com a rapidez ao qual agia. Acabou deixando as tiras enroladas ali mesmo caso precisasse.
Nem meio passo depois, duas dracaenae – mulheres-cobra, com pele escamosa e rabos de cobra ao invés de pernas, o tipo de monstro que lembrou muito a madrasta de Annabeth – entraram no caminho dos dois semideuses. Foi fácil acabar com elas, mas o que não contavam é que tinha mais duas atrás deles, esperando para o bote, exatamente como uma cobra faria. A dracaenae que pegara Percy foi burra em subestimá-lo, e mesmo com uma adaga na garganta ele rasgou os flancos dela com a ponta da espada. Com Annabeth, o monstro fez o mesmo, a diferença era que (1) ela estava de armadura e (2) prensara tanto a adaga na garganta da loira que se ela mexesse morreria em instantes, tanto que teve que inclinar a cabeça para trás para conseguir respirar direito.
De alguma forma, a mulher-cobra preferiu hesitar em matá-la. Annabeth ouviu um chiado, como se muitas cobras tentassem falar. Ela entendeu aquilo como se fosse uma risada.
– Namoradinha nova, Jacksssson? – debochou, seu “s” se estendendo como uma boa cobra. – Loiro é uma boa cor. Não tanto quanto vermelho, masss é.
Percy revirou os olhos para o alto.
– Vou te dar duas opções, só para ver como estou de bom humor. – disse ele – Ou larga ela e serei bonzinho em acabar com você rápido, ou faz vista grossa e, é bom que saiba, que sei como fazer sua volta ao Tártaro mais dolorosa. Decida-se.
A dracaenae abriu um sorriso reptiliano – literalmente.
– Promesssasss sssem fundo ainda continuam em seu vocabulário. – ela falou, apertando mais a adaga. Annabeth sentiu uma gota de seu sangue descer lentamente pelo pescoço. – E como poderei acreditar em sua proposssta?
– Eu sou Perseu Jackson, querida. – em um movimento rápido, ele sacou uma adaga pequena de dentro do casaco; e, em um movimento mais rápido ainda, a arma parou no meio da testa verde do monstro, o desintegrando no mesmo momento. – E vocês, monstros, não deviam esquecer isso.
A mão de Annabeth foi diretamente para seu pescoço. Ardia e doía até mais do que machucados normais deveriam. Quando soltou o pescoço, seus dedos voltaram ensanguentados.
– Aqui. – Percy indicou um cubo amarelo, parecia pedaço de pudim. Annabeth o pegou, e assim que pôs em sua boca sentiu-se melhor, o sangue se extinguiu e a ferida cicatrizou. – Nesse ritmo, o estoque de ambrosia e néctar irá acabar ainda hoje.
– Porque fez isso? – curta e grossa.
Annabeth o encarou enquanto andavam, e quando uma paz falsa e um silêncio constrangedor se instalaram, ele a respondeu sem ao menos olhá-la:
– Estamos quites. – simples e pragmático.
Ela gostaria de dizer que não era só pela dracaenae; também era porque ele decidiu ir com ela na busca de um simples mapa – sendo que Annabeth tinha certeza que ele sabia que ela podia se virar muito bem sozinha, afinal, já estaria no continente, e da França para Itália era um pulo. Está certo que a loira já tinha uma ideia que um semideus sozinho não basta, mas ela sobreviveu por dezessete anos. Além disso, também se perguntava por que Percy mostrava claramente que não a queria, e instantes depois dava a entender que queria as roupas da garota espalhadas pelo chão e a própria em sua cama.
Por fim, preferiu se ocupar com as tiras que arrancara da bota para um curativo, que acabou usando como uma alça precária para a caixinha de pau rosa. Ela ainda a equilibrou, de forma que o seu braço segurasse a caixa contra o corpo. Planejava estudar com mais cuidado o que nela continha assim que chegasse a Iles D’ Hyères.
Um longo caminho foi percorrido quando o céu já escurecia e o nariz de Annabeth capitou um cheiro delicioso de carne assada e batatas. Se fosse peixe, ela provavelmente estaria com água na boca como uma boa garota inglesa.
– Praticamente consigo ouvir sua barriga roncando. – Percy comentou, saindo da trilha e adentrando entre as árvores, seguindo o cheiro.
Por mais que não quisesse, Annabeth o seguiu.
– Você é mais irresponsável do que pensara. – ela disse, o som de seus pés quebrando gravetos no chão não ajudando em nada a situação. – Quero dizer, realmente crê que é uma boa ideia?
Ele parou subitamente, apoiando o ombro em uma forma descontraída em uma árvore, observando a clareira que se abria à sua frente. Não era das maiores, mas o espaço suficiente para que alguém construísse uma casa rosada de tijolos; dois andares; do tamanho de um chalé nos Alpes Suíços, até mesmo tinha fumaça saindo da chaminé, dando a tudo um ar acolhedor.
Ao menos, acolhedor a um mortal. Assustador a um semideus. Ou ao menos deveria ser.
– Jura? – Annabeth apoiou o ombro do outro lado da mesma árvore. – Simplesmente vamos entrar no covil da bruxa de João e Maria?
– Se for algo, vamos presenteá-lo com umas férias relaxantes no Tártaro. — Percy parou, provavelmente sentindo o cheiro que estava mais forte agora. – Sinceramente se for um monstro ele cozinha muito bem. – comentou. – Mas, se for alguém, rezemos que caia em alguma desculpa que você vai inventar.
– Porque eu? – Annabeth retrucou beirando a reclamação.
– Por que terá que ser uma boa mentira que faça com que alguém abra a porta para um pirata e uma ladra de rua. – Percy pensou alguns instantes no que dissera. – Dupla impecável essa. – ele deu de ombros – De qualquer forma, é da sua natureza ser boa em persuadir as pessoas.
– O que...? – a garota ao menos tentara parecer indignada, mas logo depois desistiu e jogou os braços para o alto. – Ah, quer saber...
Antes mesmo de terminar a frase, ela já estava na metade da trilha de cascalhos que levava a porta de madeira clara. Um jardim cercava a casa, com rosas vermelhas e gerânios. Seria algo lindo se não fosse as grotescas esculturas de pedra. Eram lindas e bem realistas, isto é fato, mas o rosto delas demonstravam tremendo horror, o que quase fez com que ela parasse e reconsiderasse sequer chegar na varanda da casa.
Quase.
Aparentemente, nem mesmo um cérebro de filho da deusa da sabedoria funcionava com normalidade com fome.
Quatro batidas na porta depois, uma mulher alta abrira a porta. Seu rosto estava coberto por um véu preto rendado, mal se conseguia ver seu rosto através dele, mas pelas mãos com dedos finos e elegantes, Annabeth supôs que seria da casa dos 40. Ainda vestia um vestido de mangas compridas, cobrindo-lhe até o dorso das mãos, de cor vinho e completamente reto, sua bainha arrastando-se no chão.
– Bonne nuit. – ela disse. — O que posso lhe ser útil, bela jovem? – sua voz era amorosa e com sotaque do Oriente Médio, o que talvez explique o véu sobre a cabeça. De alguma forma, a moça falou a segunda frase em inglês, não em francês. Annabeth se perguntara se era explicito na testa que era britânica.
– Bonne nuit, Mme. – Annabeth a cumprimentou de volta. – Minha história seria cômica se não fosse trágica. Eu e meu recém... – ela buscava um estado civil em sua mente que pudesse ser cível enquanto puxava Percy pelo cotovelo, que até então se mantinha fora do alcance de visão apoiado ao gradil da varanda. Annabeth entrelaçou seu braço no dele, pondo a mão no peito do garoto e fazendo o possível para fazer expressão de mulher-mais-feliz-impossível. –... Marido. Estávamos de lua-de-mel em Paris, mas parece-me que andamos de uma rua a outra e quando dei por mim estávamos bem longe da civilização. – ela soltou seu melhor suspiro de imitação de uma garota da alta sociedade. – Paris deveria ser mais fácil de trafegar, como Londres. De qualquer forma, pensamos se talvez não pudéssemos passar uma noite aqui, já que está ficando escuro e Argh! Não quero nem pensar na possibilidade de chegar perto de uma daquelas tavernas.
Annabeth sorriu, quase piscando os olhos em suplica. A mulher a encarou por um momento, provavelmente pensando se Annabeth a achara tão burra, afinal, por mais que a atuação da loira foi sublime, as roupas de ambos e sua localização – quase um dia de caminhada de Paris – não tornasse a história verídica. Por fim, um brilho de um sorriso apareceu por trás do véu.
– Ah, meus queridos – disse a mulher. – Entrem, por favor. Sou a tia Eme. Assim que entrarem vão ver uma mesa, fiquem a vontade, por favor.
– Obrigada, senhora. – disse Annabeth. Tia Eme enrijeceu-se, como se ela tivesse dito algo de errado. Na mesma rapidez, relaxou. Portanto ambos imaginaram ter visto coisas e entraram.
Percy murmurou no ouvido de Annabeth baixo o suficiente para tia Eme não escutar:
– Recém casados?
– Tinha alguma ideia melhor?
Ele hesitou, olhando pensativo para cima.
– Caravana de circo? – deu de ombros.
Annabeth o encarou.
– Um ser como você ela até poderia acreditar, mas sou muito bonita para pertencer a um circo.
– E é mais crível que somos um casal apaixonado, Cachinhos Dourados?
– Você me adora, Cabeça de Alga. – ela levantou um ombro. – E eu sou uma boa atriz. De qualquer forma, ela pareceu acreditar.
A sala de entrada estava abarrotada de mais estátuas – idênticas aos do jardim: assustadoramente realistas, de pessoas com poses diferentes e com expressões diferentes no rosto. Observando-as, Annabeth imaginou que seria preciso um jardim realmente grande para conter apenas uma delas, pois eram todas em tamanho natural. Pareciam segui-los com o olhar, mas ambos estavam muito ocupados pensando em comida.
Vai lá, é uma atitude idiota e impulsiva. Mas o cheiro da carne feita pela tia Eme era como gás alucinógeno, fazia sumir todo o resto. Por um momento, poderia se esquecer de que estava em uma missão suicida, na casa de uma tia esquisita com estátuas na sala e que essa mesma tia estranha trancara a porta atrás deles.
Saindo da sala com estátuas, o outro cômodo era grande o suficiente pra conter uma mesa de madeira negra com lugar para oito pessoas; mais uma escadaria que levava o segundo lugar, de mesma madeira e com entalhamento em rococó. A mesa estava posta com uma toalha branca; um candelabro com seis velas no meio, mais o lustre centralizado no teto, eram a única luz na escuridão de fim de tarde.
– Por favor, sentem-se – disse a tia Eme.
– Obrigada novamente, senhora. – Annabeth agradeceu.
Novamente, tia Eme se enrijeceu e relaxou rapidamente. Se não fosse pelo cheiro maravilhoso vindo da cozinha na sala ao lado, Percy e Annabeth ficariam intrigados, provavelmente já estariam com as mãos em suas respectivas armas.
– Não tem de quê, Annabeth. Já falei o quanto seus olhos são bonitos, criança?
Annabeth abriu um sorriso nervoso.
– Não vejo nada de mais neles, mas muito obrigada.
A anfitriã desapareceu pela porta da cozinha e puderam-se ouvir talheres sendo usados. Assim que ela sumiu, os dois semideuses se afastaram de supetão e desfizeram os sorrisos forçados.
– Nós não nos apresentamos a ela. – Annabeth falou sem ar de pergunta, mas Percy respondeu:
– Não. – concordou, ambos se sentando a mesa e colocando as armas ao alcance das mãos caso precisassem serem rápidos.
Antes que se dessem conta, tia Eme retornou com bandejas de legumes, arroz e, o mais importante, carne com rodelas de cebola. Ela ainda trouxera dois pratos com talheres e taças, juntamente com uma jarra com vinho tinto, obviamente, francês. Percy já tinha comido metade da carne quando se lembrou de respirar; Annabeth já tinha acabado a dela e já estava na segunda taça.
Tia Eme não comeu nada. Ela não descobrira a cabeça em nenhum momento. Annabeth pensara que seria algum voto religioso. Ela se mantinha sentada com os dedos entrelaçados, observando-os comer. Era incomodo ser observado por alguém que não conseguia enxergar o rosto, mas os dois estavam satisfeitos com a comida o suficiente para esquecer até mesmo da atitude estranha da tia Eme. Além de a comida estar deliciosa, Percy e Annabeth sentiam o corpo relaxar e as têmporas pesarem.
– Então, você vende anões. – Percy arriscou, tentando parecer interessado.
– Ah, sim. – Tia Eme parecia animada ao falar disso. – E animais. E pessoas. Tudo para o jardim. Sob encomenda, já que não tenho muito movimento nessa parte, ao menos tenho clientes fies. Mas sempre que alguém aparece, preciso cuidar muito bem dele. Como vocês, queridos.
Percy abriu a boca, mas um formigamento na nuca o calou. Ele se virou, e Annabeth fez o mesmo, mas era apenas uma estatua de uma garotinha segurando uma cesta de Páscoa. Os detalhes eram incríveis, muito melhor que vistos na maioria das estatuas de jardim, com anões rechonchudos e mal-encarados. No entanto, como a maioria das esculturas no local, parecia assustada, até mesmo apavorada.
– Ah! – disse tia Eme com tristeza. – Podem notar que algumas das minhas criações não dão muito certo. Elas são defeituosas. Não vendem. O rosto é a pior parte. Sempre o rosto.
– Você mesma faz as estátuas? – Annabeth perguntou, verdadeiramente curiosa.
– Ah, sim. Já tive duas irmãs para me ajudar no negócio, mas elas faleceram, e fiquei sozinha. Só tenho minhas estatuas como companhia. É por isso que as faço, entendem? – A tristeza na voz dela parecia tão profunda e real que Annabeth poderia sentir pena senão fosse por um medo interno crescendo.
A loira parou de comer, se inclinou e disse:
– Desculpe, mas disse duas irmãs?
– É uma trágica história – disse ela. – Não quero estragar a lua-de-mel de vocês mais do que já está. Veja, Annabeth, uma mulher má estava com inveja de mim, há muito tempo, quando ainda era jovem. Tinha um... Bem, um namorado, e essa mulher má estava determinada a nos separar. Ela me provocou um acidente terrível, por isso uso esse véu. Minhas irmãs ficaram do meu lado. Compartilharam a minha má sorte enquanto foi possível, mas tudo tem um fim. Elas se esvaíram. Só eu sobrevivi, mas a um preço. E que preço.
Se antes se sentia agradecida e sonolenta, agora Annabeth tinha acionado um botão interno e estava completamente desperta e com muita vontade de sair dali.
– Percy? – ela o sacudiu para chamar atenção. – Querido, acho que devemos ir, já abusamos de mais da hospitalidade da tia Eme. – sua voz estava tensa, mas a expressão dele dava a noção de que ele não entendeu por quê. – Quero dizer, podemos dar sorte de encontrar alguém que nos leve de volta a Paris.
– Que olhos cinzentos bonitos – Tia Eme divagou, outra vez, olhando para Annabeth. – Ah, mas há muito que não vejo olhos cinzentos lindos como esses.
Ela estendeu o braço como se fosse lhe acariciar o rosto, mas Annabeth se levantou abruptamente.
– Precisamos mesmo ir.
Percy a encarou com uma sobrancelha levantada. Annabeth gostaria de se sentir irritada pela estupidez dele, mas também entendia. A comida e a voz de tia Eme eram como feitiço de sereia, se antes ele estava desconfiado agora caíra nas graças da senhora.
– Por favor, queridos. – implorou tia Eme, levantando-se também. – É tão raro estar com pessoas, ainda mais com dois jovens tão afeiçoados como vocês. Ah, antes de ir, não gostariam de pelo menos fazer uma pose para eu poder esculpi-los mais tarde?
– Como disse? – perguntou Annabeth com cautela.
– Como uma pintura. Tenho uma memória invejável, sabe, poderei usá-la como modelo para um novo conjunto de estátuas. Qualquer um ama casais apaixonados, são muito populares.
Annabeth se balançou de pé para o outro.
– Creio que infelizmente não podemos, senhora...
– Porque não? – Percy retrucou. Naquele momento a loira gostaria de ter força suficiente para pegá-lo pelos cabelos e o arrastar para longe dali. Annabeth o encarou, desenhando as palavras “vamos logo” nos lábios com urgência. Ele a olhou, depois olhou para tia Eme atrás dela, e se voltou para Annabeth de novo, dando de ombros. – Podemos sair assim que fizermos esse favor a tinha Eme, querida. Não podemos?
– Sim, Annabeth – a mulher murmurou. – Podem sim.
Annabeth encarou um Percy com um sorriso calmo no rosto, pensando em várias maneiras de matá-lo mais tarde. Por fim, ela deixou que tia Eme os levasse para o lado de fora. Devia ter umas sete horas, se não fosse pelo lampião na varanda, tudo estarias escuras.
Percy parou no meio do caminho da porta, segundo Annabeth do seu lado, esperando tia Eme tomar distância para sussurrar:
– Ela deveria ter mais criatividade ao inventar um nome. – a cada palavra, seu tom era mais baixo. – Tia Eme. Tia M. Não acha mesmo que seria tão estupido, achou?
– Pra falar a verdade achei sim. – respondeu ela sinceramente. – Se algo der errado, a culpa é sua.
Tia Eme – recentemente descoberta como sendo a Medusa – os conduziu até um banco de jardim na varanda, lodo abaixo dos três lampiões que iluminavam a noite escura. Aparentemente, ela não desconfiava que os dois semideuses sabiam que a memória invejável dela poderia muito bem fazê-los virar pedra.
– Agora – disse ela – vamos posicionar vocês corretamente. Bem juntinhos, de mãos dadas seria uma boa ideia, ou preferem abraçados? Ah, fazem um casal perfeito, só fiquem perto um do outro e abram aquele sorriso maravilhoso, certo? – suas mãos ergueram as mãos para remover o véu em volta da cabeça; a mão de Annabeth já estava no cabo de sua adaga assim como a de Percy em sua espada. – Fiquem paradinhos...
– Agora! – Annabeth gritou. Num piscar de olhos, ambos correram para dentro da casa, passando pela porta e indo a direções opostas.
– Que coisa feia, queridos! – disse tia Eme, seus pés pisando firmemente no chão. Annabeth conseguia ouvir o chiado do “cabelo” dela.
Annabeth encostou-se à parede, o plano era ao menos tentar atingi-la assim que passasse pela porta. Ela prendeu a respiração quando uma mão forte a pegou pelo braço e a arrastou; seus olhos fecharam-se automaticamente.
– Abra os olhos, garota, sou eu. – assim que ouviu a voz de Percy ela se soltou, entrando de baixo da escada ao lado dele.
Os passos de tia Eme estavam mais altos, mas como encaravam a parede caso ela entrasse no cômodo, não podiam ver se ela se aproximava ou não. Annabeth pegou um garfo antes de se abaixar na escada, verificou se alguém vinha, e finalmente o atirou na cozinha, voltando à posição original de costas para escada.
A Medusa passou pela copa tempo suficiente para que Annabeth enxergasse seu reflexo do espelho ao lado da escada. Seu rosto era até bonito, de um pálido tremeluzente. Os cabelos verdes se mexiam, se contorcendo como as serpentes que realmente eram. Ela tinha ainda um brilho verde no olhar, como se veneno escorresse dele.
– Perseu a matou dormindo. – Annabeth sussurrou, lembrando-se do mito. – Temos um Perseu. Mas não temos uma Medusa adormecida.
– Fantástico. – disse ele. – Qual o plano agora?
– Pensei em você distrai-la, já que é o único que pode chegar perto dela. – Annabeth controlava a respiração, tentando pensar. – Além de ela ser uma ameaça, duvido que vamos conseguir sair daqui com ela ainda viva. Distrai-a, ela não vai me ver chegando por trás.
– Como sabe que ela vai me deixar chegar perto?
– Mais perto do que eu, com certeza. Ela me faria em pedacinhos por causa da minha mãe. Ah, sabe a história. – ela se virou para trás, mas a Medusa ainda continuava na cozinha, os ruídos de quem estava procurando até nos armários. Annabeth aproveitou a deixa, pegou o espelho do tamanho de uma barra de chocolate e o jogou pra ele. – Creio que já saiba que em nenhuma hipótese pode olhar diretamente para ela.
Ambos saíram das escadas; Annabeth pulou para sala de entrada, enquanto Percy segurou firmemente o espelho e parou entre as duas entradas para sala das estátuas e a copa.
– Ei, Bafo de Cobra! – Percy a chamou, a Medusa dando as caras mais rápido do que desejava. Os olhos dele estava cravados no espelho. Na outra sala, Annabeth segurava firmemente a adaga, esperando o momento certo.
A Medusa se aproximou, não vendo Annabeth escondida no cômodo ao lado.
– Não machucaria uma velhinha, Percy – sussurrou ela. – Sei que não faria isso.
Os dedos dele seguravam o cabo da espada até seus nós ficarem brancos. O reflexo no espelho não era assim tão feio; os olhos que ardiam em um tom esverdeado pareciam fazer seus braços fraquejarem. Ele a viu abrir um sorriso antes de se lançar com suas garras.
Annabeth foi rápida. Dando um pulo e golpeando cegamente com a adaga. Por um milagre, a arma atingiu-lhe a garganta. Ouviu-se um plof! nauseante, e então um chiado como o vento escapando de uma caverna.
– Continue olhando para o teto. – Percy instruiu, segurando o véu escuro que a Medusa usava. – Argh, que nojo.
Com muito, mais muito cuidado, sem olhar para baixo, ajoelhou-se e embrulhou a cabeça do monstro no pano preto, depois se ergueu. Um suco verde pingava no chão.
– Tudo bem? – perguntou a Annabeth.
– Sim. – concluiu ela, sentindo muita vontade de vomitar a carne que comera. – A cabeça não evaporou. – observou. – Por quê?
– É como um troféu de guerra. – Percy respondeu. – Mas não o desembrulhe, esse troço ainda pode petrificar mesmo morto. – ele suspirou. – Muito obrigado, Atena.
Annabeth o lançou um olhar irritado. Pigarreando, ela respondeu:
– Ao seu pai, na verdade. Até parece que não sabe a história. Medusa era namorada de Poseidon. E não foi muito digno o que ambos fizeram no templo na minha mãe. Foi por isso que Atena a transformou em um monstro. É por isso que ela amaria me picar em pedacinhos, mas ia te conservar como uma bela estátua. Provavelmente, a fez lembrar-se de Poseidon.
– Ah, desculpe, a culpa de termos esbarrado na Medusa é minha?
– E de quem seria? – ela respondeu, irônica – Das estrelas? – Annabeth se endireitou, e em uma péssima imitação tanto da voz dele como da mesma continuou: — “Mas Percy, não achas que é uma péssima ideia?” “Claro que não, Annabeth, não vai ser problema em matá-lo se for um monstro!” e ainda, “Podemos sair assim que fizermos esse favor a tinha Eme, querida. Não podemos?”.
– Em própria defesa, eu já sabia o que ela era. – falou. – Mas deixe, você é impossível.
– E você é insuportável.
– Irritante.
– Irresponsável.
– Idiota metida.
– Impertinente.
Percy abriu um sorriso:
– Isso não me é uma ofensa, minha cara. – ele girou a cabeça da Medusa em suas mãos. – Irei enterrar essa coisa em um lugar no jardim. Quanto a você, faça algo de útil e veja o que tem lá em cima. De preferencia um quarto e um banheiro.
Annabeth abriu a boca para fazer um comentário irônico, mas ele já estava na porta.
***
Subindo as escadas, a visão é de um grande corredor com apenas dois cômodos: de um lado, uma suíte espaçosa com uma cama de casal no centro, mais um banheiro com uma banheira em mármore. Havia vestígios de que a Medusa nunca realmente usara o quarto, mas por algum motivo mantinha-o limpo. Já a outra porta levava a uma sala com mais estátuas, essas mais antigas, já com rachaduras e as pessoas com vestes antigas. Também havia uma mesa de pedra, e Annabeth deduziu que era ali mesmo que o monstro repousava.
Foi ótimo poder tomar um banho quente novamente, como se todas as energias perdidas retornassem ao seu corpo. Enxugara-se com a toalha mais limpa que encontrou e recolou somente as calças e a blusa.
– Ah, que pena. – Percy disse, entrando no quarto. – Pensei que seria um homem de sorte em te ver só de toalha.
Annabeth revirou os olhos para cima, jogando a toalha que acabara de usar. Mirava o rosto, mas Percy a pegou no ar.
– Vai tomar banho Jackson. – falou. – Aproveita e se afoga.
Ela praticamente sentiu o sorriso dele.
– Infelizmente, respiro dentro d’água. – Percy se aproximou de Annabeth, perto de mais. – Estou cheirando tão mal assim?
Infelizmente, ele cheirava bem demais. Claro, tinha o cheiro salgado de suor, mas junto ao de maresia típico Annabeth se controlou para não cheirá-lo de perto. Percy pareceu perceber o olhar vago de Annabeth, pois sorriu de lado.
– Tente não me agarrar de noite, Chase.
– Nem em seus sonhos dormirei com você na mesma cama, Jackson.
– E quem vai me fazer dormir em outro lugar? Você? – retrucou descrente. – Estou sendo até gentil, se quiser, pode até mesmo escolher o seu lado.
– Que cavalheiro.
Percy abriu um sorriso torto, se dirigindo ao banheiro. Annabeth gostaria de não sentir o nervosismo, mas antigas memórias voltaram em sua mente, não exatamente melhorando a situação.
Ela escolheu o lado da janela, já que era costumeiro dormir olhando para o céu sempre que pode. Antes que percebesse, Percy retornara ao quarto e, sem dizer uma palavra, deitara-se ao lado dela. Estava de costas para ele, o que talvez ajudasse a se acalmar dormir. Quando estava quase pegando no sono, ele se pronunciou:
– Você é boa. – arriscou-se sem medo. – A Kelly não deve ter ideia do que a atingiu.
– Kelly?
– A empousai. – explicou – Alguns monstros pegam uma fixação em você. E mesmo eu tendo matado ela umas três vezes, ainda continua me amando. – ele ficou quieto por alguns instantes. – Ah, e corajosa com a Medusa.
– Fui, é? – Annabeth não pôde deixar de sorrir. – Bem, não foi de todo ruim com os cães, muito menos com as dracaenae. Devo ter parecido uma estúpida quando fui pega.
– Sim, estava.
A garota revirou os olhos.
– Estou me forçando a te agradecer, facilite as coisas Cabeça de Alga. – ela o ouviu rir. Ainda queria perguntar por que ele a estava acompanhando, e percebeu que era um bom momento para isso. – Por que fez isso?
– O que? Ter te salvado?
Annabeth balançou a cabeça mesmo sabendo que ele não a via.
– Quero saber por que veio comigo.
Percy ficou em silêncio, buscando as palavras certas.
– Bem, você tem que chegar a Roma. E... – as próximas palavras pareciam duras de falar. – Talvez eu me preocupe com o que pode te acontecer. Talvez tenha nascido com um defeito mortal incrivelmente irritante. Todo semideus nasce com um. O seu é meio obvio que seja o orgulho, talvez teimosia, mas muito provavelmente o orgulho.
– Talvez. – disse Annabeth.
Percy abriu um sorriso, achando graça.
– Viu?
– Tá, tá. – ele praticamente a sentiu revirando os olhos. – E quanto ao seu?
Percy mordeu a língua, ainda em dúvida se podia confiar nela ou não. De certo modo, ele resolveu dar um voto de confiança:
– Lealdade. – disse, esperando para ver reação dela a isso. A grande maioria dizia que isso não era bem um defeito, mas quando a própria Atena diz que é isso, você não pode discordar. – Lealdade excessiva. Arriscaria minha vida, até o destino do mundo se for exagerar um pouco, para manter a salvo aqueles ao qual me importo.
– Então, — ela mordeu o lábio antes de perguntar. – Se importa comigo?
Ele sequer hesitou em responder:
– Estou tentando dizer que sim. Facilite as coisas, Sabidinha.
Annabeth riu da péssima imitação de sua voz. Ele a fez se sentir a vontade, e se perguntava se poderia fazê-la se sentir bem com mais uma coisa que a incomodava. Virou-se, as costas na cama; virando a cabeça para olhá-lo.
– Lembra-se daquela história do não-é-da-sua-conta?
– Aquela história que pode ser verdade, mas não me enganou? – ele perguntou, recebendo um revirar de olhos e um aceno como resposta. – O que tem?
– O que eu queria falar era... – Annabeth respirou fundo, encarando o mar esverdeado. – Tenho receio de piratas. Um dos motivos porque não gosto de você. – ela respirou novamente, planejando falar tudo em um fôlego só. – Quando fiz quatorze anos, logo depois que Thalia seguiu o próprio caminho... Bem, não ande em um caís à noite. Luke serviu como limpador de chão. E eu, — ela sorriu da própria má sorte. – Fui molestada pela tripulação por dois meses. Ótima primeira vez, ao qual toda garota sonha. – debochou. – Depois disso, odiei qualquer ser marítimo e nunca me deitei novamente com ninguém.
Percy a encarou por breves instantes antes de suspirar.
– Isso é... Bem pessoal. – falou, parecia sem graça, como se não fosse certo estar ouvindo aquilo. – Está me contando isso por quê?
Annabeth o olhou vagamente antes de tomar coragem. Ela se virou de lado, dessa vez de frente para ele, se apoiando em um cotovelo.
– Se acabar morrendo nessa missão e, sejamos sinceros, isso tem uma porcentagem grande de acontecer, não quero me arrepender de nada. Muito menos ter perdido nada ao qual poderia fazer.
Percy abriu a boca, tentando capitar o que Annabeth queria.
– Está dizendo...
– Percy. – ela o interrompeu, querendo ser mais direta. – Pode me dar um orgasmo?
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